O cágado-de-hogei, cágado-do-paraíba, cágado-de-hoge ou cágado-do-paraíba-do-sul (nome científico: Ranacephala hogei) é uma espécie de quelônio da família dos quelídeos (Chelidae). Foi descrito em 1967 por Robert Mertens sob o nome Phrynops hogei. Ao identificá-lo, foi indicada como localidade-tipo o rio Pequena, no sudoeste de São Paulo, embora essa ocorrência seja considerada errônea. Em 2001, McCord et al. reclassificaram a espécie como Ranacephala hogei, com base em caracteres morfológicos diagnósticos, propondo também o gênero Ranacephala, hipótese posteriormente contestada por ausência de sinapomorfias inequívocas. Revisões subsequentes transferiram a espécie para Mesoclemmys, mas análises filogenéticas integrando dados moleculares e morfológicos indicaram maior afinidade com Phrynops, sustentando a revalidação progressiva de Ranacephala como gênero distinto na literatura recente.
O cágado-do-paraíba é endêmico do Brasil, ocorrendo na região hidrográfica do Atlântico Sudeste, no bioma da Mata Atlântica, com registros confirmados nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, associados a sistemas fluviais como os rios Mocotó, Paraíba do Sul, Negro e Pirapetinga (RJ); Carangola, São Mateus e Pomba (MG); e Itapemirim, Itabapoana e São Salvador (ES). Registros no extremo norte de São Paulo são considerados duvidosos. A área de ocorrência estimada é de cerca de quilômetros quadrados, fortemente associada a remanescentes fluviais da Mata Atlântica e sub-bacias costeiras da bacia do Paraíba do Sul. Adultos ocupam preferencialmente calhas principais, enquanto juvenis utilizam tributários menores, indicando segregação ontogenética de habitat. A espécie ocorre predominantemente abaixo de 500 m de altitude, em ambientes fluviais de baixa a média energia, incluindo remansos e trechos associados a corredeiras, utilizando também córregos afluentes para alimentação e reprodução.
O cágado-do-paraíba apresenta comportamento espacial com elevada fidelidade ao sítio de vida, embora estudos com radiotelemetria indiquem alternância entre períodos de sedentarismo e deslocamentos durante a reprodução, com movimentos diários de até metros e máximos de metros dentro de trechos restritos do rio. A espécie é onívora, com tendência à frugivoria em adultos, destacando-se o consumo de frutos de figueiras (Ficus obtusiuscula), e apresenta ciclo reprodutivo anual com desova entre janeiro e abril, ninhadas de três a 11 ovos e maturidade sexual tardia (~15 anos), com fecundidade associada à condição corporal. A espécie é classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como criticamente em perigo (CR), e consta em diferentes listas nacionais e estaduais com variações históricas de categoria, refletindo declínio populacional contínuo. As principais ameaças incluem destruição e fragmentação de habitat, barramentos, poluição hídrica e captura incidental por pesca, com forte redução da adequabilidade ambiental ao longo de sua área de distribuição. As populações remanescentes apresentam baixa conectividade, fragmentação severa, sinais de declínio e baixa diversidade genética, com esforços de conservação baseados em Planos de Ação Nacional (PANs), criação de unidades de conservação e proteção de áreas críticas de reprodução, embora a espécie ainda permaneça sob intensa pressão antrópica.
Etimologia
O nome específico, hogei, foi dado em homenagem ao herpetólogo belga nascido no Brasil Alphonse Richard Hoge. Seu nome popular cágado, contudo, tem origem controversa. Antenor Nascentes propôs, citando Serafim da Silva Neto, que tenha se originado no português cagado, com uma retração eufemística do acento. José Pedro Machado propôs derivar do latim cacatus > *cácatus por eufemismo. Joan Coromines propôs uma origem no hispânico pré-romano *calappăcu (quiçá associado a *calapaccĕa no sentido de 'cabaça, espécie de abóbora' e *carappaceu no sentido de 'carapaça de crustáceos') > *calápago > caágado > cágado.
Taxonomia
O cágado-do-paraíba foi descrito em 1967 por Robert Mertens sob o nome Phrynops hogei. Ao identificá-lo, colocou como localidade-tipo o rio Pequena, no sudoeste de São Paulo, mas uma vez que não ocorre no estado, a identificação é errônea. Em 2001, McCord et al. (2001) reclassificaram a espécie como Ranacephala hogei com base em um conjunto de características morfológicas consideradas diagnósticas e suficientemente robustas para a validação da espécie. No mesmo trabalho, os autores propuseram o gênero Ranacephala para acomodá-la; no entanto, essa proposição não foi amplamente aceita na literatura subsequente, devido à ausência de sinapomorfias morfológicas inequívocas que sustentassem a distinção genérica em relação a outros quelídeos neotropicais. Em revisões posteriores, Bour & Zaher (2005) transferiram a espécie para o gênero Mesoclemmys, tratamento que foi adotado por parte da comunidade científica por um período. Contudo, análises filogenéticas mais recentes, integrando dados moleculares e morfológicos, indicaram que M. hogei apresenta maior afinidade com o gênero Phrynops do que com Mesoclemmys, sugerindo que a posição taxonômica tradicional não refletia adequadamente suas relações evolutivas. Esses resultados fortaleceram a revalidação de Ranacephala como gênero distinto, hipótese defendida em estudos recentes baseados em reconstruções filogenéticas integradas, levando à sua aceitação progressiva na literatura taxonômica atual.
Distribuição
O cágado-do-paraíba é endêmico do Brasil, ocorrendo na região hidrográfica do Atlântico Sudeste, no bioma da Mata Atlântica. A espécie possui registros confirmados nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, onde habita diferentes sistemas fluviais associados a esse domínio, incluindo os rios Mocotó, Paraíba do Sul, Negro e Pirapetinga (Rio de Janeiro), Carangola, São Mateus e Pomba (Minas Gerais), e Itapemirim, Itabapoana e São Salvador (Espírito Santo). Registros atribuídos ao extremo norte do estado de São Paulo, próximos à divisa com o Rio de Janeiro, são considerados duvidosos, carecendo de confirmação por meio de amostragem adicional, razão pela qual não são geralmente incluídos em avaliações recentes da distribuição da espécie. No conjunto, a distribuição conhecida de R. hogei está associada às sub-bacias costeiras do Espírito Santo e Rio de Janeiro, bem como à bacia do rio Paraíba do Sul e afluentes adjacentes em Minas Gerais, refletindo uma distribuição restrita e fortemente vinculada aos remanescentes fluviais da Mata Atlântica. Calcula-se, via mínimo polígono convexo, que sua área de ocorrência seja se quilômetros quadrados. A área de ocupação no Carangola, em Minas Gerais, foi reduzida de 40 para 15 quilômetros de extensão linear, e suspeita-se que o mesmo ocorra no resto da bacia do Paraíba do Sul. Em 2002, foram feito avistamento pontual na área de aproveitamento hidrelétrico da represa de Funil, entre Itatiaia e Resende. Espécimes adultos ocupam as calhas principais dos rios, enquanto os recém-nascidos podem ser avistados em tributários menores, indicando segregação ontogenética de habitat. Habita predominantemente em altitudes inferiores a 500 metros, estando associada a ambientes fluviais de baixa a média energia, especialmente trechos de remanso adjacentes a corredeiras. Além disso, a espécie também utiliza córregos afluentes para alimentação e possivelmente para atividades reprodutivas, incluindo a construção de ninhos.
Ecologia
Registros de campo indicam ainda que indivíduos podem se deslocar por distâncias de até 300 metros fora da calha principal, incluindo ambientes marginais e pequenos corpos d’água inseridos em matriz florestal. Em termos de ecologia espacial, trata-se de uma espécie com elevado grau de fidelidade ao sítio de vida, apresentando comportamento predominantemente sedentário, embora estudos com radiotelemetria tenham evidenciado padrões de movimentação mais dinâmicos durante o período reprodutivo. Nesse contexto, fêmeas monitoradas no Carangola apresentaram alternância entre longos períodos de permanência local e deslocamentos diários que podiam atingir aproximadamente metros, com registros máximos de até metros, sempre restritos a um trecho de cerca de 15 quilômetros do curso fluvial. Esses resultados contrastam com observações anteriores, que indicavam deslocamentos muito mais reduzidos, da ordem de três a 15 metros por dia, sugerindo variabilidade comportamental possivelmente associada a contexto ambiental ou reprodutivo. A espécie é onívora, com forte tendência à frugivoria em adultos, sendo registrados frutos de figueiras (Ficus obtusiuscula) como item predominante em análises de conteúdo estomacal, especialmente em áreas onde essa espécie arbórea ocorre nas margens fluviais. O ciclo reprodutivo é anual, com período de desova concentrado entre janeiro e abril. O tamanho das ninhadas varia geralmente entre cinco e sete ovos, embora registros de fêmeas em condição reprodutiva indiquem variação de três a 11 ovos por postura, com média aproximada de seis ovos. A maturidade sexual é alcançada tardiamente, em torno de 15 anos, e a fecundidade está mais relacionada à condição corporal do que às dimensões lineares da carapaça. A eclosão dos ovos parece coincidir com o início do período chuvoso, e os ninhos são geralmente depositados próximos ao corpo hídrico, a menos de 10 metros da margem. Apesar desses avanços no conhecimento reprodutivo e alimentar, ainda há lacunas relevantes, especialmente no que se refere aos mecanismos de determinação sexual da espécie.
Conservação
A União Internacional para Conservação da Natureza (UICN) classificou o cágado-do-paraíba como vulnerável com base numa avaliação de 1996, que foi atualizada em 2016 e reforçada em 2022 para criticamente em perigo (CR) com base no critério A2bcd+4bcd. Nacionalmente, foi avaliada em 2003 como em perigo (EN) com base no critério B1ab(iii). Depois, foi reavaliada em 2012 como criticamente em perigo, com base no critério A4bc; em 2018 como criticamente em perigo (CR), também sob o critério A4bc; e em 2024 como em perigo (EN), com base no critério A2c. A espécie encontra-se incluída na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, constando como criticamente em perigo (CR) na edição publicada pela Portaria MMA n.º 444/2014 e como vulnerável (VU) na atualização promovida pela Portaria MMA n.º 148/2022. Também consta no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), no qual foi avaliada como criticamente em perigo (CR) sob o critério A4bc. Regionalmente, em 2005, foi classificada como em perigo (EN) na Lista de Espécies da Fauna Ameaçadas do Espírito Santo (reavaliada em 2022 como criticamente em perigo); em 2010 como em perigo (EN) na Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna do Estado de Minas Gerais, com base no critério B2ab(iii); e em 2018, com base numa avaliação de 2000, como vulnerável (VU) na Lista das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção no Estado do Rio de Janeiro.