A família Du Pont (frequentemente grafada como du Pont) é uma proeminente dinastia empresarial e política norte-americana de ascendência francesa, fundada pelo economista e escritor huguenote Pierre Samuel du Pont de Nemours (1739–1817). Emigrados para os Estados Unidos na virada para o século XIX, os Du Pont consolidaram-se como uma das famílias mais ricas, influentes e duradouras da história dos Estados Unidos, associados inicialmente à produção monopolista de pólvora e, posteriormente, à indústria química global e ao setor automotivo através da E. I. du Pont de Nemours and Company e da General Motors.
A ascensão do grupo iniciou-se em 1802, quando Eleuthère Irénée du Pont, instruído pelo químico Antoine Lavoisier no Arsenal Real de Paris, fundou os moinhos de pólvora de Eleutherian Mills às margens do rio Brandywine, nas proximidades de Wilmington, no estado de Delaware. Ao longo dos séculos XIX e XX, a família dominou o suprimento bélico militar norte-americano (notadamente durante a Guerra de 1812, a Guerra de Secessão e as Primeira e Segunda Guerra Mundial), financiou pesquisas de vanguarda que resultaram na criação de polímeros revolucionários como o Náilon, o Teflon e o Kevlar, e exerceu tamanha hegemonia institucional, bancária e política em Delaware que o estado foi popularmente apelidado de "o Ducado de Delaware".
Ao longo de mais de dois séculos de história, a família gerou importantes senadores, governadores, contra-almirantes navais, filantropos e patronos das artes e da botânica — responsáveis pela criação de monumentais propriedades históricas abertas ao público, tais como Longwood Gardens, o Museu Winterthur e a Nemours Estate.
Origens francesas e emigração O patriarca da linhagem americana, Pierre Samuel du Pont de Nemours, nasceu em Paris em 1739, filho de Samuel du Pont, um mestre relojoeiro huguenote (protestante francês), e de Anne Alexandrine de Montchanin, descendente de uma família nobre empobrecida da Borgonha. Homem de vasta cultura intelectual, Pierre Samuel destacou-se no Iluminismo como economista filiado à escola dos fisiocratas, colaborador próximo de François Quesnay e de Turgot.
Suas ideias atraíram o reconhecimento da corte de Luís XVI, que o elevou à nobreza em 1783 e o encarregou de missões diplomáticas e econômicas cruciais — incluindo as negociações que culminaram no Tratado de Paris (1783), reconhecendo a independência dos Estados Unidos. Durante esse período, travou sólida amizade com estadistas norte-americanos como Thomas Jefferson e Benjamin Franklin. Durante a Revolução Francesa, Pierre Samuel assumiu uma postura moderada e monárquico-constitucionalista como membro da Assembleia Nacional Constituinte. Essa posição colocou-o em risco de morte durante o Terror Jacobino; ele foi encarcerado na prisão de La Force e escapou da guilhotina unicamente pela queda de Maximilien de Robespierre no 9 do Termidor de 1794.
Contudo, sob o Diretório, a perseguição política recrudesceu após o Golpe de Estado do 18 de Frutidor (1797), quando a residência e a tipografia de Pierre Samuel foram saqueadas e destruídas por turbas revolucionárias. Convencido de que a França permaneceria instável por décadas, organizou a emigração de todo o seu clã para os Estados Unidos. A bordo do navio mercante American Eagle, Pierre Samuel, sua segunda esposa e seus dois filhos adultos — Victor Marie du Pont e Eleuthère Irénée du Pont — acompanhados de suas respectivas famílias, aportaram em Newport, Rhode Island, em 1 de janeiro de 1800.
Construção do império industrial
A fundação da DuPont e a pólvora (1802–1902) Ao chegar à América, o plano inicial da família de fundar uma vasta colônia agrícola e imobiliária na Virgínia ocidental ("Ruralia") fracassou por falta de capital. Pouco depois, em uma caçada com o coronel Louis de Tousard, o jovem Eleuthère Irénée (E. I.) du Pont observou a péssima qualidade e o alto custo da pólvora de caça e militar fabricada nos Estados Unidos.
E. I. du Pont possuía uma qualificação técnica ímpar: entre 1787 e 1791, fora discípulo direto do célebre químico Antoine Lavoisier nas instalações do Arsenal Real de Pólvoras da França (Régie des poudres et salpêtres), onde dominara os métodos mais avançados do refino de salitre, purificação de enxofre e granulação de pólvora negra. Retornando temporariamente à França para angariar maquinário e capital de investidores franceses, E. I. du Pont adquiriu terras no vale do rio Brandywine, perto de Wilmington, no estado de Delaware, fundando a E. I. du Pont de Nemours and Company em 21 de abril de 1802.
A empresa floresceu vertiginosamente: Guerra de 1812: Tornou-se a principal fornecedora militar do governo federal americano contra o Império Britânico. Expansão para o Oeste e ferrovias: A pólvora da empresa foi extensivamente consumida na abertura de túneis ferroviários, minas de carvão e canais durante a expansão para o Oeste. Guerra de Secessão Americana (1861–1865): Sob a liderança do patriarca Henry du Pont (conhecido como "General Henry"), a empresa permaneceu firmemente alinhada à União, fornecendo mais de um terço de toda a pólvora utilizada pelo Exército e Marinha do Norte.
Nas décadas pós-Guerra Civil, a DuPont liderou a criação da Associação de Fabricantes de Pólvora dos Estados Unidos (o célebre Gunpowder Trust), cartel que controlava cotas de produção e preços de explosivos em âmbito nacional, sob o comando de Henry du Pont e de seu sobrinho, o químico Lammot du Pont I (1831–1884), que desenvolveu a "pólvora B" à base de nitrato de sódio chileno para mineração.
A era dos "Três Primos" e diversificação química (1902–1950) thumb|right|200px|Pierre S. du Pont (1870–1954), arquiteto da modernização corporativa da DuPont e presidente da General Motors. Em 1902, com a morte do presidente Eugene du Pont, os ramos mais velhos da família consideraram vender a fábrica aos competidores de Nova Iorque. Três primos jovens e ambiciosos — Pierre S. du Pont, Alfred I. du Pont e T. Coleman du Pont — uniram forças e compraram a totalidade da empresa por cerca de 12 milhões de dólares, impedindo que a companhia saísse das mãos da família.
Os primos modernizaram radicalmente a corporação: 1. Revolução gerencial: Pierre S. du Pont e Coleman du Pont implementaram uma das primeiras estruturas de administração multidivisional e contabilidade de retorno sobre investimento (ROI) da história corporativa moderna, modelo que se tornaria padrão no capitalismo ocidental. 2. Da pólvora à química sintética: Prevendo o declínio dos explosivos tradicionais, criaram dois dos primeiros centros de pesquisa industrial privada dos EUA (a Eastern Laboratory em 1902 e a Experimental Station em 1903), diversificando as operações para tintas sintéticas, plásticos celulóides, solventes, borracha artificial e produtos agrícolas.
Durante a Primeira Guerra Mundial, a DuPont forneceu quase 40% de todos os explosivos militares utilizados pelos Aliados europeus e norte-americanos. Os lucros astronômicos auferidos no conflito geraram polêmica nos anos 1930 perante a Comissão Nye do Senado dos EUA, que investigou corporações bélicas acusadas de agirem como "mercadores da morte".
Com esses recursos líquidos extraordinários, Pierre S. du Pont adquiriu fatias expressivas da nascente indústria automobilística, resgatando a General Motors da falência em 1920. Pierre assumiu a presidência executiva da GM (1920–1923) e indicou Alfred P. Sloan para presidi-la, transformando a montadora na maior fabricante de automóveis do planeta. Durante mais de três décadas, a DuPont manteve o controle acionário conjunto sobre a GM, até que uma histórica decisão antitruste da Suprema Corte dos Estados Unidos em 1957 (United States v. E. I. du Pont de Nemours & Co.) forçou a cisão acionária compulsória das duas gigantes.
Nos laboratórios da DuPont, sob a direção de cientistas contratados pela família como Wallace Carothers, foram desenvolvidas algumas das substâncias sintéticas mais marcantes do século XX: Neoprene (1931) – a primeira borracha sintética de sucesso comercial; Náilon (1935) – a primeira fibra têxtil 100% sintética do mundo; Teflon (PTFE, descoberto em 1938 por Roy J. Plunkett); Kevlar (1965) – fibra de aramida de altíssima resistência mecânica e balística, desenvolvida pela química Stephanie Kwolek; Lycra (elastano) e Mylar.
O Projeto Manhattan (1942–1945) Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos recorreu à experiência técnica incomparável da família e da corporação DuPont para gerir a produção em escala industrial do primeiro reator atômico. A empresa foi designada contratante principal para o projeto e a operação do complexo de produção de plutônio de Hanford Site, no estado de Washington, parte essencial do Projeto Manhattan. Temendo manchar novamente sua reputação pública com acusações de enriquecimento com a guerra, a DuPont exigiu em contrato receber uma taxa fixa simbólica de apenas 1,00 dólar pelos seus serviços de engenharia.
Influência política: o "Ducado de Delaware" Durante mais de um século, a família exerceu um domínio sem paralelos na política, na infraestrutura e na imprensa do estado de Delaware. Por meio de redes de casamentos entre primos, controle sobre o Partido Republicano local e participação nos principais bancos estaduais, os Du Pont operaram quase como uma aristocracia regional.
Dentre os principais expoentes políticos da família destacam-se: Henry A. du Pont (1838–1926): Graduado em primeiro lugar em West Point e condecorado com a Medalha de Honra na Guerra Civil, serviu como senador dos Estados Unidos por Delaware entre 1906 e 1917. T. Coleman du Pont (1863–1930): Além de liderar a corporação, financiou e construiu pessoalmente a primeira rodovia moderna do estado (a Du Pont Highway), doando-a aos cofres públicos, e serviu como senador dos EUA por Delaware em dois mandatos (1921–1922 e 1925–1928). Pierre S. "Pete" du Pont IV (1935–2021): Deputado federal (1971–1977) e 68.º governador de Delaware (1977–1985). Foi o artífice da Lei de Desenvolvimento Financeiro de 1981, que desregulamentou as taxas de juros bancárias e transformou Delaware no principal centro financeiro de cartões de crédito e incorporação de empresas dos Estados Unidos. Concorreu às primárias republicanas para presidente dos EUA em 1988.
Nos anos 1930, membros conservadores da família, liderados por Pierre, Irénée e Lammot du Pont, fundaram e financiaram a American Liberty League, influente organização política que mobilizou a oposição empresarial ferrenha às reformas intervencionistas e regulatórias do New Deal promovidas pelo presidente Franklin D. Roosevelt.
O "Château Country" e mecenato cultural thumb|right|220px|Estufas monumentais de Longwood Gardens, concebidas por Pierre S. du Pont. A acumulação monumental de patrimônio permitiu à dinastia erigir no vale do rio Brandywine, entre o norte de Delaware e o sudeste da Pensilvânia, um conjunto de palacetes, propriedades rurais e jardins neoclássicos que ficou conhecido regionalmente como o "Château Country" (o Vale dos Castelos). Muitas dessas propriedades foram legadas à nação sob a forma de fundações educacionais e museológicas de relevância internacional:
Longwood Gardens (Kennett Square, Pensilvânia): Adquirido em 1906 por Pierre S. du Pont para salvar árvores históricas da derrubada, foi transformado em um dos jardins botânicos e complexos de estufas mais suntuosos do planeta, cobrindo mais de 400 hectares com conservatórios botânicos de vidro, jogos de fontes musicais e teatros ao ar livre.