Treboniano Galo (206 – agosto de 253) (em latim: Caius Vibius Afinius Trebonianus Gallus) foi um imperador romano que governou entre junho de 251 e julho-agosto de 253.
Carreira e ascensão ao poder Caio Víbio Afínio Treboniano Galo, ou simplesmente Treboniano Galo, nasceu aproximadamente em 206, de origem etrusca, pertencente a uma família da região de Perúsia. Ingressou no Senado romano antes de completar trinta anos de idade. Serviu como legado de legião entre 235 e 236, na Trácia. Também foi edil ou tribuno da plebe em torno do ano de 237 e pretor (em 240). Teve por esposa Afínia Gemina Bebiana, que muito provavelmente já havia falecido quando Treboniano Galo ascendeu ao poder imperial.
Em 245, assumiu como cônsul sufecto e, por volta do final de 249, foi nomeado governador da Mésia Superior (ou Inferior) por Décio. No ano seguinte, Treboniano Galo repeliu os ataques do rei Cniva e dos godos na região de Novae. Posteriormente, se dirigiu para Ulpia Oescus, onde foi aclamado imperador por suas tropas após a vitória dos godos sobre os romanos na batalha de Abrito (junho de 251), quando Décio e seu filho mais velho, Herênio Etrusco, foram mortos.
Autores tardo-antigos como ZósimoZósimo, História Nova, 1.24. veicularam uma tradição que implicava Treboniano Galo diretamente nas mortes de Décio e Herênio Etrusco. Zósimo relata que Treboniano Galo teria conspirado com os godos, conduzindo as tropas do imperador Décio e seu filho a uma armadilha em um terreno pantanoso em Abrito, onde foram cercados e assassinados pelos godos. Porém, muitos dos soldados que viriam a aclamar Treboniano Galo como imperador haviam sobrevivido à derrota em Abrito. É difícil acreditar que esses homens tivessem escolhido como sucessor de Décio justamente um comandante cuja traição teria vitimado tantos legionários romanos, além do próprio imperador e de seu filho. O filho mais novo de Décio, o também imperador Hostiliano, que havia permanecido em Roma durante a campanha militar liderada por Décio no Baixo Danúbio, foi mantido no poder por Treboniano Galo. Isso fez com que, durante o verão de 251, uma espécie de triarquia tivesse sido formada, composta por um membro da antiga família reinante (Hostiliano) e pelos membros da nova família imperial (Treboniano Galo e seu filho, o "César" Volusiano). Essa situação política durou apenas poucas semanas, já que Hostiliano faleceu provavelmente em julho-agosto daquele ano.
Logo depois da derrota dos romanos em Abrito, Treboniano Galo firmou um tratado de paz com o rei Cniva visando a estabilização da fronteira imperial romana no Baixo Danúbio, o que permitiu que ele viajasse para Roma a fim de que fosse reconhecido como imperador pelo Senado, legitimando o seu poder. O acordo com os godos permitiu que eles partissem do território romano com todo o saque e com os cativos de guerra que haviam subjugado. Igualmente, Treboniano Galo prometeu o pagamento de um tributo anual a Cniva. Todas essas medidas foram vistas como humilhantes por muitos cidadãos romanos.
Governo O governo de Treboniano Galo foi marcado por conflitos militares, religiosos e problemas epidemiológicos. A Peste de Cipriano, que eclodiu no Império Romano ainda no final da década de 240, atingiu em cheio a cidade de Roma logo no início do governo de Treboniano Galo em 251. Sexto Aurélio VítorSexto Aurélio Vítor, Livro dos Césares (Histórias abreviadas), 31.1. escreveu que o imperador dedicou grande atenção à epidemia, inclusive custeando os rituais fúnebres dos habitantes mais pobres de Roma. A partir da cosmovisão pagã de que a epidemia manifestava algum tipo de atrito na relação entre deuses e seres humanos, no ano de 252 Treboniano Galo retomou as bases do edito de Décio, reestabelecendo a obrigação de que todos os cidadãos do Império Romano oferecessem sacrifícios aos deuses. Isso levou a um novo, embora curto, período de perseguição aos cristãos, em que Cornélio, bispo de Roma, foi forçado a exilar-se, refugiando-se nos arredores da cidade (na atual localidade de Civitavecchia).
As fronteiras imperiais se mantiveram bastante instáveis. Acredita-se que a Peste de Cipriano tenha enfraquecido o efetivo militar romano, o que dificultou a defesa das regiões fronteiriças. Durante os anos de 252 e 253, os persas comandados por Sapor I invadiram o reino da Armênia e, mais uma vez, a província romana da Mesopotâmia, tomando a cidade de Nísibis e ameaçando diretamente regiões como a Síria e a Capadócia. Fontes sassânidas, como a Res Gestae Divi Saporis, descrevem uma enorme vitória persa sobre os romanos em Barbalissos, quando mais de 60 mil soldados romanos teriam sido mortos. Embora esse número de vítimas seja exagerado, serve como indicativo de uma significativa concentração de tropas romanas na região do Médio Eufrates, sinalizando a importância que Treboniano Galo conferiu à defesa das regiões orientais do Império Romano. O tratado de paz estabelecido com Cniva em 251 teria possibilitado que Treboniano Galo e Volusiano centrassem as suas atenções na questão sassânida, dada a aparente tranquilidade resultante do acordo com os godos no que se referia às áreas danubianas.
Em 253 (ou, quem sabe, ainda no ano anterior), populações transdanubianas retomaram as incursões às duas Mésias, atacando-as a partir da costa meridional do Mar Negro. Isso demonstrava que o acordo firmado com Cniva possuía um alcance limitado, porque ele não dispunha de autoridade efetiva nem mesmo sobre todas as populações góticas. Tendo Treboniano Galo permanecido em Roma, para administrar os efeitos causados pela epidemia na cidade, e tendo Volusiano aparentemente se deslocado para a Síria romana para assegurar a presença imperial no enfrentamento contra os persas, Treboniano Galo enviou Marco Emílio Emiliano para as Mésias a fim de lidar com os invasores bárbaros.
Dotado de um comando militar supraprovincial, Emiliano parece ter compreendido os anseios das tropas romanas estacionadas no Baixo Danúbio, que desejavam retomar os combates contra os godos para vingar a derrota sofrida em Abrito. Por isso, esses soldados se inquietavam com a falta de iniciativa de Treboniano Galo em relação às invasões góticas.
Morte Na metade do ano de 253, Emiliano decidiu, por conta própria, interromper o pagamento do subsídio anual aos godos, rompendo com o tratado de paz endossado por Treboniano Galo dois anos antes. Provavelmente, Emiliano redirecionou o montante a ser pago aos godos em benefício dos próprios soldados romanos que, sob o comando dele, obtiveram vitórias sobre as forças militares de Cniva, repelindo-os de volta para a margem norte do rio Danúbio. Um vitorioso Emiliano foi proclamado por suas próprias tropas como novo imperador. Feito isso, ele marchou com os seus soldados em direção à Roma para obter o reconhecimento do Senado e legitimar a sua posição. Reagindo a isso, Treboniano Galo declarou Emiliano como “inimigo público” (hostis publicus), ordenando também que Valeriano, comandante de origem senatorial que se encontrava na região renana, mobilizasse as tropas do Reno e do Alto Danúbio a fim de combater as legiões de Emiliano que ingressavam na península Itálica.
Entre o final de julho e o começo de agosto de 253, Treboniano Galo e Volusiano foram assassinados nas proximidades da atual Espoleto (Interâmna Nars), por obra dos soldados que eles haviam arregimentado em solo itálico. Esses soldados, por temerem uma iminente derrota diante do exército numericamente superior comandado por Emiliano, acabaram por eliminar o imperador e seu filho Volusiano, juntando-se inclusive às forças militares lideradas pelo inimigo que teoricamente deveriam ter combatido.
Ver também
Categoria:Crise do terceiro século Categoria:Imperadores romanos assassinados Categoria:Imperadores romanos Categoria:Guerra Gótica (249–253) Categoria:Romanos antigos envolvidos nas guerras romano-góticas Categoria:Governadores romanos da Mésia Inferior