Bartonelose se refere às doenças infecto-contagiosas causadas por bactérias do gênero Bartonella. Bartonellas são bactérias gram-negativas, flageladas (10 ou mais flagelos), intracelulares facultativas, aeróbias obrigatórias e oportunistas. Usam artrópodes que se alimentam de sangue, como pulgas, mosquitos e carrapatos, como vetores.Walker DH (1996). Rickettsiae. In: Barron's Medical Microbiology (Barron S et al., eds.) (4th ed.). Univ of Texas Medical Branch. ISBN 0-9631172-1-1. A transmissão da doença para humanos se dá através da arranhadura ou mordedura de cães e gatos e, mais raramente, pela arranhadura em espinhos, lascas de madeira, dentre outros.

Histórico Os primeiros registros de bartonelose remontam ao século XIX, nos Andes peruanos, onde Bartonella bacilliformis foi identificada como agente da febre de Oroya, doença endêmica em regiões de altitude elevada. Durante a Primeira Guerra Mundial, B. quintana foi responsável por surtos da chamada “febre das trincheiras”, transmitida por piolhos em condições precárias de higiene. Já B. henselae passou a ser reconhecida, a partir da década de 1990, como a principal causa da doença da arranhadura do gato, que ocorre após contato com gatos domésticos infectados.

Classificação Cada espécie de Bartonela causa uma doença diferentehttp://emedicine.medscape.com/article/213169-overviewacomo V, Kelly PJ, Raoult D (2002). "Natural history of Bartonella infections (an exception to Koch's postulate)". Clin. Diagn. Lab. Immunol. 9 (1): 8–18. doi:10.1128/CDLI.9.1.8-18.2002. PMC 119901. PMID 11777823.: Espécie de Bartonella Portador Doenças Bartonella bacilliformis humanos verruga peruana (doença de Carrion) Bartonella quintana humanos Febre das Trincheiras, bacteremia, angiomatose bacilar, endocardite Bartonella henselae gatos Doença da arranhadura do gato, bacteremia, angiomatose bacilar, endocardite Bartonella elizabethae roedores Endocardite Bartonella grahamii ??? Retinite Bartonella vinsoni cachorros Endocardite e bacteremia Bartonella washonsis roedores Miocardite Bartonella clarridgiae gatos Bacteremia Bartonella rochalimae humanos Síndrome similar à verruga peruana

Epidemiologia

As infecções por Bartonella apresentam distribuição mundial. B. bacilliformis permanece restrita a regiões andinas do Peru, Equador e Colômbia. B. quintana está associada a populações vulneráveis, especialmente pessoas em situação de rua, sendo transmitida pelo piolho humano.

Pesquisas brasileiras ampliaram o conhecimento sobre os vetores da doença. Um estudo conduzido na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) detectou DNA de B. henselae em 19,6% dos carrapatos Amblyomma sculptum coletados no campus, indicando um possível novo vetor de relevância epidemiológica. Além disso, há relatos de bacteremia assintomática em doadores de sangue, o que levanta a hipótese de transmissão transfusional (DRUMMOND et al., 2022).

Fisiopatologia

A bartonelose pode se manifestar de diferentes formas clínicas:

Doença da arranhadura do gato (B. henselae): caracterizada por febre, mal-estar e linfadenopatia regional, geralmente autolimitada. Febre de Oroya (B. bacilliformis): infecção aguda com anemia hemolítica intensa, podendo ser fatal se não tratada. Angiomomatose bacilar (B. henselae ou B. quintana): forma crônica observada em pacientes imunossuprimidos, especialmente portadores de HIV, com lesões proliferativas na pele e órgãos internos. Outras manifestações: endocardite, osteomielite, hepatosplenomegalia e retinite também são descritas. Estudos recentes têm sugerido uma possível relação entre a infecção por Bartonella e problemas reprodutivos, como infertilidade e abortos de repetição, indicando a possibilidade de transmissão vertical (SILVA; DRUMMOND; VELHO, 2023).

Diagnóstico O diagnóstico pode ser feito por diferentes métodos:

Hemocultura, que, embora tradicional, apresenta baixa sensibilidade devido ao crescimento lento da bactéria. Sorologia e PCR, que atualmente são as técnicas mais utilizadas pela sua sensibilidade e especificidade. Imunohistoquímica, importante no diagnóstico diferencial de lesões cutâneas, especialmente na angiomomatose bacilar, que pode ser confundida com sarcoma de Kaposi (VELHO; DRUMMOND; SILVA, 2019).

Tratamento Dependendo da espécie muitos antibióticos podem ser usados, inclusive macrolídios e tetraciclinas. Imunodeprimidos devem ser tratados com gentamicina, rifampicina ou ciprofloxacina para evitar bacteriemias. Algumas cepas de B. henselae são resistentes a penicilina, amoxicilina e similares.Rolain JM, Brouqui P, Koehler JE, Maguina C, Dolan MJ, Raoult D (2004). "Recommendations for treatment of human infections caused by Bartonella species". Antimicrob. Agents Chemother. 48 (6): 1921–33. doi:10.1128/AAC.48.6.1921-1933.2004. PMC 415619. PMID 15155180.

Prevenção As medidas preventivas incluem:

Controle de vetores (pulgas, carrapatos e piolhos). Cuidados de higiene com gatos domésticos, especialmente filhotes. Educação em saúde sobre zoonoses e boas práticas no convívio com animais.

A prevenção também envolve vigilância ativa em bancos de sangue, considerando a possibilidade de infecções assintomáticas e transmissão transfusional.

Saúde pública e Atualidades A Bartonelose é considerada uma zoonose emergente e negligenciada, com crescente reconhecimento na interface entre saúde humana e animal. Sob a perspectiva One Health, seu estudo envolve médicos, veterinários e pesquisadores ambientais.

Nos últimos anos, pesquisadores brasileiros têm contribuído significativamente para o avanço do conhecimento sobre o tema. A equipe da UNICAMP e colaboradores identificaram não apenas a presença da bactéria em vetores e humanos assintomáticos, mas também sua possível relação com distúrbios reprodutivos e hepatite criptogênica, ampliando o espectro clínico antes conhecido (SILVA; DRUMMOND; VELHO, 2023; DRUMMOND et al., 2022).

Categoria:Doenças bacterianas