Getz/Gilberto é um álbum de jazz e bossa nova lançado em 1964 pelo violonista brasileiro João Gilberto e pelo saxofonista estadunidense Stan Getz, com participação especial de Tom Jobim no piano e Astrud Gilberto nos vocais de algumas faixas. As gravações foram realizadas em dois dias de 1963 como resultado de um jazz em período comercial crítico buscando se reinventar e uma bossa nova efervescente no Brasil, mas a ser descoberta no exterior como música popular brasileira de qualidade internacional.

É considerado o disco que popularizou a bossa nova em todo o mundo. Em contrapartida, tornou-se um dos álbuns de jazz mais vendidos de todos os tempos e o primeiro a receber o Grammy de Melhor Disco do Ano em 1965. Todas as gravações tornaram-se clássicas, incluindo "Desafinado" (Jobim/Newton Mendonça), "Corcovado" (Jobim), e sobretudo "Garota de Ipanema" (Jobim/Vinicius de Moraes), que, além de receber o Grammy de Melhor Gravação do Ano, revelou a voz desconhecida de Astrud Gilberto, lançando-a no estrelato e popularizando para sempre a canção no mundo todo. "Doralice" (Dorival Caymmi/Antônio Almeida) e "Para Machucar Meu Coração" (Ary Barroso) reforçavam o respeito de Gilberto e Jobim à tradição sambista pré-bossa nova.

A união de música sofisticada com apelo popular tornou o disco unanimidade entre a crítica especializada e completo sucesso de vendas comerciais. Getz/Gilberto vendeu mais de dois milhões de cópias em 1964 e a qualidade do disco garantiu que ele fosse listado posteriormente entre os melhores de compêndios e revistas como Rolling Stone e Vibe. O balanço sambístico da bossa, o minimalismo de Jobim e Gilberto, acrescidos da voz contida e cool de Astrud Gilberto e dos improvisos jazzísticos de Getz garantiram a louvação do disco por parte de músicos e do público em geral ao longo dos anos.

Antecedentes O surgimento oficial da bossa nova é datado no ano de 1958 com a canção "Chega de Saudade" (A. C. Jobim / Vinicius de Moraes), cantada por Elizeth Cardoso em seu disco Canção do Amor Demais, com arranjos de Tom Jobim, e o violão de João Gilberto que, à época, gerou diversos estranhamentos, entusiasmos e críticas pela abordagem rítmica e harmônica completamente inéditas no gênero samba.Bollos, p.56. Gilberto também tocou violão em outra faixa do disco, "Outra Vez" (Jobim). Poucos meses depois, gravou o primeiro disco em 78 rpm (ou single) de sua carreira, contendo "Chega de Saudade" e "Bim Bom", de sua autoria. O single definiu e aprofundou ainda mais a nova estética dentro da música popular brasileira. Esses primeiros passos decisivos culminariam em seu álbum de estreia, Chega de Saudade (1959).

O jazz, por sua vez, sofria uma grave crise comercial e artística por conta do advento, no final dos anos 50 e início dos anos 60, de outros gêneros populares como o rock 'n roll e buscava desesperadamente uma renovação.Scarabelot, 2005, p.5.Carlos Eduardo Lima, "50 anos de Getz/Gilberto - Quando a Bossa Nova Conquistou a América". Monkey Buzz, 25/07/2014. Acesso: 15 de agosto, 2015. Em 1961, Tony Bennett fez viagem ao Brasil junto com o baixista Don Payne e ambos entraram em contato com a moderna música popular brasileira. Payne levou vários discos brasileiros quando retornou para os Estados Unidos e os mostrou para seu colega e vizinho Stan Getz.Mello, 2002. Não demorou muito para Getz se entusiasmar pela sonoridade da bossa nova: o lançamento do disco Jazz Samba e Big Band Bossa Nova, ambos de 1962, atestam isso. A efervescência era tanta que Big Band Bossa Nova foi título de outros três discos lançados em 1962: por Quincy Jones, outro de Oscar Castro-Neves e um de Enoch Light.

Jazz Samba, com participação de Charlie Byrd, vendeu um milhão de cópias rapidamente.Castro, 1990. Apesar de o álbum receber repercussão positiva das resenhas críticas dos Estados Unidos, a pressa dos músicos em aprender o gênero brasileiro e também a avidez da gravadora por novidades estrangeiras fez com que muitas das canções tivessem erros graves de melodia e harmonia.Bollos, p.58. Houve um terceiro lançamento, Jazz Samba Encore!, finalmente com um brasileiro, o cantor e violinista Luiz Bonfá, que vendeu bem, mas a "trilogia" não satisfez os produtores comercialmente a ponto de competir com Elvis Presley, Bobby Darin, Pat Boone, Henry Mancini e outros.Ruy Castro, "Anatomia de um disco ". Revista Brasileiros, 26/06/2008. Acesso: 15 de agosto, 2015.

Somente em 21 de novembro de 1962 o público norte-americano pôde ouvir a bossa nova ser tocada pelos próprios inventores brasileiros. O concerto Bossa Nova - New Brazilian Jazz, realizado no Carnegie Hall, contou com a participação de João Gilberto, Tom Jobim, Bonfá, Roberto Menescal, Sérgio Mendes, entre outros. De acordo com a crítica musical Liliana Harb Bollos, este concerto tinha "a função de divulgar a música popular brasileira na capital do jazz." Nessa época, a bossa nova já estava no fim de seu auge no Brasil, mas começava a efervescer no exterior.Ariza, 2006, p.31. Por conta disso, depois do concerto no Carnegie Hall, o produtor Creed Taylor considerou necessário o encontro entre Jobim e Gilberto com Getz para um registro histórico de execução do gênero,Antônio do Amaral Rocha, "Listas - Os 100 Maiores Discos da Música Brasileira - Getz/Gilberto Gil Featuring A. C. Jobim - Stan Getz, João Gilberto e Antonio Carlos Jobim (1963, Verve)" (2007). Acesso: 15 de agosto, 2015.Roberto Muggiati, "Há 50 anos era gravado Getz/Gilberto o LP que colocou o Brasil no mapa" (15/03/2013). Gazeta do Povo, Caderno G. Acesso: 13 de agosto, 2015. o que veio se concretizar em 1963 com Getz/Gilberto, lançado cinco anos depois do surgimento da bossa nova no Brasil.Ariza, 2006, p.75.

Gravação e análise musical As gravações ocorreram em dois dias iniciados numa segunda-feira de manhã em 18 de março de 1963 em Nova York e terminados no dia 19.Marcelo Pinheiro, "Getz/Gilberto: 50 anos de um clássico". Revista Brasileiros (20/03/2014). Acesso: 12 de agosto, 2015. O mentor do projeto, Creed Taylor, produziu o disco com Getz pela Verve Records.Cunha, 2014, p. 40. A seção rítmica foi formada por Jobim no piano, Milton Banana, considerado o pai da batida de bossa nova na bateria, e Sebastião Neto, baixista, que terminou não saindo nos créditos por ser contratado da gravadora Audio Fidelity. Assim como também ocorreu em Cannonball's Bossa Nova (1962), parceria do saxofonista norte-americano Cannonball Adderley com o grupo do pianista brasileiro Sergio Mendes, a seção rítmica de Getz/Gilberto toca no típico ritmo binário próprio do samba/bossa, mas os solistas, neste caso Getz, tendem para a divisão quaternária vinda da tradição jazzística.Fabris, 2006, p.19. 300px|thumb|Contracapa: João Gilberto, Tom Jobim e Stan Getz ensaiam em 1964. Foto: David Drew Zingg. Astrud Gilberto, que nunca havia cantado profissionalmente antes, aceitou entrar no disco a convite do seu então marido João Gilberto.Diniz e Soares, 2012, p.6.Leonardo Lichote, "Disco Getz/Gilberto completa 50 anos e se mantém influente. O Globo, 17/02/2013. Acesso: 12 de agosto, 2015. Ela participa das faixas "The Girl from Ipanema" e "Corcovado". Assim como ele, Astrud assume um estilo vocal sóbrio e quase sussurrado, sem excessos, que configuraria o vocal feminino na bossa nova. Nos três primeiros discos de João Gilberto—Chega de Saudade, O Amor, o Sorriso e a Flor e João Gilberto—o vibrato não é eliminado completamente como ocorre neste que os sucede.Pianta, 2010, p.57. As características típicas do gênero, tais como despojamento, contenção e objetividade da interpretação a serviço da composição, são potencializadas em Getz/Gilberto como consequência positiva desses três primeiros lançamentos.Pianta, 2010, p.17.

Jobim também cumpre esses critérios: seu piano é minimalista e executa somente o necessário.Redação da music-story. "Getz/Gilberto ". Music Story. Acesso: 13 de agosto, 2015. Além de tocar, ele ficou responsável por alguns arranjos. "Doralice" (Dorival Caymmi, Antônio Almeida) e "Pra Machucar Meu Coração" (Ary Barroso) são as duas únicas canções do álbum que não passaram por sua composição musical. Ambas são sambas antigos que, na interpretação de Gilberto, adquirem maior polidez e seriedade.Pianta, 2010, p.49. Todas as outras são composições de parceria entre Jobim e os letristas Vinicius de Moraes em "The Girl from Ipanema", "Só Danço Samba", "O Grande Amor" e Newton Mendonça em "Desafinado". "Corcovado" ("Quiet Nights of Quiet Stars)" e "Vivo Sonhando" trazem letra e música de Jobim.

As gravações não foram completamente harmoniosas. Ruy Castro, em suas pesquisas sobre os bastidores do disco, conta que João Gilberto e Stan Getz frequentemente discordavam na escolha do melhor take entre os gravados e por isso cabia ao produtor Creed Taylor fazer o desempate. Em determinado momento, Gilberto, impaciente com as sutilezas rítmicas do saxofonista e sem dominar a língua inglesa, disse a Tom Jobim: "Diga a esse gringo que ele é burro", ao que Jobim traduziu: "Stan, o João está dizendo que o sonho dele sempre foi gravar com você.” A emissão enfática de Getz também não agradava Gilberto, que preferiria um saxofone mais delicado.Revista Brasileiros, Edições 7-11, p.57. Acesso: 19 de agosto, 2015. Por conta de tais desavenças, Getz/Gilberto 2 traz Getz sozinho com seu quarteto no lado A e Gilberto, livre dele, no lado B.Palmer, 1988, p.46. Mello, 2001, p.65.

A tensão, no entanto, foi produtiva, e Gilberto viria a colaborar e a se apresentar com Getz diversas vezes, até mesmo mais de dez anos depois do lançamento, em 1975. A engenharia de som ficou por conta de Phil Ramone, então dono do estúdio, que também servia como presença pacificadora. Gene Lees fez a versão em inglês de "Corcovado" e Norman Gimbel, que ficou encarregado da versão em inglês para "Garota de Ipanema", acreditava que a palavra Ipanema nada significava para os norte-americanos, mas Jobim insistiu para a referência à praia do Rio de Janeiro não ser retirada. Com o material pronto nas mãos, Taylor engavetou o projeto por quase um ano com medo de sofrer um completo fracasso comercial. Dessa forma, o disco gravado em 1963 só veio a ser lançado em março de 1964.

Capa A pintura na capa do álbum chama-se Alla Africa,Aaron Ellis, "Stan Getz & João Gilberto - Getz/Gilberto". Cover Lovers. Acesso: 13 de agosto, 2015. pintada por Olga Albizu.Verve Records: 20 classic album covers. The Daily Telegraph. Acesso: 13 de agosto, 2015. Artista plástica de teor expressionista, trabalhou em outros discos de Stan Getz que tivessem a sonoridade do samba e bossa. Susan Noye Platt,Susan Noye Platt, "Our America" Abstraction and Identity (10 de março, 2014). Art and Politcs Now. Acesso: 13 de agosto, 2015. crítica de arte e historiadora, escreve sobre a correlação entre Albizu e a bossa nova:

"A obra de Albizu é contemporânea à do expressionismo abstrato, mas ela, como jovem de Porto Rico, não saía com aqueles famosos alcoólatras do Bar Cedar. Há uma sensualidade controlada e sutil em seu trabalho que nos fala de camadas ocultas de emoção, ao invés de deixar tudo aparecer na superfície. No caso de Albizu, a conexão com a música e, particularmente, com a bossa nova, assim como a influência da ideia de "empurrar e puxar" vinda de Hans Hofmann, permite que o trabalho exista sem pontos de referência. As cores, de fato, movem-se como grandes sons completos, ligação que nos leva de volta a Kandinsky."

O estilo de Albizu caracteriza-se por pinceladas quadradas em estrutura pictórica e pela relação entre as cores utilizadas.

Recepção e crítica