thumb|292x292px| A Vulgata, tradução da Bíblia para o latim por São Jerônimo, foi adotada como texto oficial da Igreja Católica pelo Concílio de Trento em 1546.

A , ou Reforma Católica, é o movimento criado pela Igreja Católica a partir de 1545, e que, segundo alguns autores, teria sido uma resposta à Reforma Protestante (de 1517) iniciada por Martinho Lutero.

Em 1545, a Igreja Católica Romana convocou o Concílio de Trento (na cidade de Trento, desde 1918 território italiano) estabelecendo entre outras medidas, a retomada do Tribunal do Santo Ofício, a criação do Index Librorum Prohibitorum, com uma relação de livros proibidos pela Igreja e o incentivo à catequese dos povos do Novo Mundo, com a criação de novas ordens religiosas, dentre elas a Companhia de Jesus.

Outras medidas incluíram a reafirmação da autoridade papal, a manutenção do celibato eclesiástico, a reforma das ordens religiosas, a edição do catecismo tridentino, reformas e instituições de seminários e universidades, a supressão de abusos envolvendo indulgênciasSalesiano A Reforma Protestante e a Contrarreforma (ou Reforma Católica) e a adoção da Vulgata como tradução oficial da Bíblia.

Embora a Contrarreforma seja por vezes também chamada de Reforma Católica, este último termo na verdade refere-se ao conjunto de medidas de renovação espiritual, teológica e litúrgica com as quais a Igreja Católica tentou reformar as suas instituições mesmo antes do Concílio de Trento«Movimento religioso, sorto all’interno della Chiesa cattolica nei decenni precedenti la Controriforma, che tendeva a una moralizzazione dei costumi del clero e a un rinnovamento teologico» (Il Nuovo De Mauro, s. v. «riforma»; já durante o Concílio de Constança, por exemplo, os padres conciliares esperavam uma reforma "no título e nos membros",Concilio di Costanza mas foi só a partir da Reforma Protestante que esta necessidade se tornou urgenteControriforma, in Treccani.it – Enciclopedie on line, Roma, Istituto dell'Enciclopedia Italiana., materializando-se na aplicação das disposições conciliares tridentinas. A "Contrarreforma", portanto, foi também – mas não apenas – "Reforma Católica", assim como a "Reforma Católica" foi também – mas não apenas – "Contrarreforma".

A Reforma

De acordo com Edward McNall Burns (professor de História da Rutgers University), o Renascimento foi acompanhado de um outro movimento — A Reforma: "Este movimento compreendeu duas fases principais: a "Revolução Protestante ou Reforma Protestante", que irrompeu em 1517 e levou a maior parte da Europa setentrional a separar-se da igreja romana, e a "Reforma Católica", que alcançou o auge em 1560.

Embora a última não seja qualificada de revolução, na verdade o foi em quase todos os sentidos do termo, pois pareceu que efetuou uma alteração profunda em alguns dos característicos mais notáveis do catolicismo da Idade Média".MacNall Burns, bibl. cit. pg. 449

Acontecimentos reformistas foram o Quinto Concílio de Latrão, os sermões reformistas de John Colet, a publicação do Consilium de Emendanda Ecclesia de Gasparo Contarini e a fundação do Oratório do Amor Divino.

Para McNall Burns, a Contrarreforma não seria propriamente um movimento da Igreja Católica de reação à contestação iniciada por Martinho Lutero.MacNall Burns, bibl. cit. pg.477-481. A Revolução Protestante foi apenas uma das fases do grande movimento denominado como "Reforma", a outra fase foi a "Reforma Católica". Estudos recentes mostram que os primórdios do movimento reformista católico foram em tudo independentes da Revolução Protestante.

Daniel-Rops, da Academia Francesa, nega a existência de relações de causa e efeito entre a reforma católica e a reforma protestante: "Nem na ordem cronológica nem na ordem lógica temos o direito de falar de "contrarreforma" para caracterizar esse salto gigantesco, esse admirável esforço de rejuvenescimento e ao mesmo tempo de reorganização que, em cerca de trinta anos, deu à Igreja um rosto novo"…"Se, cronologicamente, a Reforma Católica não é uma "contrarreforma", também não é no processo do seu desenvolvimento".Daniel-Rops, bibl. cit. vol. V(II) pg. 7-9

Daniel-Rops afirma que "o capitão Inácio de Loyola, ferido em Pamplona, não escreveu nenhum tratado sobre a estratégia anti-herética, mas os "Exercícios Espirituais"; e nem foi o ódio contra a tese luterana, mas o amor de Deus, que iluminou o rosto do São Caetano diante do presépio em Santa Maria Maggiore na noite de Natal 1517.THE CATHOLIC REFORMATION by Henri Daniel-Rops

G. Battelli no Dizionario di Storiografia online, afirma que a maioria dos historiógrafos católicos e protestantes, hoje distinguem claramente a "Reforma católica" da "Contrarreforma", o primeiro deles, no final do século XIX, foi o protestante Maurenbrecher.<ref name=":4">L'Idea di Riforma Cattolica. A bilanciare sul piano storiografico tale tendenza intervenne alla fine dell'Ottocento lo storico protestante W. Maurenbrecher, che nella sua Geschichte der Katholischen Reformation (1880; Storia della Riforma cattolica), riprese l'analisi dei tentativi di riforma effettuati in area cattolica prima del sorgere della «protesta luterana» per concludere, con prevalente riferimento al caso della Spagna, che era realmente esistita una tendenza in tal senso, che essa risultava del tutto autonoma rispetto al cammino percorso dalla riforma protestante, e (differenziandosi in questa lettura dalle tesi di Ranke) che essa andava individuata sotto la categoria di riforma cattolica." </ref>

Contexto thumb|Filipe Néri contribuiu para a renovação da vida cristã através da sua obra de direção espiritual|217x217px thumb|esquerda|265x265px|O Cardeal Cisneros foi precursor da Reforma católica na Espanha Em decorrência da Reforma Protestante, o mundo cristianizado ocidental, até então hegemonicamente católico, viu-se dividido entre cristãos católicos e cristãos protestantes, estes não mais alinhados com as diretrizes da Santa Sé.

Em 1517 o Papa Leão X ofereceu indulgências para aqueles que dessem esmolas para reconstruir a Basílica de São Pedro em Roma.Enrico dal Covolo: The Historical Origin of Indulgences Abusos em sua província na Saxônia, principalmente envolvendo a propaganda agressiva de Johann Tetzel, teria provocado Martinho Lutero a escrever suas 95 Teses (Tetzel seria inclusive punido por Leão X por seus sermões, que ia muito além dos ensinamentos reais sobre as indulgências).

Embora Lutero não negasse o direito da Igreja de conceder perdões e penitências,Certum est, nummo in cistam tinniente augeri questum et avariciam posse: suffragium autem ecclesie est in arbitrio dei solius (Tese 28). ele não acreditava que dar esmolas seria uma boa ação, mas um ato semelhante à compra das indulgências e o perdão das penas temporais.Errant itaque indulgentiarum predicatores ii, qui dicunt per pape indulgentias hominem ab omni pena solvi et salvari (Tese 21).

Posteriormente as críticas de Lutero se direcionaram para um campo teológico mais amplo, tais como os sacramentos, liturgia, pecado original e outros temas. Em 1519 Lutero foi acusado de heresias, pelo que tinha publicado, e as autoridades eclesiásticas exigiram que ele se retratasse.

Em 1520 o Papa condenou alguns dos principais pontos da nova doutrina por meio da bula Exsurge Domine e exigiu que Lutero se retratasse em um prazo de 70 dias a partir da sua publicação, no prazo final foi o dia em que Lutero queimou a sua cópia da bula juntamente com o Código de Direito Canônico.

Todas as regiões que estavam insatisfeitas com a tradição católica no Ocidente passaram a ser designadas de igrejas protestantes, pois na Dieta de Worms os príncipes alemães protestaram para que o Imperador Carlos V, do Sacro Império Romano-Germânico, permitisse que eles professassem as suas fés.

O movimento luterano recebeu grande apoio especialmente de príncipes e da pequena nobreza, que expropriaram as terras e as demais riquezas da Igreja Católica.MOTA, Myriam Becho e BRAICK, Patrícia Ramos. História das cavernas ao terceiro milênio. Vol. I. Ed. Moderna. ISBN 85-16-0402-4. Pág.: 179.BURNS, Edward Macnall, op. cit., II vol., pgs. 458-459SOUTO MAIOR, Armando, op. cit., pgs. 298-299.KOSHIBA, Luiz e PEREIRA, Denise Manzi Frayze. História Geral e Brasil - Trabalho, Cultura, Poder - Ensino Médio.

Primórdios da Reforma católica 223x223px|thumb| Primeira página da Bíblia Poliglota Complutense do Cardeal Cisneros, Sec.XVI Segundo Daniel-Rops, "Já na segunda metade do século XV, tudo o que havia de mais representativo entre os católicos, todos os que tinham verdadeiramente consciência da situação, reclamavam a reforma, por vezes num tom de violência feroz, e mais frequentemente como um ato de fé nos destinos eternos da 'Ecclesia Mater".thumb|168x168px|Teresa de Ávila, reformadora das CarmelitasNa Alemanha destacava-se Nicolau de Cusa, mas a Espanha foi que sobressaiu-se como vanguarda da Reforma Católica em fins do século XV.

Os reis católicos consideraram a reforma eclesiástica como uma parte essencial da restauração do Estado, o que norteou a sua política.

O Cardeal Cisneros, com a aprovação da monarquia, reformou os franciscanos com São Pedro de Alcântara e a vida monástica, em especial a dos beneditinos naquele país.ORLANDIS, José. História breve do Cristianismo. Tradução de Osvaldo Aguiar - Lisboa: Rei dos Livros, 1993.

A Universidade de Alcalá, fundada pelo Cardeal Francisco de Cisneros, foi um grande centro de estudos teológicos e humanísticos e fez publicar a célebre Bíblia Poliglota Complutense, em seis volumes em 1517 editada em hebraico, latim e grego.

A Igreja espanhola, nas primeiras décadas do século XVI era, sem dúvida, a de maior nível espiritual e científico do continente.

A obra de renovação espiritual do clero e do povo levada a efeito por São João de Ávila constitui um capítulo à parte na história religiosa do século XVI.

Santa Teresa de Ávila reformou a Ordem do CarmeloAUCLAIR, Marcelle. La vie de Sainte Thérèse d'Avila. Éditions du Seuil, 1950. Tradução ao português de Rafael Stanziona de Moraes, Quadrante, São Paulo, 1995. e São João da Cruz estendeu a reforma aos frades Carmelitas.

Foram reformadas nessa época antigas ordens religiosas como a dos Beneditinos por Didier de la Cour e a Congregação de São Mauro na França; os Cistercienses por João Batista de la Barrière Abade de Notre-Dame de Feuillans; os Trapistas, por Rancé, Abade de Trappe; os Agostinianos foram reformados por Pedro Fourier; os Premonstratenses, por Lacruels (Lairvelz).CÂMARA, Jaime de Barros. Apontamentos de História Eclesiástica. Petrópolis: Vozes, 1957, 3a. ed. p.270

As Ordens e Congregações Religiosas no século XVI Além do Concílio de Trento, o segundo fator da verdadeira Reforma Católica, foram as Ordens e Congregações religiosas. O período quinhentista viu surgir uma florescência de congregações religiosas que muito cooperaram para o sucesso da Reforma.

A mais importante fundação religiosa, no entanto, neste século foi a da Companhia de Jesus por Santo Inácio de Loyola; os seus membros não viveriam uma vida monástica e não rezariam as "Horas" juntos no Coro (algo que escandalizou alguns membros da Cúria Romana). Aos três votos clássicos de pobreza, castidade e obediência acrescentariam o de estar sempre à disposição do Papa. A ordem foi aprovada pelo Papa Paulo III em 25 de setembro de 1540 pela Bula Regimini Militantis Ecclesiae.WOHL, Louis de. Op. cit. p.190 Quando o seu fundador morreu esta ordem contava com mais de mil membros e meio século depois com . Os jesuítas prestaram o mais relevante serviço ao Pontificado no trabalho da Reforma Católica com as suas missões, a formação do clero, os Exercícios Espirituais e a educação da juventude, na propagação da fé católica e no ensino da sua doutrina.McNall Burns p. 481, op.cit.