A antiga cidade de Calatrava, conhecida desde o como Calatrava, a Velha (), foi uma importante praça-forte do Alandalus no vale médio do rio Guadiana. As suas ruínas situam-se no município de Carrión de Calatrava da província de Cidade Real, comunidade autónoma de Castela-Mancha, Espanha.
A cidade deu origem ao nome da região onde se encontra e à ordem militar de Calatrava. Durante a Alta Idade Média foi a única cidade importante do Alandalus no vale médio do Guadiana. A sua localização estratégica na margem esquerda (oriental) desse rio fazia dela um ponto de passagem obrigatório no caminho entre Córdova e Toledo e nas comunicações entre o ocidente e o oriente da Península Ibérica.
Foi fundada pelos omíadas em finais do e pertenceu ao emirado e Califado de Córdova durante os quatro séculos seguintes. Em meados do , após passar para as mãos do Reino de Castela, foi uma das primeiras possessões da Ordem dos Templários nesse reino. Depois dos templários a terem abandonado, foi em Calatrava, a Velha que foi estabelecida a primeira sede da Ordem de Calatrava, em 1158, a mais antiga ordem militar ibérica. Com a trasladação da sede da ordem para o Castelo de Dueñas (que pouco depois passou a ser conhecido como Calatrava, a Nova), situado 60 km a sul, a praça-forte foi perdendo importância e acabou por ser abandonada no início do . Um século depois a cidade estava praticamente despovoada.
Etimologia O topónimo Calatrava deriva do (, "fortaleza de arrábita"), que não faz referência à pessoa a quem teria sido concedido o lugar num regime similar ao das encomiendas pelo Emirado de Córdova no . A cidade foi reconstruída com nova planta durante o reinado do emir cordovês , para controlar a tumultuosa Toledo e a rota Toledo-Córdova. A área de Calatrava era dominada por árabes propriamente ditos (ou seja, originários da Arábia) pertencentes à tribo dos becritas, estabelecidos na região desde os tempos da conquista (711).
A palavra ("fortaleza") é uma das mais recorrente na toponímia árabe da Península Ibérica e frequentemente áparece ligada a nomes (casos em que toma um t no final: ), por vezes de pessoas (antropónimo, como por exemplo Calatayud ou Calatalifa) ou vezes não (exemplos: Calatanhaçor, Calatorao, Calamocha e Calaceite). Também aparece sozinha, precedida do artigo al-, como em Alcalá e em Alcolea. foi adaptado ao como Calatrava, quando a região foi tomada pelo Reino de Castela.
História
Calatrava, a Velha situa-se num enclave de grande importância estratégica, numa península fluvial na confluência do rio Guadiana e do ribeiro de Valdecañas, no alto dum cerro de cimo plano onde se controla facilmente o cruzamento do Guadiana. Tratava-se duma posição facilmente defensável, quer pela presença do rio, quer por se encontrar numa zona lagunar, a oeste das Tablas de Daimiel. O local da cidade já tinha sido povoado antes da construção da fortaleza islâmica — nas escavações realizadas no local foram encontrados vários níveis de ocupação pré-históricos. Pela cidade passava o principal caminho entre Córdova e Toledo, a cujo controlo a cidade devia grande parte da sua importância.
Há registo da existência da praça fortificada de Calatrava já em 785. Em 853, devido aos confrontos entre a cidade rebelde de Toledo e o Emirado de Córdova, ficou parcialmente em ruínas, mas foi reconstruída pouco depois. Essa reconstrução, levada a cabo por Aláqueme, irmão do emir , marcou o início do período de maior esplendor da cidade. Entre 853 e 1147 foi a capital duma ampla região. No nasceu em Calatrava o ilustre poeta , que nas suas obras elogiou a sua terra natal, apesar de provavelmente ter vivido em Sevilha ou Saragoça, lugares mais propícios para o cultivo da poesia.
Após a queda do Califado de Córdova, na primeira metade do , o seu domínio foi disputado pelas taifas de Sevilha, Córdova e Toledo. Depois da conquista de Toledo pelo rei , em 1085, e a subsequente chegada dos almorávidas à Península Ibérica, um ano depois, Calatrava foi a região mais avançada do Alandalus durante os contínuos ataques ao reino cristão castelhano.
Em 1147 Calatrava foi tomada por de Leão e Castela, tornando-se na praça cristã mais avançada na frente com os muçulmanos. A região foi concedida à Ordem dos Templários, que a abandonaram pouco depois. Em 1158 o rei deu Calatrava ao abade , que ali fundou a Ordem de Calatrava.
A cidade foi conquistada pelo almóadas em 1195, na sequência da vitórias destes sobre na Batalha de Alarcos. Os almóadas mantiveram-na durante 17 anos, até 1212, quando o rei castelhano a retomou durante a campanha que culminaria da decisiva Batalha das Navas de Tolosa. Em 1217, a sede da Ordem de Calatrava foi trasladada para o Castelo de Dueñas, situado 60 km a sul, que passou a ser conhecido como Calatrava, a Nova. A antiga cidade muçulmana passou a ser conhecida Calatrava, a Velha, permanecendo como cabeça duma encomienda que tinha a sua sede no antigo alcácer islâmico. Acabou por ser definitivamente abandonada no início do , quando o comendador militar (líder da encomienda) local mudou a sua residência para a cidade vizinha de Carrión de Calatrava. No início do o local estava praticamente despovoado.
Todas as povoações da comarca de Campo de Calatrava pertenciam à Ordem de Calatrava, uma situação que ainda hoje é patente nos topónimos de muitas dessas povoações, que conservam Calatrava na segunda parte do seu nome.
Sítio arqueológico thumb|Maquete de , com as duas couraças (a da almedina e a do alcácer) que eram usadas para levar água do rio para a cidade.
Atualmente Calatrava, a Velha é um dos sítios arqueológicos de origem islâmica mais relevantes no território espanhol, que na década de 2010 estava a ser escavado e restaurado. A importância dos restos existentes deve-se ao considerável desenvolvimento alcançado por Calatrava no período entre 785, data da primeira menção documental conhecida sobre a sua existência, e 1212, ano em que se iniciou o processo de decadência que originou que no início do a antiga cidade estivesse praticamente abandonada.
Embora tenham sido encontrados vestígios pré-históricos que comprovam que no local existiu um grande assentamento ibero importante, não há dados arqueológicos que permitam supor que houve ocupação durante os períodos romano e visigodo, provavelmente devido à insalubridade da área.
O recinto arqueológico inclui 44 torres, rodeadas por um fosso, da época islâmica, alimentado pelas águas do Guadiana. Há restos de engenhos hidráulicos de grande complexidade tecnológica para a época, como a das quatro couraças, que levavam água desde o fosso até à cidade para a abastecer. Parte dessa água era desviada para a torre pentagonal, desde a qual saía com grande pressão através dum sistema de tubos, de volta para o fosso. Este era um sistema defensivo hidráulico sem paralelo na época. Do período templário há vestígios duma igreja inacabada. Há também restos de dependências da igreja calatrava posterior.
Muralhas e fosso thumb|left|As muralhas vistas do lado oriental, com o fosso e primeiro plano e uma torre albarrã atrás
Calatrava, a Velha ocupa um planalto de de planta ovoide com 5 hectares de área, na margem esquerda do rio Guadiana. Dali tem-se um amplo domínio visual das vizinhanças, mas as capacidades defensivas naturais não são muito significativas. A única defesa natural sólida é proporcionada pelo próprio rio, cujo leito, no passado muito caudaloso e pantanoso, protegia o lado norte da cidade. No resto do perímetro, a defesa foi reforçada mediante sólidas muralhas, com metros de extensão, que a leste se adaptam ao contorno do terreno.
Uma grande parte da muralha — quase toda da época omíada — está atualmente coberta de escombros. É flanqueada por 44 (no passado pode ter havido mais), das quais duas são albarrãs. Com exceção das duas torres situadas no extremo oriental do alcácer, que são de planta pentagonal, as torres são quadrangulares. Na frente sul da cidade, onde se abre uma , as torres são maiores e mais abundantes, algumas delas ocas e estão mais espaçadas, enquanto as do esporão ocidental — melhor defendido pelo terreno escarpado — são sempre maciças, mais pequenas e mais próximas umas das outras. As que dão para o rio são quase todas ocas.
Exceto na frente norte, protegida pelo rio e onde se situam a s couraças de abastecimento de água, o resto do recinto é rodeado por um fosso seco que convertia a cidade numa ilha. A maior parte do fosso foi escavado na rocha do cerro, tem mais de 750 m de extensão e uma profundidade média de 10 m. Em frente da porta principal do lado sul há restos duma ponte que cruzava o fosso.
O cerro está dividido em duas zonas, separadas entre si por uma muralha de grandes dimensões: o alcácer a leste e a almedina, que ocupa o resto do recinto. No exterior da muralha estendiam-se os arrabaldes.
Portas e torreões Na muralha existem dois exemplos de do . A mais notável dava acesso à cidade pelo lado sul, depois de passar por uma ponte sobre o fosso. Situada num maciço que foi várias vezes ampliado, abria-se para a almedina mediante uma rampa pavimentada com grandes lajes. Junto à porta há um portão que, por possibilitar maior controlo, deve ter sido a entrada da cidade mais utilizada. No alcácer existe outra porta em cotovelo, que permitia o acesso desde o rio através duma rampa exterior. Além disso, havia um postigo ao lado da grande porta que ligava a almedina ao alcácer, que foi fechado quando foi construída a grande sala de audiências do alcácer.
Torres albarrãs Na zona do alcácer existem duas torres avançadas deste tipo, muito próximas uma da outra. A mais alta e de maiores dimensões é oca e tem a parte inferior em silhar e a superior em alvenaria; foi construída em 854, na mesma altura em que a muralha vizinha foi revestida. Junto a ela e mais perto do rio, encontram-se os restos duma segunda torre albarrã, do período almóada (século XII ou XIII), em cuja construção foram usadas blocos de silhar reaproveitados doutras construções, além de taipa. No lado sul exterior das muralhas, entre o alcácer e a porta da almedina, houve uma terceira torre albarrã que depois foi convertida numa torre pentagonal .
Torres pentagonais Há três torres deste tipo na cidade. Duas delas, ocas, situam-se na extremidade mais oriental do alcácer, formando a parte essencial do istema defensivo hidráulico. A mais distante do rio, sem acesso ao alcácer e com paredes perfuradas por canos de cerâmica, pode ter sido um castelo d'água. A torre mais próxima do rio tem acesso direto ao alcácer e pode ter servido como posto de controlo. Ambas foram datadas do ano 854. Uma terceira torre, que anteriormente era albarrã, foi transformada numa torre pentagonal usadno materiais reaproveitados, talvez para alojar no seu terraço grandes máquinas de guerra, como manganelas.
Couraças Foram identificadas quatro couraças, algo que é absolutamente excecional. A mais antiga, anterior a 853, foi partida para construir o castelo d'água e parte dos seus restos serviram de apoio a estruturas da época almóada, junto ao rio. Nos arrabaldes há uma segunda couraça cujos escombros ainda não foram removidos. As outras duas couraças situam-se na almedina e no alcácer. A primeira adentra o rio quase 80 m está balizada por cinco torres-contraforte situadas a montante. Na torre mais distante era captada água através dum sistema de noras, que era elevada para o interior da almedina, para a abastecer.