O golpe de Estado em Honduras em 2009 ocorreu quando o exército hondurenho, em 28 de junho de 2009, aprisionou o presidente Manuel Zelaya e o enviou ao exílio. O golpe foi desencadeado quando Zelaya tentou agendar uma consulta não vinculativa sobre a realização de um referendo sobre o tema da convocação de uma assembleia constituinte para reescrever a Constituição. Depois que Zelaya se recusou a cumprir ordens judiciais, a Suprema Corte de Honduras emitiu um mandado secreto para sua prisão, datado de 26 de junho. Dois dias depois, soldados hondurenhos invadiram a casa do presidente no meio da noite e o detiveram,"Honduran leader forced into exile", BBC, 28 June 2009;One hundred soldiers: "Honduran Leader's Populism is what Provoked Military Violence" , Benjamin Dangl, Alternet, 1 July 2009. Ten guards: "Honduras supreme court 'ordered arm coup'" Telegraph, 28 June 2009. antecipando a consulta. Ao invés de levá-lo a julgamento, o exército o colocou em um avião militar, que o levou para a Costa Rica. Mais tarde naquele dia, após a leitura de uma carta de renúncia de autenticidade contestada, o Congresso hondurenho votou pela destituição de Zelaya e nomeou o presidente do Congresso, Roberto Micheletti, seu sucessor constitucional, para substituí-lo.

A reação internacional ao golpe de Estado de 2009 foi generalizada; as Nações Unidas, a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União Europeia condenaram a destituição de Zelaya como um golpe militar. Em 5 de julho de 2009, todos os Estados membros da OEA votaram, por aclamação, suspender Honduras como um membro da organização até o país "restaurar o governo democrático" (o de Manuel Zelaya).«La OEA expulsa a Honduras mientras Zelaya planea volver hoy al país». 5 de julio de 2009 en el diario El Mundo (Madrid). El Salvador, Nicarágua, Guatemala e outros anunciaram sanções econômicas a Honduras devido a situação política.Enfrenta Honduras aislamiento político y económico - NTRzacatecas.com O Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Mundial anunciaram a suspensão da ajuda financeira concedida ao país e houve a retirada de todos os embaixadores da União Europeia de Honduras.«Moratinos confirma la retirada de todos los embajadores europeos de Honduras». 2 de julho de 2009, Editorial Ecoprensa.

Nas semanas após os eventos de 28 de junho, o Congresso decretou um estado de sítio, suspendendo as garantias dos cidadãos contidas em 8 artigos da Constituição,«Congreso hondureño aprobó restringir derechos individuales». 2 de julio de 2009 en el diario Nación (Tegucigalpa). houve também manifestações de apoio em ambos os lados.«Un hondureño muerto durante el frustrado regreso de Zelaya». 6 de julio de 2009 en el diario El País (Madrid).

Em julho de 2011, a Comissão da Verdade de Honduras concluiu que Zelaya infringiu a lei quando desconsiderou a decisão da Suprema Corte ordenando que cancelasse o referendo, mas que sua destituição do cargo foi ilegal e um golpe. A designação de Roberto Micheletti pelo Congresso como presidente interino foi considerada inconstitucional pela Comissão e seu governo como um "regime de facto".

Contexto esquerda|thumb|Manuel Zelaya durante audiência com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva em 3 de abril de 2006.

Desde que se tornou independente da Espanha, em 1821, Honduras já passou por mais de cem golpes de estado - um golpe a cada dois anos, em média.Golpe em Honduras revela as divisões profundas da América Latina, por Jens Glüsing. Der Spiegel, 12 de julho de 2009. Visitado em 14 de julho de 2009.

Manuel Zelaya foi eleito presidente de Honduras em 2005 pelo Partido Liberal, um dos mais tradicionais do país, para um mandato não renovável de quatro anos. Nascido em uma família rica, Zelaya faz parte da elite empresarial de Honduras. Inicialmente apoiava os tratados de livre comércio com os Estados Unidos, mas a partir de 2007, com a guinada à esquerda da América Central, começou a adotar posições alinhadas com o "socialismo do século XXI" inaugurado pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tanto nos campos econômico e social como na política externa ligada à Alternativa Bolivariana para as Américas, o que - segundo analistas de esquerda teria desagradado a "elite" de seu país, que sempre manteve laços fortes com os Estados Unidos.Kozloff, Nikolas. "What’s Behind the Honduras Coup? Tracing Zelaya’s Trajectory", Democracy Now, 1 de julho de 2009. Visitado em 7 de julho de 2009. De acordo com o jornal estadunidense The New York Times, muito do apoio a Zelaya vem de sindicatos, enquanto que a maioria nas classes média e alta - assim como vários analistas - temiam que ele pretendesse introduzir um "socialismo populista" aos moldes de Hugo Chávez no país.Malkin, Elisabeth "Honduran President Is Ousted in Coup", The New York Times, 28 de junho de 2009. Visitado em 30 de junho de 2009.Nunes, Letícia e Thurler, Larriza (com informações de Malkin). "Golpe militar derruba presidente e cala mídia" , Observatório da Imprensa, 30 de junho de 2009. Visitado em 2 de julho de 2009

Em 2008, Zelaya foi criticado pela OEA por impor às emissoras de rádio e televisão a obrigatoriedade de transmitir programas do governo. A ONU criticou o assassinato de jornalistas durante seu governo. De acordo com a revista britânica The Economist, "a presidência de Zelaya foi marcada pelo aumento do crime, dos escândalos de corrupção e do populismo econômico".The coup in Honduras: Defying the outside world. The Economist, 2 de julho de 2009. Acesso em 14 de julho de 2009. Em abril de 2009, uma pesquisa do instituto de opinião Mitofsky mostrou que apenas um quarto do país aprovava o governo de Zelaya, o índice de aprovação mais baixo entre 18 líderes regionais.Honduran President Ousted by Military, por Carin Zissis. Council of Americas, 28 de junho de 2009. Acesso em 14 de julho de 2009. Para o jornal brasileiro O Estado de S. Paulo, entretanto, "não há pesquisas confiáveis em Honduras".Grupos pró e contra Zelaya inflam números de protestos, por Gustavo Chacra. Estadão, 7 de Julho de 2009. Acesso em 14 de julho de 2009.

A consulta popular Zelaya tinha a intenção de fazer uma consulta pública em 28 de junho, para que os eleitores opinassem sobre a realização de um referendo para a convocação de uma Assembleia Constituinte, mas sem respeitar as normas constitucionais para a realização desse tipo de consulta, conforme decidido pelo Poder Judiciário daquele país. O resultado positivo desta consulta popular daria origem a um projeto de lei, a ser apresentada ao Congresso Nacional, para a convocação de uma “quarta urna”. A consulta era para saber se os eleitores queriam votar em uma quarta urna nas eleições de Novembro de 2009. Nessa urna, os eleitores poderiam pedir a convocação de uma Assembleia Constituinte para o país. A consulta popular foi rejeitada pelo Congresso, pela Procuradoria-Geral de Honduras e pelo Tribunal Eleitoral, além de ter sido considerada ilegal pela Suprema Corte.

O decreto de Zelaya convocou uma consulta popular sem qualquer caráter "vinculativo" e de participação "opcional", que seria feita nos mesmos locais de votação eleitoral e sem a supervisão dos órgãos de fiscalização judiciais. Isto, segundo os golpistas, contraria a legislação eleitoral em vigor.

A consulta propunha aos eleitores hondurenhos a seguinte questão: "Concorda com a instalação de uma quarta urna nas eleições gerais para decidir sobre a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte?" Para a realização de sua consulta popular, Zelaya convocou o INE . O diretor desse centro de pesquisas, Sergio Sánchez, assegurou que o Instituto tinha jurisdição para fazer a consulta e que ela estaria dentro das suas atribuições legais. Entretanto, essa opinião do diretor do INE foi negada pela justiça de Honduras que reiterou a violação da norma constitucional que trata da matéria. Em resumo, essa "consulta" popular não foi autorizada pelo Poder Legislativo e foi explicitamente proibida pelo Poder Judiciário de Honduras.

Sergio Sánchez seria intimado pelo Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) a explicar a tese da "quarta urna". Comentou-se que apenas o TSE poderia realizar este tipo de consulta.

Apesar de muitas pessoas reverberarem a versão, inicialmente veiculada pela grande mídia, de que o objetivo da destituição de Zelaya teria sido evitar sua reeleição (proibida pela Constituição de Honduras) ou simplesmente impedir a consulta popular sobre uma nova Constituinte, não foram esses fatos que levaram o Supremo de Honduras a ordenar a sua prisão preventiva.

Segundo o art. 5o. da Constituição hondurenha, uma consulta eleitoral deve ser aprovada por 2/3 do parlamento e organizada pelo Poder Judiciário. O Ministério Público de Honduras acusa Zelaya de não ter respeitado essa norma. Com isso, Zelaya teria incorrido, entre outros, no crime de "Traição à Pátria". O crime de "Traição à Pátria" está contido no Código Penal de Honduras e também no artigo 4o. de sua Constituição Federal, sendo configurado quando alguém usurpa atributos de outros poderes do Estado.

Além disso, o Congresso havia começado a discutir uma forma de promover o impeachment de Zelaya, mas não possuía um caminho legal para fazê-lo, uma vez que a Constituição não menciona a possibilidade de afastamento do presidente. Então, o Congresso, incluindo a maioria dos parlamentares do partido de Zelaya, abriu uma investigação urgente para determinar se o presidente estava violando a ordem constitucional e se era "mentalmente incapaz" de exercer o cargo. Zelaya respondeu ao presidente do Congresso, Roberto Micheletti, através da seguinte declaração: "O que está acontecendo com você, Roberto? Eu fui eleito pelo povo, e não pelo Congresso. Como você quer me fazer passar por incapaz se você é um congressista sujo de segunda classe que conseguiu este posto só porque eu lhe dei espaço em meu partido?".Ibarz, Joaquin. "El Congreso hondureño inicia una investigación urgente al presidente", La Vanguardia, 27 de junho de 2009. Visitado em 6 de julho de 2009.

O Exército é o responsável pela segurança e logística das eleições em Honduras. Zelaya pediu aos militares que cumprissem seu papel eleitoral na consulta popular de 28 de junho, mas o chefe do comando militar, General Romeo Vásquez Velásquez, recusou obedecer à ordem de distribuir o material eleitoral após a consulta ter sido determinada ilegal e inconstitucional pela Suprema Corte. Zelaya então o removeu de seu cargo, mas a Corte Suprema determinou que ele fosse reintegrado. Zelaya organizou um protesto em uma base da força aérea e liderou uma marcha a fim de conseguir a posse do material eleitoral ali detido pela polícia nacional.

Prisão e deportação de Zelaya Zelaya foi retirado de sua residência em Tegucigalpa ainda de pijamas, foi levado detido para uma base aérea nas imediações da cidade e depois para o aeroporto de Tegucigalpa, onde foi colocado em um avião com destino à Costa Rica. A deportação de Zelaya não estava autorizada na ordem emitida pela autoridade judicial e contraria o Artigo 102 da Constituição de Honduras, que determina que "nenhum hondurenho pode ser expatriado ou entregue pelas autoridades a uma nação estrangeira".Da Folha Online. Cúpula militar de Honduras depõe na Suprema Corte sobre expulsão de Zelaya. São Paulo: Folha Online, 14 de janeiro de 2010