José Guilherme Alves Merquior (Rio de Janeiro, – ) foi um crítico literário, ensaísta, diplomata, sociólogo e cientista político brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras. Perfil de José Guilherme Merquior na ABL Crítico ao marxismo, Merquior foi o primeiro autor a analisar sistematicamente a Escola de Frankfurt e foi um defensor do liberalismo, não só como um sistema de valorização ao mercado, mas como um estilo de vida.
O ex-ministro da Educação Eduardo Portella definiu-o como "a mais fascinante máquina de pensar do Brasil pós-modernista – irreverente, agudo, sábio", ao passo que o antropólogo Lévi-Strauss o definiu como "um dos espíritos mais vivos e mais bem informados de nosso tempo". Merquior foi reconhecido por intelectuais de ideologias diversas, sendo considerado “a maior inteligência brasileira da segunda metade do século XX”, pelo poeta Bruno Tolentino e um “talentoso porta-voz da direita” pela profa. Marilena Chauí.
Merquior dedicou ainda parte de sua obra à estética, que abrangeu desde a crítica literária com seu livro de estreia Razão do Poema, até sua última obra publicada em vida, Crítica, uma coletânea sobre arte.Sérgio Paulo Rouanet - Merquior: obra política, filosófica e literária.
Biografia Merquior nasceu em abril de 1941, no bairro da Tijuca, e desde cedo se destacou pela sua inteligência e empenho para leituras. Ele se casou com sua primeira namorada, Hilda, com quem ficou dos 16 até a data de sua morte, aos 49 anos.
Aos 18 anos, Merquior passou a publicar artigos em sua coluna no Jornal do Brasil. Merquior formou-se em Filosofia e Direito, e construiu uma carreira na diplomacia, passando em primeiro lugar para o concurso do Instituto Rio Branco. Como diplomata, serviu em Bonn, Londres, Paris e Montevidéu. Foi embaixador no México e representante permanente do Brasil junto à UNESCO.HOMENAGEM - José Guilherme Merquior
Em 1965, iniciou sua profícua carreira de escritor. Neste ano, lança seu primeiro livro, Razão do Poema, e conclui doutorado logo depois, em 1966, pela Sorbonne.
Durante sua carreira, travou contato e amizade com diversos intelectuais de renome. Ernest Gellner foi orientador da tese de doutorado em sociologia pela London School of Economics (o terceiro doutoramento). Polímata humanista, escrevia com erudição sobre muitos temas das Ciências Humanas, tendo iniciado o ofício público de escritor como crítico literário. O alicerce da obra escrita é o que se chamaria de Culturologia ou, mais especificamente, História das Ideias, menos como tributária do monismo de Arthur O. Lovejoy, e mais da Geistesgeschichte alemã.
Ao lado de Roberto Campos, que foi um dos seus mentores intelectuais, trabalhou no governo Collor. Colaborou na redação do discurso de posse do presidente eleito e escreveu as linhas gerais do que seria a doutrina do "social liberalismo", o nome que Collor deu à sua política liberal com fins sociais. Convidado por Collor para ocupar, em 1990, o cargo de Ministro da Cultura, não aceitou.
Merquior escreveu uma vasta obra que vai da crítica literária à filosofia, à sociologia e à ciência política. Escrevia em Inglês e Francês com fluência igual à exibida em Português. Escreveu sua magnum opus a respeito do liberalismo quando ainda era embaixador do México, num curto período de quatro meses.
Merquior morreu em 1991, vitimado por um câncer de intestino.
Liberalismo social
A proposta política de Merquior visava tirar o Brasil de velhas amarras, a saber o patrimonialismo e o personalismo que imperavam no cenário político brasileiro. Semelhante à terceira via proposta por Anthony Giddens e Tony Blair, Merquior defendia uma atuação do Estado na moderação social e econômica, mas com favorecimento aos ambientes de negócios da livre-iniciativa privada.MERQUIOR, José Guilherme. As ideias e as formas. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981. Defendia a privatização das estatais e o investimento massivo do Estado em educação, saúde e seguranças públicas.
A concepção de liberalismo social de Merquior foi sumarizada por ele em uma aula de formação política no Partido Liberal (PL) nos anos 1980:
É frequente a confusão do pensamento liberal social de Merquior com um neoliberalismo mascarado por parte de seus críticos. Para Ricardo Antunes o social-liberalismo não passaria de um “eufemismo designado aos socialistas e social-democratas que praticam o neoliberalismo”.[ANTUNES, Ricardo. A desertificação neoliberal no Brasil (Collor, FHC e Lula). 2ª ed. Campinas: Autores Associados, 2005, p.165 Opinião corroborada por Rodrigo Castelo, segundo o qual o social-liberalismo consistiria numa “variante ideológica” do neoliberalismo.CASTELO, Rodrigo. O social-liberalismo: auge e crise da supremacia burguesa na era neoliberal. São Paulo: Expressão Popular, 2013. p.376 Outra crítica seria que o liberalismo social de Merquior era “de conteúdo indefinível e inspiração keynesiana, que parece se querer apossar do governo brasileiro para salvar o Estado patrimonialista falido de uma merecida perda de legitimidade”.PENNA, José Oswaldo de Meira. O Espírito das Revoluções. Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade Ed., 1997. p. 512. Entretanto, conforme salienta Kaio Felipe: "No plano prático, o social-liberalismo de Merquior consiste em uma adesão limitada ao livre mercado, pois julga que certas intervenções do Estado são importantes não só para promover a igualdade de oportunidades, mas também para estimular a liberdade positiva enquanto virtude cívica".FELIPE, Kaio. Merquior, um Liberista? Uma Comparação entre o Pensamento Liberal de José Guilherme Merquior e Friedrich von Hayek.1o Seminário Internacional de Ciências Políticas - Estado e Democracia em Mudança no Século XXI. UFRGS. Porto Alegre, 9 a 11 de setembro de 2015. Em seus próprios termos, Merquior esclareceu sua postura frente ao neoliberalismo:
Em seu livro "O Liberalismo Antigo e Moderno", Merquior distingue entre o “conservadorismo liberal” dos britânicos baseado em Edmund Burke e conservadorismo tradicionalista, baseado no conservadorismo continental europeu expresso por Lord Acton, Juan Bautista Alberdi, Herbert Spencer e Ortega y Gasset.FELIPE, Kaio. Para além do neoliberalismo e da social-democracia: uma análise do liberalismo social de José Guilherme Merquior. Em Tese, Florianópolis, v. 15, n. 1, p. 129-151, jun. 2018.
Defensor articulado da democracia, na década de 1980, constatou que surgia, ainda em caráter minoritário, uma “nova direita brasileira, semelhante ao Thatcherismo ou à Reaganomics”.MERQUIOR. Brazil's New Republic: The Social-Liberal Path. Bulletin of Latin American Research, Vol. 6, No. 2, 1987. p. 272.
Crítica ao comunismo De acordo com Merquior, o socialismo, em suas origens intelectuais, não era uma teoria política e sim uma teoria econômica que procurava reestruturar a indústria. O socialismo só se politizou com Karl Marx, o qual fundiu a crítica do liberalismo econômico com a tradição revolucionária do comunismo.
Para o intelectual, Marx nunca valorizou os direitos civis e chegou a condená-los, vendo neles mero instrumento de exploração de classe. O marxismo, em especial regimes comunistas, sempre refletiu esse menosprezo pelos direitos de expressão, profissão, associação, etc.
Apesar da crítica ao marxismo, Merquior fazia questão de distingui-lo da social-democracia. Tinha em mente que “o capitalismo não é um anátema, mas o mercado não é visto como um meio adequado de suprir as necessidades sociais”.(MERQUIOR. O Marxismo Ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. p. 271
Controvérsias Na década de 1980 Merquior acusou a filósofa Marilena Chauí por "plágio não-doloso" do filósofo francês Claude Lefort (1924-2010), o que foi largamente levado a público pelos jornais.
Alguns colegas de Marilena, como Roberto Romano (professor de Ética da Unicamp) e Maria Sylvia de Carvalho Franco (professora titular da USP), saíram em sua defesa apesar da filósofa ter exigido que os intelectuais não respondessem as acusações do seu crítico enquanto o próprio Claude Lefort não o desmentisse.
À época, Marilena apenas declarou que era tradutora de Lefort para o Português, além de ter formação comum e intercâmbio intelectual com ele, daí não fazer sentido a ideia de plágio. Décadas mais tarde, Roberto Romano revelou mágoa por conta deste episódio, pois se sentiu abandonado pela autora após fazer sua defesa. Segundo ele, a filósofa não se importou com o que ocorreu com ele e sua colega assim que foi "absolvida" por Lefort. Documentário Em 2015, a É Realizações Editora produziu o documentário "José Guilherme Merquior - Paixão pela Razão", com pré-estreia na Academia Brasileira de Letras. O curta-metragem é estruturado por dois eixos. De um lado, destaca-se o traço biográfico determinante do percurso de Merquior: a precocidade. E isso em vários aspectos: existencial, intelectual e profissional. De outro, assinala-se o motor de sua obra: o investimento decidido na ideia de razão. Ou seja, a aposta de Merquior na capacidade argumentativa e no diálogo intenso com o texto do outro como forma própria da reflexão crítica. O documentário ainda é enriquecido pelos depoimentos de Alberto da Costa e Silva, Bolívar Lamounier, Celso Lafer, José Mario Pereira, Júlia Merquior, Nélida Piñon e João Cezar de Castro Rocha.
Obras Atualmente, a obra completa de Merquior tem sido publicada pela É Realizações Editora, na coleção Biblioteca José Guilherme Merquior, que além disso mantém o Acervo José Guilherme Merquior, composto por cartas, fotos e anotações pessoais do autor.
Em português
1963: Poesia do Brasil (antologia com Manuel Bandeira) 1965: Razão do Poema (edição mais recente: São Paulo, É Realizações Editora, 2013) ISBN 9788580331370 1969: Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin (edição mais recente: São Paulo, É Realizações Editora, 2017) ISBN 9788580333008 1972: A astúcia da mímese ISBN 9788586020469 1972: Saudades do Carnaval ISBN 3409010011797 1974: Formalismo e tradição moderna (edição mais recente: São Paulo, É Realizações Editora, 2015) ISBN 9788580332018 1975: O estruturalismo dos pobres e outras questões ISBN 9780006794547 1975: A estética de Lévi-Strauss (edição mais recente: São Paulo, É Realizações Editora, 2013) ISBN 9788580331240 1976: Verso universo em Drummond (edição mais recente: São Paulo, É Realizações Editora, 2015) ISBN 9788580331004 1977: De Anchieta a Euclides (edição mais recente: São Paulo, É Realizações Editora, 2014) ISBN 9788580331165 1980: O fantasma romântico e outros ensaios 1981: As ideias e as formas 1982: A natureza do processo 1983: O argumento liberal 1983: O elixir do Apocalipse 1985: Michel Foucault ou O niilismo de cátedra 1987: O marxismo ocidental ISBN 9788580333435 1990: Crítica ISBN 9788520901755 1990: Rousseau e Weber: dois estudos sobre a teoria da legitimidade 1991: De Praga a Paris: uma crítica do estruturalismo e do pensamento pós-estruturalista ISBN 9788520902646 1991: O liberalismo, antigo e moderno (edição mais recente: São Paulo, É Realizações Editora, 2014) ISBN 9788580331714 1997: O véu e a máscara ISBN 9788571820586
Em inglês
1979: The veil and the mask: Essays on culture and ideology 1980: Rousseau and Weber: Two studies in the theory of legitimacy 1985: Foucault 1986: From Prague to Paris: A Critique of Structuralist and Post-Structuralist Thought 1986: Western Marxism 1991: Liberalism, Old and New
Em castelhano 2005: El Comportamiento de Las Musas: Ensayos sobre literatura brasileña y portuguesa. 1964-1989
Ver também Liberalismo no Brasil Literatura do Brasil
Ligações externas Página da coleção Biblioteca José Guilherme Merquior, da É Realizações Editora
Dez anos sem Merquior, 2001, Academia Brasileira de Letras Mesa Redonda em homenagem aos 70 anos de José Guilherme Merquior, 2011, Academia Brasileira de Letras PAIM. MERQUIOR, José Guilherme. Em Dicionário Biobibliográfico. CDPB/Senado Federal, 1998.
Categoria:Nascidos em 1941 Categoria:Mortos em 1991 Categoria:Naturais da cidade do Rio de Janeiro