John Griffith Chaney (São Francisco, 12 de janeiro de 1876 – Califórnia, 22 de novembro de 1916), mais conheido como Jack London, foi um escritor, jornalista e ativista social estadunidense. Pioneiro no que era, então, o novo mundo das revistas comerciais de ficção, London foi um dos primeiros romancistas a obter celebridade mundial somente com suas histórias, além de uma grande fortuna. Dentre suas obras mais conhecidas, estão The Call of the Wild (), Before Adam (Antes de Adão), White Fang (Caninos Brancos) e The Sea Wolf (O Lobo do Mar).
Vida Vida familiar Os biógrafos de London acreditam que ele era filho do astrólogo William Chaney. A mãe de London, Flora Wellman, uma professora de música e espiritualista que alegava receber o espírito de um chefe indígena, vivia com Chaney em São Francisco e engravidou. Conforme um relato de Flora Wellman, registrado pelo San Francisco Chronicle de 4 de junho de 1875, Chaney exigiu que ela fizesse um aborto. Quando se recusou, Chaney negou qualquer responsabilidade pela criança. Ela, em desespero, atirou em si própria, ficando superficialmente ferida. Logo que o bebê nasceu, Flora entregou-o à ex-escrava Virginia Prentiss, que seria uma figura por toda a vida de London.STONE, Irving. A vida errante de Jack London. Rio de Janeiro: José Olympio, 1941, p. 30
No final de 1876, Flora Wellman se casou com John London, um veterano da Guerra da Secessão parcialmente incapacitado, e trouxe seu filho John ainda bebê, que mais tarde seria conhecido como Jack, para viver com ela e seu novo marido. A família se mudou várias vezes na área da Baía de São Francisco, até se fixar em Oakland, onde London completou seus estudos.
Em 1897, aos 21 anos e estudando na Universidade da Califórnia, em Berkeley, London procurou e encontrou as notícias de jornal sobre a tentativa de suicídio de sua mãe e o nome de seu suposto pai biológico. London escreveu para William Chaney, que então vivia em Chicago. Em 4 de junho de 1899, Chaney respondeu que não poderia ser o pai de London por ser impotente, dando a entender a London que sua mãe tivera relações com outros homens e que ela o caluniara ao dizer que ele insistira em um aborto:"Nunca me casei com Flora Wellman, mas vivi com ela de 11 de junho de 1874 a 3 de junho de 1875. Sofria eu nesse tempo os terríveis efeitos de muitas privações, dificuldades de vida e excessivo trabalho intelectual, sendo inteiramente platônicas as nossas relações. Portanto, não posso ser o seu pai nem lhe dizer com certeza quem seja ele. (…) O 'Chronicle' disse que eu a expulsei de casa porque ela não quis fazer o aborto. Essa notícia correu o país inteiro, reproduzida por toda a imprensa. Por causa dessa história, duas das minhas irmãs se tornaram minhas inimigas. Uma delas morreu ainda me julgando culpado. Todos os outros parentes, exceto uma irmã que mora em Portland, estão ainda contra mim e me apontam como a vergonha da família. Na época do escândalo, publiquei em folheto uma declaração da polícia em que se demonstrava a falsidade de muitas acusações levantadas contra a minha conduta, mas nem o 'Chronicle' nem os outros jornais que me difamaram quiseram desmanchar a calúnia. Desisti então de me defender e durante anos e anos a minha vida pesou como um fardo. Veio finalmente a reação e agora já tenho alguns amigos que me consideram homem de bem. Já passei dos 76 e vivo na pobreza."STONE, Irving. A vida errante de Jack London. Rio de Janeiro: José Olympio, 1941, p. 24-35.Chaney concluiu dizendo estar mais sentido que London. London ficou arrasado com a carta. Meses depois, ele deixou a universidade em Berkeley e foi para o Klondike. Uma observação: a certidão de nascimento de Jack London parece ter sido destruída nos diversos incêndios que se seguiram ao terremoto de São Francisco de 1906, e assim é impossível saber o nome de quem aparecia no documento como sendo o pai dele.
Infância e juventude London nasceu próximo às ruas Terceira e Brannan em São Francisco. A casa queimou em um incêndio após o terremoto de 1906 em São Francisco. A Sociedade Histórica da Califórnia instalou uma placa no local em 1953. Embora fosse uma família de classe trabalhadora, não era tão pobre quanto London alegaria em relatos posteriores. London foi, essencialmente, um autodidata.
Em 1885, ele leu Signa, o longo romance vitoriano de Ouida. Segundo ele, essa foi a semente de seu sucesso literário. E em 1886, na Biblioteca Pública de Oakland, ele encontrou uma simpática bibliotecária, Ina Coolbrith, que o encorajou a aprender (mais tarde, ela se tornaria a primeira poetisa premiada da Califórnia e figura importante na comunidade literária de São Francisco).
Em 1889, London começou a trabalhar de 12 a 18 horas por dia na fábrica de enlatados Hickmott's. Buscando uma saída, pegou dinheiro emprestado com sua mãe adotiva negra, Virginia Prentiss, comprou o pequeno barco a vela Razzle-Dazzle de um pirata de ostras chamado French Frank e se tornou ele próprio um pirata de ostras. Em seu romance John Barleycorn, ele alega ter roubado a amante de French Frank, Mamie. Após alguns meses, o barco ficou avariado demais para ser reparado. London foi contratado como membro da Patrulha Pesqueira da Califórnia.
Em 1893, depois de ter lido Moby Dick, de Herman Melville, se alistou para embarcar na escuna Sophie Sutherland, em viagem para a costa do Japão. Ao retornar, seu país vivia tempos turbulentos, com a crise de trabalho atingindo proporções desastrosas. Oakland era assolada por agitações trabalhistas. Após trabalhos extenuantes em uma fábrica de juta e numa usina de força para bondes, London se uniu à marcha de protesto de trabalhadores desempregados conhecida como "Exército de Kelly" e começou uma carreira como andarilho. Revelou-se um mestre na arte de viajar de trem de ferro como clandestino.K., O. Notícia sobre Jack London. O Silêncio Branco e outros contos. Rio de Janeiro: Ediouro, sem data, p. 19-20. Em 1894, passou 30 dias na penitenciária do condado de Erie, em Buffalo, por vadiagem. Em The Road (traduzido como "A Estrada" ou "Vagabundos cruzando a noite"), escreveu:"O açoite era meramente, de fato, um dos horrores menores e impublicáveis da penitenciária do condado de Erie. Eu digo 'impublicáveis', mas deveria dizer mesmo indescritíveis. Para mim, eram impensáveis até que os vi, mesmo não sendo eu nenhum novato nos caminhos do mundo, nem nos horrendos abismos da degradação humana. Seria preciso um mergulho profundo para chegar ao recôndito da penitenciária do condado de Erie, mas me restrinjo à leveza das coisas superficiais e jocosas, conforme as vi."Após várias experiências como vagabundo e marinheiro, London retornou a Oakland e se matriculou no Ginásio Oakland, contribuindo com diversos artigos para o jornal acadêmico, o Aegis. Seu primeiro trabalho publicado foi "Typhoon off the Coast of Japan" ("Tufão nas costas do Japão"), em que contava suas experiências de marinheiro. A história ganhou o primeiro lugar num concurso literário patrocinado pelo jornal San Francisco Call e lhe rendeu 25 dólares.BETTI, Maria Silva. Jack London, um homem de seu tempo. O povo do abismo. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abrano, jul. 2004, p. 14.
London queria desesperadamente cursar a Universidade da Califórnia, em Berkeley. Em 1896, após um verão de estudo intenso para passar nos exames de admissão, foi admitido. Circunstâncias financeiras forçaram-no a deixar a universidade em 1897 e ele nunca se formou. Não há indícios de que London tenha escrito para publicações estudantis enquanto estava em Berkeley.
A corrida do ouro e o primeiro sucesso Em 12 de julho de 1897, London, então com 21 anos, e seu cunhado James Shepard embarcaram para tomar parte na Corrida do Ouro do Klondike, que se tornaria o cenário de suas primeiras histórias de sucesso. A passagem de London pelo Klondike, contudo, prejudicou sua saúde. Como tantos outros homens mal alimentados nas lavras de ouro, London desenvolveu escorbuto. Suas gengivas incharam, fazendo com que perdesse seus quatro dentes da frente. Uma dor agonizante constante afligia seus quadris e os músculos de suas pernas e seu rosto ficou vincado por marcas que sempre o lembrariam de sua luta no Klondike.WATSON JR., Charles N. Prefácio. O filho do lobo. Lisboa: Antígona, 2001, p. 14-15. O padre William Judge, “o Santo de Dawson”, tinha instalações em Dawson onde oferecia abrigo, alimento e qualquer remédio que pudesse obter para London e outros. Seus esforços inspiraram um dos contos de London, "To Build a Fire" ("A fogueira"), que muitos críticos consideram o seu melhor.
Seus senhorios em Dawson eram os engenheiros de minas Marshall Latham Bond e Louis Whitford Bond, irmãos educados em Yale e Stanford e cujo pai, o juiz Hiram Bond, era um rico investidor em mineração. Os Bond, especialmente, Hiram, eram Republicanos ativos. O diário de Marshall Bond menciona contendas amistosas com London sobre questões políticas à guisa de passatempo.
London deixou Oakland com uma consciência social e inclinações socialistas e retornou para se tornar um ativista do socialismo, concluindo que sua única esperança de escapar à "armadilha" do trabalho era se educar e "vender seu cérebro". Para ele, escrever era um negócio, sua passagem para fora da pobreza e, esperava, um meio de vencer a abastança em seu próprio jogo. Ao retornar à Califórnia em 1898, London começou a trabalhar deliberadamente para ser publicado, um esforço que descreveu em seu romance Martin Eden. Sua primeira história publicada foi "To the Man On Trail", frequentemente incluída em antologias. Quando o The Overland Monthly ofereceu somente 5 dólares por sua história e demorou a pagar, London quase abandonou sua carreira de escritor. Em suas palavras, "fui salvo literalmente e literariamente" quando o The Black Cat aceitou sua história "A Thousand Deaths" ("Um milhar de mortes"), pagando 40 dólares.
London foi feliz ao escolher o momento de iniciar sua carreira de escritor. Foi justamente nessa época que novas tecnologias possibilitaram o surgimento de revistas com produção de baixo custo. Isso resultou em uma explosão de revistas populares voltadas para um grande de público e um forte mercado para contos. Em 1900, London ganhou 2 500 dólares escrevendo, algo em torno de 65 000 dólares em valores atuais. Sua carreira estava em bom caminho.
Entre os trabalhos que vendeu para revistas estava um conto conhecido tanto como "Batard" quanto "Diable", em duas edições de basicamente uma mesma história. Um franco-canadense cruel brutaliza seu cachorro. O cachorro reage e mata seu dono. London disse a alguns de seus críticos que as ações dos homens são a principal causa do comportamento de seus animais e que mostraria isso em outro conto.
Em 26 de janeiro de 1903, Jack London entregou o manuscrito concluído de The Call of the Wild ao The Saturday Evening Post. Em 12 de fevereiro, o editor concordou em comprar a história se London cortasse até cinco mil palavras e desse seu preço. Jack concordou e estabeleceu o preço em 0,03 dólar por palavra. Em 3 de março, recebeu um cheque de 750 dólares. Dois dias depois, a editora Macmillan comprou os direitos do livro por 2 000 dólares, com a promessa de promover uma extensa publicidade. Na época, pareceu um acordo muito sensato. Os livros anteriores de London não chegaram à lista dos mais vendidos e nem ele, nem o editor da Macmillan em Nova York, George Platt Brett, poderia prever se The Call of the Wild sair-se-ia muito melhor. Se naquela época Jack soubesse que seu livro se tornaria um clássico da literatura norte-americana, cujos royalties o fariam rico, a barganha teria sido diferente. Ainda assim, sem o extenso programa promocional, aquele poderia facilmente ter sido apenas mais um livro sobre cães. Isso nunca se saberá, mas Jack jamais se arrependeu de sua decisão, percebendo que a promoção extra da Macmillan fora um fator fundamental para seu sucesso.