A Terceira Guerra Púnica foi a terceira e última de três guerras travadas entre Roma e Cartago. As duas potências lutaram pela supremacia por quatro anos em confrontos inteiramente dentro do território cartaginês no Norte da África. A Segunda Guerra Púnica tinha acabado em e um dos termos de paz proibia Cartago de guerrear sem a permissão de Roma. O rei númida Massinissa, aliado romano, explorou essa proibição e atacou o território cartaginês repetidas vezes com impunidade. Cartago enviou em um exército sob Asdrúbal contra Massinissa apesar dos termos do tratado. Esta campanha terminou em desastre na Batalha de Oróscopa, com o exército cartaginês se rendendo. Facções anticartaginesas em Roma usaram essa ação como pretexto para o envio de uma expedição punitiva.

Um grande exército romano desembarcou em Útica mais tarde, em . Os cartagineses esperavam aplacar os romanos, porém estes seguiram para cercar a cidade de Cartago apesar dos cartagineses terem rendido todas as suas armas. A campanha romana sofreu vários reveses no mesmo ano, aliviados apenas por Cipião Emiliano, um oficial de médio escalão que se distinguiu várias vezes. Um novo comandante assumiu em , mas os resultados romanos continuaram igualmente ruins. Cipião recebeu um apoio popular tão grande durante as eleições consulares de que as restrições de idade foram ignoradas para que ele pudesse ser nomeado cônsul e comandante na África.

Cipião logo aumentou a pressão no cerco. Os cartagineses reconstruíram parcialmente sua frota e surpreenderam os romanos em uma surtida; o confronto foi inconclusivo, mas os cartagineses perderam muitos navios na retirada. Os romanos então construíram uma grande estrutura na área do porto, mais alta que as muralhas da cidade. Cipião liderou uma força que invadiu o acampamento do exército cartaginês e forçou a maioria das cidades próximas a se renderem. O ataque final ocorreu em , com os romanos sistematicamente destruindo Cartago e matando seus habitantes no decorrer de seis dias; os sobreviventes foram vendidos como escravos. Os territórios cartagineses conquistados se tornaram a província da África Proconsular. Cartago foi reconstruída como uma cidade romana, um século depois.

Fontes primárias A principal fonte para quase todos os aspectos das Guerras Púnicas é o historiador Políbio, um grego originalmente enviado a Roma em como refém. Seus trabalhos incluem um agora quase perdido manual sobre táticas militares, porém ele é mais conhecido por Histórias, escrito em algum momento após . Políbio acompanhou o general romano Cipião Emiliano, seu amigo e patrono, durante suas campanhas na Terceira Guerra Púnica; isto faz com que o normalmente confiável Políbio reconte as ações de Cipião sob uma luz favorável. Além disso, partes significativas de Histórias sobre a Terceira Guerra Púnica se perderam.

O relato do cronista romano Lívio do , que muito se baseou em Políbio, também é usado por historiadores modernos sobre as Guerras Púnicas, mas tudo que sobreviveu de seus relatos dos eventos após é uma lista de conteúdos. Outros relatos antigos sobre a Terceira Guerra Púnica ou seus participantes que também já foram perdidos são aqueles escritos por Plutarco, Cássio Dião e o grego Diodoro Sículo. Historiadores modernos também usam o relato do grego Apiano do . O historiador moderno Bernard Mineo afirmou que este "é o único relato completo e contínuo desta guerra". Acredita-se que Apiano também muito se baseou no trabalho de Políbio, porém vários problemas foram identificados. Estas questões significam que, das três Guerras Púnicas, a terceira é aquela da qual menos se conhece de forma confiável. Outras fontes incluem moedas, inscrições, evidências arqueológicas e evidências empíricas vindas de reconstruções.

Antecedentes Roma era a potência dominante na região do Mar Mediterrâneo em meados do , enquanto Cartago era uma grande cidade-Estado localizada no Norte da África. As duas lutaram durante 23 anos na Primeira Guerra Púnica entre 264 e e depois por dezessete anos na Segunda Guerra Púnica de 218 a . Ambas as guerras terminaram em vitórias romanas, com a segunda terminando especificamente quando o comandante romano Cipião Africano derrotou o comandante cartaginês Aníbal na Batalha de Zama, aproximadamente 160 quilômetros ao sudoeste da cidade de Cartago. Cipião impôs um tratado de paz sobre os cartagineses que os despojou de todos os seus territórios de além mar e também alguns de seus africanos. Uma indenização de dez mil talentos de prata deveria ser paga no decorrer de cinquenta anos. Reféns foram tomados e Cartago foi proibida de guerrear fora da África e na África apenas com expressa permissão romana. Muitos cartagineses queriam rejeitar o tratado, mas Aníbal o defendeu e ele acabou firmado na primavera de . Ficou claro depois disso que Cartago estava politicamente subordinada à Roma.

thumb|upright=1.0|esquerda|Moeda de Massinissa Massinissa, um aliado de Roma, emergiu como o mais poderoso governante entre os númidas, a população nativa do Norte da África. Pelos cinquenta anos seguintes ele repetidas vezes aproveitou-se da proibição cartaginesa de guerrear. Roma sempre apoiou Massinissa e recusou todas as vezes que Cartago peticionou por compensação ou permissão para uma ação militar. Os ataques e saques de Massinissa dentro do território cartaginês tornaram-se cada vez mais descarados. Cartago formou um grande exército em sob o comando do previamente desconhecido Asdrúbal, que contra-atacou os númidas apesar dos termos do tratado. Esta campanha terminou em desastre na Batalha de Oróscopa e o exército se rendeu; muitos cartagineses foram depois massacrados pelos númidas. Asdrúbal conseguiu escapar e voltar para Cartago, onde, para tentar aplacar Roma, ele foi condenado à morte.

Cartago terminou de pagar a indenização em e estava na época prosperando economicamente, mas mesmo assim não era uma ameaça militar a Roma. Porém, há muito existia uma facção dentro do Senado Romano que desejava uma ação militar contra Cartago. Por exemplo, o desdém por Cartago pelo senador Marco Pórcio Catão era tão conhecido que desde o ele é lembrado por terminar todos os seus discursos com a frase "Carthago delenda est" ("Cartago deve ser destruída"). A facção oposta incluía o senador Cornélio Cipião Násica, que argumentava que um inimigo forte como Cartago manteria as pessoas comuns sob controle e evitaria divisão social. Catão participou de uma embaixada para Cartago provavelmente em e percebeu seu crescimento militar e econômico; Násica provavelmente também participou dessa embaixada. Roma começou a preparar uma expedição punitiva usando a ilícita operação militar cartaginesa como pretexto.

thumb|upright=1.0|Duplo xéquel da última cunhagem de Cartago antes de sua destruição Acadêmicos modernos já levantaram várias teorias sobre o motivo de Roma querer uma guerra. Estas incluem: temor da competição comercial cartaginesa; desejo de prevenir uma guerra mais ampla que poderia estourar com a morte de Massinissa, que na época tinha 89 anos; uso faccionário de Cartago como um "bicho-papão" político, independentemente de seu verdadeiro poder; ganância por glória e pilhagem; e desejo de extinguir um sistema político considerado um anátema. Não há nenhum consenso sobre essas e outras hipóteses. Embaixadas cartaginesas tentaram negociar com Roma, que respondeu evasivamente. A grande cidade portuária norte-africana de Útica, aproximadamente 55 quilômetros ao norte de Cartago, passou para os romanos em . O Senado e a Assembleia Popular de Roma, cientes que esse porto muito facilitaria um ataque contra Cartago, declararam guerra.

Os romanos elegiam anualmente como magistrados dois cônsules que também podiam liderar um exército em tempos de guerra; seus mandatos poderiam ser estendidos ocasionalmente. Um grande exército romano desembarcou em Útica em sob os dois cônsules daquele ano: Mânio Manílio comandando o exército e Lúcio Márcio Censorino a marinha. Os cartagineses continuaram a tentar aplacar os romanos e enviaram uma embaixada para Útica. Os cônsules exigiram a rendição de todas as armas, algo que foi relutantemente cumprido. Grandes comboios levaram enormes quantidades de equipamentos de Cartago para Útica. Registros que sobreviveram ao tempo afirmam que incluíam vinte mil conjuntos de armadura e duas mil catapultas. Todos os navios de guerra cartagineses navegaram para Útica e foram queimados no porto. Censorino, assim que os cartagineses estavam desarmados, exigiu que os habitantes de Cartago abandonassem sua cidade e se mudassem para dezesseis quilômetros longe do mar; Cartago seria então destruída. Os cartagineses abandonaram as negociações e se prepararam para defender sua cidade.

Forças thumb|esquerda|upright=1.0|Defesas de Cartago A cidade de Cartago era incomumente grande para a época: historiadores modernos estimam que sua população ficava entre noventa e oitocentos mil habitantes. Qualquer número dentro desta margem faria de Cartago uma das cidades mais populosas na região do Mar Mediterrâneo na época. Ela era muito bem fortificada com muralhas de mais de 35 quilômetros de circunferência. Protegendo a principal área de aproximação por terra estavam três linhas de defesa, das quais a mais forte era uma muralha de tijolos com nove metros de grossura e entre quinze e vinte metros de altura, mais um fosso de vinte metros de largura localizado na sua frente. Alojamentos capazes de abrigar mais de 24 mil soldados foram construídos dentro dessa muralha. Cartago tinha poucas fontes confiáveis de água, mas possuía um complexo sistema para pegar e canalizar água da chuva e muitas cisternas para armazená-la.

Os cartagineses levantaram uma força entusiástica para guarnecer a cidade a partir de seus cidadãos e da libertação dos escravos dispostos a lutar. Eles também formaram um exército de campo com pelo menos vinte mil homens sob o comando de Asdrúbal, libertado de sua sentença de morte. O exército ficava em Néferis, 25 quilômetros ao sul de Cartago. Apiano afirmou que o exército romano tinha 84 mil soldados; historiadores modernos estimam que tinha na verdade entre quarenta e cinquenta mil homens, dos quais quatro mil eram de cavalaria.

Guerra 149 a.C.

O exército romano seguiu para Cartago e tentou sem sucesso escalar suas muralhas, se contentando com um cerco. Eles estabeleceram dois acampamentos: Censorino ficou protegendo os navios romanos, enquanto Manílio abrigou as legiões. Asdrúbal moveu seu exército para perturbar as linhas de suprimentos e grupos de forrageamento romanos. Estes lançaram mais um ataque contra a cidade, novamente derrotado pelos cartagineses. Cipião Emiliano, neto adotado de Cipião Africano que estava servindo como tribuno, uma patente de médio escalão, segurou seus homens e conseguiu usá-los para barrar os cartagineses em perseguição, impedindo maiores perdas.

thumb|upright=0.7|Estátua de Cipião Emiliano O acampamento estabelecido por Censorino estava localizado em um local ruim, ficando tão pestífero no início do verão que precisou ser movido para uma localização mais saudável. Entretanto, este local não era defensável e os cartagineses infligiram grandes perdas à frota romana com brulotes. Os romanos em resposta construíram fortificações adicionais para dificultar esses tipos de ataque. Os cartagineses mesmo assim continuaram a atacar os acampamentos. Cipião distinguiu-se ainda mais por sua atuação durante esses ataques, combates muitas vezes confusos; a disciplina que ele impôs entre suas tropas contrastava com o comportamento da maioria do resto do exército romano.