A Primeira Guerra Civil da Libéria foi um conflito ocorrido na Libéria de 1989 até 1996. O conflito matou cerca de 250.000 pessoas e envolveu a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental(CEDEAO) e as Organização das Nações Unidas(ONU). Os diversos grupos armados, que ajudaram a derrubar a ditadura de Samuel Kanyon Doe eventualmente enfrentaram-se durante o vazio de poder, a guerra trouxe terríveis consequências humanas, sociais e econômicas, chegando a afetar os seus vizinhos, especialmente devido ao apoio do NPFL ao FRU de Serra Leoa.
Contexto
Golpe de Estado de Samuel Doe (1980) Em 12 de abril de 1980 Samuel Kanyon Doe aplica um golpe de Estado contra o então presidente William Richard Tolbert, Jr., assim se tornando o primeiro presidente não descendente de americanos a governar a Libéria. O novo governante então estabelece um regime militar chamado de People's Redemption Council (Conselho de Redenção do Povo) e ganhou suporte dos grupos étnicos nativos da Libéria os quais guardavam rancor dos antigos governantes pela falta de representatividade dada a eles desdá fundação da Libéria em 1847.
Qualquer esperança de Doe melhorar o sistema governamental do país foi perdida, por causa do seu receio de ser deposto. Desse modo, o novo ditador suspende a constituição até 1984, quando uma novo referendo por uma nova constituição é feito. Em 1985 ele é eleito por uma pequena margem, no entanto a eleição foi considerada fraudulenta por muitos observadores.
Tentativa de golpe de Thomas Quiwonkpa (novembro de 1985) Thomas Quiwonkpa, um ex-general das Forças Armadas da Libéria, que foi removido de seu cargo e forçado a fugir do país por imposição de Doe, tenta retirar Doe do poder através do país vizinho Serra Leoa. O atentado falha e Quiwonkpa é morto . E por fim seu corpo é exibido publicamente no terreno da sede do Poder Executivo em Monróvia.
Maus tratos aos grupos étnicos Gio e Mano (1985) Os grupos étnicos Gio e Mano foram perseguidos pelo Governo, por serem acusados de traição contra o Estado. Além de serem vistos como inferiores pela tribo do presidente, os Krahn. Esses maus tratos aumentaram as tensões na Libéria, que já vinha aumentando por causa do tratamento preferencial dados aos Krahn em relação aos outros grupos étnicos.
Charles Ghankay Taylor organiza seu grupo rebelde (1985-1989) Charles Ghankay Taylor, que tinha abandonado o governo de Doe após ser acusado de fraude, juntou um grupo de rebeldes na Costa do Marfim (em sua maioria pessoas do grupos étnicos Gio e Mano que haviam se refugiado da perseguição do Governo liberiano) que mais tarde seria conhecido como a Frente Patriótica Nacional da Libéria(FPNL). O grupo então invadiu o condado de Nimba em 24 de Dezembro de 1989. O exército Liberiano em retaliou a população da região atacando civis desarmados e queimando vilas. Muitos civis se refugiaram na Guiné e Costa do Marfim, no entanto a oposição a Doe continuou a aumentar. Prince Johnson saiu do grupo rebelde e formou outro grupo guerrilheiro, no qual a maioria dos combatentes eram do grupo étnico Gio, a Frente Patriótica Nacional Independente da Libéria(FPNIL).
Visão geral
Ataques das forças de Charles Taylor (1989) Charles Taylor organizou e treinou nortistas indígenas na Costa do Marfim. Durante o regime de Doe, Taylor serviu na Agência de Serviços Gerais do Governo Liberiano, atuando "como seu diretor de facto".Stephen Ellis, The Mask of Anarchy, Hurst & Company, London, 2001, p.57, 67–68 Em 1983, ele fugiu para os Estados Unidos em meio ao que Stephan Ellis descreve como uma "atmosfera cada vez mais ameaçadora em Monróvia", pouco antes de Thomas Quiwonkpa, o principal tenente de Doe, fugir para o exílio. Doe solicitou a extradição de Taylor por desviar **900.000 dólares** de fundos do governo liberiano. Taylor foi, assim, detido nos Estados Unidos e, após dezesseis meses, fugiu de uma prisão de Massachusetts em circunstâncias que ainda não foram esclarecidas.
Conflito étnico e cerco a Monróvia As forças da NPFL de Charles Taylor encontraram inicialmente muito apoio no Condado de Nimba, que havia suportado a maior parte da ira de Samuel Doe após a tentativa de golpe de 1985. Milhares de pessoas das etnias Gio e Mano juntaram-se quando Taylor e a sua força de 100 rebeldes reentraram na Libéria em 1989, na véspera de Natal. Doe respondeu enviando dois batalhões das AFL, incluindo o 1.º Batalhão de Infantaria,HRW, Flight from Terror, Maio de 1990 para Nimba entre dezembro de 1989 e janeiro de 1990,Charles Hartung, 'Peacekeeping in Liberia: ECOMOG and the Struggle for Order,' Liberian Studies Journal, Volume XXX, No.2, 2005 sob o comando do então Coronel Hezekiah Bowen.Mark Huband, The Liberian Civil War, p.115, 118–119
As AFL agiram de uma forma muito brutal e com tática de terra queimada, o que rapidamente alienou a população local. O assalto rebelde logo colocou os étnicos Krahn, simpáticos ao regime de Doe, contra as vítimas do mesmo, os Gio e os Mano. Milhares de civis foram massacrados em ambos os lados. Centenas de milhares fugiram das suas casas. O Massacre da igreja de Monróvia foi perpetrado por aproximadamente 30 soldados do governo, da etnia Krahn, matando **600 civis** na Igreja Luterana de São Pedro, em Monróvia, em 29 de julho de 1990, a pior atrocidade individual da Primeira Guerra Civil da Libéria.
Em maio de 1990, as AFL tinham sido forçadas a recuar para Gbarnga, ainda sob o controlo das tropas de Bowen. Em 28 de maio, o exército liberiano perdeu a cidade num assalto da NPFL.Hubard, p.115 Em junho de 1990, as forças de Taylor cercavam Monróvia. Em julho de 1990, Prince Johnson separou-se de Taylor e formou a Frente Patriótica Nacional Independente (INPFL). A INPFL e a NPFL continuaram o cerco a Monróvia, defendida pelas AFL.
No seu relatório Freedom in the World de 1990, a Freedom House descreveu Monróvia em julho como "uma cidade fantasma virtual de pessoas famintas e cadáveres em decomposição", uma vez que o avanço rebelde sobre a cidade causou pânico e anarquia generalizados, levando os soldados liberianos a saquear lojas e matar civis aleatoriamente, enquanto a fome e as doenças se instalavam rapidamente. Johnson assumiu rapidamente o controlo de partes de Monróvia, o que motivou a evacuação de estrangeiros e diplomatas pela Marinha dos EUA em agosto (Operação Sharp Edge).
Força de intervenção da CEDEAO (agosto de 1990) Em agosto de 1990, os 16 membros da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) concordaram em destacar uma força de intervenção militar conjunta, o Grupo de Monitorização da CEDEAO (ECOMOG), sob liderança nigeriana. A missão incluiu mais tarde tropas de países não pertencentes à CEDEAO, como o Uganda e a Tanzânia. Os objetivos da ECOMOG eram impor um cessar-fogo, ajudar os liberianos a estabelecer um governo interino até à realização de eleições, travar a matança de civis inocentes e garantir a evacuação segura de cidadãos estrangeiros.
A ECOMOG também procurou evitar que o conflito se espalhasse pelos estados vizinhos, que partilham uma história complexa de relações sociais estatais, económicas e etno-linguísticas com a Libéria. A CEDEAO tentou persuadir Doe a demitir-se e a exilar-se, mas, apesar da sua posição fragilizada — sitiado na sua mansão — ele recusou. Em 24 de agosto de 1990, a ECOMOG chegou ao Porto Livre de Monróvia, desembarcando de navios nigerianos e ganeses.Adebajo, 2002, p.75
Captura e morte de Samuel Doe (setembro de 1990) Em 9 de setembro de 1990, Doe visitou o recém-estabelecido quartel-general da ECOMOG no Porto Livre de Maher. De acordo com Stephen Ellis,The Mask of Anarchy, por Stephen Ellis, 2001, p.1-9 o seu motivo era queixar-se de que o comandante da ECOMOG não lhe tinha feito uma visita de cortesia como Chefe de Estado; no entanto, as circunstâncias exatas que levaram Doe ao Porto Livre ainda não são claras. Doe estava sob pressão para aceitar o exílio fora da Libéria. Após a sua chegada, uma grande força rebelde da INPFL de Prince Johnson atacou a comitiva de Doe. Doe foi capturado e levado para a base de Caldwell da INPFL. Foi brutalmente torturado antes de ser morto e esquartejado. A sua tortura e execução foram filmadas pelos seus captores.
A INPFL de Johnson e a NPFL de Taylor continuaram a lutar pelo controlo de Monróvia nos meses seguintes. Com a ausência de disciplina militar e o derramamento de sangue em toda a capital, membros da CEDEAO criaram o Grupo de Monitorização da CEDEAO (ECOMOG) para restaurar a ordem. A força compreendia cerca de **4.000 soldados** da Nigéria, Gana, Serra Leoa, Gâmbia e Guiné. A ECOMOG conseguiu que Taylor e Johnson concordassem com a sua intervenção. As forças de Taylor combateram mais tarde contra a ECOMOG na zona portuária de Monróvia.
Tentativas de pacificação (1990) Seguiu-se uma série de conferências de paz em capitais regionais. Houve reuniões em Bamako em novembro de 1990, Lomé em janeiro de 1991 e Yamoussoukro entre junho e outubro de 1991. As primeiras sete conferências de paz falharam, incluindo os processos Yamoussoukro I-IV. Em novembro de 1990, a CEDEAO convidou os principais intervenientes liberianos a reunirem-se em Banjul, Gâmbia, para formar um governo de unidade nacional.
O acordo negociado estabeleceu o Governo Interino de Unidade Nacional (IGNU), liderado pelo Dr. Amos Sawyer, líder do LPP. O Bispo Ronald Diggs, do Conselho de Igrejas da Libéria, tornou-se vice-presidente. A NPFL de Taylor recusou-se a participar na conferência. Em poucos dias, as hostilidades foram retomadas. A ECOMOG foi reforçada para proteger o governo interino. Sawyer conseguiu estabelecer a sua autoridade sobre a maior parte de Monróvia, mas o resto da Libéria permanecia nas mãos de fações da NPFL ou de gangues locais.
ULIMO Em junho de 1991, o Movimento de Libertação Unido da Libéria para a Democracia (ULIMO) foi formado por apoiantes do falecido presidente Samuel K. Doe e ex-combatentes das Forças Armadas da Libéria (AFL) que se tinham refugiado na Guiné e na Serra Leoa. Era liderado por Raleigh Seekie, vice-ministro das Finanças no governo de Doe.
Em setembro de 1991, após lutar ao lado do exército da Serra Leoa contra os rebeldes da Frente Revolucionária Unida (RUF), as forças da ULIMO entraram no oeste da Libéria. O grupo obteve ganhos significativos em áreas detidas por outro grupo rebelde — a NPFL de Taylor —, nomeadamente em torno das áreas de mineração de diamantes dos condados de Lofa e Bomi.
Desde o início, a ULIMO foi assolada por divisões internas. Em 1994, o grupo dividiu-se efetivamente em duas milícias separadas: a ULIMO-J, uma fação étnica Krahn liderada pelo General Roosevelt Johnson; e a ULIMO-K, uma fação de base Mandinga liderada por Alhaji G.V. Kromah. Alegou-se que a ULIMO cometeu graves violações dos direitos humanos, tanto antes como depois da sua divisão.
Ataque a Monróvia (1992) A paz ainda estava longe, pois tanto Taylor quanto Johnson reivindicavam o poder. A ECOMOG declarou um Governo Interino de Unidade Nacional (IGNU) com Amos Sawyer como presidente, com o amplo apoio de Johnson. Em 15 de outubro de 1992, Taylor lançou um assalto a Monróvia, denominado "Operação Octopus", que pode ter sido liderado por soldados do Burquina Faso.Herbert Howe, Ambiguous Order, 2005, 143. O cerco resultante durou dois meses. No final de dezembro de 1992, a ECOMOG tinha repelido a NPFL para além dos subúrbios de Monróvia.
UNOMIL
Em 1993, a CEDEAO mediou um acordo de paz em Cotonu, Benim. Em 22 de setembro de 1993, o Conselho de Segurança das Nações Unidas estabeleceu a Missão de Observadores das Nações Unidas na Libéria (UNOMIL), para apoiar a ECOMOG na implementação deste acordo de paz. No início de 1994, a UNOMIL foi destacada com **368 observadores militares** e pessoal civil para monitorizar a implementação do Acordo de Paz de Cotonu, antes das eleições originalmente planeadas para fevereiro/março de 1994.