thumb|400px|Albert Bierstadt: Entre as montanhas da Sierra Nevada. Smithsonian American Art Museum

Apesar de possuir uma história relativamente curta dentro da arte ocidental, a pintura nos Estados Unidos evoluiu tão rápido como a economia e sociedade desse grande país, para se tornar nos dias de hoje uma das mais insignes e ativas escolas nacionais em todo o mundo. Depois de um início dependente da informação europeia, deu no século XX contribuições originais de importância fundamental para a evolução da pintura contemporânea. Atualmente os Estados Unidos são uma das referências básicas para a formação de novos pintores, um dos maiores centros produtores de pintura e uma das maiores forças na dinamização do mercado de arte mundial.

Durante a colônia Os primeiros tempos coloniais foram virtualmente um deserto em termos de arte. Não havia escolas nem artistas, mas no século XVII já havia se formado uma elite agrária em Maryland, Pennsylvania e Virginia que importava produtos de luxo e objetos de decoração da Europa, possivelmente também pinturas. A maior parte do que se produziu localmente nesta arte durante o período colonial norte-americano (1585-1776) consistiu, significativamente, de retratos, como uma forma de os colonos estabelecerem uma identidade no Novo Mundo e criarem na provinciana colônia um ambiente cultural semelhante ao que deixaram na antiga pátria. Essa tradição de retratos, contudo, só iniciaria na terceira década do século XVIII.Jaffee, David. Religion and Culture in North America, 1600–1700. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000. American Portraits of the Late 1700s and Early 1800s. National Gallery of Art, Washington, DC. 2009 The Collection: American Painting. National Gallery of Art, Washington, DC. 2009 left|thumb|150px|Jonh Smibert: Retrato de George Berkeley, c. 1730. National Portrait Gallery de Washington

A Europa, em particular a Inglaterra, foi a referência para a arte norteamericana neste período, já que cerca de 70% dos colonos era descendente de ingleses. Assim, da Europa vieram os primeiros pintores a trabalharem no EUA, especificamente nas Treze Colônias do nordeste, já que o restante do seu atual território ainda pertencia à Espanha e era povoado por indígenas, e outros tantos, talentos autóctones, se deslocaram para a metrópole a fim de estudar e aprender o ofício. De fato, parte apreciável da primeira pintura colonial norteamericana foi produzida por estrangeiros e no estrangeiro.

Em 1728 se assinala a presença em Newport do pintor escocês John Smybert, que emigrara a fim de se tornar professor de artes na escola que o bispo George Berkeley planejava fundar nas Bermudas, mas acabou se estabelecendo em Boston. Logo em seguida o retratista suíço Jeremiah Theus aparece em Charleston para pintar ao longo de muitos anos personagens da elite local. Outro precursor foi o viajante austríaco Philip von Reck, que deixou inestimável série de desenhos e aquarelas ilustrando aspectos humanos, naturais e sociais da Geórgia . Ao mesmo tempo, a economia local se encontrava em uma fase de expansão e havia considerável importação de mobília, louças, pratas e pinturas para adornar as mansões especialmente dos fazendeiros do sul.Jaffee, David. Art and Identity in the British North American Colonies, 1700–1776. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000. Images of Southeastern Natives In von Reck's drawings. Amohkali Creek: Information and Resources from the 18th Southeast

Na década de 1750 Boston já era uma rica cidade portuária, com intenso comércio internacional e significativa classe abastada consumidora de arte. Ali nasceu em 1738 um dos primeiros grandes pintores norteamericanos, John Singleton Copley. Apesar de seu filho afirmar que ele fora completamente autodidata, e ele mesmo dizer que em sua época nada de bom havia em termos de arte na sua região, seu trabalho, de qualidade superior e caráter acadêmico, mostra que ele deve ter aprendido pelo menos através da observação e cópia de obras importantes em alguma casa rica. De qualquer forma, o ambiente local, por desenvolvido que estivesse, ainda era limitado para seu talento e ele mudou-se para Londres em 1774, jamais retornando. Fixou-se em Londres, ingressou na Royal Academy, fez o Grand Tour europeu, adquiriu fama, entrou em contato com figuras ilustres e realizou obra numerosa e de alto nível, num estilo que transitou do fim do Rococó até o Romantismo, e seu exemplo foi a influência dominante em seu país até no século XIX.Jaffee, David. Art and Identity in the British North American Colonies, 1700–1776.

O outro grande nome da época foi Benjamin West, cuja carreira foi semelhante à de Copley. A primeira parte de sua vida artística passou produzindo retratos em Filadélfia, que competia com Boston em termos de importância e logo adiante assumiria a primazia cultural. Em 1756 produziu uma tela intitulada A morte de Sócrates, que lhe abriu as portas do patronato do Dr. William Smith, através de quem conheceu John Wollaston, com quem aperfeiçoaria sua técnica. Em 1760 William Smith e William Allen financiaram sua viagem à Europa, e ele se dirigiu a Roma para estudar. Três anos após estabeleceu residência em Londres, onde logo ganhou o favor do rei Jorge III e mais tarde foi um dos fundadores da Royal Academy, a qual presidiu até sua morte sucedendo Joshua Reynolds. West se tornou um dos líderes do movimento neoclássico-romântico inglês e um dos principais nomes europeus em sua geração no campo da pintura histórica, retirando inspiração de temas da antiguidade clássica, mas também não esqueceu suas raízes, e deixou importantíssima obra com temática norteamericana. Fez diversos discípulos conterrâneos, como Charles Willson Peale (fundador da Pennsylvania Academy of the Fine Arts), Rembrandt Peale, Gilbert Stuart, John Trumbull e Thomas Sully, todos grandes artistas, e sua influência foi similar à de Copley para a pintura norteamericana.

Independência e início da República

A dolorosa Guerra de Independência devastou o país, e o isolou do resto do mundo tanto em termos políticos como culturais. A produção de arte local estagnou e muitos artistas emigraram para nunca voltar, mas logo após a cessação das hostilidades experimentou rápida recuperação. Um dos que retornaram foi Charles Peale que chegou a lutar na guerra e era membro de grande família de artistas. Amigo de George Washington, foi incumbido de retratá-lo, numa obra de se tornou logo copiada muitas vezes. Deixou extensa série de retratos de outras figuras importantes dos primeiros tempos da república. Outro foi Gilbert Stuart, que adquiriu proeminência internacional após receber a encomenda de pintar outro retrato de Washington.Jaffee, David. Art and Society of the New Republic, 1776–1800. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000.

A independência instilou grande entusiasmo na população, orgulhosa de sua república, e logo se iniciou um processo de construção de um imaginário simbólico na forma de retratos e obras históricas que confirmasse a autonomia e grandeza da pátria, numa onda tipicamente romântica mas que se espelhava na Atenas democrática e na Roma imperial, e por isso a influência do Neoclassicismo também foi importante. Dentre os pintores históricos se destacou John Trumbull, depois do exemplo deixado por West. Assim como ele produziu muito na Inglaterra, e sua melhor contribuição à arte norteamericana são as telas sobre a Revolução de 1776.Jaffee, David. Art and Society of the New Republic, 1776–1800

Em 1803 a compra da Louisiana duplicou a extensão do país. Região ainda pouco conhecida, atraiu diversos artistas e cientistas para pesquisa e retrato da sua fauna, flora, geografia e seus povos indígenas. Entre eles estavam John James Audubon, John Abbot e George Catlin, de formação acadêmica e também naturalistas, trabalhavam primariamente como ilustradores. Outros, autodidatas ou de inspiração popular, como Edward Hicks, Robert Peckham e Joseph Whiting Stock, pintavam longe dos grandes centros urbanos como lazer privado ou sob encomenda de pequenos proprietários rurais, divulgando a arte com os meios limitados de que dispunham, e de alguma forma educando seu público. Também merece uma palavra o generalizado gosto pela pintura de miniaturas, com grande mercado e vários mestres praticantes, como Henry Inman, Pierre Henri e John Wood Dodge..Klacsmann, Karen Towers. John Abbot. The New Georgia Encyclopedia. Georgia Humanities Council and the University of Georgia Press, 2004-2008. Barratt, Carrie Rebora. American Portrait Miniatures of the Nineteenth Century. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000. Barratt, Carrie Rebora. Nineteenth-Century American Folk Art. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000.

A economia também se refez com presteza dos desastres da guerra, apoiada na agricultura e comércio já consolidados e na indústria que crescia, e logo a dependência econômica da Inglaterra desapareceu. A população começava a expandir o território colonizado e em 1820 já chegava a 10 milhões de habitantes. Dentre eles, os ricos mercadores e fazendeiros continuavam apreciando arte e encomendando novas obras. Apesar disso, em termos culturais ainda havia muito por fazer nos EUA e a Inglaterra e sua Academia continuavam sendo as referências mais fortes, mesmo que um sentimento de identidade nacional já existisse claramente e se fortalecesse a cada dia. Um passo importantes para a formação de uma cultura tipicamente norteamericana aconteceu com a fundação da National Academy of Design em 1826, que cedo se tornaria a instituição artística mais respeitada do país.Jaffee, David. Post-Revolutionary America: 1800–1840. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000.

Outros pintores interessantes são Raphaelle Peale e Margaretta Peale conseguiram ótimos resultados num Realismo avant la lettre que empregava efeitos trompe-l'oeil, numa tradição que tinha raízes barrocas e produziria mais frutos de relevo no fim do século. John Johnston e James Peale deixaram belas naturezas-mortas, Thomas Sully, Rembrandt Peale e Samuel F. B. Morse (o mesmo inventor do Código Morse) produziram obra apreciável na retratística.

O grande paisagismo da Escola do Rio Hudson

À medida que o Romantismo se intensificava na primeira metade do século XIX, o interesse dos pintores passou das cenas históricas para a magnífica paisagem norteamericana, que logo se tornou o veículo por excelência para a expressão dos sentimentos nacionalistas. O cenário selvagem do interior inspirou toda uma geração de artistas baseados na costa leste, já bastante civilizada, mas que em larga medida ainda desconhecia as belezas naturais de seu país.