Jean Bodin (Angers, c. 1530 — Laon, 1596) foi um jurista, filósofo político, economista e demonólogo francês. É particularmente conhecido pela formulação moderna do conceito de soberania, desenvolvida em Os Seis Livros da República (1576), e pelas suas contribuições para a teoria política, o direito, a historiografia e o pensamento económico.

A sua obra desenvolveu-se no contexto das Guerras de Religião em França. Perante a fragmentação política e religiosa do reino, Bodin procurou definir os fundamentos jurídicos de uma autoridade capaz de assegurar a unidade e a estabilidade da comunidade política. A sua definição da soberania como poder «absoluto e perpétuo» da República exerceu uma influência duradoura na formação do pensamento político moderno.

A amplitude dos seus interesses ultrapassou, contudo, a teoria do Estado. Em Methodus ad facilem historiarum cognitionem (1566), refletiu sobre o método e o conhecimento histórico; na Réponse aux paradoxes de M. de Malestroict (1568), analisou as causas da inflação; em De la démonomanie des sorciers (1580), defendeu uma política severamente repressiva contra a bruxaria; e, no final da vida, dedicou-se à filosofia natural e à reflexão sobre a religião.

Biografia Formação e primeiros anos thumb|alt=Retrato de Michel de l'Hospital, apresentado de perfil e a meio corpo, com barba comprida.|Bodin beneficiou do apoio de Michel de l'Hospital (1507–1573), que conheceu em Toulouse. Escola francesa, Museu do Louvre, 1550–1600. Jean Bodin nasceu em Angers, no oeste de França, entre junho de 1529 e junho de 1530.; . Era o quarto de sete filhos. O pai, Guillaume Bodin, era comerciante e mestre alfaiate, enquanto a mãe, Catherine Dutertre, era parente de René Dutertre, procurador do convento carmelita de Angers.; .

Recebeu a primeira formação junto dos carmelitas de Angers. Depois de professar os votos religiosos, ingressou como noviço, em 1545, no convento dos Grands Carmes de Paris, onde estudou filosofia sob a orientação de Guillaume Prévost.; . O convento situava-se próximo do Collège des Quatre Langues, onde poderá ter estudado hebraico com Jean Mercier.. Estudou também grego com Adrien Turnèbe..

Em 1546 encontrava-se provavelmente em Paris quando o humanista Étienne Dolet foi executado por publicação de obras consideradas heréticas.. Em 1547–1548 parece ter estado envolvido num processo por heresia, embora seja possível que os documentos se refiram a um homónimo.. Por volta de 1549 foi dispensado dos votos monásticos graças à intervenção de Gabriel Bouvery, bispo de Angers..

Depois de uma passagem por Nantes, instalou-se em Toulouse, onde estudou Direito e posteriormente ensinou direito romano.. Durante esse período conheceu Girolamo Cardano e Auger Ferrier, assim como judeus expulsos da Península Ibérica, através dos quais entrou em contacto com a Cabala e o neoplatonismo..

Escreveu então diversos tratados jurídicos — De imperio, De jurisdictione, De legis actione, De decretis e De judiciis — que determinou no testamento que fossem destruídos..

Em 1555 publicou uma versão latina da Cynegetica, do poeta grego Opiano de Apameia. Posteriormente foi acusado de ter plagiado uma tradução anterior, acusação que rejeitou..

Em 1559 publicou a Oratio de instituenda in republica juventute, discurso sobre a educação da juventude destinado a apoiar a sua candidatura à direção do Collège de l'Esquile, em Toulouse, que não foi bem-sucedida..

Durante os anos de Toulouse estabeleceu relações com figuras influentes como Guy Du Faur de Pibrac e Michel de l'Hospital, que posteriormente favoreceriam a sua entrada nos círculos políticos..

Advogado e escritor thumb|Catarina de Médici e os seus filhos por volta de 1561: Francisco de França, o rei Carlos IX, Margarida e Henrique de Anjou. Oficina de François Clouet, c. 1561, coleção particular.

Em 1566 publicou a sua primeira grande obra, Methodus ad facilem historiarum cognitionem («Método para facilitar o conhecimento da História»). A obra alcançou êxito suficiente para justificar uma segunda edição, revista e aumentada, em 1572.

Em 1568 publicou a Réponse aux paradoxes de M. de Malestroict touchant l’enrichissement de toutes choses et le moyen d’y remédier, intervenção numa controvérsia sobre a subida dos preços e a moeda.

Em 1569 foi detido na Conciergerie «por motivo de religião», permanecendo preso até agosto de 1570.. Nesse ano, Carlos IX nomeou-o comissário para a reforma das florestas da Normandia. Bodin desempenhou a função com grande zelo, instaurando centenas de processos contra responsáveis pela apropriação indevida dos recursos florestais da Coroa..

Conselheiro do duque de Anjou thumb|alt=Cena de massacre mostrando cerca de uma centena de pessoas a serem mortas numa rua de Paris.|O Massacre da noite de São Bartolomeu, ao qual Bodin conseguiu escapar por pouco. Pintura de François Dubois, c. 1572–1584, Museu Cantonal de Belas Artes de Lausana.

Em 1571 tornou-se maître des requêtes e conselheiro de Francisco, duque de Alençon e depois de Anjou, irmão do rei, funções que desempenharia até à morte do príncipe em 1584..

O duque estava ligado aos chamados Malcontents, grupo que se opunha à política régia e defendia uma maior tolerância religiosa. Suspeito de simpatias pelos huguenotes, Bodin escapou ao Massacre da noite de São Bartolomeu em 1572..

Em 1573 integrou a delegação que recebeu em Metz os embaixadores polacos que vinham saudar o novo rei da Polónia, o futuro Henrique III de França.. Bodin redigiu nessa ocasião a "Harangue" (discurso solene e persuasório) pronunciada pelo bispo de Langres, Charles des Cars.

Em 1574 foi suspeito de participação na conjura dos Malcontents, dirigida por La Môle e Coconas..

Em 1576 casou, em Laon, com Françoise Trouillard, viúva abastada cujo irmão, Nicolas Trouillard, era procurador do rei.. No mesmo ano publicou a sua obra mais influente, Os Seis Livros da República.

Entre 1576 e 1579 integrou a Academia do Palácio, primeira encarnação da futura Academia Francesa, que se reunia duas vezes por semana na presença de Henrique III..

Como representante do Terceiro Estado de Vermandois nos Estados Gerais de Blois, opôs-se à retoma da guerra contra os huguenotes.; . Quando Henrique III pretendeu financiar a guerra através da alienação de parte do domínio real, Bodin convenceu o Terceiro Estado a rejeitar a proposta..

Para justificar a sua atuação publicou, em 1577, o Recueil de tout ce qui s'est negocié en la compagnie du tiers Estat de France.

Em 1578 publicou Iuris universi distributio, reflexão sobre a organização do direito que complementava temas já abordados na Methodus e na République. Segundo Henri Legohérel, ao formular uma teoria jurídica e política do Estado, Bodin contribuiu indiretamente para a formação do direito internacional público moderno..

Démonomanie e viagens diplomáticas Depois de participar como especialista judicial num processo contra Jeanne Harvilliers, acusada de bruxaria, Bodin publicou em 1580 De la démonomanie des sorciers, obra concebida em parte como um manual para os tribunais e na qual defendia penas particularmente severas contra os acusados.. thumb|left|alt=Retrato em busto de uma personagem de olhos e cabelos escuros, bigode fino e gola de renda volumosa.|Francisco de França (1555–1584), c. 1577, por Nicholas Hilliard, Museu Vitória e Alberto. Bodin esteve ao serviço do duque de Alençon entre 1571 e 1584 e participou, em seu nome, em várias embaixadas. Em 1581 acompanhou o duque de Anjou a Inglaterra, no contexto das negociações para o eventual casamento deste com Isabel I de Inglaterra.. Durante a estadia soube que a Universidade de Cambridge utilizava Os Seis Livros da República, circunstância que o incentivou a preparar uma versão latina da obra para facilitar a sua circulação internacional..

Em 1583 acompanhou novamente o duque aos Países Baixos Espanhóis. Encontrou então Guilherme I de Orange e o cartógrafo Abraham Ortelius.. Durante o fracassado ataque de Antuérpia, ao qual se tinha oposto, foi temporariamente feito prisioneiro, sendo libertado pouco depois..

Últimos anos em Laon Após a morte do duque de Anjou, em 1584, Bodin retirou-se para Laon, tornou-se conselheiro do rei de Navarra, futuro Henrique IV de França, e exerceu funções jurídicas ao serviço do marquês de Moy..

Em 1587, depois da morte do cunhado, tornou-se procurador do rei. Nesse mesmo período a sua casa foi alvo de buscas e vários dos seus livros foram queimados..

Em 1589 aderiu à Liga Católica, posição que tem sido interpretada à luz do contexto extremamente instável da guerra civil.. A sua casa foi novamente revistada em 1590 e alguns dos seus livros queimados publicamente..

Em 1593 rompeu com a Liga e apoiou o reconhecimento de Henrique IV como rei de França; no ano seguinte recebeu em Laon as tropas reais..

Nos últimos anos dedicou-se sobretudo à filosofia natural e à religião. Publicou em 1596, em latim, Universae naturae theatrum, vasta síntese dos seus conhecimentos sobre o mundo natural.

Jean Bodin morreu de peste em Laon, em 1596..

Pensamento Desde cedo, Bodin procurou organizar sistematicamente os diferentes domínios do conhecimento. A preocupação com a ordem, a classificação e a comparação atravessa a sua reflexão sobre a história, o direito, a política e a natureza. Entre os temas recorrentes da sua obra encontram-se a teoria dos climas, a definição da República como comunidade regida pelo direito e a conceção do universo como uma ordem harmoniosa criada por Deus..

Método histórico miniaturadaimagem|Página de título da Methodus ad facilem historiarum cognitionem (1566).

Em Methodus ad facilem historiarum cognitionem, publicada em 1566, Bodin coloca a História no centro de um projeto filosófico de organização do conhecimento.. Procura estabelecer um método que permita ordenar os acontecimentos, comparar sociedades e instituições e extrair da experiência histórica conhecimentos úteis à ciência política..

Bodin distingue três grandes domínios da História: a história humana, referente às ações dos homens; a história natural, relativa aos fenómenos da natureza; e a história divina, referente à ação de Deus. Na Methodus, contudo, concentra-se sobretudo na história humana..

A obra apresenta uma extensa bibliografia de historiadores e geógrafos, abrangendo autores da Antiguidade e escritores relativos a numerosos povos e civilizações. Tal amplitude corresponde ao projeto de construção de uma história universal que não se restringisse ao mundo clássico ou à Europa ocidental.

Ao contrário de interpretações que faziam depender os acontecimentos políticos diretamente da Providência, Bodin atribui papel decisivo à vontade humana. A História deveria permitir compreender os mecanismos de aquisição, exercício e conservação do poder..

Rejeita simultaneamente a nostalgia de uma Idade de Ouro perdida e a interpretação linear fundada na sucessão dos quatro impérios da tradição bíblica. Prefere uma conceção cíclica, na qual virtudes e vícios, conhecimento e ignorância, grandeza e decadência se sucedem..

A Methodus constitui uma das primeiras tentativas modernas de construir uma história universal fundada na comparação das civilizações.. Segundo Marcos António Lopes, embora muitos elementos da sua conceção permanecessem ligados ao sistema de crenças do século XVI, Bodin introduziu novos problemas e novos objetos na reflexão histórica..

Economia miniaturadaimagem|Les Paradoxes, edição de 1578.

Bodin ocupa também um lugar importante na história do pensamento económico. Em 1568 publicou a Réponse aux paradoxes de M. de Malestroict, em resposta às teses de Jean de Malestroit acerca da subida generalizada dos preços..