thumb|250px|Palácio da Ajuda em meados do século XIX, Lisboa, Portugal.
O Palácio Nacional da Ajuda ou Paço de Nossa Senhora da Ajuda é um monumento nacional português, situado na freguesia da Ajuda, em Lisboa.
A sua construção teve início no fim do século XVIII (1795) para substituir a Real Barraca, Paço Real assim chamado por ser de madeira. O projeto inicial, da autoria de Manuel Caetano de Sousa, sofreu uma alteração profunda com novo projeto em 1802. De inspiração neoclássica, da autoria dos arquitetos Francisco Xavier Fabri e José da Costa e Silva, o Palácio foi habitado com várias interrupções, tendo ficado inacabado. Funcionou como Paço Real com o rei D. Luis I (1838–1889), que aí se instalou definitivamente a partir de 1861. No vestíbulo, merecem destaque as 47 estátuas assinadas por artistas portugueses.
Encerrado com a implantação da República em 1910, o interior do Palácio foi tornado museu, a partir de 1968, apresentando um relevante acervo de mobiliário, ourivesaria, pratas e joalharia.
Entre 2018 e 2020 decorreram as obras do "remate" da ala poente do palácio que terminaram assim o palácio inacabado e onde foi instalada uma caixa-forte para receber a coleção das Joias da Coroa Portuguesa.
Antigo Palácio Real, é hoje em grande parte um museu, estando instalados no restante edifício a Biblioteca Nacional da Ajuda, o Ministério da Cultura, a Galeria de Pintura do rei D. Luís I e a Direção Geral do Património Cultural. O Palácio e o Museu são geridos pela Museus e Monumentos de Portugal e pela Presidência da República.
História Período Joanino Em 1726, D. João V (1689–1750) adquire três quintas na zona de Belém. A primeira tinha já uma edificação que é hoje o Palácio de Belém, a segunda uma ermida do Oratório que foi depois expandida para o que é hoje o Palácio das Necessidades e a terceira a quinta da Ajuda reservada para a edificação de uma residência real de Verão. Ali é rasgada a Calçada da Ajuda e junto a Belém construído um cais, não chegando no entanto nenhum palácio a ser projectado.
Período Pombalino thumb|esquerda|250px|Reconstrução de Lisboa. Em primeiro plano as tendas provisórias, ao centro um enforcamento. Ao fundo as ruínas de Lisboa. A utilização da quinta da Ajuda como Paço Real deu-se no rescaldo do Terramoto de Lisboa a 1 de Novembro de 1755 já no reinado de Dom José I. O terramoto destruiu praticamente toda a cidade de Lisboa, incluindo a residência do Rei, o velho Palácio da Ribeira, cujo complexo abraçava o Terreiro do Paço, junto ao Rio Tejo. O facto não criou apenas danos materiais, mas criou também uma fobia na população lisboeta sobrevivente que receava agora uma réplica ou até um segundo abalo.
Embora a família Real e a Corte se encontrassem nesse dia em Belém, zona ocidental da cidade onde os efeitos do terramoto não se fizeram sentir com tanta intensidade, o Rei ficou tão perturbado com o acontecimento que se recusou a viver em edifícios de alvenaria. D. José mandou então erigir no alto da Ajuda, local de pouca actividade sísmica, um palácio de madeira e pano, a que se chamou Real Barraca ou Paço de Madeira.
A obra só se concluiria em 1761. Esta construção obedecia, no seu início, a dois princípios: resistência a sismos (graças aos seus materiais de construção) e inexistência de alvenaria. O rés-do-chão e o primeiro andar, obedeceram ao traçado de Petrone, Mazone e Veríssimo Jorge.
Os seus interiores foram decorados com o melhor e mais belo mobiliário e grandes e preciosas peças de tapeçaria, pintura e ourivesaria. A estrutura cresceu tanto que era maior em área do que o palácio existente hoje em dia.
Ali esteve sediada a corte durante cerca de três décadas numa luxuosa atmosfera da época áurea do Despotismo Esclarecido suportado pelo que as remessas de ouro e brilhantes do Brasil ainda permitiam.
Em 1768 o primeiro jardim botânico de Lisboa foi construído em redor do palácio por ordem do ministro Sebastião José.
Na Real Barraca viveria D. José até morrer, em 1777.
Período da Regência rightt|thumb|190px|D. João, Principe Regente À data da morte do Rei D. José a sua filha e sucessora, D. Maria I habitava, desde o seu casamento com D. Pedro III, o Palácio de Queluz. A Real Barraca ficou durante poucos anos secundarizada embora fosse muitas vezes visitada pela Rainha e seus filhos.
Desde 10 de Fevereiro de 1792, por demência da Rainha, o príncipe D. João futuro D. João VI passou dirigir os negócios públicos, efectuando despacho dos decretos em seu nome; a 15 de Julho de 1799, e até subir ao trono, assumiu o poder sob o título de Príncipe Regente e passou a governar o reino.
Em 1794, e segundo os registos, por descuido de um criado com uma candeia, deflagra-se um enorme incêndio que destrói por completo a Real Barraca e grande parte do seu valioso recheio — tapeçarias, pinturas, ourivesaria, mobiliário — é totalmente consumido pelo fogo.
Salva-se a Torre da Paroquial graças à demolição durante o incêndio de um passadiço que a ligava à Real Barraca. Há algumas peças do recheio do Paço que resistiram ao incêndio expostas hoje em dia no Museu do Palácio Nacional da Ajuda. E curiosamente há registo de terem sido encontrados nos escombros restos de estrutura em alvenaria construída para suportar o segundo andar. esquerda|thumb|190px|Torre da Paroquial vulgo Torre do Galo. É agora necessário construir um novo palácio digno de acolher a Família Real. Esta não era uma nova ideia, mesmo no tempo de D. João V e do velho Paço da Ribeira, esse projecto já existia. Muitos historiadores afirmam que se não fora o Terramoto, D. José teria muito provavelmente concluído um tal projecto em vez da estrutura provisória que acabara por arder.
O Príncipe D. João aprova a construção de raiz de um novo palácio. A traça do plano é de Manuel Caetano de Sousa (1742–1802) que apresenta um projecto Barroco, sendo o lançamento da primeira pedra celebrado a 9 de Novembro de 1795. Note-se a peculiaridade da aprovação de um importantíssimo projecto de estilo Barroco no final do século XVIII. Ainda no início desta construção, chegaram a Portugal dois arquitectos vindos da escola de Bolonha e seguidores da nova corrente de inspiração neoclássica, que exerceram influência junto do Príncipe D. João pondo este de parte o projecto Barroco. Estes dois arquitectos eram Francisco Xavier Fabri (1761–1817) e José da Costa e Silva (1747–1819) e foram encarregados em 1802, de modificar o anterior projecto. Foi José da Costa e Silva que defendeu o aproveitamento da estrutura já construída adaptando-a ao novo projecto.
As obras iniciadas em 1795, foram interrompidas passado pouco tempo, por falta de recursos, tendo os trabalhos recomeçado em 1802. Neste mesmo ano, Caetano de Sousa faleceu, deixando o Palácio entregue aos dois arquitectos referidos.
Costa e Silva e Fabri mantendo o que estava então construído, introduziram as necessárias alterações de forma a tornar o novo palácio real mais digno, sério e majestoso. O plano geral foi simplificado e reduzido, tal como a ornamentação, agora bastante mais cuidada.
thumb|direita|180px|Fachada do Paço de São Cristóvão, Palácio Imperial da Quinta da Boa Vista. A construção do novo edifício é interrompida em várias ocasiões dados os recorrentes problemas, a nível nacional, de ordem financeira e política. Sublinham-se as Invasões Francesas que, em 1807, resultam na transferência da Família Real e da Corte para o Brasil.
Em 1807 estavam já definidas as equipas de pintores, escultores e decoradores, no entanto, a chegada a Lisboa das tropas napoleónicas comandadas por Junot tiveram como resultado e mais uma vez a interrupção das obras na Ajuda. Com Costa e Silva no Brasil, foi Fabri quem comandou as obras entre 1813 e 1817, introduzindo novas alterações inclusivamente arquitectónicas da qual resultou nova planta. O modelo de Fabri era, com certeza, a Reggia di Caserta, desenhada por Luigi Vanvitelli.
É do Palácio da Ajuda que o Príncipe D. João escreve aos seus súbditos antes de partir para o Brasil. Embora as Invasões não tenham sido o directo responsável — uma vez que os registos indicam que o enviado de Napoleão Bonaparte, o General Junot, deu ordem para que as obras no palácio não parassem — a construção simultânea de um Paço Real no Brasil, o Paço de São Cristóvão (significativamente danificado num incêndio ocorrido na noite de 02 de Setembro de 2018), e restantes obras importantes na colónia acabaram por desequilibrar os investimentos no Reino a favor do Brasil.
Como tal, ao longo da primeira metade do século XIX, as obras prosseguem com lentidão, nelas trabalhando importantes artistas nacionais: Domingos Sequeira (1768–1837), Arcangelo Foschini (1771–1834), Cirilo Wolkmar Machado (1748–1823), Machado de Castro (1731–1822), Joaquim José de Barros Laborão (1762–1820) e João José de Aguiar (1769–1834), que se dedicam à decoração dos tectos e fachadas.
Período do Liberalismo esquerda|thumb|150px|Fachada interior do Palácio. É visível o lado direito inacabado. Os últimos acabamentos, como os capitéis e janelas do último andar (falso) foram feitos só em meados do século XX. Tendo António Francisco Rosa assumido a condução dos trabalhos, em 1818, as obras prosseguiram em ritmo pouco acelerado, assim, quando em 1821, D. João VI regressou do Brasil (na sequência da revolução liberal de 1820), o Palácio ainda não estava concluído. As instalações permitiam apenas a realização de cerimónias protocolares, tais como a investidura da Ordem da Jarreteira a D. João VI, em 1823. Foi por estas condições que o monarca foi viver para o Palácio da Bemposta, onde veio a falecer a 10 de Março de 1826.
A partir desta data, as cortes insurgiram-se com as verbas gastas na Ajuda, pelo que as obras se reiniciaram em 1826 por iniciativa de D. Isabel Maria, que procurou tornar o palácio habitável. O projeto foi reduzido a metade, ou seja, a um único bloco.
As alas nascente e sul do Paço da Ajuda eram já habitáveis, e a decoração dos seus interiores foi orientada pela Marquesa de Alorna convidada para esse efeito. Depois da morte do Rei e ainda neste mesmo ano de 1826 vêm residir para o novo Paço Real a agora Infanta Regente D. Isabel Maria e suas irmãs D. Maria da Assunção e D. Maria Francisca Benedita.
No campo da decoração, o átrio seria ocupado por inúmeras esculturas inspiradas na iconologia de Cesare Ripa e traçadas por Machado de Castro que era o responsável por esta área desde 1802. Nestas esculturas executadas por este mestre e os seus discípulos, reconhece-se o fim de um período, bem como o novo classicismo patente na obra de João José de Aguiar.
Em 1828 D. Miguel I é aqui aclamado Rei pelos Três Estados reunidos na sala das Cortes, hoje Sala da Ceia.
D. Miguel I chega a habitar o Paço da Ajuda por cerca de seis meses enquanto o Palácio das Necessidades sofre algumas alterações para ser a sua futura residência oficial.
Iniciados os confrontos entre as facções liberal e absolutista, o País entra num clima de frágil estabilidade e as obras que prosseguiam lentamente paralisam em 1833 com a entrada das tropas liberais em Lisboa.
Restabelecido o regime liberal com a vitória das suas tropas, D. Pedro assume o poder como Regente até à maioridade da sua filha D. Maria II e jura na Sala do Trono do Paço da Ajuda, a 30 de Agosto de 1834, a Carta Constitucional.
thumb|direita|200px|O Palácio de São Bento thumb|direita|200px|Representação do aspecto que o Palácio teria tomado se concluído. Detalhe de um retrato do Príncipe Regente, datado de 1802, por Domingos Sequeira.