Morro dos Ingleses é um bairro da região central da cidade de São Paulo, pertencente ao distrito da Bela Vista e administrado pela Subprefeitura da Sé. Situado em terreno elevado nas proximidades da Avenida Paulista, integra o Espigão da Paulista. Seu núcleo histórico compreende principalmente as ruas dos Ingleses, dos Franceses, dos Belgas, dos Holandeses e dos Alemães, além de trechos da Alameda Joaquim Eugênio de Lima e da Rua Almirante Marques Leão.

História

A origem do nome está relacionada à presença de praticantes de golfe de língua inglesa na área, e não à existência comprovada de uma colônia residencial britânica. Entre 1892 e 1898, o grupo que formaria o São Paulo Country Club utilizava terrenos da Chácara Dulley, no Bom Retiro. Em 1898, os jogadores transferiram suas atividades para uma área elevada e ainda pouco ocupada próxima à Avenida Paulista. A associação do local com os frequentadores estrangeiros do campo contribuiu para a difusão da denominação “Morro dos Ingleses”.

Em 9 de março de 1901, a revista londrina The Illustrated Sporting and Dramatic News publicou uma carta de Charles A. Forbes sobre o clube. O texto descrevia o campo como situado em uma elevação com vista para a cidade e para a região circundante e informava que a associação possuía, naquele momento, doze membros. O clube deixou o Morro dos Ingleses em 1913, transferindo-se inicialmente para as proximidades da Vila Mariana e do Ipiranga. Em 1915, instalou-se no então município de Santo Amaro, onde se consolidaria como o São Paulo Golf Club.

O interesse público pela elevação antecedeu o loteamento residencial. A Lei Municipal nº 1.168, de 20 de novembro de 1908, autorizou o prefeito a adquirir o terreno denominado Morro dos Ingleses para convertê-lo em um parque de uso público. A documentação consultada pelo Arquivo Histórico Municipal, entretanto, não permite afirmar que toda a propriedade tenha sido efetivamente adquirida pela municipalidade. A área mencionada pela lei possivelmente correspondia ao espaço onde posteriormente se formaram o mirante da Rua dos Ingleses e a escadaria de ligação com a Rua Treze de Maio e a Praça Dom Orione.

O processo de loteamento começou a ser formalizado em 9 de outubro de 1911, quando o arquiteto Júlio Micheli apresentou à Diretoria de Obras Públicas um projeto de arruamento em nome dos proprietários William Edward Lee, Manoel Lopes Leal, José Puglisi Carbone e Oscar Luiz Ribeiro. A proposta pretendia dividir os terrenos em lotes destinados à construção de casas e vilas de padrão elevado. Uma variante apresentada em novembro daquele ano ampliou o largo projetado diante da antiga Rua Fortaleza, aproveitando a vista panorâmica proporcionada pela elevação.

Em fevereiro de 1912, os proprietários firmaram um compromisso com a Prefeitura pelo qual deveriam manter uma faixa de quinze metros livre de construções nas proximidades da futura Rua dos Ingleses, preservando a vista da cidade. As edificações deveriam respeitar recuo frontal de cinco metros, enquanto as ruas projetadas teriam catorze metros de largura. O desenho urbano, os lotes relativamente grandes e os afastamentos entre as construções evidenciavam a intenção de formar um bairro residencial destinado a famílias de maior poder aquisitivo.

Uma das primeiras licenças de construção identificadas para o loteamento foi expedida em abril de 1912 para uma residência projetada pelo engenheiro Ricardo Severo na esquina das atuais ruas dos Ingleses e dos Belgas. A ocupação tornou-se mais frequente a partir do final da década de 1910. Em 1918, as vias inicialmente indicadas por letras receberam os nomes de Rua dos Ingleses, Rua dos Franceses e Rua dos Belgas. As ruas dos Holandeses e dos Alemães foram oficializadas em 1927.

Apesar do projeto voltado a residências de alto padrão, a ocupação do Morro dos Ingleses não foi socialmente homogênea. A Rua dos Franceses concentrou algumas das residências mais luxuosas, enquanto a Rua dos Ingleses reuniu tanto famílias abastadas quanto moradores das camadas médias, entre os quais numerosos descendentes de imigrantes italianos. Nas encostas e nas áreas próximas ao Vale do Saracura, especialmente junto à atual Rua Almirante Marques Leão, encontravam-se moradias mais modestas e uma população formada por trabalhadores, imigrantes e afrodescendentes, inclusive pessoas e famílias egressas da escravidão. Dessa maneira, a topografia contribuiu para a formação de diferentes padrões de ocupação entre o topo, as encostas e as partes mais baixas do morro.

As primeiras residências apresentavam diferentes linguagens arquitetônicas, com exemplares ecléticos, art nouveau e neocoloniais. As casas maiores eram geralmente implantadas no centro dos lotes, enquanto construções geminadas e imóveis de menores dimensões atendiam a grupos intermediários. No decorrer do século XX, parte considerável dessas edificações foi substituída por prédios residenciais, embora alguns casarões e sobrados tenham sido preservados ou adaptados para escritórios, escolas, restaurantes, estabelecimentos comerciais e atividades culturais.

A diversificação das funções urbanas pode ser observada na instalação de instituições de saúde e cultura. Em 1938 foi inaugurado o Sanatório Esperança, instalado em um edifício de arquitetura moderna que posteriormente passou a abrigar o Hospital Municipal Infantil Menino Jesus. O Teatro Ruth Escobar, inaugurado em 1963 na Rua dos Ingleses, integrou o circuito teatral da Bela Vista e adquiriu importância durante o período de resistência cultural à ditadura militar. Em 1981, Armando Puglisi criou na mesma rua o Museu Memória do Bixiga, dedicado à preservação da memória da região.

Parte do patrimônio urbano do Morro dos Ingleses está protegida pela Resolução nº 22 do Conpresp, aprovada em 2002 e posteriormente ajustada pela Resolução nº 3 de 2022. O instrumento protege elementos da Bela Vista como a Praça Dom Orione, a escadaria de ligação entre as ruas Treze de Maio e dos Ingleses, as encostas e os muros de arrimo da Rua Almirante Marques Leão, além de imóveis e conjuntos arquitetônicos individualmente relacionados. A resolução também delimita áreas envoltórias destinadas a preservar o traçado viário, a topografia e a ambiência urbana.

Na atualidade, o bairro combina edifícios residenciais, construções históricas e estabelecimentos culturais, comerciais e de serviços. Sua configuração conserva diferenças entre as áreas mais altas e as encostas voltadas ao Bixiga e ao antigo Vale do Saracura. A Rua dos Ingleses e sua escadaria funcionam como uma ligação física e cultural entre esses espaços, sintetizando o caráter de transição que marcou a formação histórica do bairro.

Com o passar dos anos, o bairro passou por várias transformações. Durante o período de intensa urbanização de São Paulo, muitos dos antigos casarões foram substituídos por edifícios residenciais.Rua dos Ingleses No entanto, o Morro dos Ingleses conseguiu preservar parte significativa de sua história e arquitetura original, o que ainda hoje atrai interessados em história e arquitetura.São Paulo: 450 bairros, 450 anos Por Levino PoncianoA importância dos ingleses para o desenvolvimento de São Paulo[Morro dos Ingleses (série História dos Bairros de São Paulo Vol. 34) Sheila Schneck Editora: Arquivo Histórico Municipal Ano: 2019 Idioma: Português ISBN: 9786580737017]

Artigos da Folha de S. Paulo ressaltam a importância da preservação do patrimônio histórico do bairro, com esforços sendo feitos tanto por moradores quanto por órgãos de preservação do patrimônio para manter a essência do local. A combinação de prédios modernos com casas históricas faz do bairro um exemplo de como tradição e modernidade podem coexistir.

Trata-se, de forma geral, de um morro que compreende em seu topo um mini-bairro de classe alta com áreas de classe-média no em torno. De ocupação mista, não é tão comercial como sua vizinha, a Consolação. Caracteriza-se arquitetonicamente por unir edifícios modernos com antigos casarões e sobrados históricos em ruas sinuosas com aclives e declives acentuados.Morro dos ingleses Apresenta hotéis, teatros, restaurantes e edifícios de alto-padrão comerciais e residenciais, além do Peak School By Colégio Itatiaia, o Museu dos Óculos Gioconda Giannini, o 17° Cartório de Registro Civil, a sede do Coren-SP, a TV Gazeta e da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero localizados na Avenida Paulista, e o Teatro Ruth Escobar, o Museu Memória do Bixiga e o Hospital Municipal Infantil Menino Jesus localizados na Rua dos Ingleses.Conheça a São Paulo de Adoniran Barbosa, artista retratado no filme 'Saudosa Maloca'

O bairro é uma "Zona de Valor A", classificação do CRECI, tal como: Morumbi, Jardim América e Moema.

Bibliografia

Categoria:Bairros da Bela Vista