Fraude científica ocorre quando é feita a divulgação de resultados de uma pesquisa e/ou experimento científico contendo informações falsas ou insuficientes.

A alteração deliberada de quaisquer dos verdadeiros dados de uma pesquisa ou dos resultados de um experimento é considerada fraude científica: autoria indevida, dados de realização falsos, resultados falsos, etc.

Fabricação, Falsificação e Plágio (FFP) A comunidade científica internacional, coordenada por órgãos de integridade como o Office of Research Integrity (ORI) e, no Brasil, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) , define a fraude científica através do acrônimo FFP . Esta tríade estabelece a fronteira entre o erro metodológico e a má conduta deliberada:

Fabricação (Fabrication): Consiste na invenção de dados ou resultados que nunca foram obtidos. O pesquisador relata experimentos que jamais existiram.

Falsificação (Falsification): É a manipulação de materiais, equipamentos ou processos de pesquisa, ou a alteração e omissão de dados ou resultados, de modo que a pesquisa não seja representada com fidelidade no registro científico. Inclui a edição enganosa de imagens (como em exames de eletroforese ou microscopia).

Plágio (Plagiarism): É a apropriação de ideias, processos, resultados ou palavras de outra pessoa sem dar o devido crédito, violando a propriedade intelectual e a honestidade acadêmica.

Casos Históricos de Grande Impacto O Escândalo de Andrew Wakefield e a MMR (1998) Um dos casos mais prejudiciais à saúde pública mundial ocorreu quando o médico Andrew Wakefield publicou um estudo na revista The Lancet sugerindo uma ligação entre a vacina tríplice viral (MMR) e o transtorno do espectro autista. Investigações posteriores revelaram que Wakefield tinha interesses financeiros em processos judiciais contra fabricantes de vacinas e que os dados dos pacientes foram falsificados. O artigo foi totalmente retratado em 2010, mas o dano à confiança nas vacinas persiste até hoje.[http:https://www.bbc.com/portuguese/geral-40663622 Acessado em 14 de maio de 2026]DYER, Owen. "Wakefield admits fabricating events when he took children’s blood samples". BMJ, 2008.

A Fraude da Clonagem de Woo-Suk Hwang (2004-2005) Um caso famoso de fraude científica foi o Escândalo de Hwang, envolvendo o cientista sul-coreano Woo-Suk Hwang, que publicou na revista Science um artigo científico descrevendo uma bem-sucedida obtenção de embriões humanos por clonagem. Esse escândalo ainda é considerado uma das maiores fraudes da biotecnologia moderna, protagonizado pelo cientista sul-coreano que afirmou ter obtido linhagens de células-tronco embrionárias a partir de clonagem humana. Investigações da Universidade Nacional de Seul revelaram que os dados foram deliberadamente forjados, não havendo evidência de que as linhagens descritas fossem clones reais, além de expor graves violações bioéticas, como a coerção de assistentes de laboratório para a doação de óvulos. A queda de Hwang, que era tratado como herói nacional, expôs as fragilidades da revisão por pares diante de pressões políticas por pioneirismo científico. Em 2009, Hwang foi condenado pela justiça sul-coreana a dois anos de prisão (com suspensão de pena) por apropriação indébita de fundos de pesquisa e violação de leis bioéticas, consolidando o caso como um marco sobre os limites éticos e a necessidade de transparência na ciência global. Acessado em 21 de janeiro de 2009Acessado em 21 de janeiro de 2009

O Experimento "Anna O. Szust" (2017) O caso da personagem fictícia Anna Olga SzustDR. ANNA OLGA SZUST (2017) publicado pela "LiveDNA" constituiu um experimento social de grande impacto na comunidade científica, desenhado por pesquisadores poloneses para expor a negligência das chamadas revistas predatórias. Através da criação de um perfil acadêmico sem qualquer publicação ou experiência, cujo próprio sobrenome, Oszust, significa "fraude" em polonês, o estudo revelou que dezenas de periódicos aceitaram a candidata para cargos de editora-chefe ou conselheira editorial sem verificar sua identidade ou competência, priorizando o recebimento de taxas de publicação em detrimento do rigor acadêmico. O sucesso da "Dra. Fraude" evidenciou a fragilidade dos mercados editoriais que operam sob lógica puramente comercial, comprometendo a integridade do sistema de comunicação científica global. Why a Nonexistent Researcher Was Offered a Bunch of Sham Editing Jobs por Jesse Singal, publicado pelo New York Magazine (2017)

O Caso Jan Hendrik Schön (2002) O caso do físico alemão Jan Hendrik Schön, que trabalhava no Bell Labs, representa um dos episódios mais severos de má conduta científica na área das ciências exatas, caracterizado pela fabricação e falsificação sistemática de dados sobre transistores em escala molecular em mais de uma dezena de artigos nas revistas Nature e Science. A fraude foi desmascarada quando a comunidade científica identificou que gráficos de experimentos distintos apresentavam padrões de ruído idênticos, evidenciando a manipulação digital de resultados. Para além das retificações editoriais, o caso tornou-se um marco jurídico quando a Universidade de Konstanz cassou o título de doutor de Schön sob o argumento de "comportamento indigno", uma decisão ratificada pelo Tribunal Administrativo Federal da Alemanha em 2011, estabelecendo o precedente de que a desonestidade intelectual posterior à titulação justifica a revogação de graus acadêmicos.

William Summerlin: Pintando os Camundongos (1970) O dermatologista William Summerlin, filiado ao Memorial Sloan-Kettering Cancer Center em Nova York, conduzia pesquisas em imunologia de transplantes. Foi amplamente aclamado ao divulgar como resultado de pesquisa a capacidade de realizar transplante em animais não aparentados, inclusive afirmando conseguir manter o tecido em cultura por período de quatro a seis semanas. Para comprovar, demonstrou camundongos brancos com manchas de pelo de um camundungo preto. Entretando, em 1974, foi desmascarado quando assistentes de laboratório observaram que as manchas podiam ser removidas com álcool. Na época, foi descoberto que Summerlin utilizava caneta marcadora preta nos animais. A alegação do dermatologista foi de estar se sentindo exausto e pressionado a divulgar resultados, o que teria interferido em sua saúde mental. Dessa maneira, a expressão "pintar os camundongos" tornou-se sinônimo de fraude na pesquisa cientifíca.

O Psicólogo Diederik Stapel (2011) O psicólogo e professor de psicologia social da Universidade de Tilburg (Holanda), Diederik Stapel, realizava pesquisas científicas e tinha muitos de seus trabalhos publicados em periódicos renomados, como Science. Stapel atuava com discrição ao manipular dados de pesquisas a seu favor, levando anos até ser descoberto, sendo que somente em 2011 foi desmascarado. O desligamento da universidade ocorreu, seus trabalhos foram revisados, além de ter sido processado por fraude.

Fraude científica flagrante Fraude científica flagranteCOMMITEE ON CULTURE, SCIENCE AND EDUCATION, "The dangers of creationism in education". Committee on Culture, Science and Education (Resolution).Parliamentary Assembly of the Council of Europe. Resolution 1580. 2007. acontece quando é feita a divulgação de qualquer trabalho dito de estatuto científico mas contendo informação falsa, enganosa ou distorcida dos verdadeiros dados de um experimento no momento em que os cientistas e quaisquer um do publico podem visualizá-la. Há a ocorrência dessa prática citada na literatura: Cientistas americanos foram pressionados a anunciar que o HIV era a causa da AIDS mesmo sem ser comprovadamente provado, devido a glória e os créditos pela descoberta do vírus, que eventualmente seria concebida à nação americana, uma questão de patriotismo: "Gallo estava certamente cometendo fraudes científicas flagrantes e abertas", disse Sonnabend na revista SPINE, onde abordou que nenhuma informação estava escondida, mas mesmo assim o anuncio foi aceito por uma questão de patriotismo. Em junho de 2002, a Merck e a Shering-Plough iniciaram um estudo sobre o colesterol denominado "ENHANCE" para testar a eficácia da sua droga chamada Vytorin. Os resultados do estudo foram obscuros e não confiáveis. Alguns não eram biologicamente plausíveis, ou seja, as imagens estavam mostrando coisas que não poderiam existir no corpo humano. Após os resultados do estudo, eles decidiram mudara a definição do que o estudo estava medindo, depois do fato. A comunidade médica expressou indignação, e muito depois foi anunciada uma investigação da Merck que foi flagrada aparentemente tentando cometer fraude científica nos resultados do estudo Vytorin. De acordo com o documento "The dangers of creationism in education" de 2007, Lecointre mostra que as idéias intelectuais de Design Inteligente são anti-ciência e que consiste em uma atividade que implica na fraude científica flagrante e engano intelectual. O biólogo Paul Kammerer, pesquisador ligado ao Instituto de Biologia Experimental de Viena, na Áustria, que em 1909 divulgou uma suposta pesquisa que afirmava que sapos terrestres que copulavam na água sofriam modificações biológicas para melhor adaptação em ambiente líquido e que estas mudanças eram transmitidas geneticamente para suas proles, isto é, houve uma mudança genética impulsionada pelo meio e que foi, posteriormente, transmitida hereditariamente. Contudo, o pesquisador não ofereceu nenhum dos sapos pesquisados aos pares que queriam refutar ou confirmar a descoberta. Apenas um espécime foi dissecado por um especialista de anfíbios do Museu de História Natural de Nova Iorque, que descobriu que o animal havia recebido uma injeção de tinta-da-china em suas extremidades. A fraude foi portanto descoberta e publicada na Nature, levando Paul Kammerer a obscuridade. O biólogo suicidou-se algumas semanas depois da publicação do artigo.

Causas Sistêmicas e o Fenômeno Publish or Perish

A fraude científica raramente ocorre em um vácuo ético e é frequentemente impulsionada por pressões estruturais do sistema acadêmico moderno:

Pressão por Produtividade: O lema "Publish or Perish" (Publicar ou Morrer) resume a necessidade de manter um fluxo constante de publicações em revistas de alto impacto para garantir verbas e estabilidade na carreira.FANELLI, Daniele. "Do Pressures to Publish Increase Scientists' Bias? An Empirical Support from US States Data". PLOS ONE, 2010. Viés de Publicação: Existe uma tendência editorial de aceitar resultados estatisticamente significativos, o que incentiva o p-hacking (ajuste seletivo de dados).IOANNIDIS, John P. A. "Why Most Published Research Findings Are False". PLOS Medicine, 2005. Conflitos de Interesse Econômico: Pesquisas financiadas por indústrias podem sofrer pressões para suprimir resultados desfavoráveis.ANGELL, Marcia. "The Truth About the Drug Companies". Random House, 2004.

O Cenário Brasileiro e a Obsessão por Métricas No contexto brasileiro, a pressão pelo aumento da produtividade tem sido objeto de crítica por especialistas que alertam para a "financeirização" da ciência. Segundo análises publicadas pelo Jornal da Unesp, a lógica de recompensar financeiramente pesquisadores e instituições estritamente pela quantidade de artigos publicados cria um ambiente tóxico onde a integridade é sacrificada em prol de indicadores de desempenho. Essa obsessão por números não apenas incentiva a prática da Salami Science e do autoplágio, como também sobrecarrega os mecanismos de revisão por pares, tornando o sistema de detecção de fraudes mais vulnerável devido ao volume massivo de publicações de baixa qualidade.

Normatização Brasileira: A Portaria CNPq 2664/2026