O Comércio Nanban (japonês:南蛮貿易, nanban-bōeki, "Comércio com os bárbaros do Sul") ou Período do Comércio Nanban (japonês: 南蛮貿易時代, nanban-bōeki-jidai, "Período do comércio com bárbaros do Sul") na história do Japão compreende o período que vai da chegada dos primeiros europeus, oriundos de Portugal, em 1543, até sua exclusão quase total do arquipélago entre 1637 e 1641, com a promulgação do "Sakoku" — o Édito de Exclusão.
Visão japonesa sobre os europeus thumbnail|80px|esquerda|Caracteres para Nanban, "bárbaros sulistas". Nanban (南蛮 literalmente: “bárbaros do Sul”) é uma palavra sino-japonesa que originalmente designava as pessoas do sul e Sudeste asiáticos. Segue um uso chinês, que diz cercar-se por "bárbaros" nas quatro direções, sendo os do sul denominados 'Nanman'. No Japão, a palavra passou a ter um novo significado quando passou a designar os europeus, os primeiros dos quais foram os portugueses, que aportaram no país em 1543. A palavra depois abarcou os espanhóis, os holandeses (embora estes fossem geralmente chamados por "Komo" - 紅毛 - significando "cabelos vermelhos") e os ingleses. A palavra 'Nanban' foi naturalmente empregue para os novos forasteiros, uma vez que estes surgiam em navios vindos do sul, e seus modos foram considerados pouco sofisticados pelos japoneses.
Os japoneses inicialmente reprovavam os modos fúteis dos estrangeiros recém-chegados. Um registro japonês contemporâneo relata: "Comem com seus dedos, em vez de usarem os pauzinhos, como nós. Manifestam seus sentimentos, sem qualquer auto-controle. São incapazes de entender a nossa escrita."
Logo depois, entretanto, os japoneses adotaram muitas das tecnologias e práticas culturais daqueles visitantes, seja na área militar (como o arcabuz, armaduras em estilo europeu, e embarcações), religiosos (Cristianismo), arte decorativa e na linguagem (integração ao japonês de termos de origem portuguesa e ocidentais).
Muitos estrangeiros foram auxiliados por regentes nipônicos, e às vezes suas habilidades foram reconhecidas ao ponto de serem promovidos ao grau de samurais (como William Adams), e a cessão do feudo da Península de Miura, ao sul de Edo).
Visão Europeia sobre o Japão thumbnail|100px|esquerda|O Samurai Hasekura Tsunenaga em Roma em 1615, Col. Borghese, Roma. Na Renascença os europeus se admiraram com o Japão, que consideravam rico em metais preciosos, especialmente em razão dos relatos de Marco Polo (no qual chamava o país de Cipango) que diziam de templos e palácios em ouro, como também pela existência de outros minerais característicos de solos vulcânicos, encontrados à superfície em tempos onde as técnicas de mineração profunda eram inexistentes. O Japão tornar-se-ia, nesse período, num importante exportador de cobre e prata.
O Japão era considerado uma sociedade feudal avançado dotado de tecnologia pré-industrial. Era mais povoado e mais urbanizado do que qualquer país ocidental de então — tinha, no século XVI, cerca de 26 milhões de habitantes, contra 16 milhões da França e 4,5 milhões da Inglaterra.Noel Perrin, "Giving up the gun" Suas "universidades" budistas eram maiores do que qualquer instituições de ensino do Ocidente, a exemplo das universidades de Salamanca ou de Coimbra. Alguns observadores europeus contemporâneos escreveram que os japoneses "superam não apenas todos os demais povos orientais, eles ultrapassam também aos europeus" (Alessandro Valignano, 1584, "Historia del Principio y Progreso de la Compañía de Jesús en las Indias Orientales).
Os primeiros visitantes europeus ficaram impressionados com a habilidade dos artesãos e ferreiros nipônicos. Isto se deve ao facto de o Japão ser bastante pobre em recursos naturais comuns na Europa, especialmente o ferro. Assim, os japoneses passariam a ser reconhecidos pela forma econômica com que empregavam os recursos de que dispunham: o que havia em pequena quantidade eles aprenderam a usar com especialização.
A coragem guerreira do japonês também foi notada: "Um decreto real espanhol de 1609 especificamente dirigido aos comandantes espanhóis no Pacífico dizia para "não arriscar a reputação de nossos braços e enfrentar um soldado japonês"". Tropas samurais japoneses foram depois empregados nas Ilhas Molucas pelos holandeses para enfrentar os ingleses.
Trocas comerciais
Após os primeiros contatos de 1543, naus lusas começaram a chegar ao Japão. À época, as trocas comerciais e em particular o comércio português em Goa era já costumeiro (desde cerca de 1515), consistindo entre 3 a 4 naus que deixavam Lisboa com prata para comprar algodão e especiarias na Índia. Entre essas carracas, só uma se dirigia para a China, com ordem para comprar diretamente a seda, também em troca da prata ibérica.
Com a fundação do porto de Nagasaki, através das iniciativas combinadas do convertido cristão daimyo Omura Sumitada junto com seu amigo Português e confessor, o missionário jesuíta Gaspar Vilela, em 1571,Boxer, The Christian Century In Japan 1549-1650, p. 100-101 a extensão do comércio Português e sua influência no Japão, particularmente em Kyushu, aumentaria dramaticamente nos próximos 30 anos. Promovendo sua presença no porto estratégico, depois da ajuda portuguesa ao daimyo Sumitada para repelir um ataque no porto pelo clã Ryūzōji em 1578, incidente que por sua vez levou Sumitada a ceder Nagasaki "em perpetuidade"para a Companhia de Jesus, dois anos depois.
Oportunamente, a carga dos primeiros navios portugueses (em geral cerca de quatro pequenas embarcações ao ano) aportavam no Japão, com carga basicamente oriunda da China (seda e porcelana). Os japoneses almejavam esses bens, mas estavam proibidos de realizar qualquer contato comercial com a China pelo Imperador chinês, como punição pelos ataques dos piratas Wakō. Proporcionava-se assim, uma nova oportunidade para os portugueses atuarem como intermediários no comércio asiático.
Asiáticos capturados em batalhas também eram vendidos pelos seus compatriotas aos portugueses como escravos, mas os japoneses também venderiam membros da família que não podiam sustentar por causa da guerra civil. De acordo com Charles Boxer, autores asiáticos antigos e modernos "ignoraram convenientemente" a sua parte na escravidão dos seus compatriotas. Já em 1555, houve queixas da Igreja por os mercadores portugueses levarem com eles escravas japonesas, "vivendo com elas em pecado". Em 1571, o comércio de escravos tinha atingido tal escala que o Rei Sebastião a tentou proibir, a fim de não prejudicar nem o comércio nem a atividade missionária.
thumbnail|Uma carraca portuguesa em Nagasaki, século XVII.
Ao tempo da aquisição de Macau na China, em 1557, e com o formal reconhecimento de uma parceria comercial pelos chineses, a Coroa de Portugal começou a regulamentar o comércio com o Japão, concedendo privilégios de navegação e autoridade ao licitante que melhor oferta desse pela Capitania anual do Japão, cujo efeito era conferir os direitos comerciais exclusivos para enviar uma só carraca àquele país oriental todos os anos. As carracas eram naus muito grandes, com uma calagem entre mil e mil e quinhentas toneladas, cerca do dobro ou triplo do tamanho de um galeão regular ou de um grande junco.
Esse comércio continuou, com poucas interrupções, até cerca de 1638, quando foi proibido o desembarque de padres no solo nipônico.
O comércio lusitano foi sendo cada vez mais desafiado por contrabandistas chineses em seus juncos e pelos próprios japoneses em seus shuinsen a partir de 1592 (cerca de dez navios ao ano), além de embarcações espanholas oriundas de Manila nas Filipinas a partir de 1600 (um navio ao ano), dos holandeses a partir de 1609, e ingleses desde 1613 (um navio ao ano).
Intercâmbio Tecnológico Tanegashima thumbnail|esquerda|Arcabuz de fabrico japonês de Tanegashima, museu do templo Ako, Japão
Uma das muitas coisas nas quais os japoneses estavam interessados eram as armas de fogo portuguesas. A chegada dos primeiros europeus ao Japão deu-se a 23 de Setembro de 1543, quando um junco chinês danificado por uma tempestade foi empurrado pelos ventos para o cabo Kadokura e aportou em Maenohama, no extremo sul da ilha de Tanegashima. Detetados por camponeses, o chefe da aldeia, Nishimura Oribenojō, dirigiu-se ao local onde encontrou um chinês e dois homens estranhos. Nesse mesmo dia, Oribenojō deslocou-se a Akōgi para informar o 14.º senhor da ilha, Tanegashima Tokitaka (1528–1579), e o seu pai Shigetoki (1503–1567). Como o junco estava danificado, foi rebocado para Akōgi por possuir um bom porto, conseguindo aportar na capital a 25 de Setembro, após dificuldades operacionais causadas pela época dos tufões.
Curioso acerca da nova arma trazida pelos portugueses, o arcabuz, Tokitaka assistiu a uma demonstração de tiro na qual o alvo foi atingido a 100 pés de distância. Percebendo que aquela era a arma de que precisava para reconquistar a ilha de Yakushima, Tokitaka comprou um exemplar e ordenou ao ferreiro Yaita Kinbee Kiyosada que a copiasse (tirando partido do facto de a ilha exportar ferro para Sakai e Negoro). Apesar das dificuldades técnicas para aplicar um parafuso no fundo do cano de forma a fechar a culatra, o problema foi resolvido em 1544 com a ajuda de um ferreiro português que chegou noutro navio. Embora o ferreiro japonês quisesse manter a técnica em segredo, Tokitaka decidiu partilhar o conhecimento para obter reconhecimento junto do shōgun em Quioto. A 27 de Janeiro de 1544, as forças de Tokitaka conquistaram a ilha de Yakushima, naquela que foi provavelmente a primeira utilização militar de armas de fogo no arquipélago japonês.
A difusão do arcabuz pelo Japão foi rápida: as notícias chegaram aos Shimazu de Satsuma (em Kagoshima); o mercador Tachibanaya Matasaburō levou a arma para a sua cidade natal de Sakai; e, em 1544, Tsuda Kazunaga (Tsuda Kenmotsu no jō) introduziu um exemplar em Negoro (região de Kii), conforme relata a crónica Teppōki (escrita em 1606 pelo monge zen Nampo Bunshi). Por volta de 1545, uma demonstração feita ao senhor de Bungo, Ōtomo Yoshiaki (1502–1550), permitiu ao clã Ōtomo integrar a arma no seu arsenal e assegurar a hegemonia no norte de Kyūshū entre 1556 e 1578.
Existe um debate historiográfico quanto aos primeiros europeus a chegados. Embora algumas tradições mencionem António da Mota, António Peixoto, Francisco Zeimoto ou Fernão Mendes Pinto (versão defendida por historiadores como Armando Cortesão, Samuel Purchas e Dorothy Osborne), a historiografia maioritária (como Olof Lidin, C. R. Boxer, Georg Schurhammer, Michael Cooper e Armando Martins Janeira) dá credibilidade preferencial à Teppōki, sustentando que Mendes Pinto esteve no Japão apenas entre 1544 e 1546, não fazendo parte do grupo pioneiro de 1543. Pondera-se igualmente que piratas Wakō ou outros comerciantes já pudessem ter conhecimento do arcabuz e o tivessem introduzido por outras rotas.
Uma vez introduzidas em Tanegashima, estas armas e os seus modelos copiados receberam no Japão o nome da própria ilha (tanegashima ou tanegashima-teppō). Naquela época o Japão estava no meio de uma guerra civil, o chamado período Sengoku (Período do país em guerra). Estritamente falando, os japoneses já estavam familiarizados com armas de pólvora (inventada e trazida a partir da China) cerca de 270 anos antes da chegada dos portugueses. As armas portuguesas no entanto eram leves, possuíam um mecanismo melhor (fecho de mecha) e eram mais fáceis de mirar.