Alto Carabaque () ou Carabaque Montanhoso (), (, tr.: Nagórni Karabákh) é uma região na Transcaucásia (sul do Cáucaso), situada entre o Carabaque (ou Baixo Carabaque) e a província de Siunique (Zanguezur), ao longo de todas as montanhas do chamado Pequeno Cáucaso. A região é, em sua maior parte, montanhosa e coberta por florestas, e tem uma área de 8 223 quilômetros quadrados.
thumb|250px|Linha de frente no momento da assinatura do acordo após a Segundo Guerra no Alto Carabaque com os ganhos territoriais do Azerbaijão durante a guerra em vermelho e a área da qual a Armênia deve se retirar de acordo com o acordo representado pela área hachurada.
A região faz parte, de jure, do Azerbaijão, porém até setembro de 2023, era governada de facto pela República de Artsaque, que não detinha reconhecimento internacional. Desde o fim da Guerra do Alto Carabaque, em 1994, representantes dos governos da Armênia e do Azerbaijão mantiveram negociações de paz, mediadas pelo Grupo de Minsk, acerca do status em disputa da região. Porém, uma nova guerra eclodiu entre as partes em 2020. Desta vez, o Azerbaijão conseguiu uma vitória rápida e, por conseguinte, retomou grande parte do território que havia perdido décadas antes. Sob o armistício colocou fim a esse conflito, a Armênia concordou em retirar suas tropas de todo o território ocupado fora do antigo Oblast Autônomo do Alto Carabaque da era soviética. Três anos depois, o Azerbaijão lançou uma nova ofensiva militar na qual assumiu o controle dos últimos territórios ainda sob o domínio de Artsaque. Como efeito da rendição, um decreto do governo da autoproclamada República de Artsaque determinou a dissolução de todas as suas instituições e organizações a partir de 1 de janeiro de 2024, representando o seu fim oficial.
Etimologia thumb|upright|Mamkan, rainha de Khachen e princesa de Baghk. Baixo-relevo, Mosteiro de Ganzasar,
Нагорный (Nagornii) é uma palavra russa que significa "montanhoso". A palavra não é usada nem no armênio nem no azeri, porém foi utilizada como nome oficial da região durante o domínio da União Soviética, motivo pelo qual também passou a ser utilizado por estes idiomas. Os nomes mais comuns, no entanto, costumam traduzir o significado literal do russo Нагорный Карабах (transl. Nagorniy Karabah):
Armênio: , transl. Lernayin Gharabagh Azeri: Dağlıq Qarabağ ("Carabaque Montanhoso") ou Yuxarı Qarabağ ("Alto Carabaque")
Diversos outros idiomas também optam por traduzir o significado da expressão; em português, por exemplo, o território também é chamado de Carabaque Montanhoso ou Alto Carabaque, a exemplo do francês Haut-Karabakh.
A palavra Carabaque é tida em geral como turcomana e persa, e significa literalmente "jardim" negro".Regions and territories: Nagorno-Karabakh. BBC News. 3 de outubro de 2007 (visitado em 21 de novembro de 2007).Ulubabyan, Bagrat. Karabagh (Ղարաբաղ). Enciclopédia Armênia Soviética, vol. vii, Ierevan, RSS Armênia, 1981 p. 26 (em armênio) O nome aparece pela primeira vez em fontes georgianas e persas dos séculos XIII e XIV. Karabal é uma grafia alternativa do nome, que também se refere a um tipo de tapete produzido originalmente na região.C. G. Ellis, Oriental Carpets, 1988. p133. Em português também se usam as grafias Karabaque e Carabaque, entre outras.
Uma teoria alternativa sugere uma origem turco-armênia, referindo-se ao "Grande Balque" (em armênio: Մեծ Բաղք), uma possível referência a Quetixe-Balque (posteriormente Dizaque), um dos principados de Artsaque sob o domínio dos arranxaíquidas, que ocupou o trono do Reino de Siunique entre os séculos XI e XIII, e se intitulava o "Reino de Balque".Hewsen, Robert H., Armenia: a Historical Atlas. University of Chicago Press, 2001, pp. 119-120.
A região também é conhecida pelos armênios que vivem na região como Artsaque (em armênio: ), referindo-se à décima província do antigo Reino da Armênia. Nas inscrições urartianas dos séculos IX e o nome Urtekhini é usado para designar a região.Artsakh: From Ancient Time to 1918. PanArmenian Network. 9 de junho de 2003. (visitado em 21 de novembro de 2007. Fontes da Grécia Antiga chamam a região de Orquistena (Orchistene).Estrabão (ed. H.C. Hamilton, Esq., W. Falconer, M.A.) Geografia. The Perseus Digital Library. 11.14.4. (em inglês; visitado em 21 de novembro de 2007).
História História antiga
thumb|245px|esquerda|O Mosteiro de Amaras, no Alto Carabaque, foi fundado no por Gregório, o Iluminador. No , Mesrobes Mastósio, inventor do alfabeto armênio, fundou em Amaras a primeira escola a usar a sua escrita.Viviano, Frank. "The Rebirth of Armenia", revista National Geographic, março de 2004
O Alto Carabaque se situa em terras ocupadas inicialmente por povos conhecidos pelos arqueólogos modernos como a cultura do Cura-Araxes, que viviam entre os rios Cura e Araxes. A população original da região consistia de diversas tribos, autóctones e migratórias.Hewsen, Robert H. "Ethno-History and the Armenian Influence upon the Caucasian Albanians," in: Samuelian, Thomas J. (Hg.), Classical Armenian Culture. Influences and Creativity, Chicago: 1982, 27-40. De acordo com o estudioso americano Robert H. Hewsen, estas tribos primitivas "certamente não tinham origem armênia", e "embora certos povos iranianos possam ter se estabelecido ali durante o longo período do domínio persa e medo, a maior parte dos nativos não era indo-europeu. Estes povos, segundo Hewsen, foram conquistados pelo Reino da Armênia no .
No entanto, com base nas informações fornecidas pelo historiador armênio Moisés de Corene, do , outros autores ocidentais afirmaram - e, posteriormente, o próprio Hewsen - que estes povos podem ter sido conquistados pelo Reino da Armênia até mesmo antes, no .Hewsen, Robert H. Armenia: a Historical Atlas. Chicago: University of Chicago Press, 2001, p. 32-33, mapa 19 (mostra o território do atual Alto Carabaque como parte do Reino da Armênia dos orôntidas.
No todo, desde cerca de e até o — antes de voltar a fazer parte novamente do Reino da Armênia, em 855 — o território do Alto Carabaque continuou a fazer parte do Reino da Armênia unido na forma da província de Artsaque.Hewsen, Robert. "Ethno-History and the Armenian Influence upon the Caucasian Albanians," in: Samuelian, Thomas J. (Hg.), Classical Armenian Culture. Influences and Creativity, Chicago: 1982, 27-40.Hewsen, Robert H. “The Kingdom of Artsakh,” in T. Samuelian & M. Stone, eds. Medieval Armenian Culture. Chico, CA, 1983
Depois da partição da Armênia entre o Império Romano e a Império Sassânida com a Paz de Acilisena de 387, Artsaque passou a fazer parte da Albânia, que, por sua vez, situava-se sob forte influência religiosa e cultural armênia."Azerbaijan", Encyclopædia BritannicaWalker, Christopher J. Armenia and Karabagh: The Struggle for Unity. Minority Rights Group Publications, 1991, p. 10Istorija Vostoka. V 6 t. T. 2, Vostok v srednije veka Moscou, «Vostochnaya Literatura», 2002. ISBN 5-02-017711-3Hewsen, Robert H. "Ethno-History and the Armenian Influence upon the Caucasian Albanians," in: Samuelian, Thomas J. (Hg.), Classical Armenian Culture. Influences and Creativity, Chicago: 1982V. Minorsky. History of Shirvan and Darband Alguns historiadores armênios, como Moisés de Corene e Moisés de Dascurã, ligaram o nome armênio da região do Reino de Albânia (Աղվանից Թագավորություն) à alcunha dada ao lendário soberano local, Arrã (em armênio Աղու, transl. Alu - "bondoso" ou "gentil"). Nos relatos de Moisés de Dascurã, Arrã é designado para governar a Albânia por , rei da Armênia.Cagancatvatsi, Moisés. História da Terra de Aluanque (traduzido do antigo armênio por Sh. V. Smbatian. Erevã: Matenadaran (Instituto de Manuscritos Antigos), 1984
Uma descrição extensa de Artsaque e de seus 12 condados faz parte do atlas geográfico armênio do chamado Ashkharatsuyts (Geografia), compilado pelo acadêmico Ananias de Siracena.Shirakatsi, Anania. Ashkharhatsoyts, traduzido do antigo armênio por Robert H. Hewsen. Caravan Books, 1994
A partir de um registro militar armênio do (em armênio: Զորանամակ, Zoranamak), sabe-se que, no início da Idade Média, Artsaque devia fornecer ao exército armênio pelo menos mil soldados.Adontz, N. Armenia in the Period of Justinian: the Political Conditions Based on the Nakharar System (trad. por N. Garsonian), Lisboa: 1970, pp. 160-167
Os armênios habitam a região do Carabaque desde os tempos romanos; Estrabão relata que, por volta dos séculos II ou , toda a população da Grande Armênia - incluindo Artsaque e Otena — falavam o armênio,Estrabão, op. cit., livro XI, cap. 14,5 (Bude, vol. VIII, p. 123)Cornell, Svante E. Small Nations and Great Powers. 2001, p. 64 embora isto não queira necessariamente dizer que a população era formada por armênios.Shnirelman, V. A. Memory wars. Myths, identity and politics in Transcaucasia. Academkniga, Moscou: 2003 ISBN 5946281186 Em seus relatos, Estrabão descreve Artsaque como uma província da Armênia "... que fornece a maior parte de sua cavalaria."Estrabão, Geografia 11.14</ref> Tigranes, o Grande, rei da Armênia de 85 a , fundou em Artsaque uma das quatro cidades que receberam o nome de Tigranocerta em sua homenagem. Sebeos, História, cap. 26 As ruínas da antiga Tigranocerta, localizadas a cerca de 50 quilômetros ao nordeste de Estepanaquerte, estão sendo estudados atualmente por um grupo de estudiosos internacionais.
No início da Idade Média os elementos não armênios da população albanesa do Alto Carabaque já tinham sido misturados completamente à população armênia, e deixaram de formar grupos identificáveis;Rutland, Peter. "Democracy and Nationalism in Armenia". Europe-Asia Studies 46:841К. В. Тревер. Очерки По Истории и Культуре Кавказской Албании IV В. до Н. Э. — VII В. н. э. (источники и литература). Изданиe Академии Наук СССР, М.-Л., 1959, стр. 81. com a única possível exceção dos udis, que viveram longe de Artsaque ou Otena - centros onde a cultura e civilização armênia floresceram no Alto Carabaque medieval. No a primeira escola armênia foi aberta no território do atual Alto Carabaque, no Mosteiro de Amaras, graças aos esforços de São Mesrobes Mastósio, o inventor do alfabeto armênio.Viviano, Frank. “The Rebirth of Armenia,” National Geographic Magazine, Março de 2004, p. 18, São Mesrobes teve um papel de destaque na difusão do Evangelho nas duas cidades; quatro capítulos da História... de Moisés de Dascurã descrevem em detalhe a missão de São Mesrobes, referindo-se a ele como "iluminador", "evangelista" e "santo".<ref>Moisés de Dascurã. História da Terra da Albânia, Livro I, capítulos 27, 28 and 29; Livro II, capítulo 3. Mastósio fez, no total, três viagens diferentes a Artsaque e Otena, alcançando territórios pagãos aos pés do Grande Cáucaso.Ibid