right|thumb|180px|Antropofagia no Brasil em gravura de Theodor de Bry do século XVI. Antropofagia é o ato de comer carne humana, sendo também chamada de canibalismo quando quem se alimenta é também um ser humano.
Na História do Brasil foi-se registrado o ritual antropofágico, uma prática cultural e religiosa amplamente documentada entre os povos indígenas tupinambás no Brasil colonial, que consistia no consumo cerimonial da carne de inimigos de guerra. A motivação não era a fome, mas sim a vingança, a honra e a absorção das virtudes e da força do guerreiro derrotado. Os povos que praticavam esse ritual o faziam pensando que, assim, iriam ter a vingança dos seus companheiros mortos pelo grupo do prisioneiro. Por sua realização em contexto mágico cerimonial ou patológico, não deve ser classificada ou compreendida como um hábito alimentar, o que não se aplica ao canibalismo, na maioria das vezes associado ao comportamento predatório. Observa-se também que muitos autores utilizam esses termos indistintamente.
A prática, conforme afirmam antropólogos e arqueólogos, era encontrada em algumas comunidades ao redor do mundo. Foram encontradas evidências na África, América do Sul, América do Norte, ilhas do Pacífico Sul e nas Caraíbas (ou Antilhas). Na maioria dos casos, consiste num tipo de ritual religioso/mágico como uma forma de prestar seu respeito e desejo de adquirir as características da pessoa morta.
Um dos grupos canibais mais famosos são os astecas, que sacrificavam seus prisioneiros de guerra e comiam alguns deles. Eles comiam os prisioneiros de guerra e outras vítimas, numa prática conhecida como exocanibalismo ou exofagia, ou seja, canibalismo praticado em indivíduos de tribos diferentes. O canibalismo que consiste no acto de consumir parte dos corpos de seus parentes e amigos mortos é chamado de endocanibalismo (ver verbete específico: Antropofagia na Mesoamérica).
Os poucos casos de antropofagia de humanos registrados na história da sociedade ocidental moderna estão ligados a situações-limite de satisfação do instinto de sobrevivência do indivíduo perante uma opção de vida ou morte.
Etimologia "Antropofagia" vem do grego anthropofagía,FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 134. tendo por raízes ἄνθρωπος (anthropos), "homem, ser humano", e φαγεῖν (phagein), "comer". O primeiro uso atestado do termo se dá nas Histórias de Heródoto, onde fala dos ἀνθρωποφάγοι (anthropofagoi), uma raça mítica de canibais.
Canibalismo humano como ritual Os líderes tribais das ilhas Fiji comiam a carne de pessoas consideradas especiais em sua comunidade. Para isso, utilizavam talheres próprios, que não podiam ser usados para consumir qualquer outro tipo de "alimento". Os habitantes da Ilha de Páscoa gostavam bastante de carne humana. Os banquetes eram promovidos em lugares isolados e apenas os homens podiam participar.
No meio do caminho entre o ritual e a sobrevivência, está o caso da tribo Fore, da Papua-Nova Guiné. Para compensar as carências de proteínas, passaram a realizar um ritual onde os homens ficavam com os músculos, enquanto as mulheres e crianças, com o cérebro de outros membros da tribo que tinha falecido. O canibalismo foi praticado desde finais do século XIX e durou até a chegada dos colonizadores europeus na década de 1950, mas ainda no final do século XX foi descrito pelo velejador Helio Setti Jr. um caso de uma doença provocada por esta prática, que provocou a disseminação de uma doença localmente denominada kuru, a doença de Creutzfeldt-Jakob clássica.
Num esboço de classificação dessas práticas tipo sacrificial, segundo Castro,Castro, Eduardo Viveiro de. Xamanismo e sacrifício. in: A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. SP, Cosac & Naify, 2002, temos: Canibalismo póstumo: se aproxima ou se inclui nos ritos funerários; Canibalismo bélico sociológico classicamente representado pelos ritos de destruição dos inimigos pelos Tupinambás da costa brasileira no século XVI.
Para esse autor, um possível esquema interpretativo desse tipo de sacrifício, na concepção de DescolaDescola, Philippe. Constructing natures: symbolic ecology and social practice, in: Descola, P..;Pálssons (orgs.) Nature and society: antrophological perspectives. Londres, Routledge, 1996, corresponde às práticas animistas, ou seja, a concepção de um cosmos habitado por muitas espécies de seres dotados de intencionalidade e consciência.
A prática do canibalismo, nesse sentido, equipara-se aos ritos de caça, entendendo esta como uma forma de guerra. Para Castro (o.c.), a caça é uma forma de guerra na perspectiva estabelecida pela mitologia indígena, onde a visão que o homem tem dos animais é equivalente à que os animais têm de outros animais e do próprio homem. Observe-se que esse xamã sacrificador – vítima (é relativamente comum eliminarem-se xamãs acusados de feitiçaria) tem um papel fundamental nas "declarações" de guerra e existem guerras cuja causa declarada é a vingança ou combate à feitiçaria inimiga.
Antropofagia no Brasil
A antropofagia praticada pelos grupos tribais do Brasil revestia-se de caráter exclusivamente ritual. De cultura para cultura variavam os motivos e os rituais envolvidos. As notícias fornecidas pelos cronistas do século XVI dão conta de sua importância na organização social indígena como fator indispensável aos ritos de nominação e iniciação. Estas sociedades eram estruturadas em função da guerra, essas tribos desenvolveram uma escala de estratificação social em que a aquisição de status baseava-se fundamentalmente na capacidade de perseguir e matar o maior número possível de inimigos.
O adversário capturado vivo era conduzido à aldeia dos vencedores e ali mantido prisioneiro durante um período no qual todas as honras e privilégios lhe eram concedidos: era designado uma mulher para lhe fazer companhia e os melhores alimentos eram colocados a sua disposição.
Durante vários dias, preparavam-se a festa em que o prisioneiro seria executado segundo cerimônia solene. A execução, com violento golpe de borduna, cabia a quem o houvesse capturado, podendo ser por este transferido a alguém merecedor de tal obséquio, em sinal de agradecimento ou homenagem.
Ao prisioneiro, competia manter-se altivo e valente, retrucando as provocações e insultos numa demonstração de total indiferença ante o fim próximo. O executor ganhava, então, direito ao uso de mais um nome, e seu corpo era incisado de modo indelével, para que se perpetuassem a sua coragem e o seu valor. Dessa forma, acreditavam que, ao comer a carne de um inimigo guerreiro, iriam assim adquirir o seu poder, seus conhecimentos e as suas qualidades.Staden, Hans. Zwei reisen nach brasilien: abenteuerliche erlebnisse unter den menschenfressern. São Paulo: Hans Staden-Gesellschaft, 1941Staden, Hans. Viagem ao Brasil. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1988.
Para ser considerado herói, não bastava ao índio da tribo Urubu, do Pará e Maranhão, capturar o inimigo. Tinha também de ser o carrasco e para tanto deveria dançar suportando, sem gemer, ferroadas de vorazes formigas presentes em faixas atadas em sua testa e cintura. Enquanto dançava enormes vespas eram atiradas sobre ele.BASTOS, Abguar. A pantofagia ou as estranhas práticas alimentares da selva: Estudo na região amazônica. São Paulo, Editora Nacional; Brasília DF, INL. 1987, 153p
thumb|Prisioneiro indígena
Europeus com o infortúnio de serem apanhados em situação desvantajosa por uma tribo antropófaga não amigável, eram por vezes vitimizados, como o primeiro bispo do Brasil, Pero Sardinha. Facto utilizado pelos poderes europeus para darem um sentido de missão humanitária à expansão no território.
O pirata inglês Anthony Knivet fez uma descrição detalhada da execução de prisioneiros pelos índios. Tendo sido capturado com mais doze portugueses, ele relatou:
Todos os portugueses, inimigos dos Tamoio, foram executados; ele se salvou porque disse que era francês, um aliado.
Além do caráter ritual, a ingestão da carne do inimigo era também considerada a mais completa forma de vingança, como pode ser visto no trecho abaixo, escrito por Hans Staden, no século XVI:
Quando perguntados por que guerreavam contra outras tribos os índios diziam que era para vingar seus antepassados que tinham sido mortos por elas. Alegavam que comiam os prisioneiros para se vingarem dos seus entes que tinham sido devorados por aqueles inimigos. LÉRY, Jean de 1534-1611. Viagem à terra do Brasil. Belo Horizonte, Edit. Itatiaia; São Paulo, Edit. da Universidade de São Paulo. 1980, 303p
Algumas tribos devoravam a carne dos inimigos como parte de ritual ou por vingança, mas outras encaravam a carne humana como apenas outro alimento, como relatou o pirata inglês Anthony Knivet (1560-1649), que viveu no Brasil de 1592 a 1601:
Habitando o Amazonas e a Colômbia, os Miranha alegavam que devoravam a carne humana simplesmente por ela ser mais um tipo de carne disponível na natureza. Achavam um absurdo o fato dos europeus não comerem carne de macaco e, jocosamente, diziam que a carne dos brancos não era lá grande coisa, uma vez que era azeda.
Algumas vezes, índias das tribos captoras engravidavam do prisioneiro e o destino da criança variava de tribo para tribo. Em algumas, a criança era devorada junto com o prisioneiro e, no caso de nascer depois do sacrifício do pai, era devorada ao nascer. Em outras tribos, as crianças eram alimentadas até atingirem tamanho adequado para serem mortas. Ainda em outras, elas eram deixadas vivas, mas não podiam participar do dia a dia da aldeia e alimento por ela tocado era desprezado pelos índios. Contudo, algumas tribos tratavam com grande deferência os filhos de prisioneiros mortos, já que acreditavam que eles eram tão valorosos quanto seus pais.CAVALCANTE, Messias Soares. Comidas dos Nativos do Novo Mundo. Barueri, SP. Sá Editora. 2014, 403p.ISBN 9788582020364
Com a vinda dos missionários jesuítas, esses costumes foram fortemente combatidos, por serem incompatíveis com os valores cristãos. O costume de comer carne humana foi proscrito e reprimido pela força, com grave dano para um tipo de organização social em que a antropofagia desempenhava relevante função como processo de aquisição de prestígio e ascensão social.
Os europeus, inclusive os jesuítas, que chegavam às Américas na época da colonização ficavam horrorizados com a prática do canibalismo pelos indígenas. Há casos isolados do mesmo sendo praticado na Europa na Idade Média, devido à escassez de alimentos, porém a situação em que se encontrava a antropofagia no Brasil possuía um caráter largamente diferente.ASSUNÇÃO, Paulo de. A terra dos Brasis: a natureza da América portuguesa vista pelos primeiros jesuítas (1549-1596). São Paulo, Annablume. 2000, 274p.
Hoje em dia, a tribo dos ianomâmis ainda conserva o hábito de comer as cinzas de um amigo morto em sinal de respeito e afeto.
Quanto à ingestão de cinzas de mortos pelos indígenas, alguns estudiosos atribuem este costume à identificação mística entre homens e plantas. Os indígenas notaram que o emprego de cinzas dos vegetais queimados na coivara davam vigor às novas plantas e deduziram que a ingestão das cinzas dos entes mortos lhes permitiria adquirir e perpetuar as boas características do defunto. REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA. Antropofagia. p. 9-16. In: Revista de Atualidade Indígena. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1978, ano II, nº 10, 64p
Se um índio ficava doente, sem esperança de cura, a própria família dos Tapuia do Maranhão o matava e comia, acreditando que o estavam salvando de uma morte lenta e dolorosa e que seus restos mortais estariam melhor nos corpos dos parentes do que enterrados, onde apodreceriam. GANDAVO, Pero de Magalhães c. 1540-c. 1580. Tratado da Terra do Brasil; História da Província Santa Cruz. Belo Horizonte, Edit. Itatiaia; São Paulo, Edit. da Universidade de São Paulo. 1980, 150 p.