A Guerra Civil Irlandesa (, ; 28 de junho de 1922 — 24 de maio de 1923) foi um conflito que acompanhou a criação do Estado Livre Irlandês como uma entidade independente do Reino Unido dentro do Império Britânico."The Irish Civil War 1922-1923" . Página acessada em 5 de dezembro de 2013.
O conflito foi travado entre dois grupos opostos de nacionalistas irlandeses: as forças do novo governo do Estado Livre, apoiantes do Tratado Anglo-Irlandês, e os republicanos, para quem o Tratado representava uma traição da República da Irlanda. A guerra foi ganha pelas forças governistas.
Segundo historiadores, a guerra civil na Irlanda pode ter levado mais vidas do que a guerra da independência contra a Grã-Bretanha, que a precedeu, e deixou a sociedade irlandesa dividida e ressentida nas décadas seguintes. Atualmente, os dois principais partidos políticos da República Irlandesa, a Fianna Fáil e a Fine Gael, são os descendentes diretos dos lados opostos desta guerra.The Politics of the Irish Civil War, pg. 2.
Contexto A Irlanda havia sido por 700 anos um dos mais problemáticos territórios do Reino Unido. Finalmente, após uma guerra de dois anos contra a Inglaterra pela reivindicação da independência, ambos os lados firmaram uma trégua em julho de 1921 e cinco meses depois assinaram o Tratado Anglo-Irlandês. Apesar de conceder o direito de auto-governo a um futuro Estado irlandês em 26 dos 32 condados da Irlanda, permitindo a criação de exército e polícia próprios, o tratado também previa que a nova nação seria parte da Commonwealth britânica, da mesma forma que o Canadá e a Austrália.Anglo-Irish Treaty, 6 dezembro 1921 Além disso, a Coroa Britânica seria representada no novo Estado pelo governador-geral, e os membros do Parlamento teriam que jurar fidelidade à monarquia britânica:
A oposição ao tratado dentro do Sinn Féin (um dos dois principais partidos políticos do país) e dentro do Exército Republicano Irlandês (IRA) foi liderada pela facção republicana mais fanática e intransigente, chefiada por Éamon de Valera. Eles argumentaram que o documento em questão não atendia às exigências para as quais o país tinha lutado durante a guerra de independência .Correspondências entre Valera e Lloyd George, junho–setembro 1921
Embora no tratado fosse prevista a divisão inevitável da Irlanda em duas, o ponto crucial da disputa sobre o acordo era o fato do líder do governo irlandês ter que jurar lealdade ao monarca britânico. Os defensores do acordo, cujos líderes eram Arthur Griffith e Michael Collins, argumentavam que as condições oferecidas foram as melhores que haviam sido propostas até então.Comerford, Richard (2003), Ireland: Inventing the Nation, Hodder.
miniaturadaimagem|200px|esquerda|Arthur Griffith: fundador e primeiro líder do Sinn Féin (1905 — 1917).
O novo Estado Livre Irlandês teria Parlamento e governo próprios e total controle sobre sua economia e exército. A facção pró-tratado reconheceu que o acordo não contemplava todas as reivindicações pelo qual haviam lutado na guerra contra a Grã-Bretanha, mas dava oportunidade a que mais tarde pudesse ser alcançado um grau de liberdade maior. Em sua opinião, a oposição ao tratado teria como consequência um novo conflito armado contra os britânicos que o IRA não conseguiria vencer.Hart, Peter (2003), The IRA at War 1916–1923, Oxford: Oxford University Press, ISBN 0-19-925258-0.
O documento foi discutido no Parlamento (Dáil Éireann) de 14 de dezembro de 1921 até 7 de janeiro de 1922, data em que foi votado e aprovado por 64 votos a favor e 57 contra. O tratado também foi levado a referendo popular e acabou sendo ratificado. Em protesto, de Valera renunciou à presidência e deixou o parlamento junto com seus apoiadores. Os republicanos afirmaram que não iriam reconhecer a nova Dáil e os acusaram de trair os ideais da república que tinha sido declarada em 1916."Anglo-Irish Treaty". Página acessada em 30 de novembro de 2013.
Isto levou à divisão do Sinn Féin e, mais importante, à divisão do IRA em dois grupos, um favorável ao Tratado Anglo-Irlandês e outro contrário. As negociações para a reunificação do movimento duraram seis meses, mas eram posições irreconciliáveis. Michael Collins tentou formar um "comitê de reunificação do exército" para unir o IRA e propôs um governo de coalizão com de Valera para as próximas eleições. Collins continuou a tentar ganhar apoio dos republicanos ao propor que o futuro Estado Livre teria uma constituição republicana, sem mencionar o rei inglês, mas isso foi vetado pelos britânicos.
Em junho de 1922, a facção pró-tratado do Sinn Féin venceu as eleições, aumentando ainda mais a divisão dentro do movimento. Antevendo a guerra, Michael Collins e Arthur Griffith rapidamente se moveram para firmar o Estado Livre Irlandês, organizando suas instituições e criando um novo exército, formado por membros do IRA simpatizantes do novo governo e apoiado por novos recrutas. Ainda assim, grande parte dos oficiais do Exército Republicano Irlandês permaneceu contrária ao tratado o que, quando o novo regime tentou exercer sua autoridade militar dentro do próprio território, acabou precipitando a guerra.The Politics of the Irish Civil War por Bill Kissane (ISBN 978-0-19-927355-3)
Guerra Luta em Dublin miniaturadaimagem|250px|O prédio da Four Courts destruído durante os combates em Dublin em 1922. O edifício seria, mais tarde, reconstruído.
Em 14 de abril de 1922, cerca de duzentos membros da facção antitratado do IRA, liderados por Rory O'Connor, ocuparam o prédio da Four Courts e vários outros edifícios em Dublin, deixando um clima tenso no país. Os republicanos contrários ao tratado queriam, na verdade, reacender o conflito com o Reino Unido, que eles esperavam que iria unir os dois lados do IRA novamente contra o seu inimigo comum. Contudo, para os apoiantes do Estado Livre, que queriam tornar a nova administração nacional viável, isso era um simples ato de rebelião que tinha que ser derrubado por eles (o governo irlandês) e não pelos britânicos.Calton Younger, Ireland's Civil War, Muller, London 1968; pp. 258–259. Arthur Griffith, um dos líderes do novo Estado, exigia uma ação militar imediata contra os rebeldes, mas Michael Collins, chefe do governo provisório, queria evitar a guerra civil a todo custo. Nesta altura, a facção pró-tratado do Sinn Féin havia conquistado a maioria dos votos nas eleições gerais daquele ano. Collins também estava sendo pressionado por Londres para reafirmar a autoridade do seu governo pelo país.
Os britânicos estavam perdendo a paciência, em parte devido a uma ação que o próprio Michael Collins teria ordenado. Sir Henry Hughes Wilson, um marechal aposentado do exército britânico e um proeminente conselheiro do primeiro-ministro da Irlanda do Norte, Sir James Craig, foi assassinado em Londres em 22 de junho. Foi alegado que Collins teria ordenado a morte de Wilson em represália por ele não ter evitado os ataques contra católicos romanos no norte do país. Winston Churchill assumiu que a facção antitratado do IRA era responsável pelo assassinato e então ele alertou que se Collins e o governo provisório não tomassem providências contra os rebeldes, ele (Churchill) o faria usando tropas inglesas.
Por fim, em um gesto final de desafio a nova administração do país, a guarnição de republicanos no Four Courts sequestrou, em 27 de junho, JJ "Ginger" O'Connell, um general do novo exército nacional. Collins, após ter dado um último ultimato à tropa no Four Courts para que evacuasse o complexo, decidiu atacar o prédio e bombardeá-lo até que se submetesse. O novo governo irlandês então apontou formalmente Michael Collins como comandante em chefe do exército. Este não foi o primeiro confronto militar da guerra civil, já que diversos pequenos combates entre facções contrárias e favoráveis ao tratado já estavam acontecendo em alguns pontos do país. Porém, foi nesta batalha que a situação chegou a um 'ponto sem retorno', em que ambos os lados deixaram, por um tempo, as conversas de lado e partiram para medir forças se enfrentando pelo país.In clashes between pro- and anti-treaty fighters prior to 28 June, eight men had been killed and forty-nine wounded. (Niall C. Harrington, Kerry Landings, p. 22) miniaturadaimagem|Michael Collins inspecionando tropas do Estado Livre durante a guerra civil. Collins aceitou a oferta britânica de ajuda militar, que traduziu-se no empréstimo ao Estado Livre de diversos canhões de artilharia, além de outros armamentos leves, como fuzis e pistolas. A guarnição antitratado que estava no Four Courts, se rendeu após dois dias de bombardeio de pequenos morteiros e canhões. Em seguida, as tropas do governo provisório irlandês invadiram e tomaram o prédio rapidamente. Pouco antes do fim da luta no Four Courts, uma grande explosão atingiu a ala oeste do complexo, onde ficava o prédio da administração pública local, e resultou na destruição de vários documentos históricos da Irlanda. Segundo o governo, o prédio havia sido minado, embora historiadores modernos acreditem que era ali que os rebeldes guardavam munição e um projétil provavelmente acabou acertando o local e deu início à explosão. Nos dias seguintes a conquista do Four Courts, as tropas do governo provisório investiram contra as posições dos rebeldes na capital, tomando violentamente de assalto os bairros e ruas controladas por estes.
Pequenos confrontos armados prosseguiram em Dublin até 5 de julho, até que a unidade local do IRA comandada por Oscar Traynor recuou e ocupou a rua O'Connell, no centro, prolongando a luta por mais uma semana após a queda do Four Courts. Ainda no dia 5, as forças antitratado na capital se renderam ou fugiram. Somados, cerca oitenta combatentes foram mortos (vinte e nove soldados do governo e pelo menos quarenta e nove rebeldes) e outros trezentos ficaram feridos. Pelo menos quinhentos insurgentes foram presos. Mais duzentos e cinquenta civis terminaram mortos ou feridos. Cathal Brugha, um dos principais líderes republicanos, acabou morrendo na batalha.
Quando a luta na capital terminou e as tropas do Estado Livre assumiram firme controle na região, as forças antitratado se dispersaram, principalmente para o sul e para o oeste, ocupando principalmente as zonas rurais para continuar a resistência. O governo então preparou uma nova ofensiva para reassumir o comando de todo o país.
Os dois lados miniaturadaimagem|250px|esquerda|Prisioneiros do IRA sendo escoltados por soldados pró-tratado para os quartéis
O começo da guerra forçou uma divisão entre os apoiadores e opositores do tratado. Os que apoiavam o novo governo irlandês passaram a ser chamados de "pró-tratado" ou "Exército do Estado Livre", nominalmente "Exército Nacional" e também eram chamados de "Staters" pelos seus oponentes. Os opositores do novo regime eram os "Republicanos" e eram conhecidos como forças "anti-tratado", ou ainda "Irregulares", como eram referidos pelos apoiadores do Estado Livre. A facção antitratado do IRA afirmava que eles estavam defendendo a República Irlandesa proclamada em 1916 durante a Revolta de Páscoa, que havia sido confirmado pela First Dáil e que havia sido 'ilegalmente' abolida em prol do Estado Livre. Éamon de Valera disse que seria apenas um "voluntário" para o IRA e deixaria as decisões de combate para os líderes militares republicanos como Liam Lynch e outros comandantes locais.Eoin Neeson, The Civil War, 1922–23. c1966. : 1989 : ISBN 978-1-85371-013-1