thumb|right|125px|Escudo do vale de Roncal. Várias localidades deste vale são as beneficiadas com a entrega do tributo das três vacas. O Tributo das três vacas ou Junta de Roncal é uma cerimónia multissecular que reúne os habitantes dos vales de Baretous (Béarn, França) e de Roncal (Navarra, Espanha) no ponto chamado "Piedra de San Martín" (1760 m de altitude) todos os anos no dia 13 de julho, e na qual os primeiros entregam três vacas aos segundos.

Este encontro realiza-se em cumprimento de uma sentença de 1375. É considerado o tratado em vigor mais antigo da Europa. Nestes anos, dos quais são de constância documentada,(Idoate: 4) só no século XVII houve sérios problemas na continuidade(Idoate: 23) embora posteriormente tenha havido pequenos incidentes ou atrasos por causa de eventos bélicos na zona.

Embora tradicionalmente se denomine tributo, não o é por não existir vassalagem, mas como se trata de um acordo entre iguais, é um contrato sinalagmático.

Cerimónia thumb|right|200px|Vista de Isaba. O seu alcaide preside à cerimónia do Tributo das três vacas. Os representantes de Roncal com veste tradicional com chapéu roncalês, casaco negro, capa a cobrir os ombros e peito e calção curto, e os de Baretous com traje de domingo e com a bandeira tricolor francesa cruzada ao peito reúnem-se em torno ao marco de fronteira 262, que substituiu a desaparecida Pedra de São Martinho em 1858, cada qual em seu território, no monte fronteiriço de Ernaz a 1721 metros de altitude.Alfredo Foristan. Geografía de Navarra. 1995. ISBN 84-89103-05-4

O alcaide de Isaba, que preside ao acto, pergunta por três vezes aos de Baretous se estão dispostos, como nos anos anteriores, a pagar o tributo das três vacas de dois anos de idade, da mesma cor e cornadura, e sem defeitos nem lesões de qualquer espécie. Os questionados respondem que sim, por três vezes.

De seguida um dos alcaides de Baretous coloca a mão direita sobre a pedra ou marco de fronteira e pondo a sua por cima um roncalenses, assim se alternando os demais representantes. O último a pousar a sua é o alcaide de Isaba que pronuncia as palavras Pax avant, pax avant, pax avant (paz para a frente) ao que respondem com as mesmas palavras os do vale vizinho. Ato seguido, procede-se ao reconhecimento das vacas pelo veterinário de Isaba que, uma vez declaradas sãs e boas, seguirão duas para Isaba e a outra a cada ano vai rodando pelas povoações de Urzainqui, Uztárroz e Garde. Depois o regedor de Isaba entrega o correspondente recibo e procede-se à nomeação anual de quatro guardas para a custódia das pastagens partilhadas de Ernaz e Leja, fazendo juramento. Depois pede aos que tenham algo para alegar que deem um passo em frente e digam o que acham ser seu dever.

O ato é formalizado pelo secretário que certifica e os representantes assinam uma acta, primeiro os de Roncal seguidos pelos de Baretous. Também assinam como testemunhas algumas pessoas assistentes. Posteriormente os roncalenses oferecem um banquete aos seus vizinhos, com carneiro assado como prato principal.

Na atualidade, depois da cerimónia as vacas voltam ao seu território e dá-se o equivalente ao seu valor monetário no mercado. Nos últimos anos este ato, que apenas dura uns minutos, popularizou-se, atraindo milhares de pessoas.

Confrontos de 1373 right|thumb|250px|Vale de Belagua Foram com certeza os eventos de 1373 que conduziram à sentença de 1375 que ainda está em vigor. Estes factos são uma mistura de história e lenda.

Numa das fontes que se encontrava em litígio no território do reino de Navarra no monte Arlás, encontraram-se o roncalense Pedro Karrika e o baretonense Pierre Sansoler com os seus rebanhos. Depois de uma discussão e peleja, Karrika matou Sansoler. De seguida organizou-se uma batida, mandada pelo primo do falecido, Anginar Sansoler, que ao não encontrar o homicida no porto de montanha foi até ao Vale de Belagua onde encontraram a mulher de Karrika, Antonia Garde, que se encontrava grávida. Depois de perguntar por seu marido, mataram-na. Em Isaba a notícia correu depressa e Karrika, com um grupo de vizinhos, foi vingar a morte da sua esposa, chegando à casa de Sansoler, onde estavam celebrando a façanha. Em casa estava presente a mulher deste com uma criança nos braços, que foram respeitados, mas não os demais, que foram todos assassinados, incluindo Sansoler. Alguém, no entanto, chegou a contar o que se passou aos habitantes de Arette, que imediatamente organizaram uma emboscada ao passar por um desfiladeiro, e exterminaram nessa noite a maior parte dos inimigos, cerca de vinte e cinco.

Estes acontecimentos chegaram aos ouvidos do rei de Navarra e do visconde de Bearn, que fizeram em vão esforços para conseguir a paz.

Entretanto, os confrontos incrementaram-se produzindo-se a chamada batalha de Aguincea, na qual caíram 53 roncalenses e 200 baretonenses. Dentro do vale de Roncal intervieram directamente as aldeias fronteiriças de Isaba, Uztárroz, Urzainqui e Garde.

No fim, os baretonenses pediram uma trégua, levando à arbitragem de Ansó.

Ainda há referência a um encontro anterior a este no mesmo lugar, no qual os de Baretous foram dirigidos por um terrível capitão agote que "tinha quatro orelhas". A vitória inclinava-se para os bearnenses quando um tal Lucas López de Garde trespassou o capitão com a sua lança. Isto provocou a desmobilização dos seus, que fugiram.

A sentença arbitral de 1375 A sentença arbitrária (denominação de então) de 16 de Outubro de 1375 é a que continua vigente com a denominação de carta de paz.

No preâmbulo informa-se que se encontram reunidos em Ansó os procuradores dos concelhos roncalenses e homens bons de Baretous nomeados pelas povoações, com prévia autorização do rei de Navarra Carlos II e do visconde de Bearn Gastão III de Foix de 28 de Julho a 18 de Agosto.

Estes comprometem-se a derimir as suas diferenças nas mãos do alcaide de Ansó, Sancho García e cinco vizinhos que teriam de resolver como árbitros arbitradores de forma amigável. Também estavam presentes muitos homens bons das partes interessadas e de outros lugares. Entre estes e também como parte arbitral os do Vale de Sola. Pelo que depois de escutar as testemunhas e examinar documentos estavam com pose à maneira de juízes. O lugar de reunião era a igreja de Sant Per ou São Pedro e a sua finalidade se expressava:

Os árbitros reconhecem o fracasso das tentativas de avença nas quais intervieram bispos, cavaleiros e comissários do rei de Navarra e do conde de Foix. A sua primeira gestão foi subir ao porto de montanha de Arlas, formidável miradouro a 2062 m de altitude,(Floristan: 193) para fixar as mugas na presença de cinco homens de cada vale, declarando-se que a Pedra de São Martinho era limite entre Roncal e o termo de Aramitz.(Idoate p 31) Examinaram-se as fontes e limites onde se localizavam as divergências e a partir daí delimitaram-se os demais "collados" e "lomas".

Segue a sentença na regulação do uso dos pastos pelos de Arette, cujos rebanhos de gado maior e menor entravam a 10 de Julho e por 28 dias para beber nas fontes destes sítios. Na sequência passariam os rebanhos roncalenses até ao dia de Natal. Podia-se utilizar a água livremente para beber o amassar o pão.

Para os transgressores foram estabelecidas graves penas de carneramiento (embargos) e monetárias de 300 soldos morlães (moeda de Bearn) para os que injustamente convocassem o apellido (chamada geral às armas). Se o infrator não pudesse pagar a infração fá-lo-ia a povoação.

Na sentença também se ordena o perdão mútuo pelas mortes produzidas em ambos os vales, libertando os beratonenses da entrega das vacas que deviam. Os presos que tinham retidos do vale contrário, dois em cada um, punham-se à disposição dos árbitros. E impõem os árbitros uma trégua por "ciento et un aynnos", que é o mesmo que perpétua.

Além disso nomeavam-se os carneadores, os que embargavam o gado encontrado fora da lei, quatro de Isaba e outros tantos de Arette, por dez anos.

Não aparece nesta sentença a palavra tributo que se aplica a toda a imposição pública, aos impostos por vassalagem. Este termo utilizar-se-á na posterioridade, embora não lhe corresponda porque era um contrato sinalagmático, ou seja, entre duas partes em igualdade, sem vassalagem, e com obrigações mútuas. No século XIV a entrega de três reses não tinha nada de humilhante e era até um escasso valor monetário, quase simbólico, tendo em conta o grande proveito que decorria do uso e desfruto dos pastos e da água.(Idoate: 19)

Embora o debate dos historiadores tenha sido longo, sem ficarem de acordo se o motivo do tributo eram as mortes ou as fontes, nem sobre o início da entrega colocando-o alguns no século IX e outros no século XI. Para o catedrático Víctor Fairén, jurista especialista nas "facerias" dos Pirenéus, trata-se de uma compensação pelo uso que fazem os baretonenses dos terrenos de Larra e Ernaz durante 28 dias a partir de 10 de Julho. Os roncalenses têm direito a usá-los desde a primeira semana de Agosto até 25 de Dezembro, mas nesta época predominam o frio e o mau tempo, pelo que o rendimento é menor. Este autor considera antijurídico que a causa do Tributo seja uma remuneração por assassinatos. No entanto há que fazer eco de que pode ser o preço da paz, mais que o dos pastos.(Idoate: 31)

Esta sentença é a que chegou aos nossos dias, ratificada pelos sucessivos convénios como a Transação de 22 de agosto de 1642 e o Tratado de Limites de 1856.

Descrição da cerimónia por Estêvão Garibay thumb|300px|Estêvão Garibay, cronista de Filipe II de Espanha descreveu a cerimónia em 1571. thumb|200px|right|Armas dos viscondes de Bearn. Quando Garibay descreve a cerimónia, Bearn não era pertencente ao reino de França apesar da sua descrição Estêvão Garibay, cronista guipuzcoano da época do Império Espanhol, em 1571 fez uma descrição da cerimónia, embora com algumas imprecisões.

Por exemplo, diz erradamente que em 13 de "Junho" (em vez de Julho) tinha lugar a famosa junta anual, com assistência dos jurados das sete povoações de Roncal e sete ou oito jurados "bretões" (em vez de baretonenses). Põem-se os dois grupos de ambos lados de um marco de pedra de vara e meia de altura, e os roncalenses perguntam aos franceses (em vez de bearnenses, então com Joana III como rainha de Navarra e viscondessa de Béarn), se estão dispostos a jurar. Então colocam a sua lança em terra, seguindo a linha dos marcos de fronteira e, seguidamente, os roncalenses colocam por cima a sua, formando uma cruz. Os "franceses" põem as suas mãos por cima desta cruz e os roncalenses, como superiores, fazem o mesmo sobre as destes, com o maior silêncio, e dentro da jurisdição de cada um. Prestam juramento e manifiestam “que a paz entre eles irá avante, que é o mesmo que dizer daí em diante, e o mesmo significa na língua portuguesa”. Três vezes se repete a fórmula e saem então de um bosque uma trintena de homens com as vacas, iguais de cornos e caudas, de um [ano de] idade, cor e peso, e sem lesão alguma, pois de outra forma as recusariam os roncalenses “porque são para os párias”. Os "franceses" metem meia vaca no solo navarro, sendo recebida se estiver em condições, e o mesmo com as outras duas, pondo-as a bom recolher, porque se algum dos animais volta a França, não estão obrigados os franceses a entregar outra em seu lugar. Depois vem a nomeação dos guardas e desfazem-se os agraves. E o relato continua: “passadas estas coisas, os roncalenses, com liberdade de fidalgos, dão logo de merendar aos franceses com pão, vinho e muito bons pernis de toucinho e o mesmo fazem a todos os que acodem à festa”. O resto do dia tem lugar uma feira na parte "francesa", com venda de carneiros, bois, éguas e outro gado.

Desavenças no século XVII