O Cão de Castro Laboreiro, também conhecido simplesmente como castro-laboreiro, é uma antiga raça de cão autóctone de Portugal, utilizada para a guarda de rebanhos. Os machos possuem entre 58–64 cm de altura (na cernelha) e pesam entre 30 e 40 kg.
Originário da freguesia de Castro Laboreiro, Melgaço, é um cão lupóide de tipo amastinado, sendo mais ligeiro que as restantes raças de cães de gado. É uma das raças mais antigas da Península Ibérica.
História O solar na montanha O Cão de Castro Laboreiro tem a sua origem na região que lhe deu o nome: a freguesia de Castro Laboreiro, no Concelho de Melgaço. É uma região montanhosa agreste, que se estende desde o rio Minho às Serras da Peneda e do Soajo, entre os rios Trancoso, Laboreiro e Mouro, até cerca dos 1.400 m de altitude.
À semelhança do cão, Castro Laboreiro é uma das terras mais antigas de Portugal. Os vestígios pré-históricos, como as gravuras rupestres e os dólmens, comprovam a presença do homem na região desde há muitos milhares de anos. Os castros são testemunhos da forte presença da cultura castreja na região. Também os celtas e os romanos passaram por aqui, edificando pontes e vias romanas com os seus marcos miliários. As comunidades castrejas sempre viveram da caça e da pesca, da pastorícia e da agricultura. Na procura de boas pastagens para o gado realizavam um tipo de transumância de curta distância, que terá evoluído para uma migração sazonal que ainda hoje se verifica na mobilidade dos povoamentos num sector da população, numa curiosa adaptação às condições orográficas e climáticas. Os cães acompanhavam o gado nestes movimentos transumantes que, por serem de curta distância, ao contrário do que se verificou na restante Península Ibérica (nomeadamente a transumância dos rebanhos de ovinos da Serra da Estrela, cujas deslocações alcançavam várias centenas de quilómetros), não requeriam um animal tão possante.
O número de ovinos e caprinos, tradicionalmente reunidos em rebanhos comunitários, tem vindo a diminuir nos últimos anos, sendo progressivamente substituídos por bovinos. A esta alteração adaptou-se o Cão de Castro Laboreiro, sendo tão eficaz na protecção de cabras e ovelhas como de vacas. Em virtude da emigração dos homens, durante a década de 40, principalmente para França, ficando as mulheres sozinhas a cuidar das terras e dos animais, os cães ganharam um papel muito importante, quer pela protecção conferida ao gado e pela guarda da propriedade, quer ainda pela inestimável companhia nas noites mais longas de Inverno e pela incontestável dedicação aos seus donos. Foi este carácter especial, talhado pela rudeza das montanhas e pelas gentes castrejas, que se manteve até hoje, muito fruto do isolamento desta região de difícil acesso até há bem pouco tempo – a primeira estrada em terra batida apenas foi concluída em 1948. Manuel Marques (1935), descrevendo a sua visita a Castro Laboreiro, diz que partindo de Melgaço demorou “cinco longas horas a dorso de quadrúpede, por sinuosos e quase intransitáveis caminhos que, na maior parte, mais parecem córregos.”
Origem da raça Os avanços científicos têm permitido aos geneticistas confirmar as restantes evidências (ex. arqueológicas, morfológicas e comportamentais) de que o lobo é, efectivamente, o ancestral do cão. Segundo os registos fósseis, a domesticação do lobo terá ocorrido há cerca de 14.000 anos na região do Crescente Fértil, tendo os cães sido rapidamente disseminados por toda a Europa, Ásia e América do Norte. Estudos genéticos indicam ainda que a domesticação deverá ter ocorrido apenas uma vez.
Apesar da presença de cães no território português desde o Mesolítico (10.000-5.000 anos atrás), indícios das primeiras raças surgem apenas nas representações de cenas de caça em mosaicos da época Romana. As primeiras referências às raças nacionais no século XVI, sugerem que estas poderão existir há pelo menos 300-600 anos. Embora não seja possível datar a sua origem com precisão, as raças nacionais são consideradas bastante recentes. Com efeito, os estudos efectuados por esta investigadora, revelam uma semelhança genética entre todas as raças, indicando que a maioria deriva de um mesmo grupo ancestral e que terão tido uma origem recente. Os dados obtidos tornam assim improvável que as raças nacionais tenham resultado de um processo adicional de domesticação do lobo.
Os cães de gado sempre foram um elemento importante para as comunidades agro-pastoris, o que é evidenciado pelo facto da primeira alusão aos cães no início da nacionalidade incluir os cães de gado: “Todo ome, que galgo, ou podengo, ou perro de gaado matar, peyte dous maravedis”. No que diz respeito ao Cão de Castro Laboreiro, a sua qualidade e importância são evidenciadas por diversos autores. Augusto Leal (1874), ao descrever a região, faz menção aos cães existentes: “Criam-se aqui mastins d’uma corpolencia e vigor extraordinarios, pois qualquer d’elles mata um lobo!” Também o etnógrafo José Leite de Vasconcelos (1933) faz referência ao Cão de Castro Laboreiro como cão de gado: “aos cães de montanha pertencem no Continente, como cães de gado, os … de Castro-Laboreiro”. Escritos galegos sobre o pastoreio na vertente galega da Serra do Laboreiro mencionam igualmente este cão, utilizado para proteger o gado dos ataques dos lobos em território português. Na literatura encontram-se igualmente referências à raça, como no romance de Camilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins (1879).
Concurso tradicional O orgulho que os castrejos têm nos seus cães transparece todos os anos no Concurso de Cães de Castro Laboreiro, o concurso canino mais antigo existente no nosso País, onde os proprietários participam com os seus cães, que muitas vezes só sabem o que é uma trela nesta ocasião, pois geralmente andam livremente pelas ruas e pastagens acompanhando o gado. Impulsionado pelo Padre Aníbal Rodrigues, pároco de Castro Laboreiro desde 1945 (falecido em 2003), este Concurso Tradicional realiza-se de forma contínua, todos os anos, desde meados da década de 50, tendo sido inicialmente realizado em Outubro e nas últimas décadas a 15 de Agosto. O Concurso tem sido muito importante na divulgação e manutenção das características da raça, dando a conhecer os exemplares existentes e identificando os mais típicos, que são depois os preferencialmente escolhidos para acasalar.
Com efeito, a miscigenação com outras raças foi um problema sério até há bem pouco tempo. A introdução de outras raças, facilitada pela maior abertura da região ao exterior, e o cruzamento livre com os cães autóctones, conduziram ao surgimento de indivíduos com características menos típicas para o que alertaram vários juízes e interessados na raça em diversos órgãos de comunicação social. Este problema foi em grande parte ultrapassado pelos canicultores através de um maior controlo dos acasalamentos, embora proprietários menos atentos possam ter ninhadas descendentes de vários machos ou com cachorros atípicos. Em casos duvidosos é aconselhável a confirmação da paternidade através de análises genéticas, uma nova ferramenta disponível à canicultura cuja utilização deve ser fomentada.
Compete aos interessados informar-se sobre as características da raça, junto dos Clubes da raça ou do Clube Português de Canicultura (CPC), observar os pais da ninhada e adquirir exemplares com registo no livro genealógico da raça.
Aparência Estalão Oficial Apesar do reconhecimento da sua antiguidade, apenas no segundo quartel do século XX se dá início aos estudos que conduziram à definição do tipo racial com a publicação do Estalão da raça, em 1935, pelo Prof. Manuel Fernandes Marques. Este foi um marco importante para a conservação da raça, constituindo um garante da preservação das suas características originais. Com efeito, o Estalão representa o tipo ideal da raça, descrevendo as características que a definem e que constituem a base de referência a seguir na sua selecção. Constitui, assim, uma base fundamental para o trabalho dos canicultores da raça e para a avaliação realizada pelos juízes. Não obstante o Estalão apenas ter sido publicado em 1935, os primeiros registos no livro genealógico da raça datam de 1932. Em 1993 foi aprovada uma alteração da altura ao garrote, que aumentou 3–4 cm, traduzindo a evolução observada na raça nos últimos anos.
Características morfológicas
As características ambientais específicas da região e do sistema de pastoreio, aliado ao isolamento geográfico, deram origem a um cão de gado de características únicas. Apesar da provável origem comum às mais de 50 raças de cães de gado reconhecidas na Ásia e em toda a região mediterrânica, distingue-se destas por ser um cão mais ligeiro. Com efeito, trata-se de uma raça de cão de montanha, de médio a grande porte, mas mais do tipo lupóide que amastinada – com uma cabeça mais leve, mas potente, e com uma altura ao garrote que pode variar entre os 58 e os 64 cm nos machos e as fêmeas entre 55 a 61 cm (com uma tolerância de mais 2 cm de tolerância); o peso nos machos varia entre os 30 e os 40 kg e nas fêmeas entre os 25 a 35 kg.
Estas características permitem-lhe ser mais activo e portanto incansável, estando sempre alerta, acompanhando facilmente o rebanho e patrulhando toda a área por onde este se dispersa, apercebendo-se rapidamente da presença dos predadores.
O estudo morfológico desenvolvido por Carla Cruz (2006) indica que a raça tem um andamento típico entre os trotadores de longa duração e os galopadores de endurance, no que se distingue das restantes raças nacionais de cães de gado, e que lhe permite acompanhar os rebanhos no pastoreio ao longo de todo o dia e ainda uma perseguição mais eficaz dos predadores, nomeadamente, dos lobos. Apesar da sua menor corpulência, a maior agilidade é uma vantagem também nos confrontos com o lobo, escapando facilmente às investidas destes. São várias as histórias de cães que terão ajudado os pastores a capturar lobos que atacavam os rebanhos, sendo pouco frequentes as notícias de cães atacados fatalmente por lobos.
Os olhos do Cão de Castro Laboreiro são oblíquos em forma de amêndoa, de tamanho médio e expressão simples, castanho claros na pelagem clara e castanho escuros na pelagem mais escura. As orelhas são triangulares, arredondadas na ponta, pendentes e de inserção um pouco acima da média. Quando o cão está atento, a orelha volta-se para diante, ficando a face externa em posição anterior. A cauda é larga e grossa, descendo até ao curvilhão, quando o animal está sossegado e em movimento toma a forma de alfange, ultrapassando a linha do dorso.
O pêlo é curto (5 cm), grosso e resistente, duro ao tacto, liso e abundante em todo o corpo. Por norma, o pêlo mantém-se mais macio em certas zonas, como a cabeça e as orelhas.
Cores da pelagem
A cor da pelagem predominante é o lobeiro, que pode surgir nas tonalidades claro, comum e escuro, sendo esta última a mais frequente. Trata-se de uma pelagem composta (policromática), frequentemente raiada.
Tendo por base a descrição proposta por Pedro Santa Rita (2005), considera-se que no lobeiro claro, que tem por base um fundo claro, a predominância de determinadas cores nos pêlos confere-lhe uma cor cinza, creme ou palha. No caso do lobeiro escuro, que tem como base um fundo escuro, dominam os pêlos escuros, pretos e cinzas mais ou menos escuros. Por vezes podem aparecer as três variedades no mesmo indivíduo em regiões diferentes: o lobeiro escuro na cabeça, dorso e espáduas; o lobeiro comum no tórax, garupa e coxas; e o lobeiro claro no ventre, terços e bragadas. Nestes casos deverá ser considerada a pelagem dominante.