O Império de Canem, por vezes referido como Império de Canem-Bornu, foi um império da África que existiu do até 1387. Sua história é conhecida principalmente com base na Crônica Real ou Girgam, descoberta em 1851 pelo viajante alemão Heinrich Barth. O Império de Canem provavelmente no , criado pelos zagauas que ainda habitam partes do Chade. A crônica real do país afirma que o fundador do Estado foi Ibraim, filho de Ceife. Por séculos manteve-se animista, mas por influência de missionários que transitavam junto as caravanas do comércio transaariano foi convertido ao islamismo no no reinado de Humé , primeiro maí (rei) da dinastia sefaua. Apesar da conversão, várias características da sociedade canembu pré-islâmica se mantém, sobretudo o caráter divino dos reis.

Durante os primeiros sucessores de Humé, foi expandido e chegou em seu zênite sob , se estendendo ao sul da atual Líbia no Fezã e ao nordeste da atual Nigéria no estado de Bornu. Sob Dunama, foram feitas melhorias técnicas no exército e Canem adotou os corcéis árabes, melhorando a capacidade militar do país e facilitando as expedições para obtenção de escravos, a principal fonte de renda de Canem. Sob Cadai , seu filho, Canem faz uma missão diplomática ao Reino Haféssida da Ifríquia. Os maís seguintes enfrenta a ameaça dos saôs, e vários monarcas perderam suas vidas. A crise foi superada com , mas uma disputa pelo trono eclode entre seus filhos e seu irmão , debilitando o país e a dinastia e deixando-a vulnerável aos bulalas que invadem Canem nesse momento. Vários maís perecem nos combates e sob a corte foi transferida para Bornu, onde foi fundado o Império de Bornu em 1387.

Etimologia

Em canúri, Kanem significa "país do sul"; a palavra é prefixada por k, que anuncia o substantivo, e o étimo anem que significa "sul". Os canembus, os habitantes do país, são a "gente do país do sul", por oposição aos tubus, a "gente da montanha" e que habitam a região de Tibesti, no atual Chade.

História

Origens

Fontes históricas

O Império de Canem foi fundado durante o pelos zagauas. A primeira menção a esse povo é feita por Uabe ibne Munabi. No , ibne Cutaiba afirmou que eram uma das sete raças do Sudão, enquanto Iacubi, escrevendo em 872, disse que viviam em Canem; era a primeira menção histórica ao país. Na descrição cita-se que não tinham cidades e habitavam cabaças de caniço e que formavam dois reinos que avizinhavam Malal, um adversário de Canem; Malal era governado por Maí Uasi (Mywsy). Também fala que os zagauas tinham um subgrupo chamado haudines (hawdīn), cuja historiografia associa aos hauçás. Cem anos depois, de acordo com , cujo relato foi citado por Iacute, havia em Canem as cidades de Manã e Tarásqui nas quais havia casebres de varas, o mesmo material do palácio real.

Segundo o Girgam dos maís de Bornu, porém, a linhagem de Canem surge com o herói árabe Ceife, que no , com apoio da Pérsia, tornar-se-ia rei no Iêmem. Seu filho Ibraim migrou ao Sudão Central e se tornou líder dos magumis, grupos nômades que à época viviam ao nordeste do lago Chade. Ibraim e descendentes adquiriram supremacia sobre grupos nômades e sedentários da região, sobretudo a partir de alianças matrimoniais. Essa versão, que associa a aristocracia magumi, que seria muito relevante durante a história de Canem, e um herói árabe do Iêmem surge após a conversão de Canem ao islamismo e, ao que parece, serviu para conferir legitimidade à posterior dinastia sefaua.

Historiografia

Essas posições reverberaram na historiografia. Para alguns, os sefauas sucederam os zagauas, mas eram de estirpe real distinta e professavam o islamismo. A outros, os zagauas pouco ou nada participaram no surgimento do país, sendo expulsos conforme foi se estabelecendo; possivelmente são associáveis aos saôs das fontes canúris. Há quem defenda a ideia de que havia 2 reinos, o zagaua e o magumi, que conviveram por muito tempo até que o segundo derrotou o primeiro; a ideia está apoiada em Almaçudi que, escrevendo no , distinguiu zagauas e Canem. Também há quem defenda a ideia de que, de fato, foram os zagauas a criarem Canem e a sua criação implicou na transição de seu estilo de vida pastorício e nômade para outro agrícola e sedentário, a centralização do poder e estabelecimento da capital. Ainda há quem pense na persistência sob os sefauas da realeza divina típica dos zagauas como prova de que o país incluiu zagauas em sua formação e sua presença atual em Uadai e Darfur seria reflexo da migração póstuma de grupos que recusaram converter-se. Por fim, há quem pense que os magumis não eram nômades, como dito no Girgam, cujos epígonos de Ceife assumem a liderança, mas a linhagem patrilinear sefaua, o que faria deles os descendentes da realeza. Alberto da Costa e Silva, concluindo, afirma: "No substrato de quase todas as visões há algo comum: a imposição de um grupo, local ou forâneo, sobre os demais, graças à superioridade que lhe davam o conhecimento do ferro e uso do cavalo."

Dierk Lange, por exemplo, considerou que o processo de formação de Canem estava ligado à ascensão de uma aristocracia dominante – da qual haviam saído, a um só tempo, o rei do Canem e aquele dos haudines de Iacubi – e que dera seu nome ao conjunto das populações nos dois países. Também afirma que é mais verossímil a hipótese que um pequeno grupo, em razão de violento conflito, desencadeou a criação do Estado numa região onde as técnicas do ferro eram conhecidas desde o () e onde a posse de cavalos não tão somente era sinal de elevadíssimo prestígio, mas, igualmente, garantia de combatividade superior. Para eles, dispondo de armas de ferro e tirando proveito dos intercâmbios, ainda rudimentares, com o mundo exterior, este grupo – os zagauas, indiscutivelmente – impôs‑se progressivamente perante populações de pastores e agricultores, habitantes da região situada a sudeste do Cauar, entre o lago Chade e o região posteriormente chamada Canem. Acrescenta ainda que a aristocracia dominante dos zagauas provavelmente não se reconstituiria senão posteriormente, embora segundo esta hipótese, os zagauas possam não ter em seu conjunto uma identidade étnica distinta dos principais grupos de agricultores e pastores, sobre os quais se estendia o seu domínio inicial. Aparentemente, não seria senão numa fase ulterior, muito posterior, à época de Mualabi, que diversos grupos étnicos teriam sido integrados no quadro de uma mesma estrutura estatal. Lange ainda propôs, com base no conhecimento acumulado pelos cronistas árabes e a expedição Uqueba ibne Nafi contra Fezã e Cauar nos primórdios da expansão islâmica, que Canem já poderia existir pouco antes da Hégira (622).

Sefauas

thumb|esquerda|Território dos cuararafas thumb|esquerda|Reino Haféssida e Estados vizinhos ca. 1400. O maí Cadai enviou presentes ao califa

As fontes muçulmanas fazem menção a 3 missões diplomáticas a países muçulmanos do norte da África, mas não se sabe se foram feitas por Canem. Canem tornou-se majoritariamente muçulmano a partir do reinado do maí Humé . Relata-se que ao assumir estabeleceu os sefauas no trono de Canem em sucessão Abdal Jalil , último maí da dinastia zagaua precedente dos duguas que se originou com Dugu, tido como filho de Ibraim (numa versão) ou irmão de Ceife (em outra). A tradição diz que de Humé a os maís eram vermelhos como beduínos, levando alguns historiadores sugerirem origem berbere. Sob , reformas técnicas no exército foram introduzidas e deu-se prosseguimento à islamização do país. Canem adquiriu grandes proporções territoriais ao dominar Cauar e o comércio de sal e alume. Para garantir que o comércio transaariano não seria afetado por disputas locais, marchou ao Fezã, derrotou berberes em Zuila e colocou em Tragane um homem de sua confiança, talvez tubu, que fundaria a dinastia Banu Naçor. Talvez impôs sua autoridade sobre boa parte de Bornu e intensificou ataques a povos sulistas, ao que parece exclusivamente para obter escravos. Também conduziria uma expedição fracassada contra os cuararafas.

Sob Cadai , o controle de Canem sobre o Fezã foi consolidado e fez-se guerra no sul do Chade. Também enviou, entre os presentes de embaixada ao califa em Túnis, uma girafa — "animal de forma estranha e disparatada", como citou ibne Caldune. Falece em 1277, combatendo os "andacamas dunamas", talvez um país vassalo. também foi derrotado e morto pelo vassalo ierima Maomé ibne Gadi. Entre e , o reino enfrenta a ameaça dos saôs e 4 maís foram mortos nos combates. Somente sob a situação foi controlada. Adotou uma política mais conciliatória com as populações de Bornu, bem como estabeleceu um modus vivendi com as tribos saôs, trazendo então ordem ao país. Foi sucedido pelo irmão . Talvez continua à política de Idris e tentou recuperar a influência sobre a região a leste de Canem ou ao menos conter o avanço bulala. Seus sobrinhos não aceitaram serem ignorados na sucessão e iniciaram uma guerra civil contra o tio, o que enfraqueceu a dinastia. Isso permitiu aos bulalas atacarem e Daúde morre em 1376/1377 combatendo-os. De a os maís tentaram combater os invasores, porém seus esforços foram inúteis e todos pereceram nos combates. Sob , Canem foi abandonado e a corte foi transferida para Bornu, onde se funda um novo Estado.

Geografia

Canem estava localizado no Sudão Central, hoje compreendendo sobretudo o território do Chade. Ao norte estendia-se a Bilma e Caçaba, em Cauar. Ao falar dos zagauas, um dos povos que fundaram Canem, o geógrafo árabe Algorismo do começo do situou seu reino simultaneamente ao sul do Fezã e ao Sul do Reino de Alódia na Núbia. Dreses comenta que eles avizinhavam o Fezã, no sul da atual Líbia, e que Sagaua (provavelmente idêntico a Sacaua, nome dado pelos zagauas ao sul do atual Uadai) e Xama (talvez Tim-Xamane, ao norte de Agadez) eram dois centros zagauas cujos habitantes viviam da pastorícia (para produção de leite, manteiga e carne) e cultivo de sorgo. Mualabi afirmou que Canem era um Estado muito extenso, limítrofe com a Núbia, situada a 10 dias de caminhada.

Sob a dinastia sefaua, Canem estendeu seus limites para Zuila e Tragane, ambos no Fezã, e para Bornu na atual Nigéria. Esses territórios, apesar de situados no Saara, não eram desérticos segundo as descrições e sua população vivia do cultivo. No tempo da descrição de Iacubi, os zagauas ainda não viviam em cidades e suas residências eram de caniço. No tempo de Mualabi menciona-se as cidades de Manã — localizada por Dreses a 12 estádios de Tamalma em Cauar — e Tarásqui, enquanto ibne Saíde cita Nai. Em várias passagens do Girgam são feitas menções a cidades nas quais alguns maís foram sepultados: Zantam, Nanigam e Discama, todas situadas em algum lugar a oeste do lago Chade.

No tempo da dominação sefaua, a capital foi transferida para Anjimi, descrita por Dreses como um pequeno povoado que estava aproximadamente a 3 dias de viagem do rio Nilo e 8 de Manã; nela foram sepultados quatro maís. Abulféda, escrevendo no , citou que o rei tinha uma cidade com jardins situada na margem esquerda do Nilo a 40 milhas da capital Anjimi na qual havia cana-de-açúcar e muitas frutas como pêssegos e outras não encontradas no mundo árabe.

Economia

thumb|Rotas transaarianas do Saara Ocidental c. 1000-1500. Canem esteve integrado nesse sistema de rotas e atuou como confluência daquelas que atravessavam o Sudão Central