A Guerra dos Mercenários, também conhecida como Guerra Sem Trégua, foi um motim das tropas que tinham sido empregadas por Cartago durante os últimos anos da Primeira Guerra Púnica, contando com o apoio de levantes em vários assentamentos africanos contra o controle cartaginês. Ela começou em e durou até o final de 238 ou início de , terminando com Cartago conseguindo subjugar tanto o motim quanto a revolta dos assentamentos.
A guerra começou com uma disputa sobre os pagamentos de salários devidos a mais de vinte mil soldados estrangeiros que tinham lutado por Cartago na Sicília. Um acordo tinha aparentemente sido alcançado, porém o exército estourou em um motim em ampla escala sob a liderança de Espêndio e Matão. Setenta mil africanos dos oprimidos territórios cartagineses juntaram-se a eles, proporcionando-lhes suprimentos e dinheiro. Cartago, cansada da guerra, teve um desempenhou ruim nos primeiros confrontos da guerra, especialmente sob o comando de Hanão. Amílcar Barca, um veterano das campanhas da Sicília, recebeu o comando conjunto do exército em e no ano seguinte foi nomeado o comandante supremo. Suas campanhas foram bem-sucedidas, inicialmente demonstrando leniência em uma tentativa de conquistar os rebeldes. Espêndio e Autarito, a fim de impedir isso, torturam setecentos prisioneiros cartagineses até a morte, com a guerra depois disso sendo conduzida com uma maior brutalidade por ambos os lados.
Os rebeldes foram derrotados depois de vários reveses e suas cidades voltaram a ficar sob controle cartaginese. Uma expedição foi preparada para reocupar a Sardenha, onde os soldados amotinados tinham matado todos os cartagineses. Entretanto, Roma declarou que isso seria considerado um ato de guerra e ocupou tanto a Sardenha quanto a Córsega, em contravenção contra o recente tratado de paz, com os cartagineses desistindo da ideia. Isto foi considerado como a principal causa para uma guerra entre os dois começando novamente em na Segunda Guerra Púnica.
Fontes primárias thumb|esquerda|upright=0.6|Estela de Políbio, historiador grego A principal fonte para quase todos os aspectos das Guerras Púnicas é o historiador Políbio, um grego enviado a Roma em originalmente como um refém. Seus trabalhos incluem um agora quase perdido manual sobre táticas militares, mas é mais conhecido por Histórias, escrito em algum momento após ou aproximadamente um século depois do fim da guerra. O trabalho de Políbio é considerado pelos historiadores modernos como sendo amplamente objetivo e em sua maior parte neutro entre os pontos de vista romano e cartaginês.
Registros escritos cartagineses foram destruídos junto com sua capital em , assim o relato de Políbio é baseado em várias fontes gregas e latinas agora perdidas. Políbio era um historiador analítico e sempre que possível entrevistou participantes dos eventos que escreveu a respeito. Ele estava na equipe de Cipião Emiliano quando este liderou um exército na Terceira Guerra Púnica em uma campanha que passou por muitos dos locais de ações da Guerra dos Mercenários. Apenas o primeiro livro dos quarenta que compõem Histórias lida com esta guerra. A precisão do relato de Políbio já foi muito debatida nos últimos 150 anos, mas o consenso moderno é aceitá-lo como está escrito na maior parte das vezes, com os detalhes da guerra em fontes modernas sendo quase que completamente baseados em interpretações do relato de Políbio. O historiador moderno Andrew Curry considera que "Políbio acaba sendo bem confiável", enquanto Craige Champion o descreve como "um historiador notavelmente bem informado, trabalhador e perspicaz". Existem outras histórias posteriores, porém são fragmentárias ou resumidas. Historiadores modernos geralmente levam em conta escritos de Diodoro Sículo e Cássio Dio, porém o classicista Adrian Goldsworthy afirmou que o "relato de Políbio deve ser geralmente preferido quando difere de qualquer outro de nossos relatos". Outras fontes incluem inscritos, moedas e evidências arqueológicas.
Antecedentes thumb|upright=1.1|Meio-xéquel de Cartago. É provavelmente a moeda mencionada por Políbio, que conta que os mercenários de Amílcar receberam uma moeda de ouro como primeiro pagamento quando voltaram da Sicília em . A Primeira Guerra Púnica foi travada entre Cartago e Roma, as duas principais potências do Mediterrâneo Ocidental no século III a.C., durante 23 anos de 264 até . A cidade de Roma ainda existe hoje como a capital da Itália, porém Cartago foi destruída pelos romanos na Terceira Guerra Púnica; suas ruínas estão a dezesseis quilômetros de Túnis, na Tunísia. As duas potências lutaram por supremacia principalmente na ilha da Sicília e águas ao redor, mas também no Norte da África. Foi o mais longo conflito contínuo e a maior guerra naval da Antiguidade. Os cartagineses foram derrotados depois de imensas perdas materiais e humanas de ambos os lados. O Senado Cartaginês ordenou que Amílcar Barca, o comandante de suas forças na Sicília, negociasse um tratado de paz, porém ele delegou a tarefa para seu subordinado Giscão. O Tratado de Lutácio encerrou a Primeira Guerra Púnica. Cartago, pelos termos do tratado, evacuou a Sicília, entregou todos os prisioneiros feitos durante a guerra e pagou uma indenização de 3,2 mil talentos; mil talentos seriam pagos imediatamente, enquanto o restante no decorrer de dez anos.
Ao mesmo tempo que a guerra com Roma estava sendo travada, o general cartaginês Hanão estava liderando uma série de campanhas que muito aumentaram a área controlada por Cartago na África. Ele estendeu o controle até Teveste, aproximadamente trezentos quilômetros ao sudoeste de sua capital. Hanão era rigoroso em cobrar impostos dos territórios recém-conquistados com o objetivo de pagar tanto pela guerra contra Roma quanto por suas campanhas. Metade da produção agrícola foi tomada como imposto de guerra, com o tributo previamente devido de vilarejos e cidades sendo dobrados. Estas extrações foram severamente aplicadas, causando situações de extrema dificuldade em algumas áreas.
thumb|esquerda|upright=1.15|Recriações modernas de soldados cartagineses e um elefante de guerra em 2012 em uma reencenação em Arverniales Os exércitos cartagineses eram quase sempre compostos por estrangeiros; cidadãos serviam no exército apenas se houvesse uma ameaça direta à própria cidade de Cartago. A maioria desses estrangeiros vinham de várias regiões no Norte da África. Líbios proporcionavam a infantaria de ordem cerrada equipada com escudos grandes, capacetes, espadas curtas e lanças longas; além de cavalaria de choque de ordem cerrada carregando lanças. Ambas estas formações eram notáveis por sua disciplina e resistência. Númidas proporcionavam a cavalaria leve que atirava lanças de arremesso à distância e evitava combates a curta-distância, além de escaramuçadores de infantaria ligeira armados com lanças de arremesso. Tanto a Ibéria quanto a Gália proporcionavam uma infantaria experiente, com tropas desprotegidas que atacavam ferozmente, mas que tinham a reputação de fugirem caso o combate se estendesse muito. A infantaria líbia de ordem cerrada, mais a milícia cidadã quando presente, lutariam em uma formação cerrada conhecida como falange. Dois mil fundibulários especialistas foram recrutados das Ilhas Baleares. Sicilianos e itálicos também juntaram-se às tropas durante a guerra. Os cartagineses frequentemente empregavam elefantes de guerra; o Norte da África na época tinha elefantes-da-floresta nativos. As fontes romanas referem-se a esses lutadores estrangeiros depreciativamente como "mercenários", porém Goldworthy descreve isso como "uma simplificação grosseira". Eles serviam sob uma variedade de arranjos; por exemplo, alguns eram as tropas regulares de cidades ou reinos aliados cedidos a Cartago como parte de arranjos formais.
Motim Amílcar deixou a Sicília furioso depois de receber ordens para fazer a paz sob quaisquer termos que conseguisse negociar, convencido que a rendição era desnecessária. A evacuação dos vinte mil homens do exército foi deixada nas mãos de Giscão. Este, não querendo que os soldados ociosos se combinassem para propósitos próprios, os dividiu em pequenos destacamentos baseados em suas regiões de origem. Ele os enviou de volta para Cartago um de cada vez. Giscão antecipava que os homens seriam prontamente pagos com os salários atrasados de vários anos que lhes eram devidos e então enviados para casa. Entretanto, as autoridades cartagineses decidiram esperar que todas as tropas tivessem chegado e então negociar um acordo mais baixo. Enquanto isso, cada grupo que ia chegando era alojado dentro da cidade, onde as vantagens da civilização eram apreciadas totalmente depois de oito anos sob cerco. Esta "libertinagem tumultuosa" alarmou as autoridades da cidade tanto que os soldados foram relocados para Sicca Veneria, 180 quilômetros de distância, antes de todos os vinte mil terem voltado, embora uma parte significativa de seus atrasados tivesse que ser paga antes que partissem.
Os soldados, livres de seu longo período precisando manter disciplina militar e sem nada para fazer, resmungaram entre si e recusaram todas as tentativas dos cartagineses de serem pagos menos do que a quantidade devida. Todas as vinte mil tropas, frustradas pelas repetidas tentativas dos negociadores cartagineses de pechinchar, marcharam para Túnis, a dezesseis quilômetros de Cartago. O Senado entrou em pânico e concordou com o pagamento total. As tropas amotinadas responderam exigindo ainda mais. Giscão, que tinha boa reputação com o exército, foi trazido da Sicília no final de e enviado para o acampamento com dinheiro suficiente para pagar a maioria do que era devido. Ele começou a desembolsar isso, prometendo que o restante seria pago assim que pudesse ser levantado. O descontentamento aparentemente diminuiu, porém, por motivos desconhecidos, a disciplina acabou ruindo. Vários soldados insistiram que nenhum acordo com Cartago era aceitável e uma briga estourou, com os dissidentes sendo apedrejados até a morte. Giscão e sua equipe foram feitos prisioneiros e seu tesouro tomado. Espêndio, um escravo romano fugitivo que enfrentaria morte por tortura caso fosse preso, e Matão, um berbere insatisfeito com as atitudes de Hanão sobre impostos nas possessões africanas, foram declarados generais. Notícias sobre a formação de um exército anti-cartaginese experiente no centro de seu território espalhou rapidamente e várias cidades e vilarejos se revoltaram também. Mais provisões, dinheiro e reforços chegaram; segundo Políbio, setenta mil homens a mais. A disputa sobre pagamentos tornou-se uma revolta total ameaçando a própria existência de Cartago como estado.
Guerra Hanão thumb|upright=1.0|A Batalha de Útica Hanão, como o comandante do exército africano cartaginese, foi para o campo. A maioria dos africanos em sua força permaneceram leais, pois estavam acostumados a atuar contra outros africanos. Seu contingente de fora da África tinha ficado alojado em Cartago quando o exército da Sicília foi expulso, assim também permaneceram leais. As poucas tropas ainda na Sicília foram pagas e redesignadas para Hanão, com dinheiro sendo levantado para contratar novos soldados. Um número desconhecido de cidadãos cartagineses também foram incorporados no exército. Os rebeldes já tinham bloqueado Útica e Hipo quando Hanão conseguiu reunir sua força.