Mário Emílio de Morais Sacramento (Ílhavo, 7 de julho de 1920 — Porto, 27 de março de 1969) foi um médico, escritor neorrealista, ensaísta e político antifascista revolucionário comunista português que se destacou como uma importante figura do movimento de oposição democrática ao regime do Estado Novo.QUINTAs, José Manuel. «Mário Sacramento» in, BARRETO, António; MÓNICA, Filomena (coords.). Dicionário de História de Portugal. Lisboa : Figueirinhas, 2000, vol. 9 (suplemento), p. 280.SERRA, João Bonifácio. «Mário Emílio de Morais Sacramento», in ROSAS, Fernando; BRITO, J. M. Brandão de (dir.). Dicionário de História do Estado Novo. Venda Nova : Bertrand Editora, 1996, vol. II, p. 860.

A família Mário Sacramento nasceu em Ílhavo, cidade do distrito de Aveiro, filho de Rita de Morais Sarmento e Sacramento e do seu marido Artur Rasoilo Sacramento.Mário Sacramento em Aveirenses Ilustres.

Formação académica e profissional Realizou os seus estudos secundários no Liceu de Aveiro, onde foi um ativista estudantil, razão pela qual chegou a estar preso.

Matriculou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, mas apenas concluiu os seus estudos após ter frequentado as escolas médicas do Porto e de Lisboa (onde se licenciou em 1946).

Obteve em Paris uma especialização em gastrenterologia (1961).

A escrita Desde muito cedo interessou-se pela escrita, colaborando em diversos periódicos entre os quais O Diabo, o Sol Nascente, Vértice, Diário de Lisboa e Mundo LiterárioROLDÃO, Helena. Ficha histórica: Mundo literário : semanário de crítica e informação literária, científica e artística (1946-1948)

Observador interessado do panorama literário português, Mário Sacramento publicou diversos ensaios sobre a obra de escritores como Eça de Queiroz, Moniz Barreto, Cesário Verde, Fernando Namora e Fernando Pessoa. A qualidade dos seus ensaios granjeou-lhe a admiração da intelectualidade portuguesa do tempo.

A atividade política Ainda estudante, Mário Sacramento integrou-se na tradição do republicanismo democrático português, aderindo ao movimento de resistência democrática ao regime do Estado Novo.

Nesse contexto de resistência à ditadura, militou no Partido Comunista Português, ao tempo o melhor estruturado dos movimentos oposicionistas em Portugal.

Foi membro da comissão central da organização de juventude do Movimento de Unidade Democrática (o MUD Juvenil), o único movimento oposicionista tolerado, durante algum tempo, pelo regime, no qual se congregavam todas as correntes da oposição democrática. Nessas funções ganhou grande notoriedade, transformando-se numas das figuras de referência da resistência ao Estado Novo.

Foi secretário-geral, e principal obreiro, da comissão promotora do Primeiro Congresso Republicano, um fórum da oposição democrática que se reuniu em Aveiro no ano de 1957 e liderou a organização do Segundo Congresso RepublicanoSobre o II Congresso Republicano cf. TORGAL, Luís Reis, «Acerca do Congresso da Oposição Democrática de Aveiro de 1973». embora tenha falecido pouco antes da sua realização em 1969.

Mário Sacramento foi por cinco vezes detido pela PIDE, a polícia política do salazarismo, a primeira das quais em 1938, quando era membro da associação de estudantes do Liceu de Aveiro, e a última em 1962.

O crítico literário e ensaísta A sua atividade de crítica literária guindou-o ao papel de teorizador do movimento neorrealista em Portugal.

Participou em múltiplas conferências sobre literatura e publicou uma extensa obra de crítica e de análise literária, que inclui ensaios marcantes, entre os quais Eça de Queirós, uma Estética da Ironia (1945, Prémio Oliveira Martins), Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda (1959), Fernando Namora, a Obra e o Homem (1967) e Há uma Estética Neo-Realista? (1968).

Uma parte importante da sua obra de ensaio literário está reunida nos três volumes, parcialmente póstumos, de Ensaios de Domingo (1959, 1974 e 1990).

Uma parte importante do seu pensamento político e filosófico está reunido no volume Frátria, Diálogo com os Católicos (1971), obra que reuniu o debate que travou entre 1967 e 1969 com Mário da Rocha sobre o papel dos católicos e do movimento eclesial na evolução política portuguesa.Cf. Mário Sacramento foi um dos resistentes que, com mais evidência, soube aliar a militância intelectual à militância política.

Homenagens Mário Sacramento é lembrado numa das mais importantes artérias da cidade de AveiroCf. Rua Dr. Mário Sacramento e em Ílhavo.Cf. Avenida Mário Sacramento

Foi agraciado, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, a 6 de julho de 2021 pelo Presidente da República Portuguesa, Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa em cerimónia restrita à família Sacramento, no Palácio de Belém.

Patrono do Agrupamento de Escolas Mário Sacramento em Aveiro.Agrupamento de Escolas Mário Sacramento.

Foi homenageado pelo Município de Aveiro no dia do seu centenário, 7 de julho de 2020, no edifício onde tinha o seu consultório médico na Avenida Dr. Lourenço Peixinho com a presença da família Sacramento.

Principais obras A Criança nas Relações com o Adulto (1943) Retrato de Eça de Queirós (1944) Eça de Queirós - Uma estética da Ironia (1945) Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda (1959) Lírica e Dialéctica em Cesário Verde Ensaios de Domingo - I (1959) Teatro Anatómico (1959)Inclui as peças Teatro anatómico, Prédio de rendimento, Antígona (publicada inicialmente na revista Vértice, vol. XIX, n.º 186, 1959) e A boca e a dona. Fernando Namora (1967) Há uma Estética Neo-Realista? (1968) O 31 de Janeiro (1.ª e 2.ª edição, 1969) Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda (2.ª edição, 1970) Frátria, Diálogo com os Católicos (ou talvez não) (em colaboração com Mário da Rocha, 1970) O Ápis (conto) Carta-testamento. Porto: Inova, 1973. Carta-testamento deixada por Mário Sacramento num envelope com a indicação «Para ser aberto quando eu morrer», assinado e com a indicação «escrito em 7-4-67». Inclui as palavras proferidas por Óscar Lopes no funeral de Mário Sacramento, bem como textos sobre este escritos por Álvaro Salema, Fernando Namora, Ilídio Sardoeira, Mário Castrim, Urbano Tavares Rodrigues e Vergílio Ferreira. Diário (1974) Ensaios de Domingo - II (1974) Ensaios de Domingo - III (1990)Cf. para o conjunto das obras, o catálogo geral da Biblioteca Nacional de Portugal.

Ver também Museu do Neo-Realismo

Bibliografia BRASETE, Maria Fernanda. «Antígona: nome de código: A peça em um ato de Mário Sacramento» in POCIÑA, Andrés (coord.), Antígona: a eterna sedução da filha de Édipo. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015, pp. 137-155. .Consultado em 17 de fevereiro de 2019. VOUILLOT, Eunice de Almeida Malaquias. Mário Sacramento, La vie et l'oeuvre. Tese de doutoramento apresentada à Université de la Sorbonne Nouvelle, em 2002.Cf. Catálogo do Système Universitaire de Documentation. Consultado em 17 de fevereiro de 2019.

Ligações externas CORREIO DO VOUGA. «Novas luzes sobre o grande vulto que foi Mário Sacramento» in Correio do Vouga, 20 de julho de 2011. Consultado em 18 de fevereiro de 2019. LUSA - Agência de Notícias de Portugal. Cumplicidades com Mário Sacramento ultrapassavam o PCP in RTP Notícias, 5 de outubro de 2007. Consultado em 18 de fevereiro de 2019. RTP. Vida e obra de Mário Sacramento, programa sobre a vida e obra do médico, escritor neo-realista, ensaísta e opositor político ao regime do Estado Novo.

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