thumb|Jean-Baptiste Lamarck

No início do século XIX, entre 1800 e 1809, o naturalista Jean-Baptiste Lamarck formulou sua teoria sobre a transformação das espécies, inicialmente baseada em duas leis fundamentais: a dos efeitos do uso e desuso de órgãos e a da herança de caracteres adquiridos. Contudo, em versões posteriores de sua teoria, publicadas em 1815 e 1820, o sistema foi expandido para quatro leis, com a herança das características adquiridas sendo posicionada como a quarta. Em obras seminais como Recherches sur l’organisation des corps vivants (1802) e Philosophie zoologique (1809), Lamarck detalhou sua concepção. Ele defendia que as alterações que a natureza impunha a uma linhagem de indivíduos, seja pelo uso predominante de um órgão ou pela sua falta de uso contínua, poderiam ser preservadas e transmitidas para a geração seguinte. No entanto, ele estabeleceu uma condição crucial: para que a herança ocorresse, a característica adquirida deveria ser comum a ambos os indivíduos que participassem da reprodução. É fundamental ressaltar que Lamarck foi explícito ao excluir da herança as mudanças acidentais, como ferimentos, lesões ou amputações. Ele argumentava que a mistura de características diferentes durante a reprodução, especialmente em espécies como a humana (sujeita a inúmeras circunstâncias variáveis), impediria naturalmente a propagação de defeitos ou qualidades fortuitas. Na fase final de sua teoria, Lamarck tratou a herança de caracteres adquiridos como um fato estabelecido, reforçando a condição de que a mudança deveria estar presente nos dois sexos para ser transmitida e acrescentando um novo matiz: nem sempre essas modificações seriam herdadas. Fica evidente, portanto, que sua teoria aceitava a transmissão das características obtidas pelo uso e desuso, mas sob condições específicas e sem garantia de transmissão em todos os casos.Ainda assim, é notável que, mesmo em suas obras mais detalhadas, Lamarck não tenha proposto um mecanismo biológico para explicar como essa herança ocorria, nem forneceu exemplos empíricos para sustentar essa quarta lei.

Contexto e explicações para a abordagem de Lamarck O posicionamento de Lamarck pode ser compreendido a partir de seu método de trabalho e do contexto intelectual da época. Diferentemente de Darwin, que realizou extensas observações de campo com a biodiversidade e conduziu experimentos, Lamarck era um naturalista de museu. Suas conclusões eram majoritariamente hipotéticas, baseadas no estudo de espécimes preservados e fósseis. Adicionalmente, a ideia da herança de caracteres adquiridos era amplamente aceita em seu tempo. Esse consenso pode ter levado Lamarck a não sentir a necessidade de documentar empiricamente ou de explicar em detalhes um conceito que, para a comunidade científica daquela época, parecia evidente e não necessitava de maiores provas.

Comparação entre Lamarck e Darwin Embora ambos tenham aceitado a herança de caracteres adquiridos, Lamarck e Darwin diferiram significativamente em como a integraram às suas teorias. Para Lamarck, esse princípio constituía uma das leis que explicavam a transformação das espécies, associando a transmissão hereditária ao uso e desuso de órgãos, desde que as modificações ocorressem em ambos os progenitores. Ele rejeitou a herança de mudanças acidentais, como mutilações, e não apresentou exemplos sistematizados nem um mecanismo para explicar esse tipo de transmissão. Darwin, por sua vez, atribuiu à herança de caracteres adquiridos um papel complementar à seleção natural, reunindo numerosos relatos, observações e dados de criadores que interpretava como evidências desse tipo de herança, incluindo casos envolvendo o uso e desuso e a possível transmissão de mutilações. Diferentemente de Lamarck, buscou explicar o fenômeno ao propor a hipótese da pangênese, segundo a qual partículas originadas de todas as partes do organismo seriam responsáveis pela transmissão hereditária. Essa hipótese foi posteriormente contestada por experimentos conduzidos por Francis Galton e George Romanes, que não encontraram suporte empírico para sua confirmação. De forma sintética, Lamarck tratou a herança de caracteres adquiridos como uma pressuposição amplamente aceita em sua época, sem desenvolvê-la empiricamente, enquanto Darwin tentou fundamentá-la com exemplos e um modelo teórico. Além disso, Lamarck negava a herança de mutilações, ao passo que Darwin considerava possível sua transmissão com base nos relatos disponíveis.

Recepção e reinterpretação da herança de caracteres adquiridos no final do século XIX No final do século XIX, a herança de caracteres adquiridos passou por um processo de ressignificação dentro do debate evolutivo. Embora o conceito estivesse presente tanto na teoria de Lamarck quanto na de Darwin, sua aceitação começou a ser questionada por resultados experimentais e pelo desenvolvimento de novas abordagens teóricas. Autores como Herbert Spencer mantiveram a defesa da herança de caracteres adquiridos, atribuindo-lhe um papel central na evolução de funções e estruturas orgânicas, enquanto outros, como August Weismann, abandonaram essa ideia ao propor a separação entre células germinativas e somáticas, o que excluía a possibilidade de transmissão hereditária de modificações adquiridas ao longo da vida. Essa mudança de perspectiva contribuiu para que a herança de caracteres adquiridos passasse a ser gradualmente associada a concepções “pré-mendelianas” da hereditariedade e reinterpretada como uma etapa histórica no desenvolvimento da biologia evolutiva.

Ver também Adaptação Epigenética Plasma germinativo Lysenkoismo Inato ou adquirido Pangénese August Weismann

Categoria:História da biologia Categoria:Biologia evolutiva