O transporte aquaviário do Rio de Janeiro é composto por um conjunto de linhas de barcas e catamarãs, operando no transporte público de passageiros na Baía de Guanabara e na Baía da Ilha Grande, nos municípios de Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis e Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro. Desde 12 de fevereiro de 2025, é operado pela concessionária Barcas Rio, que presta serviços para o Governo do Estado do Rio de Janeiro.
Em 17 de fevereiro de 2025, a Prefeitura do Rio de Janeiro assinou o contrato de concessão de um sistema à parte, que será composto de quatro linhas nas lagoas de Jacarepaguá, Marapendi e Tijuca, ligando os bairros Barra Olímpica e Recreio dos Bandeirantes à Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro. O consórcio vencedor se chama Lagunar Marítimo, irá operar o serviço por 25 anos e tem um prazo de 60 dias para apresentar um cronograma de obras.
Serviço de transporte História do serviço Antes das barcas Há milênios, as águas do litoral fluminense já eram singradas pelas canoas indígenas.BUENO, E. Brasilː uma história. 2ª edição revista. São Paulo. Ática. 2003. p. 80.STADEN, H. Duas viagens ao Brasil. Tradução de Angel Bojadsen. Porto Alegre, RS. L&PM. 2010. 192p. Desde o século XVII, pequenas embarcações a remo ou a vela, chamadas de faluas, navegavam o interior da Baía da Guanabara fazendo o transporte de víveres e de pessoas entre os povoados localizados no interior da mesma. Quase sempre, o destino final da produção agrícola daquelas localidades era o Rio de Janeiro, capital e principal cidade da colônia desde 1763, cujos principais portos se localizavam nas águas abrigadas da Baía.
Em 1779, por ordem do vice-rei Marquês do Lavradio, foram contabilizadas 22 lanchas e 10 saveiros, que realizavam viagens frequentes entre o então Saco da Boa Viagem (atualmente a região das praias das Flechas, Itapuca e Icaraí) e a capital colonial. De São Domingos à Praia Grande, havia mais cinco lanchas e 18 saveiros. Os locais de atracação eram dois em Mata-Porcos (Icaraí), dois em Maruí, sete na Vala (São Lourenço) e três no Barreto. Com o passar do tempo, os locais de partida e de chegada foram se restringindo às praias com águas mais calmas, que acabaram sendo denominadas de "portos": Mata-Porcos, das Faluas (atual Praça Arariboia), Maruí e Barreto.Revista Marítima, 1919
No ano de 1817, o governo real concedeu as primeiras permissões para a navegação a vapor (então uma tecnologia recente) na Baía. No entanto, não apareceriam interessados na exploração daquela concessão pelos próximos anos. Em 1819, Dom João VI elevou Praia Grande à categoria de "Vila Real". E a antiga "Rua Direita da Conceição", que desembocava junto ao Porto das Faluas, se tornou o centro comercial da localidade, aumentando a movimentação de embarcações naquele atracadouro e criando uma espécie de ponte marítima entre Praia Grande e o Rio de Janeiro, que cada vez mais consumia produtos oriundos do outro lado da Baía.
Em 1834, a Vila Real de Praia Grande foi elevada à condição de município e passou a ser a capital da Província do Rio de Janeiro com o novo nome de Niterói a partir do ano seguinte. Mesmo ano em que finalmente se inicia a exploração comercial da rota entre a nova capital e a então Corte Imperial por uma empresa particular, de acordo com um novo decreto de concessão de 9 de outubro de 1833.
Companhia de Navegação de Niterói A "Companhia de Navegação de Niterói" foi criada em 14 de outubro de 1835. A primeira embarcação a fazer a travessia foi o vapor inglês "Especuladora", que, juntamente com as barcas "Nictheroyense" e "Praiagrandense", formavam a totalidade da frota. Cada vapor tinha capacidade para 250 passageiros, que atravessavam a Baía entre o Cais Pharoux (atual Praça XV de Novembro) e a Praça Martim Afonso (atual Praça Arariboia) em 30 minutos de viagem. A tarifa normal custava 100 réis nos dias úteis e 160 réis aos domingos e feriados. Após as 18 horas, todas as tarifas subiam para 320 réis. Os escravos pagavam 80 réis nos dias normais e 100 após as 18 horas. As cargas eram tarifadas de acordo com o arbítrio do cobrador. João Mourrissy foi o primeiro diretor da Companhia.Jornal do Commercio, 14/10/1835
Em 23 de maio de 1844, ocorreu o primeiro acidente grave do sistema. A pioneira "Especuladora" explodiu após um problema com sua caldeira. Cerca de 70 passageiros morreram e outros 50 ficaram feridos.
Companhia Nictheroy & Inhomerim Em 1840, foi fundada a "Companhia Inhomerim", que passou a explorar o serviço de transporte marítimo entre o Porto das Caixas, em Itaboraí e o Porto de Estrela (localidade no atual município de Magé). Desejando aumentar a capacidade de transporte entre o Rio de Janeiro e Niterói, o Governo Imperial fez um decreto em 1851 autorizando essa companhia a concorrer com as barcas da "Sociedade Navegação de Niterói". A concorrência não durou muito, e em março de 1852 ambas as empresas se fundiram, sob a nova denominação de "Companhia Nictheroy & Inhomerim" (grafia da época). Com o incremento, foram criadas novas linhas ligando o Largo do Paço até a Praia de Botafogo (na altura da Rua São Clemente) e os bairros da Ilha do Governador, Paquetá, Catete e Inhaúma. Nesta época, havia nove embarcações realizando as travessias: Santa Cruz; Restauração; São Clemente; Botafogo; Petrópolis; Ponta d'Areia; Inhomerim; Nictheroy e São Domingos.
Companhia Ferry e Barcas Fluminenses Em 1853, o empresário norte-americano Clinton Van Tuyl chega ao Rio de Janeiro disposto a trazer embarcações semelhantes às balsas do Rio Mississipi, mais modernas que as utilizadas pela "Companhia Nictheroy & Inhomerim", que detinha o privilégio de exclusividade na exploração do serviço até 1861. Aproveitando-se do clima de insatisfação dos usuários para com a qualidade dos serviços prestados pela "Nictheroy & Inhomerim", Van Tuyl passou a pleitear a quebra do monopólio das barcas através de artigos publicados na imprensa fluminense. Mas seria outro norte-americano, Thomas Rainey, que conquistaria o direito de fundar uma nova empresa de transporte aquaviário na Baía da Guanabara. Rainey, um sulista exilado pela Guerra Civil Americana, alegou que a ideia original de trazer balsas do tipo ferry para a ligação Rio/Niterói era sua, e que Clinton Van Tuyl seria apenas um preposto seu. A polêmica entre os dois compatriotas duraria até 1858, quando ambos se reuniram em Nova York. Van Tuyl vendeu para Rainey a empresa que já havia sido criada no Brasil, e o segundo retornou ao Rio de Janeiro, a fim de esperar o término do privilégio de exclusividade da "Nictheroy & Inhomerim".
Em 29 de junho de 1862, são finalmente inaugurados os serviços da "Companhia Ferry". Com barcas de proa dupla, maquinário mais rápido e mais capacidade de transporte de carros e passageiros, as barcas de Thomas Rainey logo se tornaram as favoritas dos usuários. Com isso, a "Companhia Nictheroy & Inhomerim" não suporta a concorrência e fecha três anos depois. A "Companhia Ferry" também investiu no conforto de seus passageiros, construindo uma moderna estação na Praia de Dom Manoel, no Rio de Janeiro, cujo prédio seria utilizado até a primeira década do século seguinte. À inauguração do serviço, compareceram Dom Pedro II, acompanhado de sua Família Imperial e um séquito de 1 600 pessoas que incluía ministros e senadores. Também foram construídas novas pontes de atracação em Niterói, uma no bairro de São Domingos e outra em frente à Rua Marquês de Caxias.
No entanto, logo após a falência da "Nictheroy & Inhomerim", a "Ferry" também passou a ser alvo de reclamações da população, por conta dos aumentos tarifários e de sua tabela de horários, que cessava às 22 horas. E, assim como antes, as reclamações propiciaram o surgimento de mais um empreendedor disposto a concorrer pela preferência dos usuários: o alemão Carlos Fleiuss, que, em 6 de janeiro de 1870, inaugura os serviços de sua "Companhia Barcas Fluminenses", novamente com a presença de Dom Pedro II, e contando com três embarcações: Côrte, São Domingos e Nictheroy. Graças à concorrência mútua, as tarifas diminuíram de valor, ocasionando um aumento considerável na quantidade de viajantes. Mas a competição também gerou preocupações às autoridades, por conta da rivalidade dos mestres de navegação de ambas as empresas, que apostavam corridas e praticavam todo tipo de manobras imprudentes durante as viagens.
A "Companhia Ferry" existiu até o final do Império, tendo, anos antes, sido vendida ao comendador Antônio Martins Lage. E, em 1877, após dificuldades financeiras, a "Barcas Fluminenses" seria incorporada pela própria "Ferry", que, assim, recuperou seu monopólio."Casa do Rio de Janeiro - História dos serviços públicos urbanos no Rio de Janeiro"
Cantareira
miniaturadaimagem|300px|Incêndio da Barca Terceira, no dia 6 de janeiro de 1895.
Às vésperas da Proclamação da República, em 1 de outubro de 1889, a "Companhia Ferry" se funde com a "Empresa de Obras Públicas no Brasil" (EOPB), responsável pelo abastecimento de água e pelo serviço de carris em Niterói, formando a "Companhia Cantareira e Viação Fluminense" (CCVF), com onze embarcações: Primeira; Segunda; Terceira; Quarta; Quinta; Sexta; Sábado; Dona Isabel e mais três que pertenciam à antiga EOPB. Em 1894, foi implementada a iluminação elétrica a bordo. Em 1902, a companhia foi remodelada, passando a ser administrada pelo capitalista luso-brasileiro Visconde de Moraes, que, em 1908, se associou aos britânicos proprietários da "Leopoldina Railway". Em julho daquele mesmo ano, foi inaugurada a nova estação de passageiros em Niterói, e iniciou-se a construção de um novo terminal no Rio de Janeiro, em substituição àquele construído por Thomas Rainey.REVISTA DA SEMANA, "O Centenário das Barcas de Nictheroy", 13/10/1934.
Em 6 de janeiro de 1895, ocorreu o segundo grande acidente das barcas, quando uma instalação elétrica mal feita incendiou a "Terceira", matando cerca de 200 pessoas. Em 26 de outubro de 1915, nova tragédia: a barca "Sétima" naufragou nas proximidades da Ponta d'Areia, após se chocar contra uma rocha, matando 28 passageiros, quase todos alunos do Colégio Salesiano de Niterói em excursão, que voltavam de um desfile em homenagem ao cardeal Arcoverde.
Revoltas populares e estatização Desde o final do século XIX, o serviço era alvo de constantes críticas da imprensa, por conta de atrasos e de problemas nas embarcações. Em dezembro de 1925, o preço das passagens aumentou para 600 réis (ida e volta). Houve várias revoltas populares, com a vandalização da estação de Niterói e a depredação de embarcações. As barcas "Nichtheroy", "Sétima" e "Gragoatá" foram bastante danificadas na ocasião.
Em 1959, houve a maior de todas as revoltas populares contra as barcas. Populares se voltaram contra a família Carreteiro, proprietária da CCVF e também das companhias "Frota Carioca" e "Frota Barreto", incendiando primeiramente a estação de Niterói, e depois atacando as residências dos acionistas da empresa. Nos confrontos com as tropas do Exército que foram acudir a polícia, foram mortas seis pessoas e outras 118 ficaram feridas. A Revolta das Barcas, como o episódio ficou conhecido, acabou por provocar a estatização do serviço.