O Château de La Roche-Guyon é um palácio francês localizado junto à margem esquerda do Rio Sena na comuna de La Roche-Guyon, departamento do Val-d'Oise, às portas da Normandia.
O antigo castelo forte em ruínas, dominado pela sua torre de menagem no alto duma colina, recebeu acrescentos importantes no século XVIII. No sopé da colina existe um jardim e horta à francesa: o jardim de hortaliças do Château de la Roche-Guyon.
Este Monumento Histórico, propriedade da Casa de La Rochefoucauld, é gerido actualmente por um estabelecimento público de cooperação cultural (EPCC), reagrupando o departamento do Val d’Oise, a comuna de La Roche-Guyon, a união mista de planeamento e gestão do Parque Natural do Vexin francês e o Estado.
História As origens
Provavelmente, existiu no local uma villa galo-romana por volta dos século III e IV, mas nenhuma descoberta atesta tal hipótese, embora o planalto do Vexin tenha sido ocupado desde a pré-história e se tenha assistido à implantação duma importante rede de villas galo-romanas no Vexin francês, particularmente em Rhus ou em Genainville. Nos primeiros tempos do Cristianismo, uma lenda conta que Pience, viúva do proprietário do domínio e a mais antiga personagem conhecida da história de La Roche, encontrou São Nicaise, o evangelizador do Vexin, contemporâneo de São Denis. Ela mandou, então, escavar um santuário no local do encontro, o qual seria a nave oeste da actual capela do palácio.
Uma pequena necrópole merovíngia desenterrada atesta a presença duma pequena comunidade humana durante a Alta Idade Média<ref>La Roche-Guyon, l'un des plus beaux villages de France, p. 8.</ref>.
No entanto, foi o Tratado de Saint-Clair-sur-Epte, concluido em 911, que colocou o lugar de La Roche numa posição estratégica excepcional de fronteira face ao Ducado da Normandia, na margem direita do Epte. Um castelo troglodita foi edificado para defender a Île-de-France, território real, no contexto da fortificação do Epte. Esta estrutura é descrita por Suger nestes termos: No alto dum promontório abrupto, dominando a margem do grande rio Sena, ergue-se um castelo horrível e sem nobreza chamado La Roche-Guyon. Invisível à sua superfície, encontra-se escavado na alta rocha. A hábil mão do construtor instalou na encosta da montanha, talhando a rocha, uma ampla residência provida de aberturas raras e miseráveis.Suger, Vie de Louis VI le Gros, 1125, citado em La Roche-Guyon, l'un des plus beaux villages de France, p. 8-10..
Cerca de 1190, foi edificada um torre de menagem, ligada ao castelo por uma escadaria subterrânea com uma centena de degraus escavados na falésia, dominando os vales do Sena e do Epte numa posição estratégica excepcional. No século XIII foi construído o solar em baixo, fazendo desaparecer pouco a pouco o castelo troglodita, com o conjunto a constituir, então, juntamente com a torre de menagem, uma notável fortaleza dupla.
Os Guy de La Roche
Os membros da família Guy de La Roche foram os senhores do feudo do século X ao século XV. No século XII, Guy de la Roche é um fiel vassalo do rei Filipe-Augusto, que esteve no castelo em 1185 e recompensou a sua lealdade concedendo-lhe o direito de portagem para os barcos que navegavam no Sena e, depois, o direito exclusivo de caça partilhada com o rei na floresta de Arthies. Este senhor esteve presente na Batalha de Bouvines, em 1214, ao lado do rei. O direito de portagem proporcionou importantes rendas à família de La Roche, mas as obrigações incumbiam-nos de garantir a navegabilidade do rio, a manutenção das margens, a dragagem e, a partir de 1480, a sirga dos naviosIbid., p. 15.. Durante a Guerra dos Cem Anos, Guy VI de la Roche, familiar do delfim, casou com Perrette de La Rivière, filha Bureau de La Rivière, primeiro camareiro dos reis Carlos V (que morreu nos seus braços"e entre os braços do senhor de La Rivière que muito claramente o amava, entregou o espírito a Nosso Senhor, à hora do meio-dia, no 24º dia de Setembro, o dito ano de 1380 e o 44º da sua idade, o 17º do seu reinado." (Cristina de Pisano, Faits et actes du sage Roy Charles Quint)) e Carlos VI. No entanto, este senhor de La Roche foi morto em Azincourt o da 25 de Outubro de 1415 e a sua viúva tomou partido pelos Armagnacs, como os seus vizinhos do Château-Gaillard e dos Deux-Goulets. Em 1419, Rouen, no dia 13 de Janeiro, e depois Vernon, a 3 de Fevereiro, e Mantes, a 8 de Fevereiro, caíram nas mãos dos ingleses. Um destacamento dirigido por Richard de Beauchamp, Conde de Warwick, foi enviado frente a La Roche, mas foi surpreendido pela teimosa resistência encontrada: o castelo revelou-se impenetrável. Depois dum cerco de seis meses, Henrique V de Inglaterra, que permanecia em Mantes, solicitou uma entrevista à dama Perette: no dia 20 de Junho, ela devia capitular, com os ingleses a ameaçar minar as caves. Ela recebeu a proposta de deixar o castelo, ou de prestar juramento, o que recusou. Os cronistas Jean Jouvenel des Ursins e Enguerrand de Monstrelet relatam: Então, disse-lhe o senhor rei, se ela queria para ela e os seis filhos que eram jovens, prestar-lhe juramento, ele deixar-lhes-ia, a ela e aos seus ditos filhos, os seus móveis, terras e senhorios; se não ele teria o seu lugar e os seus bens; mas ela, movida duma nobre coragem, preferiu perder tudo e ir-se embora, desprovida de todos os bens, ela e os seus filhos, que se meter com os seus filhos nas mãos dos inimigos do reino e deixar o seu soberano senhor; assim, partiu com os seus filhos desprovida de todos os seus bens.
Deste modo, o castelo foi finalmente ocupado pelos ingleses, em 1419, e Perette de La Rivière juntou-se então à corte do "Rei de Bourges". O Rei de Inglaterra confiou o senhorio a Guy le Bouteillier, que o conservou até 1439. O seu filho sucedeu-lhe até 1449, data em que o castelo foi finalmente retomado por Guy VII de La Roche, filho da dama PeretteIbid., p. 21-24..
Do Renascimento ao século XVII
Guy VII de La Roche faleceu em 1460 sem descendência masculina; em 1474, a sua filha Marie casou em segundas núpcias com o camareiro do rei Luís XI, Bertin de Silly. O feudo passou, então, para a família de Silly, que o manteve até 1628, período durante o qual começou uma importante fase de prosperidade. O castelo perdeu a sua função defensiva e transformou-se numa residência que acolhe personalidades célebres, entre as quais se incluem até os reis de França Francisco I e Henrique IVIbid., p 31. Em 1513, o feudo dos Silly é vasto: estende-se de Copières e Arthies a norte, até Rolleboise a sul, e de Aincourt e Guernes a leste, até Limetz a oeste. O senhor detém o direito de justiça e recolhe os impostos e receitas.
Em 1628, o domínio entra na posse da família Rohan-Chabot e, por fim, passa para a família La Rochefoucauld, em 1659, pelo casamento de Jeanne du Plessis-Liancourt com François VII de La Rochefoucauld (1634-1714). O palácio permaneceu nesta família até aos nossos dias, com excepção do período de 1816 a 1829, quando pertenceu aos Duques de Rohan.
O século XVIII
No século XVIII, foram empreendidos grandes trabalhos no castelo e na aldeia pelo Duque Alexandre de La Rochefoucauld (1690-1762), sexto filho de François VIII de La Rochefoucauld e de Madeleine Le Tellier de Louvois. Em seguida, estas obras foram prosseguidos pela sua filha, Marie-Louise de La Rochefoucauld (1716-1797), Duquesa de Enville. O velho solar de La Roche-Guyon, de origem medieval, já não satisfazia as necessidades do duque e da sua mãe, filha de Louvois, habituados aos faustos da Corte.
Em 1733, o castelo foi dotado duma entrada monumental barroca, aberta na sua muralha leste, a qual dá para uma grande escadaria que conduz à sala dos guardas e às salas de recepção. Em 1739, o cour d'honneur foi rodeado por alas comuns que substituíram os antigos edifícios medievais.
No entanto, o pátio baixo ainda conservava a sua aparência medieval, sendo, por isso, decidido renová-lo igualmente. O duque convidou o arquitecto Louis Villars, o qual edificou cavalariças a leste entre 1740 e 1745, muito semelhantes às do Château de Chantilly, tanto pelo seu estilo como pelas suas dimensões; a porta central é encimada por um cavalo esculpido por Jamay. Foi instalada uma grande grade de entrada, coroada pela coroa ducal e pelas armas dos La Rochefoucauld.
Dois pavilhões novos foram, em seguida, acrescentados ao castelo, o Pavilhão Villars (ou Pavilhão Fernand), no lugar duma antiga torre redonda, a leste e o Pavilhão de Enville, construído em "L" sobre um pátio, a oeste. Em 1741, foi criado um pequeno observatório no terraço ocidental.
O salão da duquesa é muito frequentado pelos grandes espíritos do Século das Luzes, como Turgot, que permaneceu no palácio durante sete meses, em 1776, depois da sua desgraça, Condorcet (em 1785 e 1791), o agrónomo inglês Arthur Young, o pintor Hubert Robert, que por um momento teve um atelier no palácio, ou ainda d'Alembert, os Choiseul e os RohanIbid., p 63..
No dia 2 de Outubro de 1793, Conselho Geral de Seine-et-Oise ordenou a destruição da torre de menagem a fim de evitar que ela caísse nas mãos dos contra-revolucionários. Um terço da torre de menagem foi arrasado, passando a medir não mais que os vinte metros dos nossos dias, mas o trabalho não foi acabado, pois os trabalhadores, ao que parece, logo se cansaram desta tarefa. As pedras caídas constituíram, então, materiais baratos e serviram para construir outros edifícios na aldeia, coisa corrente nessa época em que a pedra era rara e caraIbid., p. 70..
O século XIX Em 1819, Lamartine passou a semana santa em La Roche-Guyon, onde escreveu uma das suas Meditações Poéticas.
Em 1821, e depois em 1835, Victor Hugo esteve na aldeia; a primeira vez como convidado no palácio pelo Cardeal de Rohan, que le encontrara dois anos antes no Seminário de Saint-Sulpice, e catorze anos mais tarde no albergueIbid., p. 86-89..
O século XX
O Château de La Roche-Guyon foi ocupado, a partir de Fevereiro de 1944, pelo Estado-Maior do Generalfeldmarschall Erwin Rommel, o qual tinha sido nomeado anteriormente como responsável pela defesa das costas francesas contra o desembarque aliado que se anunciava. Aquele brilhante oficial escolheu o palácio como sede do seu quartel-general, devolvendo-lhe, assim, provisoriamente a sua vocação militar.
Foram escavados subterrâneos ao pé do penhasco, onde foram guardadas munições. Separados por espessas paredes de cré, são protegidos ainda por portas blindadas; foram ainda colocados pára-estilhaços em betão ao longo do palácio. O marechal Rommel instalou-se no Pavilhão de Enville, escolhendo como gabinete de trabalho o grande salão, prolongado pelo seu terraço plantado com roseiras. A família de La Rochefoucauld vivia, então, no andar superior. Segundo o testemunho dos habitantes locais, Rommel não era um nazi, não aparecendo na aldeia qualquer bandeira com a cruz suástica e sendo corrente apenas a saudação militar em vez da saudação hitleriana.
Desde o início de 1944, Rommel sabia que a derrota nazi era inevitável. No decorrer dum encontro secreto com Carl-Heinrich von Stülpnagel, comandante-em-chefe do exército alemão na França, os dois homens chegaram a acordo sobre a necessidade de reverter o regime nazi e de pôr fim à guerra. No entanto, as suas posições sobre os meios divergiam: Rommel temia uma guerra civil em caso de assassinato de Adolph Hitler. Durante as semanas que se seguiram, desenrolaram-se numerosos encontros secretos no palácio: quase todos os dias chegavam personalidades do Reich para se exprimirem livremente no oásis do Estado-Maior de Rommel, longe das garras da Gestapo.Hans Speidel, Invasion 44..