400px|thumb|Reconstituição da possível aparência do Palácio de Carlos Magno. thumb|400px|Plano simplificado: 1=sala das assembleias ; 2=porche ; 3=Tesouro e arquivos ; 4=galeria de união ; 5=tribunal e guarnição ; 6=metatório; 7=cúria ; 8=secretário; 9=capela ; 10=átrio ; 11=termas
O Palácio de Aquisgrão (; ) era um conjunto de edificações de tipo residencial, político e religioso, que foi erigido pelo imperador Carlos Magno como centro do poder carolíngio. O palácio encontrava-se na atual cidade de Aquisgrão, no atual estado federado da Renânia do Norte-Vestfália, a oeste da Alemanha.
As partes essenciais do palácio carolíngio foram construídas na última década do , mas os trabalhos tiveram continuidade até a morte do próprio imperador Carlos Magno, em 814. Eudes de Metz desenhou os planos do Palácio, inscrevendo a obra dentro do programa de renovação política do reino, ansiada e estimulada pelo próprio imperador Carlos Magno.
Atualmente, do palácio apenas subsiste a capela palatina, considerada como um dos tesouros da arquitetura carolíngia e como um característico exemplo da arquitetura típica do chamado Renascimento carolíngio. A capela, junto com a Catedral de Aquisgrão, é catalogada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.
Contexto e história do palácio O palácio antes de Carlos Magno thumb|250px|esquerda|A construção de Aquisgrão, iluminura de Jean Fouquet, nas Grandes Chroniques de France, do . Carlos Magno aparece em primeiro plano.
Já na Antiguidade, os romanos escolheram o lugar da atual Aquisgrão devido à existência de umas fontes termais, bem como pela sua posição de posto avançado à província da Germânia. Denominada Aquae Granni, o lugar foi adaptado com termas sobre uma superfície de 20 hectares,A. Erlande-Brandeburg, A.-B. Erlande-Brandeburg, Histoire de l’architecture française , 1999, p. 104. em uso entre o e o IV.J. Faver, Charlemagne, 1999, p. 285. A cidade romana cresceu intimamente unida a tais termas segundo um desenho urbano em plano hipodâmico clássico, que sucedia o anterior acampamento legionário. Um palácio era destinado a residência do governador da província romana ou inclusive do próprio imperador se for o caso. No , tanto a cidade quanto o palácio romanos resultaram destruídos como consequência da Invasão dos bárbaros.
Enquanto Clodoveu I fez de Paris a capital do Reino Franco, o Palácio de Aquisgrão ficou no abandono até o advento da família dos carolíngios. Os mordomos do palácio pipinidas efetuaram alguns trabalhos de restauração nele, mas o Palácio de Aquisgrão era naquele tempo apenas uma residência entre muitas outras. A corte franca era nômade, e os soberanos deslocavam-se segundo as circunstâncias e necessidades. Por volta de 765, Pepino III, "o Breve" mandou construir um palácio sobre os vestígios do antigo edifício romano; ordenou igualmente restaurar as termas, livrando-as dos seus ídolos pagãos.P. Riché, La vie quotidienne dans l’Empire carolingien , p. 57. Desde a sua chegada ao poder em 768, Carlos Magno pernoitou em Aquisgrão, mas também em outras cidadees da Austrásia. Por volta de 790, porém, decidiu instalar-se numa residência fixa para governar o seu império mais eficazmente.
A escolha de Aquisgrão thumb|Estátua de Carlos Magno frente do Município de Aquisgrão. A escolha de Aquisgrão como local de residência fixa foi uma consequência de uma reflexão por parte de Carlos Magno, e ocorreu num momento chave do seu reinado.A. Erlande-Brandeburg, A.-B. Erlande-Brandeburg, Histoire de l’architecture française, 1999, p. 92. Após chegar a ser rei dos francos, Carlos Magno levara a cabo numerosas expedições militares que permitiram enriquecer-se e engrandecer o seu reino, especialmente para leste. Conquistara a Saxônia pagã entre 772 e 780, mas a região resistia-se, sendo necessárias constantes guerras contra os Saxões, com uma duração total de trinta anos. Carlos Magno acabou por romper com o uso germânico de uma oste itinerante e estabeleceu uma autêntica capital. Com a idade, foi diminuindo o ritmo das suas expedições militares e, após 806, apenas abandonou já Aquisgrão.J. Faver, Charlemagne, 1999, p. 582.
A situação geográfica de Aquisgrão foi decisiva na escolha de Carlos Magno: o lugar encontrava-se em pleno centro dos territórios sob domínio carolíngio, na Austrásia, uma região que era ademais o berço da sua família, a leste do rio Mosa; Aquisgrão encontrava-se, além disso, num cruzamento de estradas e à beira do rio Wurm, afluente do Reno. Assim, Carlos Magno cedeu a administração dos seus domínios meridionais ao seu filho Luís, nomeado rei da Aquitânia.J. Faver, Charlemagne, 1999, p.287 Assim, controlado o flanco sul do seu reino pelo seu filho, Carlos Magno pôde passar a residir no norte.
thumb|left|250px|Expansão dos territórios francos entre os séculos V e IX. O fato de se ter instalado em Aquisgrão permitiu também a Carlos Magno controlar mais perto os assuntos referentes aos Saxões.A. Erlande-Brandeburg, A.-B. Erlande-Brandeburg, Histoire de l’architecture française , 1999, pp. 92-93. Além disso, o local estava rodeado de florestas abundantes em caça,G. Démians d'Archimbaud, Histoire artistique de l’Occident médiéval , 1992, p. 76. argumento importante para um membro da nobreza. Por outro lado, conforme a sua idade aumentava, o imperador alegrava-se de poder aproveitar os mananciais d'água quente de Aquisgrão.
Os documentos da época carolíngia apresentam Carlos Magno como um "Novo imperador Constantino": nestas condições precisava uma capital e um palácio imperial dignos desse nome.P. Riché, Les Carolingiens. Une famille qui fit l’Europe , 1983, p. 326.M. Durliat, Des barbares à l’an Mil , 1985, p. 145. Preferiu deixar a cidade de Roma, a antiga capital imperial, nas mãos do Papa. Contudo, a rivalidade com o Império Bizantino impeliu Carlos Magno a construir um suntuoso palácio. O incêndio que naquele tempo sofreu o Palácio de Worms, em 793,J. Faver, Charlemagne, 1999, p.288 seria também um fato que o impelisse a realizar o projeto do novo palácio.
Um projeto importante confiado a Eudes de Metz thumb|Eginhardo é o biógrafo de Carlos Magno; graças a ele é conhecido o nome do arquiteto do Palácio (iluminura do ou XV. Os historiadores praticamente não dispõem de dados biográficos sobre o arquiteto do Palácio de Aquisgrão, Eudes de Metz. O seu nome aparece citado num texto de Eginhardo , o biógrafo de Carlos Magno. Supõe-se que se tratava de um sacerdote com conhecimentos culturais, familiarizado com as artes liberais, em particular com o quadrívio. Parece indubitável que lera os tratados de arquitetura de Marco Vitrúvio.J. Faver, Charlemagne, 1999, p. 502.
A decisão de proceder à construção do palácio foi tomada em finais da década de 780, ou até mesmo em princípios da década seguinte, num momento em que Carlos Magno ainda não possuía o título de imperador. As obras começaram em 794 e prolongaram-se durante vários anos.Christian Bonnet (dir.), Les sociétés en Europe (milieu du VIème siècle - fin du IXème siècle) , Paris, Ellipses, 2002, ISBN 2729813318, p. 184. Aquisgrão tornou-se cedo na residência favorita do monarca, até o ponto de não se ausentar apenas do seu palácio após 807.
O plano de trabalho adotado era de uma grande simplicidade geométrica: Eudes de Metz decidiu conservar o traçado das antigas ruas romanas, inscrevendo o palácio num quadrado de 360 pés carolíngios de lado,Um pé carolíngio corresponde a 0,333 metros ou seja, 120 metros.A. Erlande-Brandeburg, A.-B. Erlande-Brandeburg, Histoire de l’architecture française , 1999, p. 103. O quadrado em questão delimitava uma superfície total de 20 hectares,P. Riché, les Carolingiens …, 1983, p. 325. que ficava dividida em quatro por um eixo norte-sul (correspondente a uma galeria de alvenaria) e um eixo leste-oeste (correspondente a uma antiga rua principal romana, o decúmano). Na zona norte do quadrado encontrava-se a sala da Assembleia, a sul a capela palatina. O arquiteto traçou um triângulo para leste para ligar as termas com o complexo palatino. Os dois edifícios melhor conhecidos são a sala das assembleias (desaparecida na atualidade) e a capela palatina, que atualmente se encontra integrada na catedral da cidade. O restante de edifícios continuam sem serem identificados exatamente:Régine le Jan, La société du Haut Moyen Âge, VIème - IXème siècle, Paris, Armand Colin, 2003, ISBN 2200265778, p. 120. frequentemente construídos em colombage (ou estrutura), em madeira e em tijolo, foram destruídos com o passar do tempo. Finalmente, o complexo palatino ficava cercado por uma muralha.P. Riché, La vie quotidienne dans l’Empire carolingien , p. 58.
A instalação em Aquisgrão da Corte imperial e as próprias obras de construção do complexo do palácio estimularam enormemente a atividade urbana da cidade, que foi engrandecida em finais do e novamente nos primórdios do . Efetivamente, artesãos e mercadores buscaram instalar-se na proximidade da corte, e alguns dos grandes senhores do reino alugaram pela sua vez residências na cidade. Os membros da Academia palatina, bem como os conselheiros do imperador Carlos Magno, como Eginhardo ou Angilberto de Centula, eram proprietários de uma casa nas proximidades do palácio.
A sala da assembleia 250px|thumb|Localização da sala da assembleia no Palácio (a vermelho).
Situada a norte do complexo palatino, a grande sala da assembleia (aula regia ou aula palatina em latim) era destinada a acolher as "queixas gerais", uma vez por ano. Tratava-se da reunião dos "Grandes do Reino" (e depois do Império), ou seja, altos dignitários que ocupavam os recursos do poder: condes, fidelis e vassalos do rei, bispos e abades. A assembleia geral decorria habitualmente durante o mês de maio; os participantes na mesma discutiam ali dos assuntos políticos e judiciários de importância. Os capitulários, redigidos pelos escribas da chancelaria de Aquisgrão resumiam, por escrito, as decisões que se adotaram. Também aconteciam no mesmo edifício as cerimônias oficiais, bem como as recepções dos embaixadores estrangeiros. Descrevendo a cerimônia de coroação de Luís, o filho de Carlos Magno, Ermoldo, o Negro, indica que Carlos Magno falava "desde o alto do seu trono de ouro".Ermold le Noir, Poème sur Louis le Pieux épîtres au roi Pépin, editado e traduzido por Edmond Faral, Paris, les BellesLettres, 1964, p. 53.
thumb|250px|esquerda|A basílica de Tréveris na Alemanha possivelmente serviu de modelo para a sala da assembleia do Palácio de Aquisgrão.
As dimensões da sala (1000 m²) eram adaptadas para receberem simultaneamente várias centenas de pessoas:P. Riché, Les Carolingiens. Une famille qui fit l’Europe , 1983, p. 131. embora o edifício não se tenha conservado, é sabido que media 47,42 metros de longo por 20,76 metros de largo, e com uma altura de 21 metros. A sua planta parece ter-se inspirado na aula palatina romana de Tréveris. A estrutura era construída com tijolos e a sua forma era a de uma basílica provida de três absides: o maior (17,2 metros), situado a oeste, estava destinado a acolher o rei e o seu entorno mais imediato. Os outros duas absides eram menores, e encontravam-se a norte e a sul. A luz penetrava através de duas filas de janelas. O interior era possivelmente ornamentado com pinturas representando cenas de heróis da antiguidade, bem como contemporâneos. Uma galeria em madeira rodeava todo o edifício, entre as duas filas de janelas. Desde essa galeria era possível a vista do mercado que se celebrava a norte do palácio. Entrava-se por uma galeria porticada a sul da sala. O absidíolo sul cortava em dois este acesso.
A Capela palatina Descrição thumb|Vista em corte da capela palatina.
A capela palatina encontrava-se ao outro lado do complexo palatino, para sul. Estava unida à aula regia por meio de uma galeria de alvenaria.
Esta capela representava o outro aspecto do poder de Carlos Magno, o poder religioso. O Papa Leão III consagrou o edifício em 805, consagrando-o à Virgem Maria.