miniaturadaimagem|384x384px|Localização de Sergipe do Conde no Recôncavo da Bahia, Atlas de João Teixeira Albernaz, 1627 O Engenho de Sergipe, também designado de Engenho de Sergipe do Conde, foi um engenho de açúcar da época do Brasil colonial. Localizava-se em Sergipe do Conde, no atual município de São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, junto ao rio Sergipe, tendo sido fundado por Fernão Rodrigues de Castelo Branco, que obteve aquele território em sesmaria. Pertenceu posteriormente ao conde de Linhares e à sua mulher, que o passou por herança à Companhia de Jesus.Breve recapitulação das sesmarias das terras de Sergipe, pertencentes ao conde de Linhares e que foram concedidas a Fernão Rodrigues Castelo Branco , Cartório dos Jesuítas, mç. 14, n.º 38, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, Portugal O engenho foi um dos responsáveis pela grande produção de açúcar em Santo Amaro, na Bahia, chegando a possuir mais de 300 escravos.Mundo das Bandeiras

História

Fernão Rodrigues de Castelo Branco Em 1559, Fernão Rodrigues de Castelo Branco, jurisconsulto e nobre português, que então ocupava o cargo de almotacé-mor do Reino, pediu em sesmaria a Mem de Sá Sottomayor, que então governava o Estado do Brasil, "para fazer um engenho, um rio, que chamam Sergipe, com duas léguas de terra junto do mar, a saber, meia légua de terra da boca do rio escontra Passê, e légua e meia da dita boca escontra Pravassû, e quatro léguas pela terra dentro de leste a oeste, e assim duas ilhas que estão defronte da boca do rio, a grande, que chamam Cajaiba, e outra, que naquele tempo não tinha nome, que está junto da grande da banda de Pravassû".

Em 20 de julho desse ano, Fernão Rodrigues de Castelo Branco obtém de Mem de Sá a carta de sesmaria, dando-lhe a água do rio Sergipe, duas léguas de costa e quatro para o sertão, para aí fazer um engenho. Em 26 de setembro, faz Castelo Branco nova súplica ao governador, informando que houvera erro no pedido inicial, e que a água que pede para fazer o engenho é "a que chamavam Ipitanga, que vinha cair no mesmo rio Sergipe", obtendo a concessão, com obrigação de no espaço de três anos fazer benfeitorias e o engenho, e que fosse obrigado a vir residir para o Brasil, "por sua qualidade, e por ser Almotacé-mor de Sua Majestade".

Em 10 de abril de 1564, fez Fernão Rodrigues de Castelo Branco nova petição a Mem de Sá, referindo a sua sesmaria de Sergipe, na qual fazia um engenho e gastava muito dinheiro, e que como para o engenho necessitava muito gado,e o pasto era pouco na sua terra ao longo do mar, pedindo ao governador que lhe desse uma terra onde acabava a sua, de Pravassû por diante uma légua, e outro tanto para dentro, em direção ao sertão, o que prontamente obteve.

A 28 de outubro de 1568, escreve nova petição ao governador, dizendo que funcionários que serviam no seu lugar haviam dado as terras que tinha de sesmaria a outras pessoas, sem que tivessem poder para isso, e que estas nunca as haviam aproveitado no prazo dos três anos, pedindo novamente para si a sesmaria das mesmas terras, o que igualmente obteve.

Conde de Linhares Em 6 de outubro de 1571, Fernão Rodrigues de Castelo Branco renuncia à sesmaria das terras de Sergipe, incluindo duas ilhas, e um engenho de água na ribeira de Ipitanga, e com as restantes benfeitorias, entre as quais muitas casas-fortes, roças e canaviais.Confirmação da renunciação de Fernão Rodrigues Castelo Branco em Francisco de Sá, das terras de Sergipe com duas ilhas , Cartório dos Jesuítas, mç. 15, n.º 10, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, Portugal Passou a fazenda ao governador Mem de Sá, que a deu em sesmaria a seu filho, Francisco de Sá. Este fez renúncia das mesmas terras em sua irmã D. Filipa de Sá, que veio a casar com D. Fernão de Noronha, 3º conde de Linhares, o qual teve as terras confirmadas pelo rei D. Sebastião no ano de 1576.

Em 25 de março de 1600, querendo D. Fernão de Noronha medir estas terras, D. Filipe I de Portugal manda ao Ouvidor Geral das partes do Brasil que a "meu muito amado sobrinho, do meu conselho de Estado (...) que façais a demarcação que nela requer, que se faça do Engenho de Açúcar que tem na Capitania do Salvador na Bahia de Todos os Santos, e das sesmarias e terras que lhe mais pertencem", e que o próprio Ouvidor Geral vá em pessoa com um escrivão que para o efeito haveria de nomear ao dito engenho, para proceder às demarcações. Em 1602, concedida ao conde de Linhares a provisão para medir e demarcar as terras, opôs-se-lhe o pai do padre Francisco de Araújo, em cujo meio tempo veio o conde a morrer sem ver concluída a demarcação.

Morreu o conde D. Fernão de Noronha em 13 de março de 1609, sucedeu-lhe na herança a condessa D. Filipa, sua mulher, recolhida na sua Quinta de Telheiras, em Lisboa. Em 29 de julho de 1617, o padre Francisco de Araújo consegue sentença favorável contra a condessa, para que medisse e demarcasse as terras de Sergipe. Porém, como da sentença não constasse a paragem por onde haviam de começar a medir as terras, pediu a condessa que tal se determinasse antes de mais nada.

Companhia de Jesus miniaturadaimagem|294x294px|Vista da ponta de Romão Dias, em São Francisco do Conde, onde em janeiro de 1626 foi colocado o primeiro marco da delimitação das terras do Engenho de Sergipe Em setembro de 1618, estando pendente a clausula do ponto onde se deveriam começar a demarcar as terras, veio a condessa de Linhares a morrer, deixando em herança à sua alma e ao Colégio de Santo Antão, da Companhia de Jesus, em Lisboa, os bens que possuía no Reino e no Brasil, entre os quais se contavam os engenhos de Sergipe e Ilhéus, assim como as terras a eles adjacentes, deixando-os para a obra da igreja nova do Colégio de Santo Antão, da qual era fundadora."Consta este mapa de um inventário de móveis, de várias contas e do que pertence à condessa de Linhares do seu dote, e dos rendimentos dos engenhos de Sergipe em várias safras e despesas que se não especificam por números, por não serem papéis autênticos e servirem para pouco" , Cartório dos Jesuítas, mç. 10, n.º 25, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, Portugal

Prosseguiram os padres da Companhia, na qualidade de herdeiros, a demanda com o padre Francisco de Araújo, obtendo finalmente, em 27 de maio de 1621, sentença a respeito do início das demarcações: "declaram e julgam q o princípio das terras de Sergipe, q foram da condessa de Linhares, defunta (...) começam da barra do dito rio de Sergipe donde ele entra, e escorre em o mar largo, q escorre defronte do lugar, onde em terra de uma banda está a ponta que chamam de Romão Dias, e da outra do mesmo rio defronte da mesma ponta de Romão Dias está a ilha da Cajaiba", mandando que na dita ponta de Romão Dias, e na outra banda defronte na ilha de Cajaíba, se pusesse o primeiro marco.

Somente em 1622 conseguiram os padres da Companhia a posse da fazenda de Sergipe, que esteve até aí nas mãos da Misericórdia do Brasil, a qual pretendia parte dela para si.

Em 1624, durante a guerra contra os holandeses, o padre jesuíta Manuel do Couto, em carta, relata que o Engenho tem sido poupado pelos holandeses, sendo que estes não se afastam da cidade de Salvador mais do que três léguas, "e o engenho está mais de dez léguas metido por um rio nunca puseram pé". Acrescenta que ao lugar onde estava foram ter da Ilha da Madeira em um navio carregado de vinhos e dois fardos de lona, que traziam quinhentas varas, e que daí os mandara em uns barcos à Torre de Garcia de Ávila, para daí se entregarem aos padres da Companhia "que moram nas aldeias agora, 8 léguas da mesma Torre, para que os mandem ao Engenho de Cerigi". Não obstante, o engenho haveria de ficar pelo menos dois anos parados, em virtude da tomada da Bahia pelos holandeses.

Medição das terras esquerda|miniaturadaimagem|340x340px|Localização de Sergipe do Conde no Recôncavo da Bahia, Atlas de João Teixeira Albernaz, 1640 Finalmente, em 8 de janeiro de 1626, teve lugar a medição das terras, levada a cabo pelo Dr. Francisco Mendes Marecos, desembargador e Ouvidor Geral do Cível na Relação do Estado do Brasil, sendo escrivão Cristóvão Vieira Ravasco, Álvaro de Araújo por piloto, e Filipe de Santiago por demarcador e medidor. Estavam presentes, na ocasião, o padre Francisco de Araújo, e o padre André de Gouveia, como procurador do colégio de Santo Antão de Lisboa. O primeiro marco foi colocado "na ponta de Romão Dias, q é na vila de São Francisco junto às casas do caldeireiro António Carvalho, sobre uma laje de pedra em q bate o mar. E logo posto o dito marco foi o dito piloto medindo a barra do rio Sergipe, endireitando para a ilha da Cajaiba pelo rumo de loeste à quarta de sueste, sendo seu ajudante da corda Marinho de Castro; e mediram dezasseis linhas, que fazem quatrocentas braças; a saber quatorze linhas pelo mar até a borda de água da ilha de Cajaiba, e da borda da água lançaram mais duas linhas pela terra da dita ilha acima, até chegar ao cume da dita terra onde se meteu um marco ao modo de laje com três testemunhas ao pé (...)."

A chuva não deixou que continuassem no dia seguinte, mas a 10 de janeiro toda a companhia se dirigiu ao novo marco da ilha de Cajaíba, para que se determinasse "a parte, e rumo por onde se devia melhor medir de modo que se medisse toda dita ilha até chegar ao mar". Com Matias Pereira por ajudante da corda, e António de Araújo por piloto, por seu pai, Álvaro de Araújo, andar indisposto, mais o escrivão, o piloto, acompanhados por Gaspar Gonçalves, Jácome Caminha, António Jorge Correia e Belchior Gonçalves, "e vistos pelos ditos a agulha, e rumos dela, disseram q para se haver de medir bem se havia de ir ao sul até ressalvar o mangal, que está entre esta ilha Cajaiba, e Pioca; e que ressalvado o mangal, iria a loeste (...) até a costa, para dali se ir medindo para a banda de Pravassû". A 12 de janeiro seguinte, prosseguiu a medição "à ilha da Pioca, e ao longo do mangal junto do mar da banda de loeste; e chegaram pelo dito rumo (...) com cinquenta linhas, e onze braças, do marco que se pôs na ilha da Cajaiba", num total de 1661 braças contadas desde o primeiro marco na ponta de Romão Dias. Nessa posição colocaram novo marco de pedra, na presença das quatro testemunhas.

Nesta altura da medição, houve diferendo entre o padre Francisco de Araújo, que requeria que se medissem os mangais que estavam entre as ilhas, e os padres da Companhia, que pediam que se não os medissem, pois tudo eram pontas e enseadas, acabando o desembargador por decidir não os medir. A 13 de janeiro prosseguiu a medição, seguindo o rumo "da outra banda da terra firme onde morava Domingos de Negreiros, e Justo Baldéz", declarando o piloto "que demorava o rumo a um córrego, q era a extrema que estava entre as terras dos ditos Domingos de Negreiros, e Justo Baldez, q ficava por cima dos mangues, e houve este córrego por marco". Nesse ponto, as testemunhas Domingos de Negreiros, António Jorge e Baltazar Rodrigues declararam sob juramento para que parte ficava Pravassû por costa de mar, para por ela se irem fazendo as medições, sendo por eles dito que para a barra de Pravassû se ia para a parte do sul.