miniaturadaimagem|328x328px|Fortaleza de Diu, construída em 1535 A batalha naval de Diu teve lugar a 3 de fevereiro de 1509,Malabar manual by William Logan p.316, Books.Google.com nas águas próximas a Diu, na Índia. Nela se confrontaram forças navais do Império Português e uma frota conjunta do Sultanato Búrjida do Egito (de natureza mameluco), do Império Otomano, do Samorim de Calecute, e do Sultão de Guzerate. E teve como desfecho uma clara vitória portuguesa, que ficou a dever-se ao maior poder de fogo da sua artilharia e à melhor preparação dos seus soldados.Os Dias da História - Batalha de Diu, por Paulo Sousa Pinto, Antena 2, 2017
Embora a batalha se tenha revestido de um caráter de vingança pessoal para Francisco de Almeida, vice-rei da Índia, que perdera o seu filho D. Lourenço no desastre de Chaul, em 1508, o efeito psicológico desta vitória foi aniquilador, pois mostrava aos indianos que a marinha portuguesa não era só invencível para eles mas também para os muçulmanos e venezianos cuja aliança, até então, havia controlado o comércio oceânico.
Foi uma batalha de aniquilamento semelhante às batalha de Lepanto (1571), do Nilo (1798), de Trafalgar (1805) e de Tsushima (1905) e em termos de impacto, esta batalha assinalou o início do domínio europeu dos mares do Oriente, que haveria de durar até à Segunda Guerra Mundial.Saturnino Monteiro (2011), Portuguese Sea Battles Volume I – The First World Sea Power p. 273 Como consequência, o poder muçulmano na Índia foi seriamente abalado, permitindo a que as forças Portuguesas, após esta batalha conquistassem rapidamente os portos e localidades costeiras nas margens do Índico, como por exemplo Mombaça, Mascate, Ormuz, Goa, Colombo e Malaca.
O monopólio português no Índico duraria até à chegada dos Ingleses (Companhia Britânica das Índias Orientais) afirmada na batalha de Swally, perto de Surate, em 1612.
Contexto Dois anos após ter Vasco da Gama descoberto o caminho marítimo para a Índia, os portugueses chegaram à conclusão seria impossível comerciar ali tão pacatamente como faziam em África, devido à oposição das elites mercantes muçulmanas instaladas, que incitavam ataques contra feitorias, navios e agentes portugueses, sabotavam os esforços diplomáticos dos portugueses e encorajaram o Samorim de Calecute a massacrar ou permitir o massacre dos portugueses em Calecute em 1500.Saturnino Monteiro (2011), Portuguese Sea Battles Volume I – The First World Sea Power p. 153-155
Pedro Álvares Cabral assinou portanto uma aliança com um inimigo de Calecute, o rajá de Cochim, em cujos reino convidou os portugueses a construirem uma fortaleza. O Samorim invadiu Cochim, mas os portugueses conseguiram devastar as terras e o comércio de Calecute, que na época servia como o principal exportador de especiarias para a Europa, através do Mar Vermelho. Em dezembro de 1504, os portugueses destruíram a frota mercante anual do Samorim com destino ao Egito, carregada de especiarias.Saturnino Monteiro (2011), Portuguese Sea Battles Volume I – The First World Sea Power p. 200-206
Quando o rei D. Manuel I recebeu em Portugal notícias destes desenvolvimentos, decidiu nomear D. Francisco de Almeida como primeiro vice-rei da Índia com ordens claras para não só salvaguardar as feitorias portuguesas, como também para combater a hostil navegação muçulmana. D. Francisco partiu de Lisboa em março de 1505 com vinte navios acompanhado pelo seu filho de 20 anos, D. Lourenço, este nomeado como capitão-mor do mar da Índia.Saturnino Monteiro (2011), Portuguese Sea Battles Volume I – The First World Sea Power p. 207
A intervenção portuguesa estava a causar sérios prejuízos ao comércio muçulmano no Oceano Índico, ameaçando também os interesses venezianos, dado que os portugueses eram capazes de vender mais barato que os venezianos no comércio de especiarias na Europa.
Incapazes de se oporem aos portugueses, as comunidades mercantis muçulmanas na Índia, bem como o Samorim de Calicute, enviaram enviados ao Egito pedindo ajuda ao seu Sultão.Malabar manual by William Logan p.316, Books.Google.com
O Sultanato do Egito miniaturadaimagem|Guerreiros mamelucos numa gravura alemã O sultanato mameluco do Egito era, no início do século XVI, o principal intermediário entre as regiões produtoras de especiarias no Oriente e os compradores venezianos no Mediterrâneo, estabelecidos em Alexandria, que depois vendiam as especiarias na Europa com grande lucros. De resto, o Egito era principalmente uma sociedade agrária com poucos laços com o mar.Pissarra, José (2002). Chaul e Diu −1508 e 1509 – O Domínio do Índico Lisbon, Tribuna da História, pg.26 Veneza rompeu relações diplomáticas com Portugal e começou a procurar formas de contrariar a intervenção dos portugueses no Oceano Índico, enviando um embaixador à corte egípcia e sugerindo que fossem tomadas "remédios rápidos e secretos" contra os portugueses.Foundations of the Portuguese empire, 1415–1580 Bailey Wallys Diffie pp. 230–31 ff
Como os soldados mamelucos tinham pouca experiência em guerra naval, o sultão Al-Ashraf Qansuh al-Ghawri, solicitou apoio aos venezianos, em troca da redução de tarifas para facilitar a competição com os portugueses. Veneza forneceu aos mamelucos naus do tipo mediterrâneo e galés de guerra tripuladas por marinheiros gregos, que os construtores navais venezianos ajudaram a desmontar em Alexandria e remontar no Suez. As galés podiam montar canhões à frente e atrás, mas não ao longo das amuradas por causa dos remadores. Os navios nativos (dhows), com suas pranchas de madeira costuradas, só podiam transportar canhões muito leves.
O comando da expedição foi confiado a um mameluco curdo, ex-governador de Jidá, Amir Hussain Al-Kurdi ou Mirocém. A expedição (referida pelos portugueses pelo termo genérico "os rumes")Ozbaran, Salih, "Ottomans as 'Rumes' in Portuguese sources in the sixteenth century" Portuguese Studies, Annual, 2001 incluía não só mamelucos egípcios, mas também um grande número de mercenários turcos, núbios e etíopes, bem como artilheiros venezianos. A maior parte da "artilharia" da coligação eram arqueiros, que os portugueses poderiam facilmente superar com as suas bestas e arcabuzes.
A frota levantou âncora do Suez em novembro de 1505, com 1100 homens. Foi-lhes ordenado que a fortificassem Jidá contra um possível ataque português e também que reprimissem rebeliões em Suaquém e Meca. Tiveram que passar a monção na ilha de Camarão e desembarcaram em Adém na ponta do Mar Vermelho, e nesta cidade envolveram-se em custosas políticas locais com o emir Tahírida, antes de finalmente cruzarem o Oceano Índico.Brummett, Palmira.Ottoman Seapower and Levantine Diplomacy in the Age of Discovery, SUNY Press, New York, 1994, ISBN 0-7914-1701-8 , pp. 35, 171,22 Devido a estes atrasos, só quase dois anos volvidos, em setembro de 1507 lograram alcançar Diu, uma cidade na foz do Golfo de Cambaia, viagem que poderia ter durado não mais que um mês, se feita a todo o pano.Porter, Venetia Ann (1992) The history and monuments of the Tahirid dynasty of the Yemen 858-923/1454-1517, Durham theses, Durham University. Available at Durham E-Theses Online: http://etheses.dur.ac.uk/5867/ p. 100
Diu e Meliqueaz miniaturadaimagem|Planta setecentista da ilha de Diu À data de chegada dos portugueses à Índia, os guzerates eram os principais mercadores de longa distância no Oceano Índico e intermediários essenciais no comércio entre o Egito e o oriente, principalmente no comércio de tecidos e especiarias. No século XV, o sultão de Cambaia nomeou Meliqueaz, um ex-arqueiro e escravo de possível origem georgiana ou dálmata, como governador de Diu. Governante astuto e pragmático, Meliqueaz transformou a cidade no principal porto do Guzerate (conhecido pelos portugueses como Reino Cambaia) e um dos principais entrepostos entre a Índia e o Golfo Pérsico, evitando a hostilidade portuguesa por meio de uma política de apaziguamento e até alinhamento – até Mirocém ter inesperadamente dado entrada em Diu.Pissarra, José (2002). Chaul e Diu −1508 e 1509 – O Domínio do Índico Lisbon, Tribuna da História, pg.27
Meliqueaz recebeu Mirocém cordialmente, mas para além do Samorim de Calecute, nenhum outro governante do subcontinente indiano mostrou qualquer interesse em combater os portugueses, ao contrário do que haviam garantido os enviados muçulmanos ao Egito. Meliqueaz percebeu que os portugueses eram uma força naval formidável que não convinha hostilizar, mas mesmo assim não podia expulsar Mirocém, por recear retaliação par parte do seu soberano, o poderoso Sultão do Guzerate – para não falar, obviamente, das próprias forças de Hussain agora dentro da cidade. Meliqueaz decidiu portanto ajudar Mirocém com grandes reservas.Pissarra, José (2002). Chaul e Diu −1508 e 1509 – O Domínio do Índico Lisbon, Tribuna da História, pg.32–33
A batalha de Chaul miniaturadaimagem|Chaul e o seu porto, sendo visível a fortaleza construída pelos portugueses anos mais tarde Em março de 1508, as frotas de Mirocém e Meliqueaz navegaram conjuntamente para o sul e combateram contra uma frota portuguesa durante três dias no porto de Chaul. O comandante português era o capitão-mor dos mares da Índia, Lourenço de Almeida, encarregado de supervisionar o carregamento de navios mercantes aliados naquela cidade e escoltá-los de volta a Cochim.Pissarra, José (2002). Chaul e Diu −1508 e 1509 – O Domínio do Índico Lisbon, Tribuna da História, pg.33–35
Os portugueses tenham sido apanhados desprevenidos, pois os navios distintamente europeus de Mirocém pareceram-lhes ao inicio pertencer à expedição de Afonso de Albuquerque, então no Golfo Pérsico, mas batalha terminou como uma vitória de Pirro para os muçulmanos, que sofreram demasiadas perdas para prosseguirem para o quartel-general dos portugueses, em Cochim, na costa do Malabar.Pissarra, José (2002). Chaul e Diu −1508 e 1509 – O Domínio do Índico Lisbon, Tribuna da História, pg.61 Apesar de terem afundado a nau capitânia portuguesa, o resto da frota portuguesa escapou, ao passo que Mirocém mal sobreviveu ao encontro por causa da falta de apoio prestado por Meliqueaz durante a batalha. Mirocém não teve outra escolha senão retornar a Diu com Meliqueaz para se preparar para uma retaliação portuguesa. Mirocém relatou esta batalha ao Cairo como uma grande vitória, no entanto, o Mirat Sikandari, um relato persa contemporâneo do Guzerate, descreve esta batalha como uma escaramuça.Bayley, Edward C. The Local Muhammadan Dynasties: Gujarat, London, 1886, 222
Entre os mortos contava-se D. Lourenço o filho do vice-rei, cujo corpo não foi nunca encontrado, apesar dos esforços de Meliqueaz nesse sentido.
Preparativos portugueses miniaturadaimagem|O vice-rei da Índia D. Francisco de Almeida Ao saber em Cochim da morte do seu único filho, D. Francisco de Almeida retirou-se para os seus aposentos durante três dias, devastado e sem querer ver ninguém. A presença de uma frota mameluca na Índia representava uma grave ameaça para os portugueses, mas o vice-rei procurava agora vingar-se pessoalmente da morte do filho às mãos de Mirocém, supostamente tendo dito que "quem o frango comeu, há-de comer o galo ou pagá-lo."
No entanto, aproximava-se a monção e com ela as tempestades que inibiam toda a navegação no Índico até setembro. Só então poderia o vice-rei convocar todos os navios portugueses disponíveis para reparos em doca seca e reunir suas forças em Cochim. para a batalha.Pissarra, 2002, pg. 68