thumb|370px|Eugene von Guérard: Vista nordeste do Monte Kosciuszko, 1863. Galeria Nacional da Austrália

A pintura na Austrália tem uma dupla tradição: uma corrente deriva da arte aborígene, cuja origem está na Pré-história local, mas que só passou a ser seriamente considerada pelos círculos oficiais e se integrar vitalmente à cultura australiana a partir da década de 1950, e outra que deriva da pintura europeia, tendo iniciado um florescimento pouco depois da colonização do território no fim do século XVIII, crescendo ininterruptamente desde então e mostrando ter características próprias. Na atualidade a pintura australiana acompanha a multiforme cultura global contemporânea e já desfruta de significativo prestígio internacional, com vários representantes premiados em certames internacionais e diversos museus locais dedicados à sua preservação e divulgação.

A pintura indígena Há pinturas rupestres na Austrália de data estimada entre e anos, que são possivelmente a mais antiga iconografia da figura humana em todo o mundo, um grupo de obras espalhado por uma área de mais de km² em cerca de sítios arqueológicos, e conhecida como Bradshaws ou Gwion Gwion. Seu interesse reside tanto em sua enorme antiguidade como na temática, ilustrando não animais, como é comum em outros sítios similares do mundo, mas pessoas vestidas com trajes sofisticados e portando objetos que sugerem uma vida em aldeias com a existência de uma tecnologia relativamente avançada. Também foi aventado que seus autores eram originários de outra parte, talvez da Polinésia, já que não há sinais de civilização autóctone comparável com essa antiguidade. Tais obras aparentemente possuíam um significado cultural mais amplo do que apenas o uso ritual e mágico, mais comum em outras culturas pré-históricas.Bradshaw Foundation. Bradshaw Paintings - Gwion Gwion (Guion Guion) Art. The Lost World's of the Bradshaws. Convict Creations.com

thumb|Pintura rupestre, Parque Nacional Kakadu thumb|William Barak: Pintura aborígene sobre vestuário, c. 1898

Outras culturas pré-históricas mais recentes também deixaram importantes registros pictóricos, mas estas em geral foram produzidas por tribos de caçadores nômades, e mostram muitas figuras de animais, além da humana, em um estilo bem menos refinado e variado do que as Bradshaws. A arte aborígene continuou a ser praticada ininterruptamente até a chegada dos colonizadores, que encontraram diversos povos e clãs que preservavam uma cultura visual e usavam para pintar pigmentos minerais, vegetais e animais, junto com gomas, colas e gordura, sobre suportes diversos, como cascas de árvores, vestuário, totens, objetos utilitários, e também se exibiam com pintura corporal, como os povos Ganalbingu, Gupapuyngu, Kuninjku, Yolngu e muitos mais.The Aboriginal Memorial. National Gallery of Australia

A partir do século XIX alguns artistas indígenas começaram a ser reconhecidos individualmente, tornando-se famosos, como William Barak, e depois Albert Namatjira, David Malangi Daymirriŋu e Wenten Rubuntja, embora sua arte ainda fosse um fenômeno cultural isolado da corrente pictórica culta, de herança europeia. Contudo, sua atuação contribuiu ainda para a progressiva afirmação dos aborígenes na sociedade nacional, e foram os precursores de um movimento de revalorização da cultura indígena que a partir dos anos 1950 passou a incluir nos acervos museológicos oficiais o trabalho de artistas indígenas, não como dado etnográfico, mas como arte de pleno direito.Linda Burney. Michael Riley: Sights Unseen. National Gallery of Australia Desde o Modernismo, e com mais força após sua consagração pelos museus nacionais nos anos 1950, a arte aborígene passou a influir na pintura cultivada pelas elites brancas e instâncias oficiais, como se vê na produção de Sidney Nolan e Margaret Preston, e hoje artistas de sangue nativo como Emily Kame Kngwarreye estão entre os líderes da arte australiana contemporânea.Wally Caruana. Emily Kame Kngwarreye: Alhalkere, Paintings from Utopia. National Gallery of Australia Powerhouse Museum. Modern Times: The untold story of Modernism in Australia. Teachers exhibition notes

A tradição europeia na pintura australiana

A partir de 1770 os ingleses iniciaram o reconhecimento e colonização da Austrália, e ali introduziram sua herança cultural. As primeiras expressões artísticas em pintura, dentro dessa tradição, surgiram pela mão de naturalistas e ilustradores que visitaram o continente. Realizadas na técnica da aquarela, estas obras se destinavam a ser publicadas em livros científicos através da reprodução em gravura. O primeiro artista europeu a retratar temas australianos foi Sydney Parkinson, sob a supervisão do naturalista Joseph Banks; ambos participaram da viagem de James Cook em 1770, quando a costa australiana foi primeiro cartografada. Em seguida Charles Alexandre Lesueur, John Eyre e John Lewin, este o primeiro artista a se fixar na terra, produziram diversas obras mostrando aspectos da geografia, da flora e da fauna australianas. John Gould, um ornitologista, deixou uma série de delicadas e preciosas ilustrações de pássaros, enquanto que Augustus Earle produziu muitas obras tratando dos tipos humanos e dos costumes locais. Conrad Martens foi o primeiro a conseguir sucesso comercial com suas pinturas, com muitas obras no gênero de paisagem, embora tenha suavizado seu aspecto para conquistar o gosto europeu. Art of Australia. Wikipedia, the free encyclopedia

Logo a incomum paisagem australiana começou a influenciar a produção artística, notando-se uma atenção dos autores em relação às características únicas da luz local. Em torno de 1840 começaram a ser realizadas exposições, exibindo trabalhos de diversos artistas, mas estando o circuito artístico ainda em fase de formação, não tiveram sucesso comercial. Mas logo na década seguinte as mostras regulares encontram um público interessado que, de acordo com as preferências românticas, apreciava paisagens grandiloquentes e dramáticas, ou as que exaltavam o heroísmo dos colonizadores, sendo exibidas tanto em seu país de origem como para uma plateia inglesa, divulgando as belezas naturais de um continente até então largamente inexplorado e desconhecido para os europeus. Entre os melhores pintores da época estavam Knut Bull, John Glover, Samuel Thomas Gill, Nicholas Chevalier, Eugene von Guérard, H.J. Johnstone, James Howe Carse, William Strutt, Abraham-Louis Buvelot e Thomas Baines.National Gallery of Australia. New Worlds from Old: 19th Century Australian and American Landscapes Beatrice Gralton. Ocean to Outback: Australian landscape painting 1850–1950. Catálogo de exposição promovida pela National Gallery of Australia

Na década de 1860 é fundado o primeiro museu de arte, que eventualmente originou a National Gallery de Victoria, reunindo uma coleção de autores europeus e australianos. Ao mesmo tempo o interesse passa das paisagens monumentais românticas para uma abordagem mais realista, mais tranquila e contemplativa, da natureza e do homem. No fim do século são fundados o Wilgie Club, a Victorian Academy of Arts, a Victorian Artists' Society, a Australian Artists' Association e a West Australian Society of Arts, as primeiras associações de artistas, e aparecem as primeiras galerias comerciais importantes. Em 1880 é inaugurada a Melbourne International Exhibition, e em 1888 é a vez da Centennial International Exhibition, com grande elenco de artistas participantes e visitadas por milhares de pessoas. Influenciada pelo Impressionismo, surge a Escola de Heidelberg, que privilegia a paisagem australiana e temas nacionalistas, voltando a representar os colonizadores em sua contribuição para a formação de uma nação nova. Seus integrantes buscavam captar a cor e luz local praticando ao ar livre. Destes se destacaram Penleigh Boyd, Louis Buvelot, Charles Conder, David Davies, Emanuel Phillips Fox, Eugene von Guérard, Frederick McCubbin, Jane Price, Tom Roberts, William Nicholas Rowell, Arthur Streeton, Clara Southern, George Washington Lambert, Clarice Beckett, Tudor St George Tucker, May Vale e Walter Withers. Inicialmente designando apenas os pintores que trabalhavam na área de Heidelberg, perto de Melbourne, o nome logo passou a identificar toda a geração impressionista australiana. Ao mesmo tempo, com a rápida urbanização que ocorria em torno de Melbourne e outros grandes centros, surgem problemas típicos das cidades e do progresso acelerado, que são percebidos por alguns desses artistas e registrados como as primeiras obras australianas de fundo social, retratando as classes mais baixas e suas habitações miseráveis, os primeiros sinais de poluição, e a desfiguração da paisagem natural pela indústria.Heidelberg School. Wikipedia, the free encyclopediaNational Gallery of Victoria. Australian Impressionism

Modernidade Sobre as liberdades formais introduzidas pelo Impressionismo foi construído o caminho para a introdução dos avanços mais radicais do Modernismo. Entre seus precursores estavam Norman Lindsay e Ernest Buckmaster. A eclosão da I Guerra Mundial e as mudanças na sociedade, economia e cultura por ela produzidas, aparecendo inúmeras novidades tecnológicas e novos hábitos de vida, foram imediatamente captados pelos pintores. Muitos deles tiveram contato com expressionistas, surrealistas, cubistas e outros artistas de vanguarda na Europa e Estados Unidos, e introduziram esses novos conceitos na Austrália.Powerhouse Museum. Modern Times: The untold story of Modernism in Australia.

Assim cresce uma onda experimentalista na pintura, desejando romper com padrões culturais e sociais ultrapassados, com os ditames do Academismo, e construir uma vida melhor para todos, "celebrando o romance das cidades, o corpo sadio e as ideias da abstração" em um ambiente cosmopolita. Caracteristicamente, a arte aborígene exerceu significativa influência nessa geração de modernos, enquanto que as mulheres começavam a receber igual respeito como artistas.Powerhouse Museum. Modern Times: The untold story of Modernism in Australia. Elena Taylor. Australian Surrealism: the Agapitos/Wilson collection Exhibition. National Gallery of Australia, 2008

Mesmo com todos esses fatores combinados, a implantação definitiva do Modernismo na Austrália conheceu muitos obstáculos e críticas, e só aconteceu tardiamente. Uma das forças de oposição foi a instituição em 1921 do Archibald Prize, um dos mais importantes prêmios de pintura da Austrália, e nas duas primeiras décadas de atividade ele foi dominado por representações acadêmicas, exemplificadas por artistas como John Longstaff e William Beckwith McInnes.Archibald Prize. Wikipedia, the free encyclopedia Não havia uma unidade de princípios entre os modernistas, em alguns artistas se percebia uma dissociação entre filosofia e prática, e outros temiam que suas propostas pudessem ser mal-interpretadas e marginalizadas, e com isso perdessem sua força social, indecisões que acabaram por fragilizar o movimento.Jane E Hunt. Victors and Victims?: Men, Women, Modernism and Art in Australia. The Australian Public Intellectual Network, 6 de janeiro de 2009 Dentre seus expoentes se contam George Bell, Clifford Bayliss, Joy Hester, Peter Bellew, Grace Cossington Smith, Margaret Preston, Thea Proctor, e George Lambert.