O Transtorno do espectro autista (TEA), conforme denominado pelo DSM-5, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, também conhecido pela sua denominação antiga (DSM IV), autismo, é um transtorno neurológico caracterizado por comprometimento da interação social, comunicação verbal e não verbal e comportamentos ou interesses restritos e repetitivos.William W. Hay; Myron J. Levin; Robin R. Deterding; Judith M. Sondheimer. Current Diagnóstico e Tratamento: Pediatria . McGraw Hill Brasil. p. 127-128. . Entende-se que o TEA não é uma doença, mas sim uma condição do neurodesenvolvimento humano que afeta a forma como as pessoas autistas percebem e interagem com o mundo ao seu redor. Isso inclui não apenas a forma como elas processam informações sensoriais, mas também como elas se relacionam com os outros e compreendem as nuances sociais. Os sinais geralmente desenvolvem-se de forma diferente em cada pessoa e estão sempre presentes desde a primeira infância, no entanto, estes sinais podem permanecer despercebidos durante a infância e a juventude, tornando-se mais perceptíveis ou intensos com o passar do tempo. Em alguns casos, a criança autista alcança o marco de desenvolvimento em um ritmo normal e depois regride, perdendo habilidades sociais, comunicativas e psicomotoras anteriormente aprendidas, o que é chamado de autismo regressivo. É uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças persistentes na comunicação social e por padrões restritos e repetitivos de comportamento. As manifestações comunicativas podem incluir dificuldades na linguagem verbal, não verbal e pragmática.

O autismo é normalmente hereditário, mas a causa inclui tanto fatores ambientais quanto predisposição genética. Em casos raros, o autismo é fortemente associado a agentes que causam defeitos congênitos. Controvérsias em torno de outras causas ambientais propostas; a hipótese de danos causados por vacinas são biologicamente improváveis e têm sido refutadas em estudos científicos. Os critérios diagnósticos exigem que os sintomas se tornem aparentes antes da idade de três anos. Os transtornos do espectro autista afetam o processamento de informações no cérebro, alterando as conexões e a organização das células nervosas. Transtornos antes classificados separadamente, como a Síndrome de Asperger e o Transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação — comumente abreviado como PDD-NOS (sigla em inglês) ou Transtorno pervasivo do desenvolvimento sem outra especificação — comumente abreviado como TID-SOE (sigla em português) — hoje fazem parte de uma única classificação diagnóstica, tanto no DMS-5 (código 299.0) quanto na CID-11 (código 6A02), o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

Intervenções precoces em deficiências comportamentais, cognitivas ou da fala podem ajudar as crianças autistas a ganhar autonomia e habilidades sociais e de comunicação. Não existe cura conhecida, há relatos de casos de crianças que se recuperaram. Poucas crianças autistas vivem de forma independente depois de atingir a idade adulta, embora algumas tenham sucesso. Tem se desenvolvido uma cultura do autismo, com alguns indivíduos buscando uma cura enquanto outros creem que o autismo deve ser aceito como uma diferença e não tratado como um transtorno.

Conforme Lima e Legnani (2020), uma contribuição relevante é a inclusão de estudantes com autismo no campo da educação, uma vez que a socialização e o incentivo ao protagonismo nesse processo pode contribuir com a busca e o interesse pelos conhecimentos, assim como superar alguns dos sinais do autismo. A capacidade de flexibilizar as regras para os alunos com autismo demonstra uma prática educativa voltada para o sujeito, característica marcante da educação pautada na ética da psicanálise. Segundo Lajonquière (2010), essa forma de conceber a educação passa pela via da palavra. É necessário escutar, pois, as pistas de como trabalhar ali comparecem. O ato de escutar a criança com problemas psíquicos além de ser uma aposta no sujeito é a possibilidade de que esse aluno seja acolhido, ensinado, sem a pretensão de normalizá-lo.Santana de Lima, I. L., & Neves Legnani, V. (2020). Um olhar psicanalítico sobre a inclusão de um aluno com autismo. Linhas Crí­ticas, 26, e27244. https://doi.org/10.26512/lc.v26.2020.27244

Desde 2010, a taxa de autismo é estimada em cerca de 1–2 a cada 1.000 pessoas em todo o mundo, sendo mais fácil de identificar em meninos (4–5 vezes mais em meninos do que meninas). Cerca de 1,5% das crianças nos Estados Unidos (uma em cada 68) são diagnosticadas com TEA, a partir de 2014, houve um aumento de 30%, uma a cada 88, em 2012. Em 2014 e 2016, os números foram de 1 em 68. Em 2018, um aumento de 15% no diagnóstico elevou a prevalência em 1 para 59 crianças. A taxa de autismo em adultos de 18 anos ou mais no Reino Unido é de 1,1% o número de pessoas diagnosticadas vem aumentando drasticamente desde a década de 1980, em parte devido a mudanças na prática do diagnóstico e incentivos financeiros subsidiados pelo governo para realizar diagnósticos; a questão se as taxas reais têm aumentado realmente, ainda não é conclusiva.

No Brasil, ainda não há número precisos, muito menos oficiais a respeito de epidemiologia dos casos de autismo. O único estudo brasileiro sobre epidemiologia de autismo, foi feito em 2011, um estudo-piloto ainda numa amostragem pequena, apenas 20 mil pessoas, num bairro da cidade de Atibaia (SP), resultando em 1 caso a cada 367 crianças. Em 5 de novembro de 2018, a Spectrum News lançou um mapa mundi online, em inglês, com todos os estudos científicos publicados de prevalência de autismo mundo afora.

Um dos principais símbolos para o TEA é a Fita quebra-cabeças. Ele foi criado por Gerald Gasson, então membro do National Autistic Society em Londres, para simbolizar as dificuldades de compreensão enfrentadas pelas pessoas com o TEA, comparadas assim a peças de um quebra-cabeça, onde as peças podem não encaixar da maneira correta, mas é necessário compreensão para entender e ajudar.

Histórico O Transtorno do espectro autista (TEA) é um diagnóstico neuropsiquiátrico que passou por profundas transformações desde sua descrição inicial como “autismo infantil” até a consolidação das categorias atuais nos principais sistemas classificatórios internacionais. Este artigo apresenta uma análise detalhada e imparcial da evolução histórica dos critérios diagnósticos, dos principais marcos científicos e das controvérsias que moldaram a compreensão do autismo, incluindo debates recentes e as perspectivas do movimento da neurodiversidade.

Foi descrito pela primeira vez em 1925 por Grunya Sukhareva, uma psiquiatra infantil soviética, publicado em um artigo originalmente em russo e traduzida para o alemão no ano seguinte, na revista Monatsschrift für Psychiatrie und Neurologie vol. 3-4, p. 235–247. Sua descrição de sintomas e características em muito se assemelha aos itens diagnósticos atuais. Anos depois, em 1943, foi descrito pelo médico austríaco Leo Kanner, trabalhando no Johns Hopkins Hospital, em seu artigo Autistic disturbance of affective contact, na revista Nervous Child, vol. 2, p. 217–250. No mesmo ano, o também austríaco Hans Asperger descreveu, em sua tese de doutorado, a psicopatia autista da infância. Embora ambos fossem austríacos, devido à Segunda Guerra Mundial não se conheciam.

Discute-se ainda o motivo exato do trabalho de Sukhareva não ter sido citado pelos autores em suas investigações, como por questões políticas envolvidas; Asperger era afiliado ao Partido Nazista e Sukhareva possuía ascendência judaica. Além disso, como o trabalho da pesquisadora já havia sido traduzido e publicado em alemão um ano depois, não existia nenhuma barreira ao acesso a estes materiais por parte de Asperger e Kanner, o qual até citou a publicação de Sukhareva de 1932, Über den Verlauf der Schizophrenien im Kindesalter em artigos publicados em 1949 e 1962.

A palavra "autismo" foi criada por Eugen Bleuler, em 1911, para descrever um sintoma da esquizofrenia, que definiu como sendo uma "fuga da realidade". Sukhareva inicialmente usou o termo "psicopatia esquizóide" para descrever o quadro clínico observado em suas investigações; Kanner em seu trabalho chamou de "distúrbios autistas de contato afetivo"; e Asperger denominou o transtorno de "psicopatia autista na infância".

A compreensão do TEA evoluiu significativamente desde a primeira descrição clínica de Leo Kanner em 1943, que identificou o “autismo infantil precoce”. Paralelamente, Hans Asperger descreveu crianças com dificuldades sociais, mas com linguagem e cognição preservadas, posteriormente denominadas Síndrome de Asperger.

Durante décadas, o autismo foi confundido com esquizofrenia infantil e atribuído erroneamente a fatores parentais, como a teoria das “mães-geladeira”. O reconhecimento do autismo como entidade diagnóstica própria ocorreu com o DSM-III (1980), que separou o autismo da esquizofrenia e estabeleceu critérios baseados em déficits de comunicação, interação social e comportamentos repetitivos.

O DSM-IV (1994) ampliou o conceito para “Transtornos Globais do Desenvolvimento”, incluindo subtipos como Síndrome de Asperger e Transtorno desintegrativo da infância. Com o DSM-5 (2013), houve a unificação dos subtipos sob o termo “Transtorno do Espectro Autista”, reconhecendo a heterogeneidade clínica e abolindo o diagnóstico separado da Síndrome de Asperger. A CID-11 (2022) seguiu a mesma tendência, consolidando o espectro e alinhando-se aos avanços científicos e sociais.

Em , a Organização das Nações Unidas decretou 2 de abril como Dia Mundial do Autismo. Em 2008 houve a primeira comemoração da data pela ONU.

Em novembro de 2010, a ciência falou pela primeira vez em cura do autismo, com a publicação na revista científica Cell da descoberta de um grupo de cientistas nos EUA, com o pesquisador brasileiro Alysson Muotri, na Universidade da Califórnia, que conseguiu "curar" um neurônio "autista" em laboratório. O estudo, que se baseou na Síndrome de Rett (um tipo de autismo com maior comprometimento e com comprovada causa genética).

Em 2012, o Brasil sancionou a “Lei Berenice Piana” — Lei 12.764, de 2012 —, que criou a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro do Autismo, regulamentada pelo Decreto 8.368, de 2014.

Em maio de 2013, saiu a versão atualizada do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, o DSM-5 — substituindo o DSM-IV, criado em 1994 e revisado em 2000 — que cunhou o termo técnico Transtorno do Espectro Autista (TEA), integrando todos os transtornos do espectro, sob o código 299.0.

Em junho de 2018, a OMS lançou a CID-11, a nova versão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, acompanhando o DSM-5 e também fundindo as classificações diagnósticas do espectro autista em um único código, o 6A02, para TEA.

Definição e critérios diagnósticos O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é definido como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits persistentes na comunicação e interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Segundo o DSM-5-TR, para o diagnóstico de TEA é necessário:

Déficits persistentes em reciprocidade social-emocional, comunicação não verbal e desenvolvimento/manutenção de relacionamentos; Pelo menos dois padrões restritos e repetitivos de comportamento, como movimentos motores estereotipados, insistência em rotinas, interesses fixos e reatividade sensorial atípica; Início dos sintomas no período do desenvolvimento inicial, ainda que possam se manifestar plenamente apenas quando as demandas sociais excedem as capacidades do indivíduo; Prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes;