miniaturadaimagem|Bathynomus giganteus, um isópode. thumb|upright=1.35|Exame de uma lula-gigante de , o segundo maior cefalópode, que encalhou na Noruega em 1954 Na zoologia, o gigantismo abissal ou gigantismo de profundidade é a tendência de espécies de animais que habitam as profundezas marinhas de apresentarem tamanhos corporais maiores do que os de seus parentes de águas rasas, ao longo de uma ampla gama taxonômica. As explicações propostas para este tipo de gigantismo incluem a adaptação necessária a temperaturas mais frias, a escassez de alimento, a redução na pressão de predação e o aumento nas concentrações de oxigênio dissolvido nas profundezas marinhas. As condições extremas e a inospitalidade do ambiente subaquático em geral, assim como a inacessibilidade da zona abissal para a maioria dos veículos subaquáticos tripulados ou não, têm dificultado o estudo deste tema.

Alcance taxonômico Entre os crustáceos marinhos, a tendência de aumento de tamanho com a profundidade foi observada em misídeos, eufausiáceos, decápodes, isópodes, ostrácodes e anfípodes. Entre os não artrópodes nos quais o gigantismo abissal foi registrado, incluem-se cefalópodes, cnidários e enguias da ordem Anguilliformes.

Organismos notáveis que exibem gigantismo abissal incluem a grande-água-viva-vermelha, a água-viva-fantasma-gigante, o isópode-gigante, o ostrácode-gigante, a aranha-do-mar-gigante, o anfípode-gigante, o caranguejo-aranha-gigante, o peixe-remo-gigante, a raia-de-profundidade, o polvo-de-sete-braços e diversas espécies de lula: a lula-colossal (com até 14 m de comprimento), a lula-gigante (com até 12 m), a Megalocranchia fisheri, a lula-gancho-robusta, a lula-polvo-de-dana, a lula-cacatua, a lula-verrugosa-gigante e as lulas-de-braços-longos do gênero Magnapinna.

O gigantismo abissal geralmente não é observado na meiofauna (organismos que passam através de uma malha de ), a qual exibe, na realidade, a tendência inversa de diminuição de tamanho com o aumento da profundidade.

Explicações Menor temperatura Nos crustáceos, propôs-se que a explicação para o aumento de tamanho com a profundidade seja semelhante àquela atribuída ao aumento de tamanho com a latitude (regra de Bergmann): ambas as tendências envolvem o aumento do tamanho corporal associado à diminuição da temperatura. O padrão latitudinal foi observado em alguns desses mesmos grupos, tanto em comparações entre espécies aparentadas quanto dentro de espécies amplamente distribuídas. Acredita-se que a diminuição da temperatura resulte no aumento do volume da célula e em uma maior longevidade (esta última também associada ao atraso na maturidade sexual), fatores que levam ao aumento do tamanho corporal máximo (o crescimento contínuo ao longo da vida é uma característica dos crustáceos). Nos mares do Ártico e da Antártida, onde o gradiente vertical de temperatura é reduzido, observa-se também uma atenuação na tendência de aumento do tamanho corporal com a profundidade, o que enfraquece a hipótese de que a pressão hidrostática seja o parâmetro determinante.

A temperatura não parece desempenhar papel semelhante na determinação do tamanho dos vermes-tubulares gigantes. A espécie Riftia pachyptila, que habita comunidades de fontes hidrotermais a temperaturas ambientes de 2 a 30 °C, atinge comprimentos de 2,7 m, comparáveis aos de Lamellibrachia luymesi, que vive em emanações frias. A primeira, contudo, apresenta taxas de crescimento aceleradas e uma vida útil curta de cerca de 2 anos, enquanto a última cresce de forma lenta e pode viver por mais de 250 anos.

Escassez de alimento A escassez de alimento em profundidades superiores a 400 m também é apontada como um fator, uma vez que corpos maiores aprimoram a capacidade de forrageamento por recursos amplamente dispersos. Em organismos com ovos ou larvas planctônicas, outra vantagem potencial é que descendentes de maior porte, por disporem de maiores reservas nutricionais iniciais, conseguem derivar por distâncias mais longas. Como exemplo de adaptação a esse ambiente, os isópodes-gigantes empanturram-se de alimento quando este se encontra disponível, distendendo os seus corpos a ponto de comprometer a locomoção; eles também conseguem sobreviver por até 5 anos sem alimento em cativeiro.

Segundo a lei de Kleiber, quanto maior um animal se torna, mais eficiente se torna o seu metabolismo; isto é, a taxa metabólica basal de um animal escala aproximadamente na proporção da potência de ¾ da sua massa. Sob condições de oferta restrita de alimento, esse ganho de eficiência confere uma vantagem metabólica adicional a tamanhos corporais elevados.

Redução na pressão de predação Outra influência possível é a menor pressão de predação em águas mais profundas. Um estudo conduzido em braquiópodes constatou que os episódios de predação eram quase uma ordem de magnitude menos frequentes nas maiores profundidades em relação às águas rasas.

Maior disponibilidade de oxigênio dissolvido Acredita-se também que os níveis de oxigênio dissolvido desempenhem um papel no gigantismo abissal. Um estudo de 1999 sobre crustáceos anfípodes bentônicos demonstrou que o tamanho potencial máximo do organismo se correlaciona diretamente com os níveis elevados de oxigênio dissolvido em águas profundas. A solubilidade do oxigênio dissolvido nos oceanos é sabidamente menor em profundidades intermediárias (de 200 a 1.000 metros), até que a pressão crescente, a redução nos níveis de salinidade e as temperaturas mais baixas das águas profundas contribuam para restabelecer uma maior solubilidade.

No entanto, a solubilidade não corresponde necessariamente à disponibilidade efetiva, uma vez que diversas áreas de águas frias exibem baixos níveis de oxigênio acessível. A hipótese levantada para esse padrão sugere que o gigantismo abissal possa ser uma característica adaptativa para mitigar o risco de asfixia em águas oceânicas densas e gélidas. Organismos de maior porte são capazes de captar mais oxigênio dissolvido na água, permitindo uma respiração celular adequada. Não obstante, essa absorção aumentada de oxigênio acarreta o risco de toxicidade, situação na qual os teores de oxigênio no organismo atingem concentrações prejudiciais ou venenosas.

Impacto das mudanças climáticas O aumento das temperaturas globais pode afetar as profundezas oceânicas tanto quanto as águas superficiais mais rasas, visto que evidências sugerem que os ecossistemas do mar profundo são sensíveis a variações no clima. Apesar de sua aparente estabilidade ambiental, a dependência das formas de vida das profundezas em relação aos nutrientes que descem na forma de neve marinha e ao transporte por correntes que percorrem todas as camadas do oceano gera preocupações sobre o modo como as mudanças climáticas globais podem impactar esses organismos e seus biomas.

Seguindo tendências observadas em eventos passados, como o máximo térmico do Paleoceno-Eoceno, pesquisas sugerem que projeções de emissões contínuas de gases de efeito estufa e de alterações climáticas levarão a temperaturas oceânicas mais altas e a uma redução significativa nos níveis de oxigênio dissolvido no mar profundo. Caso o aquecimento global conduza a um oceano mais quente, a circulação termohalina deixará de conseguir manter o mar profundo oxigenado, o que culminará no aumento tanto da temperatura quanto da salinidade das águas abissais.

Com base nas teorias vigentes a respeito do gigantismo abissal, estima-se que esse fenômeno diminua em resposta a tais alterações ambientais, uma vez que a manutenção de grandes dimensões corporais poderá se tornar desfavorável ou insustentável para esses organismos.

Galeria

Exemplos Crustáceos como os isópodes gigantes do género Bathynomus ou o caranguejo-aranha-gigante; Peixes como o regaleco; Muitos polvos e lulas, como a lula-colossal, a lula-gigante, a Taningia danae, a Kondakovia longimana, a Moroteuthis robusta, a Galiteuthis phyllura e as lulas da família Magnapinnidae

Ver também Nanismo insular Gigantismo insular Regra de Foster

Categoria:Tamanho de animais Categoria:Biologia evolutiva Categoria:Organismos marinhos