320px|thumb|Gás lacrimogênioPolicial carrega garrafa de gás lacrimogênio é lançado por policial da tropa de choque contra um grupo de manifestantes adeptos do que denominam resistência pacífica durante um sit in em meio a uma esquina.

As manifestações contra o encontro da OMCUrgência das Ruas - Black Block, Reclaim the Streets e os Dias de Ação Global. Ned Ludd (org.) p.224 é o nome do longa-metragem de alto orçamento que pretende contar a história da manifestação através de uma trama e personagem ficcionais.The Battle In Seattle: The Story Behind and Beyond the WTO Demonstrations, by Janet Thomas, Fulcrum Publishing, 2000. ou N-30, foram manifestações ocorridas em 30 de novembro de 1999 contra a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), em que entre 40 e 100 mil pessoas — entre as quais ecologistas, anarquistas, trabalhadores sindicalizados, estudantes, pacifistas e humanistas — mobilizaram-se por vários dias, sem declarar terem tido auxílio de qualquer esfera partidária de representação, nas ruas de Seattle até a queda da chamada "Rodada do Milênio".

Os manifestantes envolvidos nos protestos tinham motivações e perspectivas políticas distintas. Enquanto os membros de ONGs e humanistas se contrapunham ao encontro como forma de protestar contra o avanço das políticas neoliberais, que consideravam uma ameaça aos direitos humanos e às políticas de saúde, educação e distribuição de renda nos países mais pobres, na ótica dos ambientalistas as manifestações tinham como objetivo barrar as negociações da OMC, chamando a atenção para a degradação ambiental resultante das políticas desenvolvimentistas estatais e privadas. Na ótica dos sindicalistas era o momento de lutar pela manutenção dos direitos trabalhistas.BBC, "Em Imagens a Batalha de Seattle" (01/12/99). Acesso: 4 de dezembro, 2008 Para diversos grupos anarquistas a reunião se mostrou uma ocasião para demonstrar o repúdio ao capitalismo global tanto pelas questões sociais como pelas questões ambientais, através de diferentes formas de ação direta.Sérgio Leo, "OMC, Resistência Globalizada" (1999). Em Dinheiro na Web. Acesso: 4 de dezembro, 2008

A Batalha de Seattle é considerada em certos meios como uma manifestação superior a muitas outras ocorridas nos Estados Unidos da América, perdendo apenas para as manifestações contra a Guerra do Vietnã. Os acontecimentos em Seattle ganharam importância histórica como o marco inicial do movimento pela altermundialização, alternativo à globalização corporativa neoliberal, considerada nociva não só por este movimento. UNHDR, 1999

Condições e momento thumb|esquerda|Vista do centro da cidade de Seattle do bairro Queen Anne.Seattle é uma cidade de 600 mil habitantes, no Estado de Washington (noroeste dos Estados Unidos), e possui um movimento sindical extremamente organizado e desenvolvido. À época os trabalhadores estadunidenses começavam a sentir o que consideravam ser as consequências negativas do NAFTA e às medidas desregulatórias destinadas a impulsionar o livre comércio mundial, acarretando em sérios problemas sociais como a perda de empregos e a precarização das condições de trabalho nos chamados 'países de primeiro mundo'.

Grupos de ativistas que participaram da campanha vitoriosa de 1998 contra o Acordo Multilateral sobre Investimentos (MAI) estavam convencidos que a OMC poderia ser utilizada como mecanismo de tráfico transnacional de influência por corporações. Na perspectiva destes grupos tais corporações buscavam constituir um fórum onde o avanço da agenda corporativa global fosse colocada em primeiro plano, em detrimento das sociedades civis por todo o mundo, em especial desrespeito aos interesses dos chamados 'países de terceiro mundo'. Em 12 de abril de 1999, juntando-se a inúmeras cidades tanto nos Estados Unidos como em outros países do mundo, Seattle se declarou parte da área livre MAI por unanimidade dos votos no conselho da cidade. Este fato político foi encarado como um símbolo da efetividade do lobby democrático em um nível local. (Rede Terceiro Mundo)

Em 12 de julho, o Financial Times reporta que no último relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas defenderam os "princípios de performance para multinacionais em assuntos trabalhistas, negociações e proteção ambiental" indo de encontro com os efeitos negativos da globalização sobre as nações mais pobres". No próprio relatório argumentava que "um aspecto essencial da governança global é a responsabilidade dos povos - na igualdade, por justiça, e pela ampliação das escolhas para todos".

thumb|direita|O Washington State Convention and Trade Center foi o palco da reunião e dos inícios dos protestos de 1999Em 16 de julho, a jornalista Helene Cooper do Wall Street Journal alertou para a possibilidade de uma "mobilização maciça contra a globalização" que estava sendo planejada para acontecer durante a conferência da OMC em Seattle no final do ano. No dia seguinte, o jornal Sunday Independent publicou uma matéria reportando que a OMC teria que lidar com uma tempestade de protestos:

A forma como [a OMC] tem utilizado [seu] poder está levando a uma suspeita crescente de que suas iniciativas realmente têm como intenção controlar todo o mundo. Várias decisões vão de encontro com medidas destinadas a auxiliar as populações carentes do mundo, proteger o meio ambiente, a saúde global, colocando em primeiro plano a salvaguarda dos interesses dos setores privados, geralmente de empresas estadunidenses. "A OMC parece estar em uma cruzada para aumentar o lucro privado à custa de toda e qualquer outra consideração, incluindo o bem-estar e qualidade de vida de grande parte da população mundial", afirma Ronnie Hall, secretário de assuntos econômicos da ONG internacional Amigos da Terra. "parece que ela possui um desejo implacável por ampliar seu poder".

Em 16 de novembro, uma quinzena antes da conferência, o presidente Clinton emitiu uma ordem executiva de Revisão Ambiental dos Acordos EconômicosOrdem Presidencial Executiva 13141 que estabelecia o compromisso dos Estados Unidos com a "avaliação das considerações dos impactos ambientais de acordos econômicos". Este ato surpreendeu os negociadores das nações desenvolvidas e os setor corporativo, sendo endossado pelos críticos do Terceiro Mundo e por ONGs. Ambos encararam a revisão como uma esperança frente ao embotamento evidente das ambições da rodada do milênio.

Organizações e planejamento thumb|250px|esquerda|Cartazes em Seattle em 19 de novembro, dizendo: "O Trabalho diz: OMC acaba com a Democracia." O planejamento para as manifestações começou com meses de antecedência incluindo organizações locais, nacionais e internacionais. Entre os participantes mais notáveis estavam ONGs nacionais e internacionais (especialmente preocupadas com questões referentes ao universo do trabalho, com o meio ambiente e com os direitos do consumidor), sindicatos (incluindo a AFL-CIO, a principal diligência sindical estadunidense), grupos de estudantes, organizações religiosas (Jubileu 2000) e anarquistas (alguns deles integrando o Black bloc).

A coalizão, no entanto, não era abrangente nem homogênea, existiam grupos com posições divergentes tanto na forma de protesto mais adequada, quanto no fim a ser alcançado. Enquanto alguns se opunham as políticas da OMC (especialmente àquelas relacionadas ao livre comércio) em defesa das políticas de estado de bem estar social e medidas reformistas pró-trabalhistas, outros assumiam conscientemente posições anticapitalistas que tinham como intenção atingir o sistema do capital globalizado. Outros ainda tinham como principal preocupação questões ambientais. Muitas das ONGs participantes dos protestos possuíam credenciais para participar do encontro oficial, enquanto também planejavam diversos eventos educacionais de visibilidade.

A AFL-CIO promoveu uma convocatória entre os membros de seu sindicato para uma grande mobilização de protesto contando inclusive com a aprovação do então Presidente Bill Clinton que naquela altura pensava na eleição presidencial do ano que estava para começar.

Entre os diferentes grupos anticapitalistas, geralmente adeptos da ação direta, alguns optaram pela desobediência civil aberta através de atos de dano a propriedade privada relacionada a grandes corporações, e enfrentamento do aparato repressivo estatal. Muitos grupos se organizaram juntos na Rede de Ação Direta (DAN), com um amplo planejamento para impedir a realização do encontro bloqueando ruas e intersecções do centro da cidade impossibilitando que os delegados alcançassem o Centro de Convenções e Negócios do estado de Washington, onde o encontro deveria acontecer.

Ações contra as corporações Entre os ativistas mais notáveis estavam grupos de jovens anarquistas, muitos deles vindos da cidade de Eugene, Oregon (onde anarquistas já haviam protestado no verão anterior), que optaram por táticas de confronto direto, planejando e conduzindo atos de destruição a propriedade corporativas no centro da cidade de Seattle. Em um comunicado posterior, seriam listadas as corporações que foram alvos em potenciais, bem como os motivos destes atos considerados pelos manifestantes como crimes corporativos:Fidelity Investments (maior investidor na Occidental Petroleum, o carrasco da tribo U'wa na Colômbia); Bank of America, U.S. Bancorp, KeyBank e Washington Mutual Bank (um dos principais financiadores da repressão corporativa); Old Navy, Banana Republic e a GAP (com negócios relacionados a família Fisher, são estupradores da floresta do noroeste e exploram trabalho semi-escravo); NikeTown e Levi's (cujos caros produtos são fabricados por mão de obra semi-escrava); McDonald's (traficantes de fast-food que pagam salários miseráveis e são responsáveis pela destruição das florestas tropicais para pasto e matança de animais); Starbucks (traficantes de uma substância viciante cujos produtos são ceifados a um salário abaixo da miséria por agricultores que são forçados a destruir suas próprias florestas para o cultivo); Warner Bros. (monopolistas midiáticos); Planet Hollywood (por serem Planet Hollywood).. N30 thumb|250px|esquerda|Bloqueio formado por policiais de Seattle na rua Union durante os protestos Na manhã do dia 30 de novembro de 1999, a plano da Rede de Ação Direta foi colocado em ação. Centenas de ativistas e manifestantes ocuparam as ruas desertas nos arredores do centro de convenções tomando controle dos principais entroncamentos. Nas próximas horas, um número considerável de manifestantes convergiu para a área a partir de diferentes direções. Uma marcha organizada por entidades estudantis autogeridas veio da parte norte da cidade, enquanto uma marcha de cidadãos dos países em desenvolvimento chegou ao centro vindo do sul. Alguns manifestantes participavam de comícios em meio as ruas, outros preferiram aderir aos sit instécnica de resistência pacífica que consiste em grupos de pessoas que se sentam em um ponto estratégico com o objetivo de impedir a passagem dos delegados da convenção. bloqueando as esquinas e pelo menos um grupo organizou desde a manhã uma festa de rua (Reclaim the Streets). Enquanto isso, um número significativo de manifestantes bloqueou os principais entroncamentos atados uns aos outros por correntes presas em seus braços.

Os ambientalistas optaram por realizar passeatas multicoloridas, vestidos de tartaruga-marinha e borboletas como meio de chamar a atenção para a questão ambiental. O controle das esquinas levado a cabo por uma multidão de manifestantes impediu os delegados de chegarem de seus hotéis ao Centro de Convenções. Também dividindo o efetivo policial em dois: alguns policiais formaram um cordão em torno do centro de convenções isolando-o do resto da cidade. A polícia fora da área eventualmente se empenhou em acabar com os bloqueios dos manifestantes da parte sul.Urgência das Ruas - Black Block, Reclaim the Streets e os Dias de Ação Global. Ned Ludd (org.) p.224 ISBN 85-87193-61-9