O Palácio de Diocleciano (em croata: Dioklecijanova palača) foi a residência imperial fortificada construída pelo imperador Diocleciano na costa da Dalmácia com o fim de para ali se retirar após a sua abdicação voluntária em 305. É um dos edifícios mais bem conservados da Antiguidade Tardia e os seus vestígios estão preservados no coração histórico de Split, na Croácia. Contrariamente a uma lenda popular, a cidade - Espalato () - deve o seu nome ao da vizinha cidade grega de Aspalato - "arbusto branco" - e não ao termo latino para palácio - palatium.

O imperador Diocleciano viveu neste palácio o essencial dos últimos anos da sua vida e, quando faleceu, o seu corpo foi depositado num sarcófago colocado dentro do mausoléu que ali tinha mandado construir.

O Palácio de Diocleciano é um testemunho excepcional da encenação arquitectónica da ideologia tetrárquica que não sobreviveu ao seu fundador. Reunindo uma residência de prestígio, um templo dinástico e um mausoléu, é o protótipo dum modelo palaciano tetrárquico que conheceu dois outros seguidores menos grandiosos: em Romuliana, para Galério , e em Šarkamen, sem dúvida para Maximino Daia.

Depois do desaparecimento do seu patrocinador, o palácio continuou a servir, até ao , de residência oficial para a administração provincial e para as grandes personalidades em exílio, mas também abrigou uma manufactura têxtil. Depois das invasões eslavas, desenvolveu-se uma pequena cidade dentro das suas muralhas, a qual sucedeu a Solin como sede episcopal e administrativa das autoridades bizantinas. Esta acabou por passar para o controle veneziano e permaneceu como uma praça forte daquela república até à sua dissolução, em 1797. A partir do , os vestígios do palácio atraíram a atenção de arquitectos e eruditos europeus e tiveram uma influência confirmada sobre a corrente neoclássica.

Um retiro para Diocleciano

thumb|esquerda||Fólis com o retrato de Diocleciano; moeda cunhada em Augusta dos Tréveros em 300-301

Depois de duas décadas na cúpula do poder, uma longevidade à qual Roma não estava habituada desde o fim do ,É necessário recuar a Antonino Pio para encontrar um imperador cujo reinado foi superior a vinte anos. o imperador Diocleciano parece cansado e desgastado pelas responsabilidades: no dia 20 de novembro de 304, exactamente um ano após a celebração da sua Vicenália (novembro de 303), desmaiou à saída da cerimónia de inauguração do Circo de Nicomédia.Lactâncio, De la mort des persécuteurs, 7. Tendo regressado doente da sua campanha no Danúbio contra os Carpos, a sua condição piorou, encontrando-se muito fraco. Permaneceu confinado ao seu palácio durante o Inverno seguinte, ao ponto de os rumores sobre a sua morte não tardarem a correr na cidade. Quando finalmente reapareceu aos olhos do público, no dia 1 de março de 305, foi como um homem doente com feições emagrecidas, dificilmente reconhecível. Galério juntou-se-lhe então e, segundo Lactâncio, pressionou-o a retirar-se em seu proveito. A credibilidade desta fonte não é exemplar, é igualmente possível que tenha sido o próprio Diocleciano quem decidiu abdicar e colocar em execução um projecto que pode ter concebido a partir de 295 e do qual tinha falado com o segundo Augusto, Maximiano, aquando do seu último encontro, em 303: se a doença ditou provavelmente a calendarização precisa da sua implementação, a decisão em si mesmo corresponde a um plano definido de longa data.Wilkes , p. 8 ; T. Barnes, Constantine and Eusebius, Harvard UP, 1981, p. 25-27. No dia 1 de maio de 305, numa colina a alguns quilómetros de Nicomédia, no próprio local onde tinha sido proclamado imperador, Diocleciano dirigiu-se aos seus soldados para lhes comunicar a sua abdicação e a transferência do poder supremo para os novos augustos, Galério e Constâncio Cloro, assistidos por dois novos césares, Maximino Daia e Valério Severo. No mesmo dia, o seu colega Maximiano abdicou em Mediolano e remeteu os seus poderes a Constâncio Cloro.

thumb|Planta reconstituída do Palácio de Diocleciano, por E. Hébrard

Esta abdicação foi um facto político surpreendente que marcou os seus contemporâneos: Diocleciano tornou-se num simples cidadão (embora guardando a dignidade de Augusto) e retirou-se para a sua região natal, onde tinha mandado construir uma residência para o seu retiro em Split.Wilkes , p. 9.

Com pouco mais de sessenta anos de idade, ainda viveu ali uma dezena de anos, tempo suficiente para ver desmoronar o sistema político que tinha imaginado para garantir a saúde do império. Todavia, resistiu às solicitações daqueles que o pressionaram a sair do seu retiro para pôr fim à guerra civil que opôs os seus sucessores. Somente em 308 se tornou cônsul novamente e aceitou, a pedido de Galério, de se apresentar no encontro de Carnunto, no dia 11 de novembro: lá, forçou Maximiano a pôr fim à sua tentativa de voltar ao poder, enquanto Licínio foi nomeado Augusto em substituição de Severo, assassinado por Magêncio.Lactâncio, De Mort. Pers. 29, 1-2 ; Zósimo, II, 10, 4. No entanto, foi a sua última intervenção nos negócios políticos do império: quando lhe pediram para retomar a púrpura para pôr fim à usurpação de Magêncio, respondeu literalmente que preferia cultivar os seus repolhos no seu retiro dálmata.Aurelius Victor, Liber de Caesaribus 39.6. Diocleciano não voltou a deixar Split nos anos seguintes, nem para tentar salvar a sua esposa Prisca e a sua filha Galéria Valéria, a quem a morte do marido, Galério, em 311, deixou à mercê de Maximino e Licínio:Wilkes , p. 10. contentou-se em enviar mensagens e emissários junto dos dois imperadores a seu favor. Este retiro foi tão completo que não se conhecem nem as causas nem a data exacta da sua morte — talvez no dia 3 de dezembro de 311.

thumb|esquerda|Detalhe do Peristilo

Se por um lado se sabe, portanto, que Diocleciano residiu em Split quase continuamente de 305 a 311, a data da construção do palácio não é conhecida com certeza. O facto de já existir em 305 (mas nada diz que estava completamente acabado) é por vezes considerado como uma prova de que a abdicação de Diocleciano foi planeada desde o arranque do projecto político tetrárquico, em cujo caso a construção teria começado por volta do ano 295. Também pode ser mais tardio. Uma data possível para o início do estaleiro do palácio é o ano 298, quando o império conheceu uma breve pausa militar depois de vários sucessos retumbantes, nomeadamente de Galério contra o Império Sassânida e do próprio Diocleciano no Egito: do Outono de 297 ao Verão de 298, Diocleciano matou, de facto, as rebeliões dos usurpadores Domício Domiciano, primeiro, e Aurélio Aquileu, na Tebaida, no Faium. Nesta ocasião, fundou novas cidades, Dioclecianópolis e Maximianópolis. A estadia egípcia de Diocleciano durou, assim, perto dum ano e meio, período durante o qual se ocupou, manifestamente, a planificar construções em Roma, como as Termas de Diocleciano. Uma carta do promagistrado da Tebaida, Aurélio Isidoro, datada de 28 de janeiro de 300, refere-se ao transporte de Assuão para Alexandria de colunas que são destinadas a um monumento de Diocleciano.P. Beatty, Panopolis 2.50. O palácio de Split é justamente notável pela abundância dos seus materiais de origem egípcia: as doze estátuas de esfinges, as centenas de colunas de granito vermelho, rosa ou cinzento, de pórfiro, de certos mármores provenientes do Egipto. Esta particularidade pode estar relacionada com a passagem do imperador pelo Egipto, não sendo, neste caso, a construção do palácio anterior a 298. Em todo o caso, o que restam são hipóteses: nenhum dado arqueológico ou literário permite precisar a data da sua edificação ou determinar se a construção estava acabada em 305.Duval , p. 147.

A planta e os vestígios do palácio thumb|Detalhe do Vestíbulo

A residência de Diocleciano combina os aspectos de vários tipos de construções: é ao mesmo tempo uma fortaleza pelas suas muralhas, uma cidade com as suas ruas e os seus santuários, e uma grande villa pelo luxo dos seus apartamentos privados. É, assim, representativa das três formas arquitectónicas principais que caracterizam a época do seu fundador.

O local sobre o qual foi construído o palácio conhece um duplo declive, com um desnível superior a 8 metros de norte a sul, em direcção à costa, e inferior a 2 metros na direcção este-oeste. A área edificada é superior a 3,8 hectares e forma um rectângulo ligeiramente irregular: as dimensões exteriores e interiores de cada lado são, assim, respectivamente de 215,5m e 191,25 m para os lados este e oeste, 175m e 151m para o norte e 181m e 157,5 para o sul. A título indicativo, o palácio ocupa cerca de 1/6 da superfície duma fortaleza legionária padrão concebida para 5400 soldados e duas vezes a superfície dum forte de 500 auxiliares. Em 1926, data em que a povoação medieval e moderna instalada na fortaleza ainda existia, a população intra muros era de 3200 habitantes para 278 casas.Wilkes , p. 23.

As muralhas thumb|esquerda|Planta geral de Split em 1912, com o Palácio de Diocleciano assinalado em destaque

As paredes da fortificação, duma espessura média de 2,10 m, são constituídas por dois revestimentos de alvenaria, de 0,40 a 0,60 m de espessura e dum bloqueio maciço — pedregulhos informes incorporados na argamassa. O revestimento exterior das muralhas é um aparelho rectangular psudo-simétrico de blocos de calcário cuidadosamente preparado e montado, sem argamassa, mas com pontas de ferro. A maçonaria é contínua sem fieira de ajuste em tijolos, repousando directamente sobre fundações assentes no substracto rochoso.Wilkes , p. 23-26.

thumb|Reconstituição da Porta Aurea, por E. Hébrard thumb|Planta da Porta Aurea

As muralhas tornam-se menos espessas na sua parte superior — 1,15 m — que começa duas fiadas abaixo dos vãos das janelas do caminho de ronda. Estas são em forma de arco formadas por duas fileiras de silhares a diminuir para o interior (face exterior com 17 e face interior com 11), com uma largura média de 2m por 3,10 a 3,90 m de altura ao centro. Uma simples cornija em S dá a volta ao perímetro a uma distância regular do solo, e portanto, dada a inclinação, a uma altura variável: é, assim, mais alta 1,10 m na esquina nordeste que na porta oeste, o local mais baixo onde ainda é visível. No lado oeste, a cornija está situada 22m acima do nível do mar, mas no lado leste encontra-se 0,82 m mais baixa: a mudança de nível faz-se à altura da torre octogonal da porta norte. Isto resulta numa diferença de tamanho das aberturas do caminho de ronda entre as duas metades oeste e leste da muralha norte — estas são, respectivamente, de 3,60 e 3,10 m. Entre cada torre, encontram-se 6 ou 7 aberturas.Wilkes , p. 24.

No lado sul, a parte superior da muralha (9m acima das fundações) é inteiramente ocupada por uma galeria com arcadas que evoca a fachada duma villa: é um elemento frequente nos palácios imperiais, que se encontra por exemplo na fachada marítima do Palácio de Boukoleon em Constantinopla, ou na fachada do palácio de Diocleciano em Antioquia. Esta galeria é constituída por 42 arcos delimitados por 44 colunas envolvidas, encimadas por meios capiteis, sendo interrompida por três loggias, ao centro e nos lados. Dois outros arcos intermédios distinguem-se por uma largura aumentada: correspondem às aberturas das duas grandes salas principais do nível superior dos aposentos privados, a sala basilical a oeste e o triclínio a leste. Nas reconstituições clássicas de Hébrard e Niemann, o mar vem banhar a base da muralha sul: na realidade, ignora-se se isto aconteceria ao longo de todo o comprimento da fachada sul.Wilkes , p. 25.