thumb|300px|Praça Alta
Badajoz é uma cidade e município raiano da Espanha na província homónima, da qual é capital. Faz parte da comunidade autónoma da Estremadura e da comarca da Terra de Badajoz. Tem de área e em tinha habitantes (), que representa aproximadamente 20% da população da província e 7% da Estremadura.
Batizada pelos seus fundadores muçulmanos Baṭalyūs (), a sua designação em português vernáculo era Badalhouce até ao período da dinastia filipina, um termo que persiste ainda hoje em galego. Além de ser a maior cidade da Estremadura, é também o principal centro económico da região. Situa-se a um par de quilómetros da fronteira com a cidade portuguesa de Elvas, à beira do rio Guadiana, um dos rios mais importantes da Península Ibérica, que atravessa a cidade de leste para oeste, virando em seguida para sul. Apesar da dimensão do município ser bastante menor do que no passado, Badajoz é o terceiro maior município de Espanha em área, a seguir a Cáceres e Lorca. Tem 10 núcleos populacionais, dentre os quais se destacam, além da cidade, Gévora, Valdebótoa e Villafranco del Guadiana, todos com mais de mil habitantes.
A cidade foi fundada em 892 por Ibne Maruane, durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, num local habitado desde os tempos pré-históricos mais remotos e sobre um povoado visigodo já então desaparecido ou pelo menos muito degradado, no cimo de uma das duas colinas que dominam a cidade: o Cabeço da Muela ou o Cabeço do Montúrio. Em frente, na margem direita do Guadiana, situam-se as Cuestas (encostas) de Orinaza ou Cerro de San Cristóbal, também conhecidas antigamente como Baxernal ou Baxarnal. A fundação da cidade é comemorada pelos seus habitantes, denominados pacenses, na festa Almossasa Batalyaws, realizada em finais de setembro.
A parte mais antiga da cidade é chamada Casco Antigo ou bairro histórico. Aí se encontram vários edifícios classificados como "Bem de Interesse Cultural", nomeadamente a catedral, a alcáçova, as muralhas de estilo Vauban, a Igreja de São Domingos e o Real Mosteiro de Santa Ana. Na década de 2000, a Praça Alta (Plaza Alta) e a Praça de Espanha, dois dos locais mais emblemáticos de Badajoz, foram restauradas em larga escala. A última é onde se encontra o ayuntamiento, a catedral, o Arquivo Histórico Municipal, o , a Casa del Cordón e a Casa Buiza. Outra praça importante em termos de património é a da Soledad, onde se encontram edifícios como a La Giralda, Las Três Campanas e o Conservatório de Música. A quarta praça monumental da cidade é a de San Andrés, onde se situam a igreja homónima, o Hotel Cervantes a Casa Regionalista e a Casa Puebla. A cidade dispõe de vários parques e jardins.
História Lendas Como é comum para tantas localidades ibéricas, alguns historiadores do passado — neste caso o primeiro parece ter sido do — avançaram com versões que têm tanto ou mais de fantasia como de fiabilidade histórica sobre a origem de Badajoz. Segundo Rodrigo Dosma, o fundador da cidade teria sido Tubal, neto de Noé, que 143 anos depois do Dilúvio Universal se instalou nas proximidades ou praticamente no local onde é a cidade.
Outra versão lendária da fundação da cidade está relacionada com São Hermenegildo, o príncipe visigodo do , que abjurou o arianismo, a religião oficial visigótica, e abraçou o catolicismo, persuadido pelo seu tio São Leandro, arcebispo de Sevilha. Esta conversão provocou uma guerra com o pai de Hermenegildo, o rei Leovigildo. O filho foi derrotado pelo pai perto de Badajoz, tendo sido deportado. Posteriormente, Hermenegildo abandonou a luta com o pai e retirou-se com trezentos cavaleiros para o castelo de Osset, que é identificado com a atual aldeia portuguesa raiana de Ouguela, que nessa altura pertencia à cidade de Badajoz. Uma versão ampliada desta história é contada por Solano de Figueroa, que também fala de uma fonte milagrosa em Osset e dos prodígios que nela se passavam.
Outra história relacionada com os visigodos envolve o último bispo godo de Badajoz, Benedito, que se juntou com os seus cavaleiros às tropas que tinham sido reunidas em Mérida pelo Conde Tendero, governador da cidade, e Máximo, o bispo local, para ajudar o rei contra a invasão islâmica da Península, iniciada com o desembarque em Tarifa em 711. Tendo sido derrotado na batalha travada junto ao rio Guadalete, Benedito retirou para Mérida e depois para Badajoz, onde permaneceu escondido durante algum tempo, indo de seguida para Alcobaça, onde morreu passado pouco tempo.
Pré-história e Antiguidade
Os vestígios arqueológicos na área remontam ao Paleolítico Inferior. No Museu Arqueológico Provincial de Badajoz estão guardados achados que que atestam que diversos grupos humanos habitaram há meio milhão de anos zonas muito próximas do território da cidade atual, mas sabe-se muito pouco sobre o seu modo de vida. Não se conhecem vestígios de ocupação humana entre o 40.º e o , mas a partir deste último há sinais da presença de grupos humanos em áreas próximas de Badajoz, como artefatos de pedra talhada do Musteriense (em La Corchuela, Dehesilla de Calamón, Torrequebrada, etc.), pinturas rupestres (em cavernas e zonas resguardadas das serranias de Alburquerque, La Zarza e outros locais). Há monumentos megalíticos que datam pelo menos de
thumb|esquerda|Palácio dos Duques de Feria, onde está instalado o Museu Arqueológico Provincial
Há uma grande quantidade de dados arqueológicos relativos ao início do Calcolítico (ca. ) nas imediações de Badajoz. Estes dados indicam que nas veigas do Guadiana existiam vários assentamentos de população estável, cujos habitantes realizavam mais trabalhos ao ar livre do que os seus antecessores de épocas mais recuadas, cuja presença se verifica principalmente em cavernas. Tal leva a supor que o clima era mais benigno e mais propício para trabalhar no campo. Encontraram-se vestígios de choças rudimentares, mas bem isoladas e formando povoados cujo número de habitantes não deve ter ultrapassado o milhar. O modo de subsistência passou da caça para a agricultura e pecuária realizadas de forma estável. É também neste período que surgem as primeiras atividades mineiras e metalúrgicas, que consistem principalmente na extração, fundição e manipulação de cobre. Há também restos de cerâmica, como pratos e panelas, peças de metal elaborado, fossas de enterramentos comuns, que evidenciam assentamentos estáveis do Eneolítico e Calcolítico, que foram datados entre e Destacam-se pela sua relevância principalmente os achados do sítio arqueológico de El Lobo, na margem esquerda do Guadiana, num local que atualmente é praticamente dentro da cidade. Outras estações arqueológicas importantes são os de Las Crispitas e de o de Céspedes, ambos na mesma margem do rio, mas a jusante; o primeiro situa-se em frente ao atual bairro de São Roque, perto dos restantes.
Há também vestígios arqueológicos da Idade do Bronze, nomeadamente estelas do final desse período. Outros achados incluem armas como machados e espadas, objetos de uso quotidiano, como cerâmica e utensílios, e joalheria, como pulseiras. Entre estes achados destaca-se o jarro encontrado em La Zarza, datada do que, como grande parte das restantes peças, se encontra no Museu Arqueológico Provincial. Do período romano, há foram encontrados alguns artefatos no local conhecido como Colónia Pacense (Colonia Pacencis), situada perto de Badajoz, embora em muito menor número do que na não muito distante Mérida.
thumb|upright|Colar de ouro que faz parte do chamado Tesouro de Sagrajas, um dos mais ricos achados arqueológicos do final da Idade do Bronze na Estremadura; do acervo do Museu Arqueológico de Espanha
Para alguns autores, nos cimos do cerros da Muela e de San Cristóbal, que hoje constituem a parte mais antiga da cidade, já existiria uma povoação pré-romana, que seria a Bada, Badia, Badya ou Budua referida por Valério Máximo e Plutarco como o lugar em que Cipião Africano sitiou durante os combates contra Viriato. Há (ou houve) também alguns autores locais que identificam Badajoz com a cidade onde foi assinado um tratado de paz entre esse Viriato e Quinto Fábio Máximo, que foi rebatizada "Cidade da Paz" (Civitas Pacis) após esse tratado. Fábio Máximo foi enviado por Roma para a Lusitânia para vencer definitivamente os últimos resistentes lusitanos, o que conseguiu. Como contrapartida da capitulação, Viriato recebeu o título de amicus populi romani ("amigo do povo romano"). Outros autores situam o tratado de paz em Bácia ou Bátia, que depois seria Badia e posteriormente Badajoz. Em 1901, Thous Moncho estimava que «o ilustre Viriato era estremenho, ou melhor dito pacense». No entanto, face à escassez de dados da última fase da época pré-romana, alguns alguns estudiosos consideram que, a existir alguma localidade, ela não deveria ter sido mais do que uma modesta aldeia.
Com a invasão da Península Ibérica pelos romanos, iniciada em , durante a Segunda Guerra Púnica, Badajoz e o que é hoje a Estremadura espanhola passaram a fazer parte da divisão administrativa romana chamada Hispânia Ulterior ("Espanha Distante"), que foi depois dividida pelo imperador Augusto nas províncias da Hispânia Ulterior Bética e Hispânia Ulterior Lusitânia. A região de Badajoz fazia parte desta última, a qual tinha a sua capital em Mérida (Augusta Emerita). Embora não haja documentos históricos romanos que mencionem claramente localidades no que é hoje Badajoz, foram descobertas villas romanas na área, como a de La Cocosa. Também há restos de construções do período visigótico . Por vezes se tem associado o topónimo "Augustóbriga" citado por André de Resende com Badajoz.
Idade Média thumb|esquerda|Estátua de ibne Maruane nos jardins da alcáçova (Alcazaba) de Badajoz, a antiga fortaleza construída originalmente pelos muçulmanos
thumb|esquerda|Porta da cripta e órgão da Catedral de Badajoz, um edifício cuja construção foi iniciada na segunda metade do
Badajoz tornou-se uma cidade importante durante o período muçulmano (Alandalus). Do até ao início do a região fez parte do Califado de Córdova. A data oficial da fundação da cidade é 875, ano em que o nobre muladi rebelde Ibne Maruane ali se instalou quando foi expulso da sua terra natal, Mérida. Sob o governo de Ibne Maruane, Batalyaws, como era então conhecida, foi a capital de um estado rebelde praticamente independente que só foi extinto no .
Em 1021 ou talvez em 1031, quando se estima que tivesse habitantes, tornou-se a capital do reino taifa de Badajoz. Em contraste com a generalidade das taifas ibéricas, quase todas de pequena dimensão territorial, a Taifa de Badajoz chegou a ter (um pouco mais do que Portugal atualmente), estendendo-se por praticamente tudo o que é atualmente a Estremadura espanhola, parte de Castela quase até Leão e, a ocidente ocupava grande parte do que é hoje Portugal, desde o rio Douro, até praticamente todo o Alentejo, incluindo ainda Lisboa e Santarém. Principalmente durante os reinados dos reis aftácidas Almuzafar (ou Modafar I) e Omar Almotauaquil, Badajoz foi um centro de cultura e ciência elogiado pelos cronistas islâmicos.
A primeira taifa de Badajoz sucumbiu perante as invasões dos Almorávidas vindos do Norte de África a partir de 1067. Em 1086, durante o reinado de , Badajoz foi conquistada brevemente pelo Reino de Leão. Seguiu-se a invasão dos Almóadas em 1147. Foi temporariamente dominada pelos portugueses em 1168, mas voltaria a ser independente (ou semi-independente sob os Almóadas) pouco depois. O domínio dos mouros terminaria definitivamente com a tomada por em 19 de março de 1230. Pouco depois da conquista, durante o reinado de Afonso X, o Sábio , foi criada uma diocese e foi iniciada a construção da catedral.