thumb|250px|Principais ataques de Fernando Sánchez de Tovar e Jean de Vienne contra Inglaterra thumb|250px|Escudo de João I (como monarca castelhano e pretendente ao trono de Portugal) thumb|250px|Selo que D. João I, rei de Castela, casado com D. Beatriz de Portugal mandou fazer aquando do seu assentamento em Santarém como pretendente ao trono de Portugal thumb|250px|Miniatura representando a batalha de Aljubarrota nas por Jean de Wavrin, c. 1470. Biblioteca Britânica thumb|250px|Sepulcro de João I na Capela dos Reis Novos da Catedral de Toledo

João I de Castela (Épila ou Tamarite de Litera, — Alcalá de Henares, ) foi rei de Castela entre 1379 e 1390, sendo o segundo rei da dinastia de Trastâmara. Filho de e de Joana Manuel de Castela, nasceu durante o desterro do pai, que ainda não era rei.

Biografia João I era neto materno de João Manuel. Terá nascido em Épila, mas alguns autores apontam para o nascimento ter ocorrido em Tamarite de Litera, embora pela data do seu nascimento, seu pai teria enviado a esposa para a vila de Épila, relativamente próxima da fronteira muçulmana, para dar exemplo da política de "nem um passo atrás". Contudo, também por essa altura, , que já tinha matado dois irmãos de João, fez uma incursão que chegou a pôr em perigo a cidade de Saragoça, e o pai de João, supostamente, decidiu em 1357 deslocar a esposa para Tamarite, uma vila que lhe tinha sido cedida nesse mesmo ano por Pedro, o Cerimonioso. Vicente Ferrer, ao testemunhar a favor da candidatura de Fernando de Antequera à coroa aragonesa, menciona Tamarite como lugar de nascimento do pai deste príncipe.

João nasceu na Coroa de Aragão durante o desterro de seu pai, que ainda não era rei. Foi o último rei castelhano coroado solenemente. Depois dele, os monarcas assumiam a dignidade real por proclamação e aclamação. O título completo que utilizava após assumir a realeza era: «Rei de Castela, de Leão, de Portugal (desde 1383), de Toledo, da Galiza, de Sevilha, de Córdoba, de Múrcia, de Jaén, do Algarve e de Algeciras» e senhor de Lara (até 1387), da Biscaia e de Molina (até 1387).

Reinado Ao longo do seu reinado participou ao lado dos franceses em batalhas da Guerra dos cem anos, e contra Portugal, a cujo trono aspirava. Todavia foi derrotado pelos portugueses e pelo rei que eles haviam eleito, João I de Portugal, em 14 de agosto de 1385, na Batalha de Aljubarrota, sendo obrigado a descartar-se das ambições a este trono.

Levou a cabo operações guerreiras contra Portugal tanto na época de D. Fernando como na de D. João I. Durante a Guerra contra Castela, Portugal ajudou as forças do Duque de Lencastre, que reivindicava através da esposa, Constança, o direito ao trono castelhano (filha de assassinado em Montiel por ). As pretensões do duque não chegaram a concretizar-se, mas, mediante uma hábil política, colocou as filhas de Lencastre e de Lencastre, como rainhas consortes, a primeira no trono de Portugal e a segunda no trono de Castela. Juntaram-se assim, quanto à coroa castelhana, a linha espúria e a legítima.

Guerra dos Cem Anos

No contexto da Guerra dos Cem anos, Henrique II havia recebido a ajuda de cavaleiros franceses dirigidos pelo próprio Bertrand du Guesclin durante o seu confronto com (Pedro, o Cruel ou o Justiceiro). A vitória final de Henrique na Guerra Civil Castelhana propiciou a França um poderoso aliado no plano naval. Tanto Henrique como seu filho João enviaram a Armada castelhana às costas da Mancha, de que resultou a destruição da esquadra inglesa em La Rochelle (1372) e o saque ou incêndio de numerosos portos ingleses (Rye, Rottingdean, Lewes, Folkestone, Plymouth, Portsmouth, Wight, Hastings) em 1374 e (após a Trégua de Bruges) entre 1377 e 1380, ano em que a frota combinada do almirante castelhano Fernando Sánchez de Tovar e do francês Jean de Vienne chegou mesmo a ameaçar Londres. Richard Knolles em 1360 e o duque de Lancaster, João de Gante, em 1363, formaram corpos expedicionários que atacaram o continente, mas foram detidos.

Manteve a amizade com Carlos III de Navarra, casado com sua irmã Leonor, ponde assim fim aos conflitos entre ambos reinos.

Crise dinástica de 1383-1385 em Portugal Para assegurar a sucessão no trono de Portugal de Beatriz de Portugal, filha de , a Corte portuguesa aprovou um pacto de matrimónio entre Beatriz e João I. As capitulações matrimoniais realizaram-se a 2 de abril de 1383 em Salvaterra de Magos e entre as cláusulas acordadas estipulava-se que se ocorresse a morte de D. Fernando I sem filho varão, a coroa portuguesa passaria para Beatriz, e o seu marido intitular-se-ia rei de Portugal. Contudo, apesar de João I se poder intitular como rei de Portugal, as partes castelhana e portuguesa acordaram não fundir os reinos de Castela e Portugal, devendo nesse caso D. Leonor, a viúva do rei D. Fernando, permanecer como regente assegurando o governo de Portugal até que Beatriz tivesse um filho que alcançasse 14 anos de idade, o qual assumiria o governo e título de rei de Portugal, e os seus pais deixariam de o ser. Neste complexo acordo, se Beatriz morresse sem filhos, a coroa passaria a outras hipotéticas irmãs mais novas, e em caso negativo, a coroa portuguesa passaria a João I, e através dele a seu filho Henrique, deixando de fora os filhos de Inês de Castro.

Pedro de Luna, legado pontifício para os reinos de Castela, Aragão, Portugal e Navarra, iniciou os esponsais por palavras em Elvas a 14 de maio daquele ano de 1383, e a cerimónia teve lugar a 17 de maio na catedral de Badajoz. Para assegurar o cumprimento do tratado, a 21 de maio um grupo de cavaleiros e prelados castelhanos juraram desnaturalizar-se do reino e lutar contra o seu rei se o rei castelhano quebrasse os compromissos acordados no tratado matrimonial. Igual cerimónia fizeram um grupo de cavaleiros e prelados portugueses, desnaturalizando-se se o rei de Portugal quebrasse o tratado com Castela, estando entre eles o mestre de Avis.

A morte do rei D. Fernando I de Portugal ocorreu a 22 de outubro de 1383; Leonor Teles de Meneses, a rainha viúva, conforme previsto no tratado de Salvaterra de Magos e no testamento do defunto rei, encarregou-se da regência e do governo em nome de sua filha.

A notícia da morte do rei português chegou a João I e Beatriz em Torrijos, pouco depois de encerradas as Cortes celebradas em Segóvia. O mestre de Avis escreveu ao rei castelhano instando a que tomasse a coroa portuguesa que lhe pertencia através de sua esposa, devendo o próprio mestre assumir a regência.

Nestas circunstâncias, para evitar problemas dinásticos com o primogénito de Inês de Castro, João de Portugal, Duque de Valência de Campos, mandou encerrá-lo no Alcázar de Toledo. O rei castelhano reuniu o seu Conselho em Montalbán e enviou Alfonso López de Tejeda com instruções para que a regente portuguesa procedesse à proclamação da realeza de Beatriz e dele mesmo, declarando-se rei de Portugal.

A proclamação foi realizada, mas em Lisboa e em outros lugares, como Elvas e Santarém, manifestou-se uma forte rejeição popular, com o povo a declarar-se a favor do duque João de Portugal, o primogénito de Inês de Castro.

Apesar da oposição popular, João I adoptou o título e armas de rei de Portugal, sendo como tal reconhecido pelo antipapa Clemente VII de Avinhão. Ordenou o avanço das suas tropas sobre as fronteiras portuguesas, já que o chanceler de D. Beatriz, que era o bispo da Guarda, Afonso Correia, lhe prometeu a entrega daquela praça. Pouco depois, João I entrou em Portugal com sua esposa para assegurar a obediência em Portugal e os direitos de sua esposa.

Para João I o matrimónio com D. Beatriz permitiria manter um protectorado sobre o reino português e a possibilidade de impedir os ingleses estabelecer-se na Península, o que era de grande importância no contexto da Guerra dos Cem Anos. Contudo, a expectativa de um monopólio comercial castelhano que impedisse o comércio com os ingleses, o temor do domínio político castelhano e a perda de independência portuguesa, a que se juntava a oposição à regente e à sua camarilha, aflorou em finais de novembro e princípios de dezembro, levando a que ocorresse em Lisboa um levantamento contra o monarca castelhano. No decurso desse levantamento, o mestre de Avis matou o favorito da regente, João Fernandes Andeiro, conde de Ourém, seguindo-se um levantamento do povo contra o governo a instigação de Álvaro Pais, do qual resultou a morte de Martinho Anes, bispo de Lisboa.

O levantamento estendeu-se pelas províncias, custando a vida, entre outros, à abadessa das monjas beneditinas em Évora, ao prior da Colegiada de Guimarães e a Lançarote Pessanha, almirante de Portugal, em Beja. O levantamento teve o apoio da burguesia, mas não da aristocracia, que se manteve apoiando D. Leonor.

A rainha D. Leonor fugiu de Lisboa com a Corte e procurou refúgio em Alenquer. Em Lisboa, Álvaro Pais propôs o matrimónio do Mestre de Avis com Leonor para se encarregarem da regência de forma conjunta, mas D. Leonor rejeitou a proposta. Perante as notícias do avanço dos castelhanos sobre Lisboa, o mestre de Avis foi eleito defensor e regente do reino a 16 de dezembro de 1383, como defensor dos direitos do infante João de Portugal, primogénito de Inês de Castro. Aceitando a eleição, designou João das Regras como chanceler e Nuno Álvares Pereira como condestável, e pediu ajuda a Inglaterra.

No entretanto as forças lideradas por D. Nuno Álvares Pereira trataram de assediar Alenquer, mas D. Leonor fugiu para Santarém, obrigando os sitiantes a regressar a Lisboa para preparar a defesa daquela cidade perante a iminência de um cerco castelhano. Em Santarém, D. Leonor iniciou o recrutamento de um exército e solicitou a ajuda de seu genro, o rei de Castela.

Perante o alastrar da revolta e o risco de intervenção inglesa, João I tomou a decisão de ir pessoalmente controlar a situação em Portugal, e partiu para ali deixando no reino de Castela um Conselho de Regência formado por Alfonso de Aragón el Viejo, o marquês de Vilhena, Pedro Tenorio, o arcebispo de Toledo, e Pedro González de Mendoza, o mordomo do Rei. Nomeada a regência, em janeiro de 1384 João I, com sua esposa D. Beatriz, dirigiram-se a Santarém, respondendo à chamada da rainha regente. A 13 de janeiro, João I obteve da rinha Leonor a renúncia à regência e ao governo, que assumiu directamente, levando a que muitos cavaleiros e governadores de castelos se apresentassem a jurar obediência tanto a ele como a sua esposa D. Beatriz. Entre as cidades, vilas e castelos que juraram obediência ao monarca estavam Santarém, Ourém, Leiria, Montemor o Velho, Feira, Penela, Óbidos, Torres Vedras, Torres Novas, Alenquer, Sintra, Arronches, Alegrete, Amieira, Campo Maior, Olivença, Portel, Moura, Mértola, Braga, Lanhoso, Valença do Minho, Melgaço, Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo e Ponte de Lima, Guimarães, Caminha, Bragança, Vinhais, Chaves, Monforte, Miranda do Douro, Montalegre, Mirandela, Castelo Rodrigo, Almeida, Penamacor, Guarda, Covilhã e Celorico da Beira.

Tendo-se suspeitado que D. Leonor tentava conspirar contra o genro, foi enviada para o Mosteiro Real de Santa Clara de Tordesillas, onde ficou detida. O internamento de D. Leonor encorajou a causa do Mestre de Avis, pois fornecia uma justificação para a revolta face à violação pelo lado castelhano do tratado pré-nupcial assinado em Salvaterra de Magos aquando do casamento de João I com a infanta D. Beatriz.

Apesar de contar com a maioria da aristocracia portuguesa, que permanecia fiel à sua causa, o João I não conseguiu repetir os êxitos castelhanos das Guerras Fernandinas e fracassou ante Coimbra e Lisboa, não conseguindo conquistar estas cidades chave. A 3 de setembro de 1384, João I de Castela, após deixar guarnições nas fortalezas dos seus partidários, regressou a Castela e solicitou a ajuda do rei de França perante a eminência de uma intervenção inglesa em Portugal, o que poderia ter graves consequências no contexto mais vasto da Guerra dos Cem Anos.