Acústico MTV é o terceiro álbum ao vivo e primeiro em vídeo da artista musical brasileira Rita Lee. O seu lançamento ocorreu em 3 de setembro de 1998, através da editora discográfica Universal Music. Produzido como parte da série de trabalhos ao vivo e acústicos promovida pela rede de televisão MTV Brasil, o álbum teve a produção musical de Roberto de Carvalho, que também assina a direção musical e os arranjos. Sua lista de faixas é formada majoritariamente por canções de discos anteriores da artista, além de duas inéditas e uma regravação do compatriota Raul Seixas. O trabalho foi filmado na presença de cinquenta pessoas no Teatro João Caetano, localizado na cidade do Rio de Janeiro, entre os dias 4 e 5 de junho do mesmo ano. É o segundo projeto de Lee em formato acústico, após seu primeiro álbum ao vivo, Bossa 'n' Roll (1991).
Participam como convidados especiais os cantores Cassia Eller, Paula Toller e Milton Nascimento, além da banda Titãs e do instrumentista Armandinho Macêdo. Após o seu lançamento, Acústico MTV recebeu análises geralmente positivas da mídia especializada, com muitos prezando as colaborações com outros artistas, a sua produção e o frescor dado pelo projeto a carreira de Lee e ao seus antigos sucessos. Alguns, no entanto, desprestigiaram alguns convidados e classificaram o projeto como pouco inovador. Em retrospecto, algumas publicações, como a Rolling Stone Brasil, o listaram entre os melhores registros brasileiros de todos os tempos da série Acústico MTV. Comercialmente, o projeto mostrou-se bem recebido: com ambas as versões, DVD e CD, sendo certificadas com platina pela Pro-Música Brasil (PMB).
Para a divulgação do produto, a cantora apareceu em programas televisivos como Programa Livre e Hebe, e na cerimônia dos MTV Video Music Brasil, ao lado de Nascimento. Além disso, ela distribuiu "Agora Só Falta Você" como single e embarcou na digressão Turnê Meio Desligada, que percorreu o Brasil entre novembro de 1998 a maio do ano seguinte e chegou a ser assistida por mais de 50 mil pessoas em uma apresentação.
Antecedentes e lançamento Tendo ouvido do músico João Gilberto que era "uma roqueira com voz de bossa-novista", Rita Lee decidiu aprofundar seus conhecimentos sobre a bossa nova. Com isso, ela passou a consumir com maior frequencia o trabalho de artistas desse segmento, como a cantora Nara Leão, o que culminou no lançamento de seu segundo álbum ao vivo, Bossa 'n' Roll (1991), que apresenta canções no gênero em formato acústico, apoiadas apenas por voz e violão. Na época, o trabalho foi recebido como inovador, já que até então nenhum artista popular brasileiro havia realizado algo similar, sendo que, anos depois, viria a se tornar comum no Brasil através do Acustico MTV produzido pela MTV Brasil. Em 1998, enquanto promovia seu décimo oitavo álbum de estúdio Santa Rita de Sampa (1997), Lee foi convidada pela rede para registrar uma aparição na série, o que foi aceito por ela. Em entrevista ao periódico Tribuna da Imprensa, a musicista justificou o motivo pelo qual decidiu novamente dedicar-se a um projeto similar ao que já havia realizado: "O Bossa 'n' Roll foi, há sete anos, o pioneiro dos acústicos, portanto houve muitas falhas, do tipo nunca ter sido registrado em vídeo e a qualidade da gravação ter deixado a desejar. Apesar de tudo, foi legal tê-lo feito. No A Marca da Zorra (1995) os arranjos das [faixas] antigas eram basicamente os mesmos das originais. Agora, no Acustico MTV, principalmente o repertório e arranjos estão quase que radicalmente modificados; o formato instrumental também, e com certeza dessa vez tudo será registrado de uma maneira bastante aprimorada".
Acústico MTV foi lançado comercialmente em 3 de setembro de 1998 através da Universal Music. Sua distribuição inicial ocorreu em CD e VHS, enquanto sua edição em DVD tornou-se disponível apenas a partir de 21 de agosto de 2000. A capa da edição em áudio é notavelmente distinta da edição em vídeo, com cada uma apresentando ângulos diferentes da cantora enquanto segura um violão. Em junho de 2023, após o falecimento de Lee, foi comercializado também em disco de vinil duplo, laranja-avermelhado e marmorizado, com direito a capa gate-fold.
Produção e filmagem No primeiro semestre do ano, Lee começou a ensaiar para realização do projeto, em média de oito a dez horas por dia. Para produzir o material, ela recrutou os trabalhos de seu guitarrista e marido, Roberto de Carvalho, que sozinho assina toda a produção da obra, assinando também a direção artística e os arranjos. Para a Folha de S.Paulo, ela revelou que buscou nos arranjos maior diferenciação entre Bossa 'n' Roll e Acústico MTV uma vez que não buscava soar repetitiva e que, enquanto o primeiro focou-se na em dar ênfase a bossa nova, o último focaria no rock, elaborando: "Na época, tudo foi bem mais radical. Era um banquinho, um violão e nada mais. Hoje diria que estou um passinho adiante, em termos de instrumentação, do Bossa'n' Roll". Talvez um Rock'n'Nova. [...] Consideremos novidade, sim, afinal nunca me apresentei com arranjos tão diferentes. Esta formação de banda é a primeira vez que monto, isso não é considerado novidade?". Apesar de buscarem por diversidade em termos de instrumental, o uso de instrumentos acústicos convencionais, como cordas e sopros, foram utilizados, com Carvalho justificando que tal inserção era inevitável, mas que "procurei fazer o menor uso possível e de forma discreta", avaliando que "poderia ter [variado] mais mas de todo jeito tem acordeão, bandolim, gaita, vibrafone, clarinete, trompa, acho que está de bom tamanho, uma diversidade razoável".
"Ensaiamos uma média de oito a dez horas por dia. Começamos há dois meses. Primeiro eu sozinha, pelada no banheiro com meu violão, depois Roberto me passou harmonias mais elaboradas. Aí entrou Beto, formando o Pai, o Filho e a Espírita Santa. [...] Estamos formatando o repertório, muitos arranjos que permanecem impregnados precisam de tempo para serem transformados. Nesses casos, é bom nem ouvir os originais. Mudar arranjos é fundamental para uma boa oxigenação. [...] Vai rolar de toda fase um pouco, chegamos a um consenso bacana. [...] Temos uma porrada de inéditas, escolhemos entre seis para tirar três ou duas".
O critério de escolha do repertório baseou-se em contemplar canções de álbuns lançados em variados momentos da carreira da artista, além de outras duas que foram selecionadas dentre seis opções de composições inéditas, com algumas sendo escolhidas através de uma enquete publicada em seu site oficial, onde o público teve a opção de votar em suas preferidas. Já a seleção de convidados especiais, que é tradicional da série, deu-se de formas distintas. Entre eles, a cantora Cassia Eller, que participa do álbum na canção "Luz del Fuego" é, para Lee, uma "figura bacana" com uma "voz de trovão que me deixa zonza". Eller, por sua vez, retribuiu a admiração pela anfitriã dizendo; "Sou apaixonada. Tenho uma história antiga com [a obra d]ela desde que sou adolescente. Por ser a primeira roqueira, para mim é the best". Os Titãs cantam com Lee, na faixa "Papai Me Empresta o Carro". A adição da banda no projeto foi a forma encontrada por ela para retribuir o apreço que sentiu em participar da edição do Acústico MTV gravada por eles. Já a contribuição de Paula Toller na faixa "Desculpe o Auê" foi dito por Lee como resultado de sua admiração pela voz da cantora: "Tenho fixação por essa menina desde que ela apareceu [na indústria musical] com essa voz de mel". Sobre cantar com Milton Nascimento, a artista disse: "Há 30 anos flerto com ele, de longe por conta da timidez mútua, porém não hesitei dessa vez em ser cara de pau e convidei "Deus" para cantar "Mania de Você" comigo". Ela revelou que chegou a convidar o cantor Max Cavalera e ao grupo Doces Bárbaros, desejando tê-los no projeto, mas ambos se encontravam ausentes do Brasil naquele momento, assim como a cantora Marina Lima que preferiu não participar pois estava sem tempo devido a produção de seu próximo álbum.
Carvalho organizou uma banda de dez instrumentistas, além de um grupo de cordas, para acompanhar Lee na gravação do álbum, sendo todos emprestados de outros grupos apenas para a ocasião. A ambientação do palco foi concebida e executada por Gringo Cardia. De acordo com ele, a artista lhe pediu para criar um cenário que abrangesse totalmente a estética neo-hippie, contrastando com a ambientação high tech explorada na turnê em apoio a Santa Rita de Sampa. O estrado, que é cercado por flores artificiais, contém guirlandas indianas no teto e panos indianos brocados com uma enorme mandala ilustrada em seu centro. Também há uma mesa posicionada ao lado da artista, com incenso aceso, uma xícara de chá, além de pequenos apitos, flautas, percussões e uma buzina. O local escolhido para a realização do espetáculo foi o Teatro João Caetano, localizado na cidade do Rio de Janeiro, entre os dias 4 e 5 de junho, as 21 horas, para um grupo de 50 pessoas que foram selecionadas para assistirem a gravação na plateia. Foi o mesmo teatro em que Lee estreara a turnê do álbum Fruto Proibido em 1975. Lee mais tarde notaria que a plateia era "gente generosa que segurava no bom humor" quando as músicas eram repetidas por falhas técnicas ou esquecer a letra, com "Gita" sendo a mais recomeçada. Eller e Toller ficaram desconfortáveis no ensaio mas se recuperaram na hora da gravação. Uma das músicas gravadas, "Dias Melhores Virão", acabou não entrando em nenhuma versão do álbum.
Sinopse e composição O espetáculo é iniciado, Lee surge sob um figurino composto por uma bata azul, óculos de variadas cores e cabelo semicurto escorrido em tom ruivo e com franja, sentada ao centro do palco, ladeada por seus músicos, para executar a primeira música, "Agora Só Falta Você", parte de seu quarto álbum de estúdio, Fruto Proibido (1975). Segue-se, então, "Flagra", canção que é parte de seu primeiro álbum lançado em parceria com Carvalho (1982), contendo arranjos de sopros e um solo de clarinete executado por Dirceu Leitte em seu instrumental. Na sequência, emenda "Jardins da Babilônia", de seu sexto disco Babilônia (1978), e "Doce Vampiro", de seu sétimo álbum de estúdio (1979), cuja nova roupagem faz uso de cordas. Logo após, Eller, a primeira participação especial da noite, aparece com os cabelos espetados e tingidos de azul. Ao ouvir de Lee, que faz graça imitando a voz de criança, que seu visual estava parecendo o de um passarinho, a convidada responde com voz grossa e em tom irônico: "Passarinho? Vou te mostrar meu passarinho", levando a plateia aos risos. Juntas, ambas interpretam "Luz del Fuego", de Fruto Proibido. O sexto número do espetáculo, "Balada do Louco", já havia sido gravado pela artista como membro dos Mutantes, para o disco Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972). Sua nova instrumentação ganha toques de fado e é constituída por acordes de uma guitarra baiana tocada por Armandinho Macêdo. Ao seu final, a artista emita a risada característica do personagem Pica-Pau.