O Château de Maulnes é um palácio fortificado francês do século XVI, em Estilo Renascentista, que se situa em Cruzy-le-Châtel, no departamento de Yonne.
Este palácio não conhece equivalente na França, ou talvez no mundoe. Apresenta várias particularidades que o tornam único. Assim, construído duma só vez, entre 1566 e 1573, segundo uma planta pentagonal, foi muito pouco ocupado. Foi edificado em torno duma escadaria central e dum poço alimentado por três nascentes.
Desocupado no século XX, num estado de degradação avançado, foi adquirido pelo Conselho Geral de Yonne em 1997. Depois, foi objecto de estudos histórico e arqueológico, assim como de trabalhos de restauro que se devem prolongar por muitos anos. Está aberto ao público desde 2007.
História A "motte de Maulnes" O lugar, que parece ter sido ocupado desde o neolítico, é citado num texto de 863 sob o nome Molnitum.
Uma casa-forte, conhecida com o nome de "motte de Maulnes", tinah sido edificada pelos Condes de Tonnerre numa clareira da floresta de Maulnes, certamente no século XIII. Encontramos vestígios nos escritos da época, assim como em fotografias aéreas. Este edifício permitia aos condes dedicar-se à caça, por vezes em companhia de convidados ilustres, como o Duque da Borgonha Filipe II, o Bravo, que veio caçar em 1366 e 1374.
Na sequência duma querela entre o Conde de Tonnerre Louis II de Chalon e o Duque João Sem Medo, as tropas borgonhesas invadiram o condado em 1411. Em 1414, essas mesmas tropas destruiram os castelos do Tonnerrois, entre os quais o Château de Tanlay e o Château de Maulnes.
O projecto
Um século e meio mais tarde, a Condessa de Tonnerre Louise de Clermont e o seu marido, Antoine de Crussol, Duque de Uzès, são personalidades importantes, próximas da Corte de França e da Rainha Catarina de Médici. Louise de Clermont, viúva de François du Bellay, tinha casado com Antoine de Crussol em 1556.
Em 1566, o casal decidiu construir um palácio na floresta de Maulnes. Louise, então com 62 anos, era uma mulher inteligente e culta, formada na corte de Francisco I, rei apaixonado pela arquitectura. O seu próprio pai, Antoine III de Clermont, tinha confiado ao arquitecto Sebastiano Serlio, em 1541, a construção do Château d'Ancy-le-Franc, não longe de Moulnes.
A França atravessava, então, um período de acalmia que se sucedeu à Primeira Guerra de Religião, graças à assinatura do Tratado de Amboise, em 1563. Foi um período propício à realização deste projecto arquitectónico, com o qual o casal sonhava, sem dúvida, desde há vários anos.
Antoine de Crussol, que acabava de ser feito Duque de Uzès em Maio de 1565, não possuía uma residência digna do seu estatuto no condado. Agora tinha que afirmar a sua autoridade através dum edifício capaz de atingir a imaginação. O palácio, símbolo do seu poder, devia poder rivalizar com os seus vizinhos Château d'Ancy-le-Franc e Château de Tanlay, então em construção. Se tal não podia ser alcançado pelo seu tamanho, sê-lo-ia pela sua beleza e originalidade arquitectónica.
A localização do futuro palácio na floresta justifica-se, em primeiro lugar, pela sua função ligada à caça, mas igualmente - e talvez sobretudo - pelo papel que terá na exploração das vastas florestas da região. A venda de madeira de aquecimento em Paris era, então, o recurso mais importante do condado e o casal tinha a intenção de melhorar a gestão.
A construção (1566-1573)
Foi no dia 7 de Maio de 1566 que Antoine de Crussol assinou, em frente do notário, os contratos que o ligaram a um mestre pedreiro e a um mestre carpinteiro, fornecendo-lhes planos detalhados do edifício a construir. Jean Cosquino, Senor de Fulvy e testmunha da assinatura, foi confiada a gestão do estaleiro, com o título de Governador do Château de Maulnes.
Rapidamente, a partir de 1567, abre-se um novo período de turbulência para o reino. Em Fevereiro de 1568, o exército do Príncipe de Condé ocupou os arrabaldes de Tonnerre e cercou a cidade, que teve que pagar, finalmente, um resgate. Em Novembro, as tropas católicas tomaram Noyers enquanto os huguenotes tomavam Vézelay no início de 1569, sendo logo cercados pelas tropas reais. Em Março, o exército do Duque de Zweibrücken atravessou a Bretanha para vir em socorro da guarnição de Vézelay. Em Julho foi o exército do Marechal de Cossé que passou pelo Tonnerrois.
Apesar do clima pouco seguro, o estaleiro progrediu. Em Setembro de 1569, Louise de Clermont instalou-se em Maulnes, mandando mobilar o edifício. Antoine de Crussol juntou-se-lhe em Janeiro de 1570. O logis estava, então, terminado, mas não os edifícios anexos. O segundo estaleiro pode ter começado em Agosto de 1570, após a partida dos Crussol, que se juntaram à corte na sua via itinerante.
Em 1572, Antoine de Crussol foi feito Par de França pelo seu Ducado de Uzès. No entanto, o futuro era sombrio, sendo a tensão particularmente forte entre católicos e protestantes. NO dia 24 de Agosto de 1572, Galiot de Crussol, irmão de Antoine, fez parte das vítimas do Massacre da noite de São Bartolomeu. Em Outubro, Antoine e Louise permanecem um mês em Maulnes. Louise parte para o Languedoc, enquanto Antoine regressa a Paris. De Janeiro a Julho de 1573, o duque participou no Cerco de La Rochelle, mas regresou exausto e doente, vindo a morrer no dia 14 de Agosto daquele ano.
Os Clermont-Tonnerre (1573-1697)
Viúva pela segunda vez, Louise de Clermont prosseguiu a sua vida itinerante entre Paris, Tonnerre, Ancy-le-Franc e Maulnes, cujo estaleiro está agora abandonado. A partir de Maio de 1575, não regressou mais a Maulnes, mas instalou ali dois homens de confiança.
Em 1576, Jacques Androuet du Cerceau publicou o primeiro volume dos Plus Excellents Bastiments de France ("Mais Excelentes Edifícios de França"), obra que apresenta 30 edifícios que o autor julga excepcionais. O Château de Maulnes, do qual publicas as plantas, é um deles.
Nos anos que se seguiram, Louise teve que enfrentar a longos processos de sucessão, tendo contra ela tanto a família do seu primeiro marido como a do segundo.
Com 92 anos de idade, acabou por falecer em Maio de 1596 no Hôtel-Dieu de Tonnerre, fundado por Margarida da Borgonha.
Louise de Clermont morreu sem filhos, enquanto os problemas de herança mais antigos não estavam resolvidos. Por fim, em Março de 1606, o seu sobrinho-neto Charles-Henri de Clermont, herdeiro mais directo e legatário de Louise, chega a acordo com as diferentes partes. Mediante o pagamento duma forte indemnização, tornou-se Conde de Tonnerre, de Cruzy e de Maulnes.
Tomando posse de Maulnes, Charles-Henri procedeu a alguns trabalhos, em 1610, com a criação do tecto da grande sala.
O novo titular preparou a sucessão separando Maulnes e Cruzy, elevado a marquesado, que doou ao seu filho mais novo, dos condados de Clermont e de Tonnerre, que destinou ao seu filho mais velho.
No entanto, depois da sua morte, em 1640, o deu filho mais velho, François de Clermont, tornado Conde de Tonnerre, reivindicou uma parte das propridades do seu irmão Roger como tendo pertencido sempre ao Condado de Tonnerre. No mesmo ano, o seu representante tomou posse, simbolicamente, do Château de Maulnes. Não se sabe se Maulnes foi então habitado e detido por um ou outro irmão. Uma gravura de Israël Silvestre, executada cerca de 1650, mostra o palácio num estado de abandono. Um decreto do parlamento, datado de 1658, dá razão a Roger, Marquês de Cruzy. Apesar de tudo, François e os seus descendentes continuaram a intitular-se Senhores de Maulnes.
Entre 1650 e 1670, foram empreendidas modificações e reparações em Maulnes, muito provavelmente por Roger de Clermont, que tinha regressado dos exércitos da Flandres em 1647.
Os Louvois (1697-1844)
Entre 1683 e 1685, o Marquês de Louvois comprou o Condado de Tonnerre a François-Joseph de Clermont, neto de François.
Louvois faleceu em 1691 e a sua viúva, Anne de Souvré, continuou as aquisições. No dia 8 de Junho de 1697, comprou Maulnes e Cruzy à viúva do segundo Marquês de Cruzy, filho de Roger, que passava por dificuldades financeiras. A heranla de Louise de Clermont estava novamente reunida, agora nas mãos de Anne de Souvré.
A nova proprietária mandou, então, desenhar um plano detalhado da floresta Maulnes e executar uma lista precisa das terras, bosques e proximidades que a compunham. Esses documentos viriam a desaparecer no decorrer do século XIX. Mulher inteligente e apreciada pelos seus contemporâneos, a Marquesa de Louvois faleceu em Dezembro de 1715. A sucessão só foi regulada seis anos mais tarde e o Château de Maulnes foi novamente deixado ao abandono.
Em 1721, foi o filho mais velho de Louvois, Michel-François Le Tellier, Marquês de Courtanvaux, quem herdou o Condado de Tonnerre. Contudo, o novo proprietário faleceu logo de seguida e foi a sua nora, Anne-Louise de Noailles, quem ficou com a tutela do seu neto, então com dois anos, até à maioridade deste.
Em 1723, um decreto do Conselho Real das Finanças autorizou a flutuação da madeira de Maulnes em direcção a Paris, pelos rios Armançon, Yonne e Sena. O palácio e as suas dependências acolheram, portanto, uma pequena comunidade relacionada com essa actividade: guardas florestais e condutores. Quando atingiu a maioridade, em 1744, François-César Le Tellier de Courtanvaux continuou o negócio da sua mãe.
Em 1775, os mercadores de madeira que ocupavam o palácio obtiveram do marquês a autorização para abrir uma oficina de fabrico de vidro (verrerie), actividade mais rentável que a venda de madeira, cujo encaminhamento até ao Armançon ficava dispendiosa. Fabricaram vidros de janelas e, depois, agrrafas. Em 1779, é feita menção à Verrerie de Maulnes. Esta transformação afectou Maulnes significativamente, com a modificação dos comuns, a construção de anexos e o desbaste progressivo da floresta.
Em 1781, o marquês faleceu sem herdeiros directos. O seu primo Louis Le Tellier de Souvré tornou-se Conde de Tonnerre, mas ele próprio faleceu coberto de dívidas em 1785. A sua viúva, M.J. Henriette Victoire de Bombelles, exerceu a tutela em nome do seu filho, de dois anos de idade. Ela conseguiu atravessar a Revolução Francesa e recuperar os seus bens, os quais administrou até à sua morte, em 1822.
Em 1806, uma nota redigida pelo sub-prefeito de Tonnerre descreve a qualidade do trabalho da Verrerie de Maulnes, tanto nos procediemntos como na produção, que se eleva a 300.000 garrafas por ano. No entanto, a fábrica só podia funcionar seis meses por ano porque faltava madeira, uma vez que a floresta de Maulnes não a fornecia em quantidades suficientes.
Quando tomou em mãos a direcção da fábrica, em 1819, Louis Le Tellier de Souvré era uma personalidade importante: tornado Par de França sob a Restauração, casou em 1814 com Athénaïs Grimaldi, filha de Joseph Grimaldi e sobrinha do Príncipe do Mónaco Honorato III Grimaldi.
Em 1819, a produção tinha dobrado e a fábrica empregava uma centena de trabalhadores, sem contar com os lenhadores e os condutores.
A partir de 1824, Maulnes foi arrendado a François Vallory, um mestre vidreiro vindo de Bayel. Em 1834, o Marquês de Louvois, arruinado, vendeu Maulnes e o seu domínio, que ele dividiu em três lotes. François Vallory comprou o palácio e uma parte da floresta, mas, também arruinado, o mestre vidreiro teve que fechar Maulnes em 1844, no mesmo ano da morte do marquês.
O abandono (1844-1997)