Vitória Melita de Saxe-Coburgo-Gota (Attard, 25 de novembro de 1876 - Amorbach, 2 de março de 1936), nascida Princesa do Reino Unido e de Saxe-Coburgo-Gota e Duquesa da Saxônia, tornou-se Grã-Duquesa de Hesse e do Reno, por casamento, em 1894. Divorciada em 1901, casou-se novamente e tornou-se grã-duquesa da Rússia em 1905.

Foi a terceira criança e segunda filha de Alfredo, Duque de Saxe-Coburgo-Gota e da grã-duquesa Maria Alexandrovna da Rússia, tendo sido neta da rainha Vitória do Reino Unido e do imperador Alexandre II da Rússia.

Vitória Melita, uma princesa britânica, viveu alguns dos seus primeiros anos na ilha de Malta, onde seu pai servia como oficial da Marinha Real. Em 1889, a família mudou-se para Coburgo, onde Alfredo tornou-se duque reinante em 1893. Durante sua adolescência, Vitória apaixonou-se por um primo do lado materno, o grão-duque Cirilo Vladimirovich da Rússia, mas eles não podiam se casar porque a religião cristã ortodoxa proibia o casamento entre primos de primeiro grau. Assim, curvando-se à pressão da família e aos desejos da rainha Vitória, a princesa acabou por se casar em 1894 com um primo do lado paterno, o grão-duque Ernesto Luís de Hesse. O casamento foi um fracasso e Vitória escandalizou as famílias reais europeias ao se divorciar, em 1901. A única filha do casal morreu de febre tifoide, em 1903.

Vitória casou-se com Cirilo Vladimirovich em 1905. Entretanto, como o consórcio não teve a aprovação do czar Nicolau II, este despojou o grão-duque de todos os seus títulos e honrarias e baniu o casal da corte russa. Vitória e Cirilo estabeleceram-se em Paris, onde nasceram suas duas filhas e onde viveram até 1909, quando receberam autorização para retornar à Rússia. Em 1910, após sua conversão à fé ortodoxa, passou a chamar-se Vitória Feodorovna. Com a queda da monarquia russa, em 1917, a família fugiu para a Finlândia, onde a grã-duquesa deu à luz seu único filho varão. No exílio, eles viveram por alguns anos na Alemanha, mudando-se para Saint-Briac no final dos anos 20. Foi lá que, em 1926, com o apoio de Vitória, Cirilo autoproclamou-se czar exilado. A grã-duquesa morreu em virtude de um acidente vascular cerebral, enquanto visitava sua filha Maria em Amorbach.

Biografia Primeiros anos Vitória nasceu em 25 de novembro de 1876 no Palácio de San Anton, em Malta, daí o seu segundo nome, Melita. Seu pai, que servia na ilha como oficial da Marinha Real, era o príncipe Alfredo, Duque de Edimburgo, filho da rainha Vitória do Reino Unido e do príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gota. Sua mãe era a grã-duquesa Maria Alexandrovna da Rússia, filha do imperador Alexandre II da Rússia e de Maria de Hesse-Darmstadt. Como neta da monarca britânica, ela recebeu o tratamento de "Sua Alteza Real, a Princesa Vitória de Edimburgo", mas entre a família era chamada de Ducky ("patinha") e ocupava, ao nascer, o 10º lugar na linha de sucessão ao trono britânico. A princesa foi batizada em 1 de janeiro de 1877, no Palácio de San Anton, pelo capelão da Marinha Real. Entre seus padrinhos estava sua avó materna, representada no ato por um procurador. esquerda|miniaturadaimagem|261x261px|Vitória Melita na infância, em 1885. Após o termo do serviço em Malta, o duque e sua família retornaram para a Inglaterra, dividindo seu tempo entre Eastwell Park, sua casa de campo em Kent, e a Clarence House, sua residência londrina, em frente ao Palácio de Buckingham. Eastwell – uma propriedade com mais de 10 mil hectares, próximo a Ashford – com sua floresta e parque, era a residência favorita das crianças. No entanto, o casamento dos duques de Edimburgo foi infeliz. Alfredo era taciturno, infiel, propenso à bebida e emocionalmente distante de sua família. Já a mãe de Vitória era independente e culta. Embora fosse rígida e pouco afeita ao sentimentalismo, a duquesa foi uma mãe dedicada e teve grande importância na vida dos filhos.

Quando criança, a princesa Vitória tinha um temperamento difícil. Ela era tímida, pensativa e sensível. Segundo sua irmã, a rainha Maria da Romênia, "essa criança passional foi muitas vezes incompreendida". A princesa tinha talento para o desenho e a pintura e aprendeu a tocar piano. Embora contrastassem tanto na aparência quanto na personalidade, Vitória e Maria tiveram um relacionamento muito estreito ao longo de suas vidas.

Em janeiro de 1886, pouco depois de Vitória completar nove anos, a família voltou a residir em Malta, onde o duque de Edimburgo fora nomeado comandante-em-chefe da esquadra naval do Mediterrâneo.

right|thumb|210px|O duque de Saxe-Coburgo-Gota e sua família no Palácio Rosenau, em Coburgo. Da esquerda para a direita: princesa Beatriz, Alfredo e Maria Alexandrovna, a duquesa-viúva Alexandrina, princesa Vitória, princesa Alexandra e princesa Maria.

Vida em Coburgo Uma vez que era filho do príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gota, o pai de Vitória também estava na linha de sucessão ao trono do ducado de Saxe-Coburgo-Gota. Alfredo tornou-se o herdeiro presuntivo quando seu irmão mais velho, o príncipe de Gales (mais tarde Eduardo VII), renunciou aos seus direitos sucessórios. Em 1889, a família mudou-se para Coburgo. Maria Alexandrovna, que nutria sentimentos pró-alemães, começou imediatamente a tentar germanizar suas filhas, contratando uma nova governanta, vestindo as princesas com roupas simples e consagrando-as à Igreja Luterana alemã, apesar de estas terem sido criadas no seio da Igreja Anglicana. Como as crianças se rebelassem, algumas das restrições impostas foram suavizadas.

De acordo com um observador, a jovem Vitória era uma "garota alta e morena, com olhos violeta... a confiança de uma Imperatriz e a impulsividade de um moleque". A princesa tinha "muito pouco queixo para ser convencionalmente bonita", na opinião de um de seus biógrafos, mas "tinha uma boa figura, profundos olhos azuis e pele morena". Em 1891, Vitória viajou com a mãe para os funerais da grã-duquesa Alexandra Georgievna, esposa de seu tio, o grão-duque Paulo Alexandrovich da Rússia. Lá, a princesa conheceu o grão-duque Cirilo Vladimirovich, seu primo em primeiro grau. Embora os dois se sentissem profundamente atraídos um pelo outro, a mãe de Vitória relutava em permitir um casamento, porque a Igreja Ortodoxa Russa proibia a união entre primos de primeiro grau. Além disso, Maria Alexandrovna duvidava da moralidade dos homens Romanov. Quando as princesas adolescentes se impressionaram com a beleza de seus primos, sua mãe advertiu-as de que os grão-duques russos não eram bons maridos.

Pouco depois do casamento da princesa Maria com o príncipe Fernando da Romênia, os pais de Vitória começaram a procurar um marido adequado para ela. Sua visita à avó, no Castelo de Balmoral, no outono de 1891, coincidiu com a visita de seu primo, o príncipe Ernesto Luís, herdeiro do trono do Grão-ducado de Hesse. A rainha Vitória notou a grande afinidade que existia entre os netos – eles inclusive faziam aniversário no mesmo dia – e entusiasmou-se com a ideia de um casamento. No entanto, os príncipes relutavam. Vitória reencontrou Cirilo em São Petesburgo e ambos se apaixonaram.

Grã-Duquesa de Hesse thumb|esquerda|200px|Vitória e Ernesto no dia de seu casamento. Posteriormente, Vitória e Ernesto cederam à pressão das suas famílias e acabaram por se casar em 9 de abril de 1894 no Palácio de Ehrenburg, em Coburgo. O casamento foi um grande evento que contou com a presença de grande parte das famílias reais europeias – incluindo a rainha Vitória, a imperatriz-viúva da Alemanha, o kaiser Guilherme II e o príncipe de Gales. Vitória recebeu o título de Grã-duquesa de Hesse e do Reno. A ocasião ganhou maior significado por ter sido o palco do pedido de casamento do futuro czar Nicolau II a Alix, irmã mais nova de Ernesto.

Vitória e Ernesto tiveram dois filhos juntos, uma filha, a princesa Isabel de Hesse (que foi apelidada de Ella), nascida a 11 de março de 1895, e um natimorto que não recebeu nome, nascido a 25 de maio de 1900.

O casamento de Vitória e Ernesto foi infeliz. Vitória se desesperava com a falta de atenção do marido, enquanto este se dedicava inteiramente à sua filha, que adorava. Isabel, que se parecia fisicamente com a mãe, preferia a companhia do pai à de Vitória. Ambos gostavam de se divertir juntos e davam frequentemente festas em sua casa para os seus amigos mais jovens. Sua regra era que todas as pessoas com mais de 30 anos eram “velhas e excluídas”. Nestas festas, a formalidade era dispensada, os convidados eram tratados por seus apelidos e encorajados a fazer o que quisessem. Vitória e Ernesto mantinham no seu círculo de amigos artistas progressistas e intelectuais, assim como todos os que gostassem de se divertir. O primo de Vitória, o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca, recordava uma dessas ocasiões como “a mais alegre e divertida festa em que já estive na vida”.

Contudo, Vitória não tinha nenhum entusiasmo em exercer suas funções públicas. Ela evitava responder a cartas, cancelava visitas a antigos conhecidos cuja companhia não lhe agradasse e só conversava com quem a distraía durante os eventos oficiais, ignorando pessoas de maior posição que considerasse aborrecidas. A desatenção de Vitória para com os seus deveres oficiais provocava acesas discussões com Ernesto. O jovem casal tinha violentos atritos que, muitas vezes, terminavam em agressões físicas. Com seu gênio volátil, Vitória gritava, atirava bandejas de chá, atirava objetos de porcelana contra a parede e tudo o que tivesse à mão contra Ernesto durante essas “batalhas”. Só o que aliviava sua tensão era o amor pelos cavalos, quando dava longos passeios a galope montada em Bogdan, um cavalo bastante indócil. Quando esteve na Rússia para a coroação de Nicolau II, a afeição por Cirilo renovou-se. Ela gostava de flertar com ele nos bailes e festas que marcaram o evento.

Divórcio O casamento com Ernesto sofreu um duro golpe em 1897, quando Vitória, regressando de uma visita à sua irmã, a rainha Maria da Romênia, teria surpreendido seu marido na cama com um criado. Embora não tenha feito qualquer acusação pública, disse a uma sobrinha que "nenhum rapaz estava a salvo, desde o cocheiro ao ajudante de cozinha. Ele dormia abertamente com todos". A rainha Vitória ficou desapontada quando soube por seu encarregado de negócios, sir George Buchanan, dos problemas vividos pelo casal, mas recusou-se a considerar uma permissão para um divórcio por causa da pequena Ella.

Os esforços para salvar o casamento falharam e, com a morte da rainha Vitória, em janeiro de 1901, a oposição ao divórcio terminou. O Supremo Tribunal de Hesse dissolveu a união a 21 de dezembro de 1901. Ernesto, que a princípio havia resistido à ideia do divórcio, aceitou o fato de que essa era a única solução possível. “Agora que estou mais calmo, vejo a impossibilidade absoluta de continuar a viver uma vida que a estava matando e deixando-me quase louco,” escreveu Ernesto numa carta à sua irmã mais velha, a princesa Vitória. “Manter o pensamento positivo e um sorriso quando a ruína nos olha mesmo nos olhos e a miséria nos parte o coração em pedaços é uma luta inútil. Só tentei pelo bem dela. Se não a amasse tanto, já teria desistido há muito tempo”. Sua irmã respondeu-lhe, mais tarde, que não estava tão surpresa com o divórcio quanto Ernesto. “Apesar de ambos terem feito o seu melhor para garantir o êxito no casamento, ele foi um fracasso,” escreveu ela. “Suas personalidades e temperamentos eram muito pouco adequados um para o outro e já havia notado como estavam cada vez mais afastados”. O divórcio do Grão-duque reinante de Hesse causou escândalo nos círculos reais da Europa. O czar Nicolau II escreveu à sua mãe, dizendo que “até a morte teria sido melhor do que a desgraça de um divórcio”.