Desinformação é um conjunto de práticas e técnicas de comunicação que visam influenciar a opinião pública por meio da difusão intencional de informações falsas, distorcidas ou tendenciosas. O termo refere-se tanto a uma prática - desinformar - como a um conteúdo, a desinformação.

A desinformação é produzida para enganar, possui motivações políticas ou financeiras, visa gerar danos políticos, sociais ou econômicos, é direcionada a pessoas, grupos ou instituições em situação de vulnerabilidade, deliberadamente oculta seus produtores e visa a promoção de indivíduos e grupos com influência política ou econômica.

Definição A Organização das Nações Unidas (ONU) define desinformação como a disseminação proposital de conteúdos enganosos para enganar e causar danos. A desinformação tem como propósito consciente lesar direitos das pessoas para a obtenção de vantagens indevidas, sejam políticas ou econômicas. Caracteriza-se pela disseminação massiva impulsionada por ferramentas digitais que possibilitam que conteúdos enganosos alcancem uma ampla audiência. Em síntese, o conceito implica o dolo (má-fé) e a escala (virtualmente planetária).

A desinformação é um fenômeno antigo, presente em diversas áreas da vida social, desde a publicidade enganosa até a manipulação de documentos, como mapas, fotografias, etc. Embora seja um problema histórico, a desinformação tem se intensificado nos últimos anos. A desinformação, apesar de falsa, possui características que a tornam persuasiva: ela faz sentido para quem a recebe, cria falsas crenças e é disseminada de forma estratégica.

A difusão de desinformação não é restrita ao contexto das mídias sociais, muito embora, tais recursos sejam empregados em práticas de desinformação que visam restringir, minar ou desacreditar instâncias produtoras e divulgadores de conhecimentos como as universidades e a imprensa livre.

A desinformação, frequentemente, é pautada em teorias conspiratórias e pode se infiltrar em discursos aparentemente convencionais e se propagar rapidamente, influenciando o comportamento das pessoas. Ela visa destruir a capacidade compartilhada e coletiva de percepção da verdade factual. Sobre seu impacto nas relações sociais, Eugênio Bucci indica que Se a informação ajuda a tecer laços de confiança na esfera pública, a desinformação dissolve esses laços. O termo é diferenciado de informação falsa, que se refere à propagação não intencional de informações incorretas. Nessa prática, a informação falsa não é compartilhada com o propósito de prejudicar ou causar danos. As pessoas compartilham informações incorretas sem ter consciência de sua falsidade Alheios ao caráter falso dos conteúdos, os sujeitos captam e compartilham conteúdos.

Em síntese, desinformação é uma prática de comunicação para enganar, possui motivações políticas ou financeiras, objetiva causar danos em termos políticos, sociais ou econômicos, é direcionada a pessoas, grupos ou instituições em situação de vulnerabilidade, deliberadamente oculta seus produtores e promove indivíduos e grupos com influência política ou econômica.

Operacionalização A desinformação pode ser feita por agências de inteligência governamentais, por organizações não governamentais e empresas. Organizações de fachada configuram instância de desinformação, pois enganam o público sobre seus verdadeiros objetivos e controladores.

A desinformação tem sido intencionalmente disseminada em mídias sociais, apresentando-se como notícias falsas, ou seja, desinformação disfarçada como artigos de notícias legítimos, com o objetivo de enganar as pessoas. A desinformação pode incluir a distribuição de documentos, manuscritos e fotografias falsificados, ou a propagação de rumores. O uso dessas táticas pode levar a repercussões negativas, trazendo consequências indesejadas como processos por difamação ou danos à reputação da pessoa ou instituição que desinforma.

Desinformação é um termo frequentemente utilizado para se referir à manipulação e interferência de informações estrangeiras (em inglês, Foreign Information Manipulation and Interference - FIMI). Estudos sobre desinformação, frequentemente, preocupam-se com o conteúdo da atividade, enquanto o conceito mais amplo de FIMI volta-se, sobretudo, ao comportamento do agente, descrito através dos conceitos de tática, técnica e procedimento inscritos na doutrina militar.

O Centro Shorenstein da Universidade de Harvard indica que o campo de pesquisas sobre desinformação é voltado ao tema da disseminação e dos impactos da desinformação e da manipulação midiática, incluindo como a desinformação se espalha por meio de canais online e offline, e por que as pessoas são suscetíveis a acreditar em informações falsas assim como estratégias para mitigar seu impacto. De acordo com um artigo de pesquisa de 2023 publicado na New Media & Society, a desinformação circula nas mídias sociais por meio de campanhas enganosas implementadas de maneiras diversas que incluem: astroturfing, teorias da conspiração, clickbait, guerras culturais, câmaras de eco, fraudes, notícias falsas, propaganda, pseudociência e rumores. Atividades que operacionalizam campanhas de desinformação online Termo Descrição Termo Descrição Astroturfing Uma campanha coordenada centralmente que imita o ativismo popular, em que os participantes fingem ser cidadãos comuns Notícias falsas A criação deliberada de pseudojornalismo. A instrumentalização do termo para deslegitimar a mídia jornalística Teorias da conspiração Refutações de relatos oficiais, propondo explicações alternativas. Sugere-se que há uma trama conspiratória por trás dos relatos oficiais Greenwashing ou banho verde Comunicação enganosa, promovida por organizações (governos, empresas, etc.), sobre o grau de responsabilidade ambiental de suas atividades e/ou produtos, ocultando ou desviando a atenção de impactos ambientais negativos por elas gerados. Caça-clique Uso deliberado de manchetes e miniaturas que prescindem de qualidade e precisão da informação tendo em vista aumentar o tráfego online com fins de lucro ou popularidade Propaganda Comunicação para influenciar ou persuadir um público, promovendo uma agenda. Volta-se à produção de uma resposta emocional ao invés de racional. Guerra cultural Fenômeno em que vários grupos de pessoas, com valores arraigados, buscam influenciar as políticas públicas de maneira contenciosa Pseudociência Relatos que reivindicam o poder explicativo da ciência, tomam emprestada sua linguagem e legitimidade, mas divergem substancialmente de seus critérios de qualidade Doxing Forma de assédio online que viola os limites da privacidade ao divulgar informações com a intenção de causar danos físicos e virtuais a algo ou alguém Rumores Notícias infundadas que circulam sem serem corroboradas ou validadas Câmara de eco Um ambiente epistêmico no qual os participantes encontram crenças e opiniões que coincidem com as suas próprias Trollagem Em redes digitais, grupos que operam “exércitos de cliques” projetados para mobilizar o sentimento público. Embuste Notícias em que fatos falsos são apresentados como legítimos Lenda urbana De caráter moral ou sensacionalista, são estórias em torno da transgressão de limites e suas terríveis consequências Nota: Esta é uma adaptação da Tabela 2 de Disinformation on Digital Media Platforms: A Market Shaping Approach, de Carlos Diaz Ruiz, usada sob CC BY 4.0 / Adaptado do original.

Em 2019, Camille François criou a estrutura ABC - acrônimo em inglês para Actors, Behaviors, Content -, para compreender diferentes modalidades de desinformação online:

Atores manipuladores: deliberadamente envolvem-se em campanhas virais voltadas a enganar, sigilosas e projetadas para mascarar a identidade e a intenção de quem as criou. Exemplos: trolls, mídia estatal e agentes militares. Comportamento enganoso: abrange a variedade de técnicas que atores manipuladores podem usar para aumentar e exagerar alcance, viralização e impacto de suas campanhas. Exemplos: fábrica de trolls, bots, astroturfing e engajamento pago. Conteúdo prejudicial: inclui notícias falsas sobre saúde, manipulação na mídia, como deepfakes, assédio virtual, extremismo violento, discurso de ódio ou terrorismo.

Em 2020, a Brookings Institution propôs alterar esta estrutura para incluir a Distribuição, caracterizada por protocolos técnicos que permitem, restringem e moldam o comportamento das pessoas em um espaço virtual. Da mesma forma, o Carnegie Endowment for International Peace propôs acrescentar Nível para se referir à distribuição de conteúdos e às audiências atingidas, assim como Efeito em referência a dimensão da ameaça que um determinado caso representa.

Comparações com propaganda A sobreposição entre desinformação e propaganda, bem como o grau em que isso ocorre, é objeto de debate. Alguns (como o Departamento de Estado dos Estados Unidos) definem propaganda como o uso de argumentos não racionais para promover ou minar um ideal político e usam desinformação como um nome alternativo para minar a propaganda,. enquanto outros consideram que são conceitos completamente distintos.. Uma distinção popular defende que a desinformação também descreve mensagens com motivação política, concebidas explicitamente para gerar cinismo, incerteza, apatia, desconfiança e paranoia no público, fatores que desestimulam o engajamento e a mobilização dos cidadãos para a mudança social ou política..

Retórica da desinformação Apelo ao medo - Um público que tenha medo está em situação de receptividade passiva e admite mais facilmente qualquer tipo de indoutrinação ou a ideia que se lhe quer incutir; recorre-se a sentimentos instalados na psicologia do cidadão por preconceitos escolares e de educação, mas sem razões nem provas. Apelo à autoridade - Citar personalidades importantes para sustentar uma ideia, um argumento ou uma linha de conduta e negligenciar outras opiniões. Testemunho - Mencionar dentro ou fora de contexto casos particulares em vez de situações gerais para sustentar uma opção política. Efeito acumulativo - Persuasão do auditório para adoptar uma ideia insinuando que um movimento de massas irresistível e implacável está já comprometido no seu apoio, embora tal seja falso. Redefinição e revisionismo - Consiste em redefinir as palavras ou falsificar a história de forma parcial para criar uma ilusão de coerência. Procura de desaprovação ou pôr palavras na boca de alguém - Relacionada com o anterior, consiste em sugerir ou apresentar uma ideia ou acção que seja adoptada por um grupo adverso sem a estudar verdadeiramente. Afirmar que um grupo tem uma opinião e que os indivíduos indesejáveis, subversivos ou reprováveis a têm também. Isto predispõe os demais a mudar a sua opinião. Uso de generalidades e palavras virtuosas - As generalidades podem provocar emoção intensa no auditório. O amor à pátria e o desejo de paz, de liberdade, de glória, de justiça, de honra e de pureza permitem assassinar o espírito crítico do auditório, pois o significado destas palavras varia segundo a interpretação de cada indivíduo, mas o seu significado conotativo general é positivo e por associação os conceitos e os programas do propagandista serão percebidos como grandiosos, bons, desejáveis e virtuosos. Imprecisão intencional - Referir factos deformando-os ou citar estatísticas sem indicar as fontes ou todos os dados. A intenção é dar ao discurso um conteúdo de aparência científica sem permitir analisar a sua validade ou a sua aplicabilidade. Transferência - Esta técnica serve para projetar qualidades positivas ou negativas de uma pessoa, entidade, objeto ou valor (indivíduo, grupo, organização, nação, raça, etc...) sobre algo para fazer isto mais (ou menos) aceitável mediante cargas emotivas. Simplificação exagerada - Generalidades usadas para contextualizar problemas sociais, políticos, económicos ou militares complexos.