Rogel Samuel (Manaus, 2 de janeiro de 1943 - Rio de Janeiro, 2 de julho de 2023) foi um ensaísta, poeta, crítico literário e romancista brasileiro. Natural do Estado do Amazonas, lecionou na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), tendo-se aposentado como Professor Adjunto Doutor, naquela universidade fluminense. Desde 2011 Rogel Samuel é sócio-correspondente da Academia Amazonense de Letras . Faleceu em em 2 de julho de 2023, às 6h20 (horário de Brasília), vítima de insuficiência respiratória grave por consequência de uma pneumonia e complicações de diabetes no Hospital São Lucas, no Rio de Janeiro.

Biografia O primeiro poema de Rogel Samuel foi publicado em O Jornal (Manaus) em 1º de fevereiro de 1959 . Seu livro mais conhecido é O amante das amazonas, onde o romancista narra tanto acontecimentos da época do Ciclo da Borracha no Extremo Norte do Brasil, quanto fatos ocorridos no contexto da decadência daquela atividade econômico-exportadora no Amazonas (primeira metade do século XX); tanto do interior do Amazonas (Alto Juruá), quanto da cidade de Manaus.

É seguinte a sinopse do citado romance: "A narrativa mistura ficção e fatos reais, contados por testemunhas, e transcreve um conjunto de acontecimentos do apogeu e da decadência do império amazônico, além de relatos de Jaguareté, o guerreiro, de Albert Samuel, seu pai, navegador por 40 anos na Amazônia, com quem conheceu a floresta. Maurice Samuel, alsaciano, avô de Rogel, foi rico comerciante da borracha na Amazônia, no início do Século XX. "Apesar de tudo, qualquer semelhança ainda é mera coincidência" — consta do livro (...)", que não deixa de mencionar o nome de Maurice .

Autor de centenas de artigos publicados em revistas científicas, revistas informativas e jornais brasileiros, foi citado por Carlos Roque em sua Grande Enciclopédia da Amazônia (1968). Em 2001, Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza incluíram o nome de Rogel Samuel na Enciclopédia de Literatura Brasileira. Rogel Samuel foi colaborador regular do portal "Entre-textos", de Dílson Lages Monteiro.

Romancista da Segunda Geração do Pós-Modernismo Brasileiro

A pesquisadora da literatura brasileira Neuza Machado, doutora em letras, assim delineou a importância do citado romance de Rogel Samuel: "(...) Se me encontro aqui como apreciadora de obra ficcional da pós-modernidade, envolta em minhas próprias teorizações analítico-fenomenológicas sobre um assunto no qual eu mesma me alterco constantemente, confirmo que em O Amante das Amazonas há um altíssimo grau de entropia no sistema de narração (ausência da ordem narrativa à moda tradicional). Para explicitar o seu personagem mítico-ficcional Paxiúba [figura enigmática, muito alta e forte, oriunda da Floresta Amazônica: o gigante Paxiúba], o criador pós-modernista de Segunda Geração se vale dos enclaves narrativos, tão do gosto dos escritores pós-modernos/pós-modernistas da Primeira Geração. Entretanto, enquanto autor-criador de um novo direcionamento estético-ficcional, mais de acordo com a vivência do homem do século XXI, objetivou abandonar o estereótipo (lugar comum) do personagem reificado (inacreditável, fantasioso) da primeira fase, procurando descortiná-lo por meio de um olhar diferenciado (o ser mítico a se transformar em humano), circunscrito a insólitos acontecimentos dinamizados (...)" . O amante das amazonas, portanto, é um denso romance da Segunda Geração do Pós-Modernismo Literário Brasileiro, de acordo com a referida historiadora e teórica da literatura (Cf. MACHADO, 2008).

Perry Anderson, exegeta da pós-modernidade

O primeiro a falar em “pós-modernismo”, de acordo com Rômulo G. O. Fernandes , foi Perry Anderson. Teria Anderson haurido a expressão de Frederico de Onís, um autor hispânico, que a utilizou para alicerçar um pensamento conservador dentro do próprio modernismo. Perry Anderson é autor de As Origens da Pós-Modernidade (tradução brasileira: Ed. Jorge Zahar, 1999), caracterizando-se como estudioso das questões culturais e sociais da atualidade. Escreveu Rômulo Fernandes: "(...) O êxito pós-moderno na literatura está em deixar o leitor co-piloto de sua obra, como em uma espécie de farsa desdobrada, o leitor tem a parca sensação de domínio do texto, abertura e interpretação própria. Ele acredita estar sendo proprietário de si mesmo, enquanto na realidade está sendo apropriado, está sendo fio condutor da arte, desposando as dúvidas e separando-se das certezas rumo à consciência. Jorge Luis Borges, em seu conto Loteria da Babilônia, de modo sutil e alegórico, remonta como o discurso penetra nas camadas mais profundas da sociedade, do indivíduo e da consciência. Como a apropriação da representação tem o poder e o fazer de mudança (ideologia). Assinalo que tanto a boa literatura (Jonh Barth, por exemplo), quanto a indústria efêmera da arte comestível, possuem os mesmos recursos. Seduzir e provocar são elementos poéticos utilizados na propaganda moderna". Prossegue R. Fernandes: "Isto por si mesmo mostra a força da literatura enquanto modalizadora de novas linguagens e técnicas. Mas notem que o contrário não é verdadeiro. A propaganda atual reconhece na tônica literária um braço ágil e forte para domesticar. O grande problema é que a ausência de educação formal e lacunas sociais, afetam o desenvolvimento da grande arte, fazendo com que muitos afirmem que a culpa é da própria arte. Esta crise de problematização desarranja o modo como vemos e entendemos a literatura, passamos a acreditar que literatura popular é literatura de péssima qualidade e que a boa literatura é incognoscível. Esta inversão de valores deturpa os estudos literários (...)" .

Literatura comparada

Em 2006, na Universidade Federal do Pará, foi defendida uma dissertação de mestrado cujo título é Ficções do Ciclo Econômico da Borracha: estudo comparativo dos romances A selva, Beiradão e O amante das amazonas, orientada por Silvio A. O. Holanda, pós-doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de Lisboa. Autora: Lucilene Gomes Lima. Esse estudo, como se pode ler no resumo da dissertação, L.G. Lima, "(...) analisa obras ficcionais cuja temática é o "ciclo da borracha", partindo da premissa de que a maioria dessas obras apresenta uma constância de abordagem em torno de alguns aspectos, principalmente os papéis do explorador (seringalista) e do explorado (seringueiro) dicotomizados numa relação maniqueísta. Na abordagem do tema, propõe caracterizar o processo de criação dessas obras literárias em três fases. A primeira engloba as obras escritas numa tendência epigônica, originada nos estilos de Euclides da Cunha e de Alberto Rangel. A segunda configura-se pelo abandono desseepigonismo e pelo desenvolvimento de estilos independentes, mantendo, porém, a constância no enfoque maniqueísta. A terceira fase supera a percepção maniqueísta. Em cada uma dessas fases, aponta uma obra que promoveu uma diversificação de abordagem, destacando-se das demais obras. Na primeira fase, aponta a obra A selva, de Ferreira de Castro; na segunda, a obra Beiradão, de Álvaro Maia, e na terceira, O amante das amazonas, de Rogel Samuel (...)". Pronunciaram-se favoravelmete aos livros de Rogel Samuel (também aos trabalhos ensaístico-universitários), os seguintes estudiosos: Josué Montello , Abgar Renault , Nelson Werneck Sodré e Alceu Amoroso Lima , entre outros.

Caráter cinematográfico de uma obra rogeliana

O romance de Rogel Samuel Teatro Amazonas (2008) é considerado cinematográfico (roteirizável), uma vez que, como na trama de Fitzcarraldo (filme de longa-metragem realizado em 1981 sob a direção de Werner Herzog, com os atores Klaus Kinski e Claudia Cardinale interpretando os papéis principais ), personagens históricos movimentam-se, sob a lavra do escritor, numa espécie de criativa fusão entre "ficção" - criada não sem o apoio de fatos verídicos - e "realidade" (que não exatamente teve lugar no "mundo", dito concreto, "da experiência"). Trata-se, como se diz comumente, de enredo inspirado em fatos reais [no caso de (1) Teatro Amazonas: Eduardo Gonçalves Ribeiro , Fileto Pires Ferreira , Adelelmo do Nascimento , Lourenço Mello , Gentil Bittencourt, Lourival Muniz e outros que igualmente transitavam com desenvoltura pelo financeiramente abastado contexto da Amazônia do final do século XIX; no caso de (2) Fitzcarraldo: o personagem excêntrico que dá nome à película foi pessoa "de carne e osso", tanto quanto o citado - pelo ficcional D. Aquilino (José Lewgoy) - o barão peruano da borracha D. Julio César Arana del Ávila , que "foi", "possivelmente", mais rico e poderoso do que o próprio "barão" arrogante que ator brasileiro José Lewgoy interpretou em Fitzcarraldo. De outra forma, D. Aquilino, personagem ficcional, não teria mostrado, no mapa da República Peruana, as terras do Rio Putumayo ou Içá onde D. Julio soberano reinava, como aparece, de forma documental, no filme de Werner Herzog. No Brasil, como mostrou Samuel Benchimol, o correspondente ao "barão da borracha" - no referido caso, peruano - era a figura do coronel de barranco (Cf. BENCHIMOL, 1994), sobre quem escreveu também (literariamente, agora) Cláudio de Araujo Lima (Cf. ARAUJO LIMA, 1970, 2ª ed., 2002)].

Trânsito de linguagem a linguagem

Sobre a recriação do romance no âmbito da arte cinematográfica - e outras transcriações (conceito estabelecido por H. de Campos) no campo da arte - escreveu Júlio Plaza, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP: "A primeira referência (explícita) à Tradução Intersemiótica que tive oportunidade de conhecer foi nos escritos de Roman Jakobson. De que tenho notícia, Jakobson foi o primeiro a discriminar e definir os tipos possíveis de tradução: a interlingual, a intralingual e a intersemiótica. (...) Haroldo de Campos introduziu-me (...) na teoria da "operação tradutora" intra e interlingual de cunho poético. (...) Não sendo eu artista da linguagem verbal, comecei a atrair essa preocupação para o meu campo, isto é, comecei a me preocupar com a tradução em diferentes linguagens, ou melhor, a tradução que envolve o trânsito entre códigos e meios diversos. (...)" . Diferentemente da obra que é vertida - ou que serve de inspiração - para outra obra (objeto do estudo de Plaza), construída em outro suporte material físico e semiótico relativamente à obra primeira, o romance que, por assim dizer, já nasce cinematográfico não pressupõe uma tradução intersemiótica - nem mesmo uma transcriação inter-linguagens - futura (embora facilite esse processo), já que é, ele próprio, síntese "intersemiótica": literatura/roteiro-de-cinema. Nesse sentido, Ana Cristina César, que também era crítica de filmes, escreveu um artigo cujo título é curioso: "Um livro cinematográfico e um filme literário" (Semanário Opinião, 22.10.1976, pp. 20–21 [Um dos livros de A.C. Cesar intitula-se, não casualmente, Crítica e tradução; São Paulo: Ática/IMS, 1999]). Guardadas as (grandes) diferenças estilísticas entre os dois romances de Rogel Samuel, um elemento é comum a eles: seu pendor cinematográfico.

Síntese entre tradição e vanguarda literária