A queima de livros é o ato ritual, geralmente praticado num local público, de se queimar livros ou outras formas de registros escritos que destoem da ideologia social dominante, numa forma de censura. Em alguns casos, os livros queimados são insubstituíveis, constituindo-se numa severa perda para o patrimônio cultural da humanidade, como nos casos das destruições da biblioteca de Bagdá (1258), da queima de livros durante a dinastia Qin chinesa e da destruição de documentos efetuada pelo imperador asteca Itzcóatl.

Em outros casos, como a queima de livros na Alemanha Nazista, cópias dos livros destruídos ainda existem, mas a queima ainda permanece como símbolo de um regime opressivo que procurou silenciar e censurar um aspecto da cultura da nação.

A queima de livros pode ser um ato de desprezo em relação ao autor ou ao conteúdo do livroː nesse caso, o ato visa a dar maior notoriedade a essa opinião. Como exemplos, podem ser citadas a queima de livros de Wilhelm Reich pela Administração de Alimento e Remédio dos Estados Unidos e a controvérsia da queima do Alcorão de 2010.

A queima de livros, em muitos casos, está relacionada à queima de objetos de arte em geral. Na história No Reino de Judá De acordo com o Tanach, no século VII a.C., o rei Joaquim de Judá queimou um trecho de um manuscrito que havia sido ditado pelo profeta Jeremias a Baruch ben Neriah.capítulo 36 do Livro de Jeremias Na China

Na dinastia Qin, entre 213 e 206 a.C., livros que fossem contrários à ideologia legalista dominante foram queimados. No cristianismo Depois do Primeiro Concílio de Niceia (325), o imperador romano Constantino publicou um édito contra o arianismo que incluía a queima sistemática de livrosː

De acordo com Elaine Pagelsː

Cirilo de Alexandria queimou todos os livros de Nestório logo após 435.

De acordo com a crônica de Fredegário, Recaredo I, rei dos visigodos, que reinou entre 586 e 601 e que foi o primeiro rei católico da Espanha, após sua conversão ao catolicismo em 587, ordenou que todos os livros arianos fossem recolhidos e queimados, junto com as casas nas quais eles houvessem sido intencionalmente armazenados.Duncan McMillan, Wolfgang van Emden, Philip E. Bennett, Alexander Kerr, Société Rencesvals, Guillaume d'Orange and the chanson de geste: essays presented to Duncan McMillan in celebration of his seventieth birthday by his friends and colleagues of the Société Rencesvals, University of Reading, 1984.GIBBON, E. A História do Declínio e Queda do Império Romano. Biblioteca de Alexandria

A biblioteca de Alexandria, a maior biblioteca do mundo antigo, que foi criada em 300 a.C. e que continha uma coleção de mais de 9 000 manuscritos, foi queimada em data ainda não plenamente esclarecida. Queima dos manuscritos judaicos em 1244 Em 1244, como consequência da disputa de Paris, edições do Talmude e de outros manuscritos judaicos que enchiam 24 carruagens foram queimadas nas ruas da cidade.Rodkinson, Michael Levi (1918). The history of the Talmud, from the time of its formation, about 200 B. C. Talmud Society. pp. 66–75.Maccoby, Hyam (1982). Judaism on Trial: Jewish-Christian Disputations in the Middle Ages. Associated University Presses. Inquisição Espanhola Em 1499, em Granada, a Inquisição espanhola queimou 5 000 manuscritos árabes.The guardian. Disponível em https://www.theguardian.com/books/2010/sep/10/book-burning-quran-history-nazis. Acesso em 19 de julho de 2016. Queima dos manuscritos maias e astecas nos anos 1560 Durante a colonização da América e logo após a mesma, muitos manuscritos das populações ameríndias foram destruídos. Em particular, muitos manuscritos maias foram destruídos pelos conquistadores espanhóis durante a Conquista do Iucatã, no século XVI. A esse respeito, o bispo Diego de Landa escreveuː

Queima de traduções da Bíblia de Lutero na Alemanha Nos anos 1640, traduções da Bíblia feitas por Martinho Lutero foram queimadas em regiões católicas da Alemanha. Queima de livros protestantes na Áustria Nos anos 1730, o arcebispo de Salzburgo supervisionou a queima de todos os livros protestantes que conseguiu encontrar. Queima da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos A Biblioteca do Congresso foi fundada em 1800, 24 anos após os Estados Unidos se tornarem independentes da Inglaterra. Em 1813, 3 000 livros da biblioteca foram usados pelas forças inglesas para incendiar o Capitólio dos Estados Unidos durante a Batalha de Washington. Murray, Stuart (2009). The Library: An Illustrated History. Chicago, IL: Skyhorse Publishin. p. 158. ISBN 9781616084530. Sociedade Novaiorquina para a Supressão do Vício A Sociedade Novaiorquina para a Supressão do Vício, uma organização fundada em 1873 para combater a imoralidade, tinha, como símbolo, um desenho representando a queima de livros. Na União Soviética Dos anos 1920 em diante, os da União Soviética queimaram um número indeterminado de obras literárias "decadentes" do ocidente.

Na Alemanha Nazista

Em 1933, logo após a chegada ao poder de Adolf Hitler, foram realizadas queimas de livros considerados contrários à ideologia nazista dominante em praças de várias cidades alemãs. No Macartismo Durante o macartismo da década de 1950, muitas bibliotecas dos Estados Unidos queimaram livros considerados comunistas. No Chile

Em 1973, durante a ditadura Pinochet no Chile, centenas de livros foram queimados numa forma de censura.

No Sri Lanka Em 1981, forças policiais e paramilitares do Sri Lanka incendiaram a biblioteca pública de Jaffna, que contava com 100 000 livros e raros documentos tâmeis, durante um pogrom contra a minoria tâmil.Knuth, Rebecca. Burning Books and Leveling Libraries: Extremist Violence and Cultural Destruction. Praeger Publishers, 2006, p. 84. Na Bósnia Durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), as forças sérvias destruíram bibliotecas e outros locais de relevância cultural na Bósnia com o propósito de destruir a cultura muçulmana da Bósnia.Battles, Matthew. Library: An Unquiet History. Waterville, Maine: Thorndike Press, 2003. Na Austrália Em 2009, seguidores do culto "medicina universal" da cidade de Mullumbimby, em Nova Gales do Sul, na Austrália, queimaram seus livros de acupuntura, cinesiologia, homeopatia e outras medicinas alternativas numa pira.Leser, David (August 25, 2012). "The Da Vinci Mode". Sydney Morning Herald. Retrieved 2015-01-05. Disponível em http://www.smh.com.au/lifestyle/the-da-vinci-mode-20120819-24h50

Na era digital Atualmente, grande quantidade de documentos está registrada em formato digital. Isso faz com que a deleção desses registros seja considerada uma nova forma de queima de livros.Ruggiero, Lucia. (n.d.). Digital books; could they make censorship and "book burning" easier? Digital Meets Culture. Retrieved October 22, 2015, from http://www.digitalmeetsculture.net/article/digital-books-could-they-make-censorship-and-book-burning-easier/

Na religião No siquismo, as edições muito velhas do livro sagrado Guru Granth Sahib são cremadas.

Na arte Na parte II da peça teatral "Tamburlaine" (1587-1588), de Christopher Marlowe, o protagonista Tamburlaine queima um exemplar do Alcorão após conquistar a Ásia Menor e o Egito. Com isso, declara sua independência em relação às divindades, o que acaba ocasionando sua doença fatal e o fim da peça. No clássico da literatura espanhola Dom Quixote (1605), os amigos de dom Quixote queimam seus livros de cavalaria, por julgarem que eles seriam os responsáveis pela loucura de dom Quixote. Na sua peça "Almansor" (1821), Heinrich Heine escreveu, se referindo à queima do Alcorão pela inquisição espanholaː "Onde se queimam livros, no final estarão se queimando, também, seres humanos". Um século depois, os livros do autor seriam queimados pelos nazistas.The Guardian. Disponível em https://www.theguardian.com/books/2010/sep/10/book-burning-quran-history-nazis. Acesso em 22 de julho de 2016. O conto "Holocausto da Terra" (Earth's Holocaust), que faz parte do livro "Musgos de uma mansão antiga" (Mosses from an old manse) (1846), de Nathaniel Hawthorne, fala sobre uma sociedade que queima tudo o que ela acha ofensivo, incluindo sua literatura. No livro Viagem ao Centro da Terra (1864), de Júlio Verne, o protagonista Axel sugere, ao professor Lindembrock, que eles façam uma pesquisa mais aprofundada sobre os textos de Arne Saknussemm antes de eles tentarem repetir sua aventura. O professor, então, lhe responde que essa pesquisa será impossível, pois Saknussemm se indispôs com os líderes de seu país e, como consequência, todos os seus livros foram queimados após sua morte. No livro Anne of Green Gables (1908), a cuidadora de Anne queima o livro de Anne que contém o poema The Lady of Shalott, como punição por Anne ler em vez de cumprir suas obrigações domésticas. No filme Der alte und der junge König ("O velho e o jovem rei") (1935), feito na Alemanha nazista, o rei Frederico Guilherme I da Prússia é visto jogando, ao fogo, os livros em francês adorados por seu filho (o futuro Frederico II da Prússia), bem como a flauta deste. O filme apresenta a queima como um ato necessário ao fortalecimento moral do príncipe. No livro 1984 (1949), de George Orwell, o "buraco da memória" é usado para queimar qualquer livro ou texto que seja inconveniente para o regime em vigor. O livro Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury, tem, como protagonista, Guy Montag, que tem, como ofício, queimar livros (451 graus Fahrenheit, o equivalente a 233 graus Celsius, é, segundo o autor, a temperatura em que o papel começa a queimar. Segundo os cientistas, tal temperatura pode variar entre 440 e 470 graus Fahrenheit.). Em 1956, o autor disse que o livro era um alerta sobre a possibilidade de se iniciar uma queima de livros durante o vigente macartismo. Em 2007, no entanto, o autor mudou de ideia, e disse que a crítica do livro era em relação à perda do interesse pela leitura entre a população motivada pela chegada da televisão. Nas novelas do detetive Pepe Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003), o protagonista queima, toda noite, um livro de sua imensa biblioteca, visando a exprimir seu desencanto diante da vida. Na conclusão de O Nome da Rosa (1980), de Umberto Eco, a biblioteca que é o cenário principal da história é totalmente queimada. No filme Footloose (1984), o reverendo Moore vê moradores da cidade queimando livros que eles julgam serem prejudiciais às crianças. Ele, então, ordena que os moradores parem, pois compreende que a lei contra música e dança na cidade havia ficado fora de controle. No jogo eletrônico Myst (1993), a única maneira de destruir a ligação para uma Era é destruir seu Livro Descritivo, geralmente queimando-o. O episódio The needs of Earth da série de televisão Crusade (1999) mostra um mundo que destruiu toda sua herança cultural (arte, música, literatura) e que persegue todas as pessoas que ainda possuam um resquício dessa herança. Em um episódio do mangá Fullmetal Alchemist (2001-2010), os homúnculos queimam uma seção de biblioteca para impedir que Edward obtenha informações sobre a pedra filosofal. O filme Equilibrium (2002) mostra uma sociedade distópica que eliminou todas as emoções e que queimou tudo que pudesse causar emoção.