Ana da Dinamarca (Skanderborg, – Londres, ) foi a esposa do rei Jaime VI e I e rainha consorte do Reino da Escócia de 1589 até sua morte, bem como da Inglaterra e do Reino da Irlanda a partir de 1603.
A segunda filha do rei Frederico II da Dinamarca e Sofia de Mecklemburgo-Güstrow, Ana se casou com Jaime aos catorze anos. Eles tiveram três filhos que sobreviveram à infância, incluindo o futuro rei Carlos I. Ela demonstrou ser uma rainha independente e ter uma vontade de usar as políticas escocesas de facções em seus conflitos com Jaime sobre a custódia do príncipe Henrique Frederico e do tratamento de sua amiga Beatriz Ruthven. Ana aparentemente amava o rei no início do casamento, porém o casal gradualmente se distanciou e eventualmente passaram a viver separados, apesar de manterem um grau de respeito mútuo e afeição.
Na Inglaterra, Ana mudou suas energias para patrocinar às artes e construir sua própria corte, hospedando um dos salões culturais mais ricos da Europa. Ela sofreu vários ataques de doenças depois de 1612 e gradualmente se retirou do centro da vida da corte. Apesar de ter sido relatado que Ana sempre foi uma protestante, evidências sugerem que ela se converteu ao catolicismo em algum momento de sua vida.
Historiadores tradicionalmente consideraram Ana como uma rainha sem-peso, frívola e auto-indulgente. Porém, reavaliações recentes reconheceram sua independência e, particularmente, sua significância como patrona das artes durante a era jacobita.
Início de vida Ana nasceu em no Castelo de Skanderborg, Dinamarca. Seu nascimento foi um grande golpe para seu pai, o rei Frederico II, que desesperadamente esperava por um filho. Sua mãe Sofia de Mecklemburgo-Güstrow tinha apenas dezessete anos; três anos depois ela deu à luz um menino, o futuro rei Cristiano IV da Dinamarca.
Ana foi enviada para ser criada em Güstrow por seus avós maternos Isabel e Ulrico III, Duque de Mecklemburgo-Güstrow, junto com sua irmã mais velha Isabel. Ao contrário da itinerante corte dinamarquesa, onde Frederico era notório por seus banquetes grandiosos, bebedeiras e comportamento inadequado (incluindo infidelidade conjugal), Güstrow deu a Ana uma vida frugal e estável durante seus primeiros anos de vida. Cristiano também foi enviado a Güstrow em 1579, depois do Riksråd (conselho privado dinamarquês) ter conseguido pedir sua retirada da Dinamarca, com Ana e Isabel eventualmente retornando com ele.
Ana teve um crescimento familiar feliz e intimo na Dinamarca principalmente graças a sua mãe, que cuidava pessoalmente dos filhos quando estavam doentes. Pretendentes de toda a Europa procuraram as mãos de Ana e Isabel em casamento, incluindo o rei Jaime VI da Escócia, que via a Dinamarca como um reino reformado em religião e um lucrativo parceiro comercial.
A outra séria pretendente de Jaime era Catarina de Bourbon, oito anos mais velha, irmã do rei Henrique III de Navarra, que era a escolha preferida da rainha Isabel I de Inglaterra.; Os embaixadores escoceses haviam primeiro concentrado-se em Isabel, porém Frederico acabou prometendo-a ao duque Henrique Júlio de Brunsvique-Luneburgo, prometendo aos escoceses "a segunda [filha] Ana, se o Rei gostar dela, ele irá tê-la".;
Noivado thumb|Jaime em 1586, três anos antes de seu casamento com Ana. A posição constitucional de Sofia tornou-se difícil em 1588 com a morte de Frederico, e ela ficou envolvida em uma luta por poder contra o Riksråd pelo controle de Cristiano. Como casamenteira Sofia mostrou-se mais diligente que seu marido e, superando pontos de atrito como a quantia do dote e a situação de Órcades, conseguiu selar um acordo em julho de 1589.; Ana aparentemente ficou animada com a união. O espião inglês Tomás Fowler relatou em 28 de julho de 1589 que ela estava "tão apaixonada pela Majestade do Rei como se fosse a morte para ter isso quebrado, tendo feito várias e boas provas para mostrar a afeição que sua Majestade é apto em nenhuma maneira de retribuir". A insinuação de Fowler que Jaime preferia homens foi escondida da jovem Ana, que bordou camisas para seu noivo enquanto trezentos costureiros trabalhavam em seu vestido de casamento.;
Não importando a verdade dos rumores, Jaime precisava de um casamento real para continuar a linhagem da Casa de Stuart. "Deus é minha testemunha", ele explicou, "Eu poderia ter me abstido mais tempo do que o bem-estar do meu país poderia ter permitido, [não tivesse] o meu atraso criados nos seios de muitos um grande ciúme da minha incapacidade, como se eu fosse um estoque estéril". Ana se casou por procuração com Jaime em 20 de agosto de 1589 no Castelo de Kronborg, com Jorge Keith, 5.º Conde Marischal e representante do rei, deitando-se ao lado de Ana na cama matrimônial ao final da cerimônia.;
Casamento Ana partiu para a Escócia dez dias depois, porém sua frota foi afligida por vários infortúnios: em duas ocasiões em Helsingør os canhões navais dispararam e feriram ou mataram pessoas próximas e tripulantes, tempestades atrapalharam a viagem, dois navios que a acompanhavam colidiram, seu navio Gideon teve vários vazamentos e foi obrigado a parar na Noruega para realizar reparados, porém começou a vazar novamente mais tarde e as tripulações começaram a ficar inseguras quanto a viagem. Eles foram forçados a voltar para a costa da Noruega, de onde ela viajou para Oslo por terra acompanhada por Keith e outros embaixadores escoceses e dinamarqueses.
thumb|left|Brasão de Ana como rainha consorte da Escócia. A 12 de Setembro Lord Dingwall desembarca em Leith, reportando que "tinha vindo na companhia da frota da rainha durante trezentas milhas e foi deles separado por uma grande tempestade: temia-se que a rainha estivesse em perigo nos mares." Stewart, 107. Alarmado, Jaime apela a jejum nacional e orações publicas, fica de vigília no estuário de Forth pela chegada da rainha,Stewart, 108. escreve várias canções, comparando, numa delas, a situação que vivia ao apuro de Hero e envia um pequeno destacamento para procurar Ana, levando consigo uma carta escrita para ela em francês: "Só aquele que me conhece tão bem como o seu reflexo no espelho poderia expressar, minha adorada, os terrores que tenho passado por causa dos ventos contrários e tempestades violentas que enfrenta desde que embarcou..." Willson, 89; Stewart, 108; Williams, 19. Informado em Outubro de que os dinamarqueses cessariam travessias marítimas pelo inverno e, naquilo que Willson chama de "o único episódio romântico da sua vida",Willson, 85; Stewart, 109. Jaime parte de Leith com uma frota de trezentos homens para ir buscar a sua rainha em pessoa, tendo chegado a Oslo no dia 19 de Novembro depois de ter viajado por terra desde Flekkefjord.McManus, 63. Segundo um relato escocês, Jaime apresentou-se a Ana "com botas e tudo" e, desarmando-a dos seus protestos, deu-lhe um beijo à maneira escocesa.Willson, 90–1
Ana e Jaime casam-se formalmente no Palácio do Velho Bispo em Oslo a 23 de Novembro de 1589, "com todo o esplendor possível que permitia a altura e o lugar." Stewart, 112. Para que tanto o noivo como a noiva compreendessem a cerimónia, o ministro David Lindsay conduz o serviço em francês, descrevendo Ana como "uma princesa tanto pura como bonita (...) dá grande consentimento a sua majestade." Stewart, 112; Willson, 91. Segue-se um mês de celebrações e, a 22 de Dezembro, depois de cortar a sua comitiva para cinquenta membros, Jaime visita os seus novos parentes no Castelo de Kronborg em Elsinore onde os recém-casados são recebidos pela rainha-viúva Sofia, Cristiano IV, de doze anos e os seus quatro regentes.Stewart, 113; Williams, 23 O casal viaja para Copenhaga a 7 de Março onde participa na cerimónia de casamento da irmã mais velha de Ana, Isabel, partindo dois dias depois para a Escócia.Stewart, 117. Chegam a Leith a 1 de Maio e, cinco dias depois, Ana faz a sua entrada de estado em Edimburgo numa carruagem de ouro trazida da Dinamarca e com Jaime a cavalgar a seu lado.Stewart, 118.
Coroação
Ana é coroada no dia 17 de Maio de 1590 na Abadia de Holyrood na primeira coroação protestante da história escocesa.Croft, 24; Stewart, 119 Durante a cerimónia de sete horas, o seu vestido foi aberto pela condessa de Mar para que o padre Robert Bruce vertesse "uma boa quantidade de óleo" em "partes do seu seio e braço", tornando-a assim rainha.Williams, 30; McManus, 70, (os padres da igreja escocesa mostram-se completamente contra este elemento da cerimónia, considerando-o um ritual pagão e judeu, mas Jaime insistia que este tinha a sua origem no Velho Testamento.) Willson, 93; Williams, 29. O rei entregou a coroa ao chanceler Maitland que a colocou na cabeça de Ana.Williams, 31. Depois Ana pronunciou um juramento onde prometia defender a verdadeira religião, a veneração a Deus e "opor-se e desprezar todas as superstições papistas e qualquer cerimónia ou ritual contrários à palavra de Deus." Stewart, 119; Williams, 31; McManus, 71.
Relação com Jaime thumb|right|300px|Jaime I e Ana da Dinamarca com o filho mais velho, Henrique Frederico.
Segundo todos os relatos da época, Jaime teria, a principio, ficado enfeitiçado pela sua noiva, mas esta paixão evapora-se rapidamente e o casal passa a discutir frequentemente apesar de nos primeiros anos de casamento Jaime ter tratado Ana com paciência e afecto.Willson, 85–95, 94–5. Entre 1593 e 1595 Jaime tem uma relação com Anne Murray, depois Lady Glamis, a quem se dirigiu em verso como "minha amante e meu amor"; e a própria rainha Ana passa também a ser alvo de boatos escandalosos.Croft, 24. Em Basilikon Doron, escrito pelo rei entre 1597 e 1598, Jaime descreve o casamento como "o maior tormento ou miséria terrena que pode acontecer a um homem." Croft, 134.
Desde o primeiro momento do casamento que Ana é colocada sob pressão para dar um herdeiro masculino a Jaime e à Escócia,Mesmo antes de Ana chegar à Escócia já circulavam boatos de que estava grávida. Stewart, 139. mas os anos de 1591 e 1592 passam sem sinais de uma gravidez, levando a que as calúnias sobre o gosto de Jaime por companhia masculina e trazendo sussurros contra Ana "pois ela se demonstra ainda sem criança." Stewart, 139–40. Assim, há um grande alívio quando, a 19 de Fevereiro de 1594, Ana dá à luz o seu primeiro filho, o príncipe Henrique Frederico.Stewart, 140;
Custódia do príncipe Henrique
Ana é rapidamente informada de que não terá qualquer influência na educação do seu filho. Jaime escolhe a sua antiga ama, Helen Little, como chefe do berçário e Henrique é colocado no mesmo berço de carvalho que tinha pertencido ao seu pai.Williams, 47. Para angústia de Ana, Jaime insiste em enviar o filho para o Castelo de Stirling sob os cuidados do conde de Mar para cumprir a tradição escocesa.Os condes de Mar eram os tradicionais guardiãs dos herdeiros ao trono escocês. Stewart, 140; Williams, 53.
Em finais de 1594, Ana começa uma campanha furiosa pela custódia de Henrique, recrutando uma facção de apoiantes da sua causa, incluindo o chanceler John Maitland de Thirlestane.Stewart, 140–141 Temendo até onde Ana poderia ir, Jaime exigiu que Mar prometesse por escrito que nunca entregaria Henrique a ninguém excepto se tivesse ordens para o fazer vindas da própria boca do rei, "porque na segurança do meu filho está a minha segurança", e nunca entregar Henrique à rainha, nem no caso da sua própria morte.Stewart, 141 Ana exige que o assunto seja levado ao Conselho, mas Jaime recusa-se a fazê-lo.Williams, 54. Depois de várias cenas publicas em que Jaime a reduz a lágrimas por causa deste assunto, Ana fica tão perturbada que em Julho de 1595 sobre um aborto espontâneo.Williams, 56. A partir desse momento, Ana abandona a sua campanha, mas acredita-se que os danos no casamento foram incuráveis. Em Agosto de 1595, John Colville escreve: "Não há nada mais senão ódio escondido com dissimulação astuta entre o rei e a rainha, cada um tentando com desrespeito superar o outro." Stewart, 141.