Bronzes do Benim são uma coleção formada por mais de mil peçasO número de peças é incerto (Dohlvik, 2006: pág. 7). A maioria das fontes fala de mil peças ou alguns milhares. Nevadomsky afirma que foram levadas de 3000 a 5000 peças (Nevadomsky, 2005: pág. 66). comemorativas que provêm dos palácios reais da cidade do Benim, capital do antigo Reino do Benim. Foram criadas pelos povos edos desde o e, kamal 1897, os britânicos apoderaram-se da maior parte delas. Várias centenas destas peças foram levadas para o Museu Britânico de Londres, enquanto o resto foi repartido entre outros museus.Greenfield, 2007: pág. 124. Atualmente, uma boa parte ainda se encontra no Museu Britânico, concretamente na sala 25 (na seção da África). Outras peças encontram-se nos Estados Unidos e na Alemanha, entre outros países.USA International Business Publications, 2005: pág. 23.
Os bronzes do Benim propiciaram uma maior apreciação por parte da Europa da cultura africana e da arte tribal. Inicialmente, parecia impossível e incrível que gente tão "primitiva" e "selvagem" fosse responsável pela criação de objetos tão desenvolvidos. Até mesmo chegaram à conclusão que tinham obtido o conhecimento metalúrgico dos portugueses. Atualmente, é sabido que os bronzes eram fabricados no Benim desde o e que boa parte das coleções datam dos séculos XV e XVI. Acredita-se que os dois períodos dourados na criação de bronzes foram o reinado de Esigie (c. 1550) e o de Eresonye .Greenfield, 2007: pág. 122.
Embora o conjunto de peças receba o nome de "bronzes do Benim", nem todas são deste material, mas também de latão, ou de mistura de bronze e latão; ou ainda de madeira, cerâmica, marfim e outros materiais.Dohlvik, 2006: pág. 21. Foram produzidas por meio da técnica de cera perdida e são consideradas como as melhores esculturas feitas com esta técnica.
Antecedentes thumb|Extensão dos povos edos thumb|O Obá na Cidade do Benim em 1686
O reino do Benim, que entre os e XIX ocupou o território da atual Nigéria, foi muito rico em esculturas em ferro, bronze, madeira, marfim e terracota. Conservou-se um grande número de pequenas taças ou cálices talhados em marfim, os quais foram produzidos pelos binis, uma etnia iorubá da costa nigeriana. Durante o , foram recolhidas poucas peças e a princípios do , quando se iniciou a colonização e, principalmente, as missões, foram chegando obras à Europa, onde eram vistas como simples curiosidades de cultos "pagãos".
Assim, as primeiras peças que realmente chamaram a atenção ocidental foram aquelas enviadas pelo Exército britânico a Londres em 1897, depois da sua expedição punitiva contra o reino do Benim. Tratava-se de um tesouro formado por esculturas de bronze e marfim, entre as quais salientavam cabeças de reis, figuras de leopardos, sinos e um grande número de placas com alto-relevo, todas elas realizadas com surpreendente mestria com a técnica da cera perdida. Posteriormente, em 1910, o investigador alemão Leo Frobenius efetuou uma expedição à África visando recolher obras de arte africana para os museus do seu país.Hora, 1988: pág. 20. A espoliação foi tão grande que atualmente apenas ficam na Nigéria cerca de cinquenta peças, enquanto as coleções europeias e norte-americanas contam com cerca de 2400.Hora, 1988: pág. 35.
Na África tropical, no centro do continente, a técnica da cera perdida foi desenvolvida usada bem cedo nas pequenas esculturas de bronze, como testemunham as peças encontradas no Benim. Quando um rei morria, o seu sucessor mandava fazer uma cabeça de bronze. Há quase cento sessenta; e as mais antigas provêm seguramente do .Historia Universal del Arte, 1984: pág. 578. O Obá monopolizava os materiais mais difíceis de obter, como o ouro, os colmilhos de elefante ou o bronze. Estes reis possibilitaram a fabricação dos esplêndidos bronzes do Benim; assim, as cortes reais contribuíram de maneira definitiva para a arte subsaariana.Leuzinger, 1976: pág. 24. Em 1939, cabeças muito similares às do Benim foram descobertas na cidade santa dos iorubás, Ifé, datadas nos séculos XIV e XV. Esta descoberta confirmou a tradição do Benim, que afirmava que foram artistas de Ifé que lhes ensinaram as técnicas de trabalho do bronze.Hora, 1988: pág. 36. A surpresa surgiu quando estas foram datadas inequivocamente em tais séculos: aquilo significava que eram anteriores à primeira escultura europeia elaborada seguindo a técnica da cera perdida, criada por Benvenuto Cellini no seu Perseu de meados do . No Antigo Egito esculpiu-se com esta mesma técnica e este conhecimento foi transmitido à civilização greco-nubiana.Hora, 1988: pág. 37.
História Acontecimentos de 1897 thumb|Desenho que representa a cidade de Benim em 1897, traçado por um oficial britânico thumb|Dois bronzes do Benim no Museu Vitória e Alberto de Londres
Em 1897, o vice-cônsul geral James Philips, junto a outros seis oficiais britânicos, dois comerciantes, intérpretes e 215 porteadores, marcharam para o Benim desde o pequeno porto de Sapele. Embora informassem que tinham previsto realizar uma visita, responderam-lhes que deviam aguardar, pois estavam realizando uns rituais e nenhum estrangeiro podia entrar na cidade do Benim enquanto isso;USA International Business Publications, 2005: pág. 21.Dohlvik, 2006: pp. 21-22. porém, os britânicos ignoraram o aviso e continuaram com a expedição.Greenfield, 2007: pág. 123. No caminho, foram emboscados a sul da cidade por guerreiros edos. Como resultado, apenas dois europeus sobreviveram à expedição.
Oito dias depois, as notícias do incidente chegaram a Londres e, imediatamente, foi organizada uma expedição naval punitiva, dirigida pelo almirante Rawson. A expedição saqueou e destruiu por completo a cidade do Benim. Após a vitória britânica, os conquistadores levaram as obras de arte que decoravam o palácio real e as residências da nobreza, acumuladas durante muitos séculos. A versão oficial susteve que tal retaliação ocorrera porque as tribos emboscaram uma missão humanitária e pacífica.Soni, 1997. The Events of 1897. Também afirmava que a expedição naval de Rawson libertou a população de um reinado de terror.
Reparto entre museus e particulares Os bronzes do Benim que fizeram parte da pilhagem da expedição punitiva de 1897 tiveram diferentes destinos: uma parte terminou na coleção privada de diferentes oficiais britânicos; a Foreign Office vendeu uma quantidade importante que, posteriormente, acabaria em diferentes museus da Europa, principalmente na Alemanha, e dos Estados Unidos. A notável qualidade dos trabalhos viu-se refletida depressa nos altos preços que atingiram no mercado. A Foreign Office doou ao Museu Britânico uma grande quantidade de placas de parede de bronze, que representavam a história do reino do Benim nos séculos XV e XVI. Muitas delas são exibidas na seção etnográfica do Museu Britânico, enquanto no Museu da Humanidade encontra-se a principal coleção destas obras de arte.
Em 1984, Sotheby's leiloou uma placa do Benim que representava um músico. O preço de venda foi fixado entre 25 000 e 35 000 libras esterlinas no catálogo da leilão.
Coleções musealizadas de bronzes do BenimAs coleções citadas são as presentes em alguns dos museus onde se encontram peças originárias do Benim, e não é uma tentativa de ser completa nem exaustiva, senão serve para dar ao leitor uma ideia da dispersão destes objetos artísticos. Para uma listagem mais exaustiva consultar: CidadeMuseuNúmero de peçasLondres Museu Britânico 700Berlim Ethnologisches Museum 580Oxford Museu Pitt Rivers 327Hamburgo Museum für Völkerkunde, Museum für Kunst und Gewerbe 196Dresde Staatliches Museum für Völkerkunde 182Nova Iorque Museu Metropolitano de Arte 163Filadélfia Universidade da Pensilvânia Museum of Archaeology and Anthropology 100Leida Rijksmuseum voor Volkenkunde 98Leipzig Museum für Völkerkunde 87Colônia Rautenstrauch-Joest-Museum 73
Atualidade As duas coleções de objetos do Benim mais extensas encontram-se no Museu Etnológico de Berlim e no Museu Britânico de Londres, enquanto a terceira coleção mais ampla é albergada em diferentes museus da Nigéria, principalmente, no Museu Nacional de Lagos.Dohlvik, 2006: pág. 08.
Desde a sua independência em 1960, a Nigéria solicitou várias vezes a devolução dos artefatos desta coleção. O debate sobre a situação dos bronzes em relação ao seu lugar de origem foi um tema rodeado de controvérsia. Frequentemente, a sua devolução foi considerada como o ícone da repatriação total do continente africano. O conjunto dos artefatos do império do Benim tornou-se um caso importante no debate internacional sobre a restituição, equiparável a outros casos como o dos mármores de Elgin do Partenão.Dohlvik, 2006: pág. 24.
O Museu Britânico vendeu mais de 30 peças ao governo da Nigéria desde a década de 1950. Em 1950, o conservador do museu, Hermann Braunholtz, salientou que das 203 placas adquiridas pelo Museu em 1989, cerca de 30 estavam duplicadas, embora feitas individualmente; portanto, eram supérfluas para o Museu, pois tinham a mesma representação. As compras detiveram-se em 1972 e o especialista de arte africana do Museu, Nigel Barley, admitiu que foram um erro.
Em Novembro de 2022, o Horniman Museum and Garden de Londres entregou seis objetos de sua coleção à delegação nigeriana. A instituição foi uma das poucas do Reino Unido a tomar medidas unilaterais do tipo.
Em 2022, a Alemanha assinou uma declaração com a Nigéria para devolver os 1 130 bronzes de Benin em museus públicos alemães. Em dezembro desse ano entregou 20 bronzes de Benin de seus museus à Nigéria.
Peças thumb|Placa de latão que representa a entrada para o palácio do Oba do Benim. Data do e encontra-se no Museu Britânico de Londres A escultura do Benim é mais naturalista que a maioria dos tótemes africanos. As superfícies de bronze estão concebidas para buscar contrastes com a ferida da luz sobre o metal, perceptíveis nas pulseiras de cobre, armaduras de bronze e decorações do fundo, que salientam os torsos das figuras rechonchudas. Os traços das cabeças salientam afastando-se das proporções naturais e o artista fa-las muito maiores, exagerando a modelagem dos olhos, da nariz e dos lábios, que desenha com grande esmero.Leuzinger, 1976: pág. 16 O mais notável das peças é o alto nível de destreza que atingiram os ferreiros do Benim no complexo processo do fundido da cera perdida. Os descendentes destes artesãos do Benim ainda veneram a Igue-igha, quem introduziu a arte do fundido na sua terra, possivelmente aprendido dos árabes em finais do .
Outro aspecto importante destas obras de arte é a sua exclusividade: a propriedade ficava reservada a certas classes sociais, o que reflete a estrita estrutura hierárquica da sociedade do Benim. Em geral, apenas o rei podia possuir objetos de bronze e marfim. Porém, podia dar licença aos chefes de alta posição para usar, por exemplo, máscaras pendurantes ou punhos de braço de bronze e marfim. O coral também foi um material real e os anéis de pescoço deste material foram um símbolo de nobreza, concedidos especificamente pelo Oba.
Temática thumb|Pingente feito de uma liga de cobre e que se levava à cintura (Museu Nacional de Arte Africana) thumb|Pia de altar edo que data dos XVIII e XIX (Museu Nacional de Arte Africana)
O bronze e as talhas de marfim tinham uma variedade de funções na vida ritual e cortesã do Benim. Como arte cortesã, o seu objetivo principal consistia em glorificar o Oba, rei divino, bem como a história do seu império. A arte do Benim conta com uma grande variedade de objetos, dos quais os relevos de bronze ou latão e as cabeças de reis são os mais conhecidos. Os recipientes de bronze, os sinos, ornamentos, joias e objetos rituais caracterizaram-se pelas suas qualidades estéticas, originalidade e mestria artesanal, embora costumem ser eclipsados pelas obras figurativas em bronze e pelas talhas de marfim.