direita|thumb|330px|Cruz deixada próximo a Ypres, Bélgica (1999) em comemoração aos 85 anos da Trégua de Natal de 1914.

Trégua de Natal (em inglês, Christmas truce; em alemão, Weihnachtsfrieden) é o termo usado para descrever o armistício informal ocorrido ao longo da Frente Ocidental no Natal de 1914, durante a Primeira Guerra Mundial. Durante a semana que antecedeu o Natal, soldados alemães e britânicos trocaram saudações festivas e canções entre suas trincheiras; na ocasião, a tensão foi reduzida a ponto dos indivíduos entregarem presentes a seus inimigos. Na véspera de Natal e no Dia de Natal, muitos soldados de ambos os lados — bem como, unidades francesas ainda que em menor número — se aventuraram na "terra de ninguém", onde se encontraram, trocaram alimentos e presentes, e entoaram cantos natalinos ao longo de diversos encontros. As tropas de ambos os lados também foram amigáveis o suficiente para jogarem partidas de futebol.Eksteins, Modris. The Rites of Spring. 2000. New York, NY: Mariner Books. p. 113.ISBN 978-0395937587

A trégua é vista como um momento simbólico de paz e de humanidade meio a um dos eventos mais violentos da história moderna, mas não foi universal: em algumas frentes de combate a luta continuou durante todo o dia, enquanto em outras foi feito apenas o trabalho de recolher os corpos. No ano seguinte, algumas unidades estavam dispostas ao cessar-fogo durante o Natal, mas a trégua não foi tão divulgada como em 1914, devido em parte às ordens dos altos comandos de ambos os lados, que proibiram tal confraternização. Em 1916, após as sangrentas batalhas de Somme e Verdun e com o início do uso generalizado de gás venenoso, os soldados de ambos os lados cada vez menos enxergavam seus adversários como humanos, e a trégua de Natal não voltou a ser realizada.

Nos primeiros meses de guerra imóvel de trincheiras, as tréguas não eram restritas apenas ao período de Natal, e refletiam um clima crescente de "viva e deixe viver", onde unidades de infantaria em estreita proximidade de outras evitavam um comportamento abertamente agressivo, e muitas vezes se engajavam em pequenas confraternizações, promovendo conversas ou troca de cigarros.Ashworth, Tony. Trench Warfare 1914–1918: The Live and Let Live System. 1980. Teaneck, NJ: Holmes & Meier. p. 266. ISBN 978-0841906150 Em alguns setores havia cessar-fogos ocasionais, para que os soldados pudessem ir entre as linhas de combate para resgatar os companheiros feridos ou mortos, enquanto em outros vigorava um acordo tácito para não atirar enquanto os homens descansavam, se exercitavam, ou trabalhavam à vista do inimigo. As tréguas de Natal foram particularmente notáveis devido ao número de homens envolvidos e ao nível de participação — mesmo em setores muito pacíficos, haver dezenas de homens que se reuniam abertamente à luz do dia era notável.

Contexto Durante os primeiros meses da Primeira Guerra Mundial, as tropas alemãs atacaram a França através do território belga. As tropas foram repelidas de Paris pelos franceses e britânicos na Batalha do Marne, no início de setembro de 1914. Os alemães se refugiaram então no vale do Aisne, onde permaneceram em posição defensiva. Na batalha posterior — a batalha do Aisne —, as forças aliadas não foram capazes de avançar através da linha alemã, e a luta rapidamente chegou a um impasse: nenhum dos lados estava disposto a ceder terreno e ambos começaram a construir sistemas fortificados de trincheiras. Ao norte, à direita do exército alemão, não havia uma linha de frente definida, e ambos os lados tentaram rapidamente usar essa brecha para se flanquearem uma à outra. Durante a corrida para o mar que se seguiu, os dois lados se enfrentaram repetidamente, cada um tentando avançar à frente do outro. Depois de vários meses de luta, durante os quais as forças britânicas foram retiradas do Aisne e enviadas para o norte em Flandres, o flanco norte estava em um impasse semelhante. Em novembro, havia uma linha de frente contínua, desde o mar do norte até a fronteira suíça, a qual era ocupada em ambos os lados pelos exércitos preparados em posições defensivas.Brown, Malcolm. Meetings in no man's land: Christmas 1914 and fraternization in the Great War. Constable, 2007. ISBN 978-1845295134. 278 p.

Aproximação ao Natal Diversas iniciativas de paz foram incitadas dias antes do Natal de 1914. A Carta Aberta de Natal foi uma mensagem pública de paz dirigida "às Mulheres da Alemanha e da Áustria", assinada por um grupo de 101 mulheres sufragistas britânicas ao final de 1914, data em que se aproximava o primeiro Natal da Primeira Guerra Mundial.Oldfield, Sybil. International Woman Suffrage: November 1914 – September 1916. Taylor & Francis, 2003. ISBN 0-415-25738-7. Volume 2 de International Woman Suffrage: Jus Suffragii, 1913–1920, Sybil Oldfield, ISBN 0-415-25736-0 p. 46.Patterson, David S. The search for negotiated peace: women's activism and citizen diplomacy in World War I. Routledge, 2008. ISBN 0-415-96142-4 p. 52 O Papa Bento XV, em 7 de dezembro de 1914, aludira a uma trégua oficial entre os governos em guerra,"Demystifying the Christmas Truce", Thomas Löwer, The Heritage of the Great War, acessado em 21 de setembro de 2012. pedindo "que as armas possam cair em silêncio, ao menos na noite em que os anjos cantam"."Miracles brighten Christmas" , Harrison Daily Times, acessado em 21 de setembro de 2012. O apelo foi recusado pelas autoridades.

Natal de 1914 miniaturadaimagem|Tropas britânicas e alemãs se encontrando em terra de ninguém durante a trégua não oficial (tropas britânicas dos Hussardos de Northumberland, 7ª Divisão, Setor Bridoux–Rouge Banc). O historiador americano Stanley Weintraub calculou em, aproximadamente, cem mil soldados de ambos os lados, aderindo em algum momento às tréguas de natal de 1914. Embora não houvesse nenhuma trégua oficial, soldados britânicos e alemães estavam envolvidos em cessar-fogos da frente ocidental."The Truce of Christmas, 1914", Thomas Vinciguerra, The New York Times, acessado em 21 de setembro de 2012. A trégua começou na véspera de Natal, 24 de dezembro de 1914, quando as tropas alemãs decoraram o entorno de suas trincheiras na região de Ypres, Bélgica, havendo várias tréguas não oficiais esparsas que perduraram, por até seis dias. Mas esta trégua não oficial não atingiu a todos os soldados localizados no Front ocidental, sendo que houve vários locais em que a batalha sangrenta prosseguiu normalmente durante o dia de Natal.

Os alemães colocaram velas nas trincheiras e decoraram árvores de Natal, continuando em seguida a celebração ao cantar canções de Natal. Os britânicos responderam cantando as suas próprias canções. Houve casos em que alemães e ingleses começaram, de suas próprias trincheiras, a cantar unidos os mesmos cânticos natalinos, ainda que em suas próprias línguas e versões como escreveu o fuzileiro Graham Williams, da 1ª Brigada de Fuzileiros de Londres: “Começamos a cantar O Come, All Ye Faithful e imediatamente os alemães se uniram cantando o mesmo hino em suas palavras latinas, Adeste Fideles. Que coisa extraordinária — duas nações inimigas entoando o mesmo cântico no meio da guerra”.

Os dois lados continuaram gritando saudações de Natal um para o outro, até que começaram a surgir convites e iniciativas de ambos os lados para uma trégua e até um encontro pacífico, como, por exemplo, o descrito anos depois pelo capitão alemão Josef Sewald, do 17º Regimento Bávaro: “Gritei para os nossos inimigos que não queríamos atirar e que faríamos uma trégua de Natal. Disse que eu viria do meu lado e que poderíamos conversar entre nós. A princípio, houve silêncio, voltei a gritar e um inglês gritou, "Parem os tiros!” Aí um deles saiu das trincheiras e eu fiz o mesmo, e nos aproximamos e trocamos um aperto de mãos –— um tanto cautelosos!”. Pouco depois, começaram a se fazer travessias através da Terra de Ninguém, onde eram trocados alguns presentes, como tabaco, alimentos, álcool, ou recordações como botões e chapéus. A artilharia nesta região permaneceu em silêncio.

Na manhã de Natal, uma Missa bilíngue foi rezada por um padre escocês e um seminarista alemão selou o momento de ecumênica harmonia, “um espetáculo extraordinário”, deslumbrou-se o tenente Arthur Pelham Burn, do 6º Regimento dos Highlanders. “Os alemães alinhados de um lado, os britânicos de outro, os oficiais à frente, todos de cabeça descoberta.” É sabido foi realizada, ao menos, uma partida de futebol amistosa envolvendo soldados franceses, alemães e ingleses, em Saint-Yves, durante o dia de Natal. A trégua também permitiu que os soldados mortos recentemente pudessem ser trazidos de volta para suas linhas para poderem ser enterrados. Foram realizados vários funerais em conjunto. A confraternização teve alguns riscos; alguns soldados foram mortos pelas forças da oposição. Em muitos setores, a trégua durou apenas até a noite de Natal, mas em outras continuou até ao Dia de Ano Novo."Remembering a Victory For Human Kindness – WWI's Puzzling, Poignant Christmas Truce", David Brown, The Washington Post, acessado em 21 de setembro de 2012.

Bruce Bairnsfather, que serviu durante a guerra, escreveu:"Bullets & Billets by Bruce Bairnsfather", Project Gutenberg, acessado em 21 de setembro de 2012.

O general Sir Horace Smith-Dorrien, comandante do II Corpo britânico, revoltou-se ao saber o que estava acontecendo e emitiu ordens estritas proibindo a comunicação amigável com as tropas adversárias alemãs.

Adolf Hitler, um jovem cabo do 16ª Reserva bávara de Infantaria, estava entre os oponentes da trégua. Apesar de estar fora da linha de frente, na reserva, surgiu a discussão sobre cruzar a terra de ninguém para comemorar o Natal com os britânicos. Hitler recusou-se a participar da confraternização, argumentando “Tal coisa não devia acontecer em tempo de guerra. Vocês não têm mais nenhum senso de honra alemão?”. Embora fosse católico batizado, ele rejeitou qualquer vestígio de religiosidade do evento.

Tréguas posteriores Nos meses seguintes, houve algumas tentativas esporádicas de tréguas: uma unidade alemã tentou sair de suas trincheiras sob uma bandeira de trégua no domingo de Páscoa de 1915, mas foram dissuadidos pelos britânicos à sua frente; no final do ano, em novembro, uma unidade da Saxônia confraternizou brevemente com um batalhão de Liverpool. Em dezembro, houve ordens explícitas da parte dos comandantes aliados para evitar qualquer repetição da trégua de Natal anterior. As unidades individuais foram incentivadas a montar ataques e assediar a linha inimiga, enquanto que a comunicação com o inimigo foi inibida por barragens de artilharia ao longo da linha de frente durante todo o dia. No entanto, a proibição não foi completamente eficaz, havendo ainda um pequeno número de tréguas breves.Weintraub, Stanley. Silent Night: The Remarkable Christmas Truce of 1914. Thorndike Press , 2001. ISBN 978-0786247400, 272 p.