Sancho VI de Navarra,Ver genealogia no Medieval Lands O Sábio (21 de abril de 1132 — 27 de junho de 1194), foi rei de Navarra, o primeiro a abandonar definitivamente o título de Rei de Pamplona para passar a usar o título de rei de Navarra, de 1150 até sua morte. O seu reinado foi caracterizado por constantes confrontos com o Reino de Castela e o Reino de Aragão. Os seus maiores feitos foram a estabilização do reino e a inclusão dele na órbita política europeia. Realizou importantes obras arquitectónicas, tendo sido o fundador de muitos mosteiros cistercienses.
Primeiros anos
Vida familiar Sancho Garcês nasceu a 21 de abril de 1132, como filho de Garcia Ramires, rei de Pamplona e de Margarida de L'Aigle, filha de Gilberto de L´Aigle, conde de L´Aigle e de Perche e de Juliana de Perche.
A relação dos seus pais não era a mais saudável, muito pelo contrário, o que terá afetado a infância do jovem Sancho e das suas irmãs, Branca e Margarida. Supõe-se que a sua mãe teve vários amantes, e demonstrou um grande favoritismo pelos seus parentes franceses.Hans Houben, "Enrico di Navarra", Dizionario Biografico degli Italiani Sancho teve mais um irmão, chamado Rodrigo, mas que o pai se negou terminantemente a reconhecer como seu filhoCrónica de Hugo Falcandus, History of the Tyrants of Sicily, está disponível o original em latim no The Latin Library. Rodrigo-Henrique é também mencionado na crónica de Romuald Guarna. Os dois historiadores são contemporâneos. Nem a morte da mulher, a 25 de maio de 1141, fez o rei mudar de ideias. Sancho e as irmãs ficaram órfãos de mãe, mas, deduzindo-se pela atitude que mais tarde teria a infanta Margarida na Sicília, que nunca foi considerado um bastardo, pelo menos entre os seus irmãos.John Julius Norwich, 258.
O seu pai viria a casar uma segunda vez com Urraca Afonso, a Asturiana, filha bastarda de , de quem teria ainda uma filha, Sancha. Esta veio a ser uma peça importante na política do reinado de Sancho.
O acesso da família ao poder Na altura do nascimento de Sancho, Navarra ainda estava em união pessoal com o Reino de Aragão, vigente desde o assassinato de em 1076. Nesse ano, Sancho Ramires de Aragão, primo de Sancho IV e também neto paterno de , declarara a união dos dois estados sob a sua pessoa, união essa que estava prestes a terminar, com a morte sem descendentes de , a 8 de setembro de 1134. No seu testamento, Navarra deveria ser repartida entre as Ordens do Templo, do Hospital e do Santo Sepulcro de Jerusalém. Contudo, o povo navarro aproveitou este vazio de poder para voltar a separação entre os dois reinos, e assim nomearam Garcia Ramires, neto do infante Sancho Garcês, por sua vez meio-irmão bastardo do assassinado Sancho IV, como sucessor no trono. Contudo, a sua condição bastarda e o testamento do antecessor foram sempre um impedimento para que fosse visto como rei pelo Papa. Roma designou-o, a Garcia e também a Sancho VI, como Dux Pampilonensium ou Dux Navarrorum (Duque dos Pamploneses ou Duque dos Navarros). O título de duque era na época dado ao governante eleito pelo povo.
Garcia vira o reino perder a sua fronteira muçulmana e a possibilidade de se expandir para Sul, ao que se acrescentou a exigência, pelo rei de vassalagem que lhe era devida na condição de Imperator Hispaniae. Foi motivo suficiente para uma tensão entre ambos que se estendeu por todo o reinado.
Reinado
A ameaça de anexação, 1150-1157 Sancho VI herdou do seu pai um reino débil, ameaçado pelo rei e pelo conde , então príncipe regente do Reino de Aragão, que, em 1140, haviam acordado repartir entre ambos o Reino de Pamplona, pelo Tratado de Carrión. O seu pai havia tentado a paz com Aragão por meio de um tratado, em 1149, que requeria o matrimónio deste conde catalão com a infanta Branca, irmã de Sancho. O casamento não se chegara, no entanto, a concretizar pois Raimundo Berengário estava já prometido a Petronila de Aragão, com quem acabara por casar, desfazendo-se a aliança e o tratado, e ser ainda, nos primeiros anos do reinado de Sancho VI, uma ameaça à própria existência do reino.
Tentando uma aproximação ao conde de Barcelona, o rei de Leão e Castela assinou com este, a 27 de janeiro de 1151, o Tratado de Tudilén, que como o de Carrión, tinha por principal tema a repartição do reino pamplonês-navarro. Provavelmente tentando escolher um lado, Sancho optou por renovar a vassalagem do seu reino a Afonso VII e casou a sua irmã Branca com o filho mais velho deste, o infante Sancho.
As medidas de Sancho VI serviram apenas para adiar os objetivos dos seus dois vizinhos, que continuaram a luta até 1153, quando Sancho assinou uma nova paz com Afonso VII, em Soria, que se estabeleceu com o noivado da infanta imperial Sancha com o rei de Navarra, que foi também armado cavaleiro pelo futuro sogro.Ubieto Arteta, Antonio, Diccionario de Historia de España, dirigido por Germán Bleiberg. 2ª edición. Ed. de la Revista de Occidente, 1969, tomo N-Z, págs. 580-582. thumb|Selo deteriorado de Sancho VI Em maio de 1157, a ameaça para Sancho regressa com um terceiro tratado, o de Lérida, entre Leão-Castela e Aragão acordando novamente a repartição de Navarra, que acabou por não se cumprir com a morte de Afonso VII a 21 de agosto de 1157. Aliviado, Sancho apressou-se a jurar vassalagem ao novo rei de Castela e seu cunhado, Sancho III, que foi entronizado a 11 de novembro desse ano.
O enfraquecimento dos opositores, 1158-1164 A repentina morte de Sancho III a 31 de agosto de 1158 deixava o trono castelhano para o único filho, , então com apenas três anos de idade. A luta que se veio a desencadear pela tutela do rei-menino, sobretudo entre a Casa de Lara e a Casa de Castro desestabilizou Castela, deixando-a débil e praticamente indefesa. Sancho soube aproveitar a oportunidade para se livrar da desvantajosa vassalagem com aquele reino.
Como se não bastasse, a 8 de agosto de 1162 faleceu Raimundo Berengário de Barcelona, que devolveu o reino de Aragão à esposa e agora viúva, Petronila de Aragão, a rainha legítima e filha de . Contudo, esta rapidamente abdicou, deixando, em 1164, o reino ao seu filho de sete anos, , que, dada a idade, necessitou também de um conselho tutelar. As duas principais ameaças a Sancho estavam agora reduzidas a estados governados por crianças e conselhos de regência, o que alterava o tabuleiro político em seu claro favor, e lhe dava uma liberdade quase total para expandir o reino.
Campanhas militares e expansão, 1164-1169 thumb|upright=1.6|Navarra no reinado de Sancho VI. Sancho pactuou uma trégua de treze anos com os tutores aragoneses de Afonso II de Aragão, para deste modo poder assegurar a fronteira oriental e concentrar a sua atenção em Castela.
Antes de iniciar as campanhas, Sancho passou a intitular-se Rex Navarre, ao invés do tradicional Rex Pampilonensium, uma mudança simbólica que muito deixa entrever no que diz respeito às ambições deste monarca. Assim, no outono de 1162 atacou o reino de Castela em todas as suas frentes, anexando parte de La Rioja, e em 1163 enviou um exército para auxiliar Muhammad ibn Mardanis, que combatia os Almóadas.
Em meados da década, Sancho passou a tomar atitudes mais diplomáticasː a 28 de janeiro de 1165 assinou o Tratado de Tudela com , em outubro de 1167 pactuou a trégua com Castela, e a 19 de dezembro de 1168 acordou com Afonso II de Aragão a repartição das terras muçulmanas conquistadas a sul.
Nova retração navarra e campanhas castelhanas, 1169-1176 A 11 de novembro de 1169, atingiu formalmente a maioridade, pois cumpria catorze anos. Com a estabilidade castelhana novamente assegurada, em junho de 1170 Afonso VIII, com a mediação de (futuro sogro), acordou com Afonso II de Aragão, em Sahagún, o auxílio mútuo contra qualquer inimigo. A aliança foi selada por dois matrimóniosː Afonso VIII desposou Leonor de Inglaterra, filha de Henrique II, e Afonso II desposou a tia do castelhano, Sancha de Castela. Cumpria-se assim o acordado no Tratado de Lérida, assinado anos antes.
Sancho viu o pesadelo repetir-se mais uma vez, dado que a aproximação de Castela e Aragão cercava Navarra novamente, e desta vez contava ainda com o patrocínio de Inglaterra, que era também duque da Aquitânia e portanto senhor das terras a norte de Navarra. Sancho estava completamente cercado. A situação precária desestabilizou de tal forma o reino navarro que vários nobres, quer donos de pequenos territórios, quer parte do conselho de administração do reino, terão abandonado Sancho e passaram a servir o rei castelhano ou o aragonês.
Para piorar a situação, Afonso VIII não perdeu tempo em recuperar as terras perdidas para Navarra, iniciando as campanhas na primavera de 1173. Nesta primeira campanha Afonso VIII estava em Almazán a 27 de janeiro, doando umas herdades, e a 31 de julho regressava de Navarra por Enciso."Historia general de España y América" (tomo IV), Vicente Ángel Álvarez Palenzuela y otros (1984) Em setembro desse ano saiu uma segunda expedição, maior que a primeira, que chegou a Pamplona a 23 de outubro. A 10 de dezembro, no entanto, o exército já se encontrava em Burgos, indicando que já havia regressado.
No final da primavera de 1174 organizou-se nova campanha, desta vez composta dos exércitos castelhano e aragonês. Em julho, Afonso II tomou e destruiu o castelo de Milagro. Afonso VIII venceu o exército navarro e cercou o castelo de Leguin (perto de Urroz-Villa), no qual se encontrava o próprio Sancho VI, que pôde escapar. Aquele castelo era a chave do sistema de defesa de Pamplona. A 15 de agosto a expedição castelhana voltou a Burgos. Entre o verão de 1175 e o de 1176, organizaram-se mais duas expediçõesːa primeira castelhano-aragonesa, e a segunda, no verão de 1176, apenas castelhana.
O acordo com Castela, 1176-1179 A 25 de agosto de 1176, Sancho VI e Afonso VIII decidiram pôr fim à contenda com uma trégua de sete anos e solicitaram para esse fim a arbitragem de Henrique II de Inglaterra. Ambas as partes expuseram os seus argumentosː
Argumentos e disposições de Sancho VI de Navarra Argumentos e disposições de Afonso VIII de Castela Os castelhanos assassinaram, em 1035, o rei de Navarra O de Nájera, filho de e mais tarde apoderaram-se do reino per violentian fuit expulsus, depois do homicídio de em Peñalén, em 1076, sem qualquer direito. O rei de Navarra tem este Reino pela vontade de Deus. Que os naturais, naturalium hominum expressaram a sua fidelidade ao Rei de Navarra. Que assim o dispões a Lei, o Costume, o Cânone e todo o Direito. Afonso VIII de Castela descende de e reclama vassalagem do rei pamplonês desde 1076.Luis Javier Fortún Pérez de Ciriza. La quiebra de la soberanía navarra en Álva, Guipúzcoa y el Duranguesado (1199-1200) Depois do homicídio de , Navarra e Nájera até Puente la Reina e Sangüesa passariam ao rei de Leão, . Sancho VI de Navarra, aproveitou a menoridade de Afonso VIII e recuperou as terras de Nájera e ao sul do rio Ebro. O rei de Leão e Castela conquistou Toledo. Pede o Mosteiro de Cudeyo, Montes de Oca, o vale de San Vicente, o vale de Ojacastro, Cinco Villas, Montenegro de Cameros, a Serra de Alba até Agreda. Exige tudo isto, a terra compreendida entre estes enclaves e Navarra, e as rendas desta mesma terra, desde que morreu o rei Sancho de Peñalén. Além disso, pede o que o rei Afonso tirou ao seu pai pela forçaː os castelos cristão e judeu de Nájera, Grañón, Pancorvo, Belorado, Cerezo de Río Tirón, Monasterio, Cellorigo, Bilibio, Meltria, Viguera, Clavijo, Berberana, Lantarón. Igualmente, pede a restituição da posse e as rendas dos castelos de Quel, Ocón, Pazuengos, Grañón, Cerezo de Río Tirón, Valluércanos, Treviana, Murillo, Ameyugo, Miranda, Santa Gadea, Salinas, Portilla, Malvecín, Leguín e o castelo que tem Godín.