thumb|280px|Área de ocorrência da Bacia do Paraná, na América do Sul A Bacia Geológica do Paraná, ou simplesmente Bacia do Paraná é uma ampla bacia sedimentar situada na porção centro-leste da América do Sul. A sua área de ocorrência abrange, principalmente, o centro-sul do Brasil, desde o estado do Mato Grosso até o estado do Rio Grande do Sul, onde perfaz cerca de 75% de sua distribuição areal. Além do Brasil, ela também distribui-se no nordeste da Argentina, na porção leste do Paraguai e no norte do Uruguai. É uma depressão ovalada, com o eixo maior no sentido quase norte-sul, e possui uma área de cerca de 1,5 milhão de km². miniaturadaimagem|Orgão, Glândulas e Veias da Terra no entorno da Bacia do Paraná, revelados por Posição Topográfica Multiescala. Desenvolveu-se durante parte das eras Paleozoica e Mesozoica, e seu registro sedimentar compreende rochas formadas do Período Ordoviciano ao Cretáceo, abrangendo um intervalo de tempo entre 460 e 65 milhões de anos atrás. A seção de maior espessura, superior a m, está localizada na sua porção central e é constituída por rochas sedimentares e ígneas. As rochas sedimentares da Bacia do Paraná são ricas em restos de animais e vegetais fossilizados. A Bacia do Paraná é uma típica bacia flexural de interior cratônico, embora durante o Paleozoico fosse um golfo aberto para sudoeste para o então Oceano Panthalassa. A gênese da bacia está ligada à relação de convergência entre a margem sudoeste do antigo supercontinente Gondwana, formado pelos atuais continentes América do Sul, África, Antártica e Austrália, além da Índia, e a litosfera oceânica do Panthalassa, classificando a bacia, pelo menos no Paleozoico, como do tipo antepaís das orogenias Gondwanides.Zalan, P. V. et al. (1991) The Paraná Basin, Brazil. IN: Leighton, M. W. et al. (Eds.). Interior cratonic basins. Tulsa, Okla.: American Association of Petroleum Geologists, p. 707-708. (AAPG. Memoir 51).Melo, J. H. G.(1988) The Malvinokaffric ream in the Devonian of Brazil. IN: McMilillan, N. J.; Embry, A. F.; Glass, D. J. (Ed.). Devonian of the world. Calgary: Canadian Society of Petroleum Geologists, 1988, v. 1. p. 669-704. (CSPG Memoir, 14).

thumb|360px|Mapa geológico simplificado da Bacia do Paraná (modificado de Milani, 1997Milani, E. J. (1997). Evolução tectono-estratigráfica da Bacia do Paraná e seu relacionamento com a geodinâmica fanerozoica do Gondwana sul-ocidental. 2 vol. Il. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Curso de Pós-Graduação em Geociências, Porto Alegre.)

O nome Bacia do Paraná é derivado do Rio Paraná, que corre aproximadamente no seu eixo central, no sentido norte-sul. A atual bacia hidrográfica do Rio Paraná está quase que inteiramente contida na Bacia do Paraná e possui enorme potencial hidroelétrico, devido ao grande volume de água, tanto do Rio Paraná quanto de seus afluentes, aliado à topografia acidentada da bacia. Os principais recursos naturais extraídos na Bacia do Paraná são o carvão mineral, a água subterrânea, o folhelho betuminoso e materiais para construção civil e indústria de transformação. Outros recursos encontrados na Bacia do Paraná são urânio e gás natural. Parte dos seus solos apresentam elevada aptidão agrícola, permitindo uma exploração agropecuária intensiva e rentável.Streck,E.V. et al. Solos do Rio Grande do Sul. 2.ed. Porto Alegre: Emater, 2008

Estudos pioneiros thumb|340px|Coluna estratigráfica da Bacia do Paraná em Santa Catarina, conforme White (1908).White, I.C. (1908) Comissão de Estudos das Minas de Carvão de Pedra do Brazil – Relatório final. (relatório bilíngue, português e inglês); 617 p. + ilustr.; Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, Brasil. IN: CPRM (2008). 30 cm. Edição comemorativa: 100 anos do Relatório White. Edição facsimilar. CDD 553.209816. Os primeiros estudos sobre a Bacia do Paraná foram publicados na primeira metade do século XIX, ainda durante o período do Império Brasileiro, e tratam principalmente de estudos sobre carvão mineral. Durante os anos de 1875 a 1877, as rochas da Bacia do Paraná foram estudadas pela Comissão Geológica do Império do Brasil. Esta comissão foi constituída pelo Imperador D. Pedro II e coordenada pelo geólogo canadense Charles Frederick Hartt. O enfoque preliminar da comissão era o estudo da Geologia, da Paleontologia e das minas brasileiras.Bosetti, E.P.; Peyerl, D.; Horodyski, R. S. e Zabini, C. (2007) Formação Ponta Grossa : História, Fácies e Fósseis. IN: I Simpósio de Pesquisa em Ensino e História de Ciências da Terra e III Simpósio Nacional sobre Ensino e Geologia no Brasil, anais, Unicamp, Campinas, SP; pg. 353-360.Lange, F. W. (1954). Paleontologia do Paraná. IN: Paleontologia do Paraná, Curitiba. Comissão de Comemoração do Centenário do Paraná, dez., pg. 1-105. Os trabalhos básicos mais importantes desta fase inicial são representados pelas publicações de Orville Derby, em 1879 e 1883.

A primeira sondagem profunda para a pesquisa de petróleo no Brasil foi realizada na Bacia do Paraná, no município de Bofete, estado de São Paulo, por iniciativa do fazendeiro Eugênio Ferreira de Camargo. Este poço é considerado o primeiro poço de petróleo brasileiro, tendo sido perfurado entre 1892 e 1897. O poço atingiu uma profundidade de 488 metros e recuperou somente água sulfurosa e dois barris de petróleo.Collon A., (1897) “Le petrole dans les environs du Mont de Bofete et de Porto Martins, dan I’Etat de São Paulo”. Instituto Geográfico e Geológico, Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo 69 p. APUD: Cabral, Cristiane Vargas (2006) Análise de biomarcadores nos arenitos asfálticos da borda leste da Bacia do Paraná [Rio de Janeiro] 2006. XV, 198p. 29,7 cm (COPPE/UFRJ, M.Sc., Engenharia Civil, 2006) Dissertação - Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPE. thumb|320px|esquerda|Eugênio Ferreira de Camargo e seus auxiliares ao lado da sonda que realizou a perfuração do primeiro poço de petróleo no Brasil, em Bofete, SP, ano de 1892|alt=na imagem temos sete homens parados em frente a uma sonda de perfuração de petróleo.

No início do século XX, o Governo Brasileiro criou a Comissão de Estudos das Minas de Carvão de Pedra do Brasil, para melhor conhecer o potencial do carvão mineral nacional que, até aquele momento, era explorado de forma incipiente no Sul do Brasil. Para tanto, foi contratado o geólogo Israel Charles White, na época Geólogo Chefe do West Virginia Geological and Economic Survey, nos Estados Unidos da América e especialista em carvão mineral, para ser o chefe da referida Comissão. Este trabalho, desenvolvido entre os anos de 1904 e 1906, resultou num vasto acervo de dados sobre os carvões, especialmente os de Santa Catarina, e sobre a estratigrafia e a paleontologia da Bacia do Paraná.Bortoluzzi, C.A. et al (2008) Evento White – Edição Comemorativa: 100 anos do Relatório White. IN: 44º Congresso Brasileiro de Geologia – Sociedade Brasileira de Geologia, Núcleo Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil. CDD 553.209816. Os trabalhos culminaram com a publicação, em 1908, do relatório final da comissão, hoje conhecido como Relatório White, e que foi um grande marco para o conhecimento da geologia da Bacia do Paraná. As denominações introduzidas por ele para a designação das unidades geológicas da Bacia do Paraná ficaram consagradas, tendo sido pouco modificadas na sua concepção ao longo dos tempos, tendo sido considerado por Milani et all como sendo o "marco zero" na sistematização estratigráfica da bacia.

Por outro lado, o trabalho de White documenta um precioso conteúdo científico no campo da Paleontologia: o reconhecimento da ocorrência de restos fósseis de Mesosaurus brasiliensis em estratos permianos do "Schisto preto de Iraty". Mais importante ainda, White correlacionou e propôs a equivalência das diversas unidades estratigráficas e conteúdo fossilífero da Bacia do Paraná com a Bacia do Karoo, na África do Sul, bem como com a região de Gondwana, na Índia, e citou como

Atualmente, a Bacia do Paraná é uma das bacias mais estudadas em todo o continente sul-americano.PEDRON, F.A. Mineralogia, morfologia e classificação de saprólitos e Neossolos derivados de rochas vulcânicas no Rio Grande do Sul. 2007. 160f. Tese (Doutorado em Ciência do Solo) - Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS. 2007. Isso porque uma quantidade expressiva de recursos minerais passíveis de exploração econômica é encontrada, além dos recursos energéticos e da sua grande densidade populacional (veja abaixo).

A Bacia do Paraná e a teoria da deriva continental esquerda|thumb|280px|Distribuição geográfica dos fósseis gondwânicos (clique para ampliar e ver mais detalhes, em inglês).

Durante o século XIX, e início do século XX, foram encontrados e identificados inúmeros fósseis na Bacia do Paraná, tanto de animais que viveram em ambiente terrestre ou marinho raso quanto de vegetais continentais, e que também foram encontrados nos outros continentes do hemisfério sul, além da Índia, como por exemplo, e principalmente, os répteis mesossaurídeos e a flora Glossopteris. Estas descobertas tiveram um papel importante no desenvolvimento da teoria da deriva continental, precursora da atual teoria de tectônica de placas. A teoria da deriva continental foi apresentada pelo geólogo e meteorologista alemão Alfred Wegener em 1915, com a publicação de sua obra clássica: A Origem dos Continentes e Oceanos (Die Entstehung der Kontinente und Ozeane). Wegener afirmava que os continentes, hoje separados por oceanos, estiveram unidos numa única massa de terra no passado, por ele denominado de Pangaea (do grego "toda a Terra"), do Carbonífero superior, a cerca de 300 milhões de anos, ao Jurássico superior, a cerca de 150 milhões de anos, quando a Laurásia (atuais América do Norte e Eurásia) separou-se do Gondwana, que depois também dividiu-se, já no Cretáceo inferior, formando as atuais América do Sul, África, Antártida, Austrália e Índia.

Dois geólogos, um em cada lado do Atlântico Sul, tiveram grande contribuição para a defesa e desenvolvimento da teoria da deriva continental na primeira metade do século XX. Um deles foi o geólogo sul-africano Alexander Du Toit.Du Toit, A. L. (1927). A geological comparasion of South America with South África. Washington: The Carnegie Institution. 157p.Du Toit, A. L. (1937). Our wandering continents, An Hypothesis of Continental Drifting, Oliver & Boyd, London, UK. O outro foi o geólogo alemão, radicado em Curitiba, Paraná, Reinhard Maack que, além de sua tese de doutorado sobre o tema, defendida na Universidade de Bonn, publicou inúmeros trabalhos sobre o assunto, tendo sido inclusive premiado pela UNESCO, órgão da ONU, pela sua defesa da Teoria da Deriva Continental.Maack, R. (1934). Die Gondwanaschichten in Südbrasilien und ihre Beziehungen zur Kaokoformation Südwest-Afrikas Zeitschrift d. Ges. f. Erdkunde zu Berlin, S. 194-222 Zeitschrift d. f. Erdkunde zu Berlin, pp 194-222.Maack, R. (1952). The development of the Gondwana strata in southern Brazil and its relations with the Karroo formation in South África (ingles) IN: Symposium sur les séries de Gondwana: 19e International Geological Congress. Alger, Algérie;Maack, R. (1964). 50 Jahre Kontinental-Verschiebungs-Theorie; Alfred Wegener zum Gedächtnis Geografische Rundschau, 16, S. 343-356 Geographic Rundschau, 16, pp 343-356Maack, R. (1966). Problems of Gondwana land under tangential crustal displacements (alemão, inglês e português) IN: 22th International Geological Congress. New Delhi (1964) e impresso no Boletim Paranaense de Geografia (Curitiba), 18-20, (1966), p. 25-70;

Mesosaurus brasiliensis

thumb|240px|right|Fósseis de Mesosaurus em rocha calcárea da Fm. Irati, Permiano da Bacia do Paraná|alt=dois fósseis de Mesosaurus em ao lado do outro em uma placa de rocha calcárea.